Vittorio Bianchi
Nos tempos atuais...
Eu não passava um único dia sem lembrar dela. Ainda assim, tentava me distrair a cada noite com uma mulher diferente, buscando, de todas as formas, arrancar aquela menina dos meus pensamentos. Já havia procurado por ela em todas as redes sociais, mas era como um fantasma, sem qualquer rastro digital.
Meus devaneios foram interrompidos pelo toque do celular. Ao olhar para o visor, vi o nome de Hugo brilhar na tela.
— Hugo, a que devo a honra dessa ligação? — disse, com ironia, pois fazia meses que não falava com ele.
— Estou te ligando para fazer um convite — respondeu ele. — A Heloisa conseguiu terminar o curso de sommelier e passou com mérito, sendo a primeira da turma. Estou muito orgulhoso da minha menina.
Ao ouvir o nome dela, senti todo o meu corpo reagir de maneira estranha. Um aperto no peito, um frio cortante na espinha, um desejo incontrolável de saber mais.
— Desculpe, meu amigo, mas não poderei ir. A colheita das uvas está começando e estamos testando um novo espumante. Ele terá uma mistura de uvas verdes e rosê, deixando seu sabor especial e único.
— Meu amigo, tenho um imenso orgulho de ouvir você falar sobre vinhos. Já sei de onde a Helô herdou essa paixão.
Engoli em seco. Não gostava de comparações.
— Não me compare à Heloisa — respondi, tentando manter um tom leve. — Sei que ela pode ter herdado isso de você. Aliás, faz tempo que não a vejo em nenhuma das suas fotos nas redes sociais. O que aconteceu? Você a proíbe de tirar fotos? — perguntei, em um tom divertido, mas, por dentro, o que eu realmente queria saber era porque ela estava se escondendo.
— Não, Vittorio, não proíbo a Heloisa de fazer nada, nem incentivo suas decisões. Minha filha é muito reservada e, de um tempo para cá, se dedicou apenas aos estudos.
Antes que pudesse me controlar, a pergunta escapou dos meus lábios.
— Ela está namorando?
O silêncio do outro lado da linha fez meu coração acelerar. Quando finalmente veio a resposta, foi como um soco no estômago.
— Tem um rapaz que tem se aproximado bastante dela. Acredito que seja namorado dela, já que não se desgrudam.
Uma onda de raiva e frustração tomou conta de mim. Apertei o celular com força, sentindo um nó na garganta. Inventei uma desculpa qualquer e desliguei a chamada rapidamente. Meu peito ardia, e minha mente repetia, incansavelmente, as palavras de Hugo: "Tem um rapaz que não desgruda dela".
Descontrolado, caminhei decidido até o bar de casa e servi-me de uma dose generosa de uísque. A bebida queimava minha garganta, mas não era suficiente para apagar as imagens que minha mente insistia em criar: Heloisa nos braços de outro homem. Continuei bebendo, cada vez mais, até que a tontura começasse a tomar conta dos meus sentidos.
Tomado pelo turbilhão de emoções, saí da casa e segui em direção ao estábulo. Lá estava Ébano, meu cavalo puro-sangue, um animal de temperamento forte que não permitia que ninguém além de mim o montasse. Aproximei-me dele, sentindo sua respiração pesada, tentando encontrar em meu companheiro fiel à calma que me faltava naquele momento.
— Como faço para esquecê-la em Ébano?
Soltei ele de sua guia e coloquei a sela para cavalgar um pouco. Cavalgar sempre me acalma, precisava acalmar minhas emoções, precisava colocar minha cabeça em ordem.
Minha cabeça latejava quando abri os olhos. A luz branca e intensa do hospital me cegou momentaneamente, fazendo-me fechar as pálpebras novamente. O cheiro forte de desinfestante invadiu minhas narinas, misturado ao som ritmado dos aparelhos que monitoravam meus sinais vitais.
