Sem pensar, me viro, e antes que ela tenha tempo de reagir, puxo seu corpo para o meu. Minhas mãos a envolvem com uma força quase desesperada, fechando meus braços ao redor dela, apertando-a contra mim como se fosse a única coisa que ainda me conectasse à realidade. Eu a sinto pequena em meus braços, tão frágil, tão vulnerável. E ela não resiste. Não se afasta. Em vez disso, ela se deixa ir, apoiando a cabeça no meu peito, permitindo que o peso da dor que a consumia encontre algum tipo de alívio no momento.O choro dela se intensifica, e eu posso sentir cada tremor que passa por seu corpo, cada suspiro entrecortado, cada soluço que escapa de seus lábios. Ela está quebrada, e não posso fazer nada para apagar o que aconteceu. Mas, nesse momento, posso apenas estar ali para ela.“Ethan…” Blair murmura, a voz dela quase inaudível, um sussurro de dor que só posso ouvir porque ela está tão perto de mim.Eu fecho os olhos, sentindo meu próprio peito apertar com a emoção que transborda de m
“E naquela noite,” continuo, minha voz mais baixa, marcada pela raiva que começa a se formar em meu peito, “ele decidiu sozinho tirar você da minha vida. Ele achou que isso era a coisa certa. E depois, ele me assistiu definhar. Ele sabia que eu estava no fundo do poço porque tinha perdido você. E, mesmo assim, ele escolheu, dia após dia, se calar, fingir que foi um acidente, e não um crime que ele cometeu.” Sinto a raiva crescer mais dentro de mim, como um fogo que queima lentamente, mas constantemente.Blair estende a mão e, de maneira quase instintiva, acaricia meu joelho. O toque dela, suave e reconfortante, é a única coisa que ainda me mantém ancorado à realidade. Mas, ao mesmo tempo, é como se ela me puxasse de volta para um lugar que eu não consigo escapar. Eu coloco minha mão sobre a dela, sentindo sua pele quente e pequena contra a minha, buscando alguma calma que, por mais que tente, não consigo encontrar.“Eu não sei o que vou fazer quando ver ele,” admito, a raiva tomando
Estaciono o carro na garagem, o motor já em silêncio, mas a escuridão ali dentro parece mais densa, mais opressiva, à medida que fico alguns segundos apenas encarando aquele vazio. Não sinto raiva de Alex, nem frustração. Sinto, apenas, o peso do vazio. Se eu soubesse, se eu tivesse ao menos desconfiado que Blair estava viva todo esse tempo, eu não teria me perdido nesse abismo de álcool e drogas. Eu teria lutado contra a tormenta que me consumiu, tomado decisões diferentes. Mas, como sempre, o destino parece brincar com a gente, e eu nunca vi as cartas que estavam sobre a mesa.A atmosfera dentro do carro parece impregnada com o cheiro dela, como se de alguma forma ela ainda estivesse aqui, tão próxima, tão tangível. Fecho os olhos e me deixo invadir pela memória de ter Blair nos meus braços. Abraçar. Confortar. Naqueles momentos, ela não era apenas uma mulher em minha vida, mas a única coisa que eu ainda acreditava valer a pena. Naqueles anos passados, quando eu era um homem queb
“Sim, senhor, e eu…” Alex começa a dizer, mas minha paciência já não existe. Interrompo-o antes que ele termine, antes que ele possa começar com alguma desculpa, alguma ladainha que só vai alimentar minha fúria.Dou um passo à frente, minha visão turva, não pela escuridão ao redor, mas pela raiva que começa a ferver dentro de mim, crescendo como uma onda imparável. Cinco anos. Cinco anos de dor, de vazio, de noites afogadas em álcool, de momentos tão baixos que eu sequer me reconhecia. Cinco anos em que estive sozinho. Poora, Alex estava lá, sempre lá, mas nunca fez nada para ajudar. E Blair… Ela esteve em algum lugar, escondida, fugindo, temendo algo. Temendo a mim. Isso me corrói mais do que qualquer coisa.Minha mente é tomada por pensamentos fodidos e sombrios, e quando percebo, meus dedos já agarraram Alex pelo colarinho do terno. Seus olhos se arregalam, talvez surpresos, talvez assustados. Pela primeira vez, ele não parece imperturbável, e isso só alimenta minha fúria. Segu
