Capítulo 5

Tara

Ao adentrar no pequeno apartamento, libero um suspiro pesado e descontente, jogando minha bolsa descuidadamente sobre o sofá antes de andar em direção à cozinha, após remover os saltos são prontamente perto da porta, libertando meus pés de sua prisão desconfortável.

A mente minha fervilha de pensamentos negativos, e as palavras ásperas ecoavam em minha cabeça.

Aquele idiota, xingo mentalmente, enquanto me movo com passos largos em direção ao armário onde guardo uma garrafa de conhaque.

Não é a primeira vez que me socorro na bebida, que descobri ter um gosto peculiar  há alguns meses. Uma herança não tão bem-vinda da minha mãe, cujo hábito de beber excessivamente sempre me causou angústia.

No entanto, o conhaque se tornou um refúgio, uma maneira de escapar temporariamente da pressão e da dor que parecem sufocar cada aspecto da minha vida.

Enquanto sirvo um pouco da bebida âmbar em um copo, sinto um certo alívio se infiltrar em minha alma inquieta. É como se cada gole fosse uma pequena luz em meio à escuridão, clareando minha mente turva quando meus pensamentos se recusam a cooperar.

Então, com o calor do conhaque acariciando minha garganta, permito-me um momento de pausa, deixando que as preocupações do dia se dissolvam, pelo menos temporariamente, enquanto me entrego ao conforto momentâneo que a bebida proporciona.

Contudo, quando meu celular começa a tocar na minha bolsa, dou uma pausa neste momento para pegar o aparelho.

— Oi, mãe — digo ao atender, após ver sua foto no visor.

— Finalmente, estava preocupada com você. Não respondia as mensagens de texto, nem as ligações.

Dou mais um gole na bebida.

— O celular estava no silencioso — confesso — Estava no meu primeiro dia de trabalho e último.

— Último? — pergunta confusa.

— Não se quero continuar trabalhando lá.

— Mas estava tão animada.

— Tenho certeza que meu chefe é um tarado — digo com toda certeza.

O olhar penetrante de Mason Teller, o intruso em meu caminho, me atravessa como uma lâmina afiada. Não sou ingênua o suficiente para cair em sua armadilha, e sua expressão diz tudo —  ele está ciente de que arruinou meus planos.

Não havia mais razão para permanecer naquela empresa. Meu plano, meticulosamente elaborado, desmoronou diante dos meus olhos, e agora me vejo diante de uma encruzilhada.

Não vejo motivos para prolongar minha estadia em um lugar onde não seria bem-vinda, não havia sentido em lutar contra uma batalha perdida, e é melhor seguir em frente antes que mais danos fossem causados.

— Pensei que quisesse morar em Nova York.

— E eu quero — digo sem pensar, lembrando que nem toda  a verdade havia sido dita para minha mãe, quando decidi de “uma hora para outra” sair do Texas — Só... preciso de um tempo — Afago a lateral da minha cabeça, desfazendo o coque do meu cabelo, permitindo que o mesmo caísse sobre meus ombros.

— Sabe que por mim, estaria aqui comigo, não sabe? — Abro meu notebook em minha frente, hesitante por um momento na página de pesquisa, antes dos meus dedos deslizarem sob o teclado e digitar: Mason Teller.

— Precisava sair do ninho, mãe — As palavras saem da minha garganta no automático, quando uma fotografia de Mason surge, seguida por um breve texto do Wikipédia.

O som da campainha ressoando pelo apartamento, faz com que encare a porta, enquanto minha mãe continuava a falar algo referente a uma das vizinhas.

Ainda com sua voz ao fundo, caminho em direção da porta e olho pelo olho-mágico, encontrando o corredor vazio. Inspirando o ar, destranco a porta e a abro, encontrando um buquê de rosas Juliet, desenvolvidas em laboratório, na cor pêssego.

 Pego o buquê do chão com o cartão, estreitando os olhos ao encontrar um breve recado: “Espero que pense melhor e descarte o pedido de demissão, não é o que quero e não deveria ser o que quer. M. Teller”.

Amasso o bilhete, batendo a porta ao voltar para dentro do apartamento, encontrando minha mãe ainda falando sozinha. Novamente em frente ao notebook, meus olhos percorrem sobre as palavras expostas e sinto como se minha mente clareasse ao ler cada vez mais.

À medida que as peças do quebra-cabeça se encaixam, a presença de Mason Teller na empresa assume uma nova camada de complexidade.

Ele não é apenas uma pedra no meu caminho, é o enteado do próprio Otto, o que explica em parte sua impunidade e seu comportamento indulgente.

É conhecido por sua vida imprudente, envolvendo-se em situações duvidosas e frequentemente visto na companhia de mulheres. Sua lista de relacionamentos é tão volátil quanto sua própria personalidade, incapaz de manter qualquer compromisso sério. No entanto, é o incidente quase fatal que permanece como um ponto de referência sombrio em sua história.

Seus escândalos constantes, envolvimentos com mulheres e situações duvidosas agora fazem mais sentido. Ele é um caso perdido, um espírito indomável que parece viver à margem das regras que governam o restante de nós. Sua falta de relacionamentos sérios e a quase prisão por homicídio culposo, devido ao acidente de carro sob influência do álcool, são apenas evidências adicionais de sua vida tumultuada e desregrada.

— Espero que esteja se alimentando direito e não comendo qualquer coisa que aparece em sua frente — A voz da minha mãe chega de repente aos meus ouvidos.

— Estou comendo legumes e verduras, não se preocupe — digo impedindo que prolongasse ainda mais aquela conversa — Vou tomar um banho, estou cansada, nos falamos amanhã.

— Vou esperar sua ligação.

Quando ela desliga, leio novamente, dessa vez em voz alta, tudo que acabara de ler. Aquilo ali me trazia novamente ao jogo, o que era um alívio,  de uma forma ou de outra, conseguiria o que queria, iria conseguir minha vingança contra Otto e seria Mason que me ajudaria.

Só teria que fazer alguns ajustes e continuar com o plano.

O sorriso do meu rosto some, quando desvio o olhar da tela do notebook para as rosas ao lado que, por sinal exalavam um forte perfume.

Reviro os olhos, tomando o restante do conhaque, focada no que precisava ser feito.

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