Tentei me mover, mas um incômodo no lado esquerdo do meu corpo me fez soltar um gemido baixo. Minha mente ainda estava nebulosa, mas logo os flashes voltaram com força. Ébano disparando, o vento gelado contra meu rosto, o descontrole, a queda... e depois, o vazio.
— Que droga... — murmurei, passando a mão pelo rosto.
Foi então que ouvi um pigarro discreto ao meu lado. Virei lentamente a cabeça e encontrei Hugo me encarando, os braços cruzados e uma expressão entre a preocupação e o divertimento.
— Sempre soube que você era impulsivo, mas isso foi um exagero até para você, Vittorio — disse ele, com um meio sorriso. — Está tentando se matar?
Bufei, desviando o olhar para o teto branco.
— Não estou com humor para sermões, Hugo.
Ele suspirou e arrastou uma cadeira para se sentar ao lado da minha cama.
— Não vim dar sermão. Só queria ver com meus próprios olhos que você ainda está inteiro.
Soltei uma risada sem humor.
— Meio inteiro, talvez.
— O médico disse que você deu sorte. Um braço quebrado, algumas costelas fraturadas e um belo corte na testa. Poderia ter sido pior.
Passei a mão pela testa e senti os curativos. Não me lembrava de ter me machucado ali, mas, honestamente, não era como se eu tivesse tempo para processar tudo antes de apagar.
— E Ébano? — perguntei, subitamente preocupado.
— Está bem. Correu até o estábulo sozinho. Foi assim que os funcionários souberam que algo estava errado e foram te procurar. E quando te encontraram neste estado ligaram para mim.
Assenti lentamente, relaxando um pouco ao saber que meu cavalo estava bem.
Hugo me observava atentamente, como se esperasse que eu dissesse algo mais. Quando me mantive em silêncio, ele suspirou novamente, inclinando-se para frente.
— Você tem ideia de como me assustou, Vittorio? Poderia ter morrido. E tudo isso porque...? O que tem acontecido com você desde que decidiu vir para Itália? — Ele me encarou, esperando que eu completasse a frase.
A resposta estava na ponta da língua, mas engoli as palavras. Como eu poderia dizer em voz alta que a causa de tudo aquilo era Heloisa? Que a simples ideia de vê-la nos braços de outro homem me desestabilizou a ponto de me fazer perder completamente o controle?
— Só precisava de um pouco de ar — menti. — Me conectar com a natureza.
Hugo arqueou uma sobrancelha, claramente não convencido. Mas, para minha sorte, ele não insistiu.
— Você precisa descansar — disse ele, levantando-se. — O médico quer que fique em observação por mais um dia, para garantir que não teve nenhuma concussão grave. Você passou dois dias desacordado.
— Ótimo — murmurei, fechando os olhos, tentando me desligar de tudo. Mas minha mente não colaborava. Porque, mesmo ali, ferido e exausto, minha mente continuava sendo assombrada pelo nome dela. Heloisa.
— Preciso te falar, que a Ava e eu, estamos voltando amanhã para Nova Iorque, mas a Helô, vai ficar até você está fora de perigo, já que ela entende vinhos, ninguém melhor para cuidar da vinícola neste momento. — Ele j**a a bomba e sai como se nada tivesse acontecido.