Alex ainda não diz nada. Seus lábios estão rachados, sua pele cortada, o sangue manchando sua expressão neutra, mas ele permanece em silêncio, como se esperasse por isso, como se soubesse que um dia isso aconteceria.Eu deveria parar. Uma parte de mim sabe disso, uma parte distante e enterrada, que sussurra que já foi longe demais. Mas a fúria é mais forte. Ela é um rio em cheia, e eu estou sendo levado pela corrente, incapaz de nadar contra ela.Minha respiração é um rugido em meus ouvidos, pesada, descontrolada, enquanto olho para Alex, o sangue dele cobrindo meus punhos, a camisa, escorrendo até o chão. Ele está desfigurado agora, os lábios partidos, o nariz provavelmente quebrado, um olho já começando a inchar e escurecer. Contudo, ele ainda me encara, mesmo assim, como se me desafiasse. Como se quisesse dizer algo, mas soubesse que eu não deixaria.E, por um momento, eu hesito. Não porque me sinto culpado — não há espaço para culpa no meio dessa fúria cega — mas porque vejo algo
"Carter," eu murmuro, o nome saindo como uma ameaça. Meu olhar ainda está fixo em Alex, mas meu corpo se tensiona com a interrupção. "Não tente evitar isso." Meu tom é sombrio, um aviso frio. Ele sabe o que eu sou capaz de fazer. Sabe que, se tentar me impedir, pode ser a merda do próximo."Ele já é um cachorro morto," Carter responde, a voz cheia de desdém. Há algo em suas palavras, no tom casual com que as diz, que me faz hesitar por um segundo. Apenas um segundo."Carter," eu aviso novamente, virando meu rosto para encará-lo de relance. Meu braço tenta se soltar do aperto dele, mas ele não me deixa ir. Tento avançar mais uma vez, minha raiva queimando mais quente a cada segundo. Mas Carter aperta mais forte, seus dedos cravando em meu braço como uma âncora."Ele já era um cachorro antes disso," Carter continua, sem se intimidar. Sua voz é fria, calculada, mas há uma intensidade nos olhos dele que me faz parar. "Há cinco anos, ele já era um cachorro. Ele obedecia ordens. Você acha
"Isso não acabou," murmuro, mais para mim mesmo do que para Carter. Minha voz é um eco baixo, quase engolido pelo silêncio.E eu sei que é verdade. Alex saiu. Mas isso… isso está apenas começando.“Sou obrigado a concordar,” Carter murmura enquanto se abaixa para começar a recolher os cacos de vidro espalhados pelo chão. O som dos pedaços raspando contra o piso ecoa pela cozinha, cortando o silêncio denso que ficou no ar. Por um momento, apenas observo-o, as mãos firmes, cuidadosas, tentando organizar o caos que deixei para trás.Olho ao redor e percebo o quão grotesca é a cena. O sangue, os cacos, a água misturada com os reflexos da luz fria. É feio demais para permitir que a empregada veja isso amanhã de manhã. Feio demais para qualquer pessoa.“Como descobriu?” pergunto, minha voz ainda rouca, os nós dos meus dedos pulsando de dor.“Eu não descobri,” Carter responde, sem erguer os olhos. “Eu tinha um palpite e joguei verde. Alex entregou tudo.”Essa resposta me desconcerta por um s
Encosto a testa contra o vidro frio da janela do jatinho, observando as nuvens que passam lá fora, flutuando como um mar tranquilo. Por um instante, quase consigo me esquecer do que me espera. Quase. Mas a tranquilidade é efêmera. Sei que, quando as rodas tocarem o chão, enfrentarei o inferno.“Algo não faz sentido,” Carter diz, quebrando o silêncio. Sua voz é firme, mas há um tom de inquietação que ele raramente demonstra. “Seu pai tinha motivos para querer afastar Blair da sua vida, mas ele não tinha meios. Digo… como? A quem ele recorreu? Como ele convenceu Alex?”Fecho os olhos por um instante, apertando a ponta do nariz com os dedos, tentando afastar a porra da dor de cabeça que ameaça vir. “Saberei em breve,” murmuro, minha voz mais cansada do que pretendo.Carter se inclina levemente em sua poltrona, como se estivesse mastigando as possibilidades em sua mente. “Alex pode ser um traidor,” ele continua, “mas ele não era barato. Se ele decidiu trair você, foi por um alto preço.”