Vittorio BianchiFico olhando para o vazio, como ele pode falar algo assim e agir nesta naturalidade, não posso ficar no mesmo ambiente que a Heloisa, não sei como ela está, hoje já é uma mulher, só de lembrar daquele beijo em seu aniversário meu membro dá sinais.Como vou permanecer debaixo do mesmo teto que ela e não pirar de vez?Eu passo as mãos pelos cabelos, tentando afastar os pensamentos que insistem em me assombrar. Hugo saiu do quarto como se tivesse soltado uma bomba e simplesmente seguido em frente, sem se importar com o estrago que deixou para trás. Mas o pior ainda está por vir.Não preciso esperar muito. A porta se abre novamente, e então, ela entra.Heloisa. Mais linda do que eu lembrava, tento me ajeitar na cama para que minha ereção não fique visível.Meu peito aperta ao vê-la depois de tantos anos. A garota que peguei no colo cresceu, se transformou em uma mulher que não deveria estar neste quarto, não me olhando assim, com aqueles olhos grandes e curiosos que parec
Heloisa Moura Assumir a vinícola não era um problema para mim. Eu entendia de safras, fermentação e a delicadeza do envelhecimento de um bom vinho. O que realmente tornava essa experiência um desafio era outra coisa.Ou melhor, outra pessoa, Vittorio.Desde que vim para a Itália, ele se manteve à distância, como se minha presença o incomodasse mais do que as próprias dores do acidente. Mas eu sabia que, por trás daquela frieza, havia algo mais.— Ele já tomou os remédios? — perguntei a Matteo, que é um filho de um dos funcionários mais antigos do Vittorio, enquanto verificava a colheita das uvas.— Tomou, sim, mas com muito custo — ele riu. — Ele não gosta de admitir que precisa de ajuda.Revirei os olhos, já esperando aquela resposta.— Vou falar com ele. Obrigada, Matteo.Saí do campo e caminhei até a casa principal. Vittorio estava em repouso forçado, mas sabia que ele odiava essa situação.Bati na porta e entrei sem esperar resposta. Ele estava sentado na beira da cama, com a cam
Vittorio Bianchi Heloísa saiu do banheiro sem olhar para trás, e eu fiquei parado ali, com a toalha enrolada na cintura, sentindo o corpo inteiro tenso.Ela me desafiava de uma forma que nenhuma outra mulher já tinha feito. Não era com palavras afiadas ou provocações vazias, mas com a verdade crua do que sentia.Ela me queria, e droga, eu também a queria.Encostei as mãos na pia, fitando meu reflexo no espelho. O corte na testa, as olheiras fundas, a expressão exausta… Eu parecia um homem à beira do colapso.E talvez estivesse.Passei a toalha nos cabelos molhados e saí do banheiro. Vesti uma calça de moletom com dificuldade, meu corpo inteiro protestando contra qualquer movimento. Mas a dor física não era nada comparada à outra.Eu deveria me afastar.Mas, quando desci para tomar um pouco de água na cozinha, dei de cara com ela na sala de estar, analisando alguns papéis da vinícola. Seu cabelo estava preso em um coque bagunçado, uma taça de vinho de lado, caneta entre os dedos enqua
Heloisa Moura O ar da vinícola era sempre carregado com aquele aroma adocicado de uvas maduras e madeira envelhecida. Eu já tinha me acostumado com isso, assim como tinha me acostumado com Vittorio e sua mania insuportável de me afastar sempre que as coisas ficavam intensas.Mas hoje... hoje eu estava cansada desse jogo.Me sentei na varanda com alguns relatórios da safra e logo Matteo apareceu. Ele era do tipo que conversava fácil, cheio de histórias sobre o cultivo, o processo de vinificação entre outros. E eu gostava de ouvir.E, claro, eu sentia o olhar de Vittorio queimando em mim a cada risada que escapava dos meus lábios.— Então, vocês fazem a colheita sempre de madrugada? — perguntei, interessada.Matteo sorriu, se encostando no batente da varanda.— Sim. O frescor preserva melhor o sabor das uvas. — Ele fez uma pausa e me olhou com curiosidade. — Você tem jeito de quem gostaria de ver de perto.— Eu adoraria — respondi, sincera.Foi quando senti a presença de Vittorio ante
Vittorio Bianchi Faz um mês que cai do Ébano, e amanhã voltarei no hospital para verificar se está tudo bem e tirar esse gesso que está me deixando impossibilitado. Por um lado estou feliz, pois voltarei ao trabalho com todo vigor, por outro lado, não quero deixar que a Heloísa vá embora. Mesmo que durante todo esse tempo, não tenha acontecido nada entre nós além de provocações, não sei se estou preparado para vê-la partir. Sem que ela saiba tomei a decisão de ligar para o Hugo, preciso de uma desculpa para que ela não volte para Nova Iorque agora. Peguei o celular sobre a mesa de cabeceira e deslizei o dedo pela tela até encontrar o contato de Hugo. Respirei fundo antes de apertar o botão para ligar. Era raro eu recorrer a ele para algo, mas desta vez, não tinha outra escolha. — Vittorio! Como você está? Já está querendo mandar a Heloísa para casa? — Hugo atendeu de imediato, seu tom carregado de bom humor. — Já me recuperando. Amanhã tiro o gesso e volto ao trabalho — r
Heloisa Moura Eu estava organizando algumas anotações sobre os vinhos quando meu celular tocou. Ao ver o nome do meu pai na tela, atendi imediatamente. — Pai? — Bom dia, filha! Como está tudo por aí? — Tudo bem. Vittorio vai tirar o gesso amanhã — disse casualmente, cruzando os braços. — Ótimo! Mas, na verdade, liguei para falar sobre outra coisa. Quero que você fique mais um tempo na vinícola. Franzi o cenho. — Como assim? — O lançamento do novo espumante está se aproximando, e Vittorio mencionou que sua ajuda seria essencial nesse processo. Você criou um bom vínculo com a equipe e está trazendo ideias valiosas. Acho que seria uma excelente experiência para você. Apertei os lábios, sentindo uma irritação sutil crescer dentro de mim. E, ao mesmo tempo, um sorriso brotou de meus lábios. — E foi o Vittorio que sugeriu isso? — Sim, mas eu concordo com ele. Essa pode ser uma oportunidade única para o seu crescimento profissional. Respirei fundo. Meu pai estava realmente con
Vittorio BianchiAo sairmos do hospital decido perguntar para Heloisa se ela já se decidiu se vai ou não ficar aqui. Ela me olha com tom de desafio e fala que está considerando e o mais tentador é quando ela me desafia a convencê-la a ficar. Dou um sorriso de lado e a prendo entre meu corpo e o carro, sinto sua respiração ficar irregular e o brilho desafiador em seus olhos me instiga, mas é a forma como sua respiração vacila que me dá a certeza de que estou no caminho certo. Meu rosto se aproxima do dela, e posso sentir o calor de sua pele, desço meus lábios até seu pescoço e depósito um beijo ali, seguindo meus lábios até sua orelha.— Quer que eu a convença, Heloisa? — murmuro, minha voz saindo baixa, rouca. Um pouco mais alto que um sussurro.Seus lábios se entreabrem, e o brilho nos olhos vacila por um segundo, como se ela própria estivesse surpresa com sua reação. Gosto dessa oscilação, desse conflito que vejo se desenrolar em sua expressão. É um jogo, e ela sabe disso. Mas, dif
Heloísa moura Eu deveria parar.Cada parte do meu corpo grita que isso é perigoso, que me envolver com Vittorio é me jogar no fogo sem a menor chance de sair ilesa. Mas quando ele me beija desse jeito, quando suas mãos traçam caminhos lentos e torturantes pelo meu corpo, é impossível pensar com clareza.A verdade? Eu não quero parar.Não quando ele me olha assim, como se eu fosse a única coisa que importa no mundo. Não quando seu toque me faz esquecer de tudo que prometi a mim mesma.Meu corpo se encaixa contra o dele como se pertencesse exatamente ali. Minhas mãos deslizam por sua nuca, sentindo os fios macios entre meus dedos, e quando ele morde de leve meu lábio inferior, um arrepio delicioso percorre minha espinha.Isso é insano. Perigoso. É viciante.Minha respiração está ofegante, e ele sabe disso. Seus dedos pressionam minha cintura com mais firmeza, me puxando ainda mais para si. Eu deveria dizer algo, impor um limite antes que isso vá longe demais. Mas então ele sussurra:—