DAVINAGutemberg me observou por um longo momento, e então, sem dizer uma palavra, afrouxou a pressão nos meus quadris, mas ainda permaneceu deitado sobre mim. O olhar dele estava cheio de arrependimento, mas também de uma raiva silenciosa.— Eu não fiz isso para te machucar, Davina. — Ele murmurou com um tom que não consegui identificar completamente, quase um suspiro. — Eu estava com raiva... mas não era de você.Ele então, lentamente, levantou uma mão e tocou o meu rosto com um cuidado quase doloroso, como se estivesse pedindo desculpas, mas não soubesse como. Eu queria me afastar, mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim ainda queria saber o que ele estava tentando dizer.O ambiente entre nós estava carregado, tenso, mas de uma forma que fazia o ar pulsar ao nosso redor, me fazendo sentir o calor de sua proximidade. Eu ainda estava imobi
DAVINAO escritório de Vincent tinha o cheiro de couro e madeira polida, e o único som ali dentro era o suave deslizar das páginas sendo viradas. Eu deveria estar prestando atenção em qualquer outra coisa, na decoração austera, no peso do silêncio ou até mesmo no fato de que eu não deveria estar aqui, sentada com dois homens que me desarmam de formas completamente diferentes. Mas não. Meu olhar continua vagando, perdido, entre Vincent e Gutemberg.Vincent lia com uma postura impecável, os cotovelos apoiados na mesa, o queixo erguido de leve. Mas o detalhe que me matava? Os óculos de leitura. O Vincent sério e concentrado tinha algo absurdamente intelectual e infernalmente sexy. Ele passa o dedo pelo canto da página antes de virar toda vez, como se saboreasse cada palavra. Como se fosse capaz de dissecar um poema com a mesma precisão que me analisava no começo.Do outro lado, Gutemberg.Ele parece confortável e dono de si, segurando o livro com uma mão e brincando com a borda das págin
DAVINAOs minutos parecem uma eternidade enquanto eu fico ali, com o telefone em mãos, olhando para a tela como se ela pudesse magicamente acender e trazer notícias. As horas se arrastam, e cada segundo de silêncio me aperta o peito. Vincent e Gutemberg haviam partido há três horas, com o plano de resgatar as garotas, e, mesmo sabendo que o que estavam fazendo era arriscado, algo dentro de mim não consegue evitar a ansi
GUTEMBERGEu ainda não sabia onde estávamos. A única coisa que me garantia era a calma de Vincent, que parecia saber exatamente o que estava fazendo. Mas, honestamente, não me importava muito. Meu corpo estava exausto da missão, os olhos pesados pela falta de sono, mas o que mais me consumia naquele momento era a presença dela, dormindo ali, perto de mim.Davina. Ela estava em um canto do jatinho, encostada no banco, a respiração suave e calma. Eu observava ela enquanto o som do motor fazia o silêncio dentro de mim se espalhar. Não sabia como, mas, cada vez que olhava para ela, algo em mim se apertava e se expandia, como se estivesse em um inferno doce e distante. A tensão entre nós, não era mais uma possibilidade, era uma constante. Eu a quero para mim, mesmo que ela tenha outros homens na mente.Ficamos em silêncio por boa parte da viagem, até que, finalmente, o jatinho começou a diminuir a velocidade. Eu sabia que estávamos quase lá. O que me fez perceber isso não foi o som do moto
GUTEMBERGAgora que estávamos no quarto, sozinhos, a realidade se instalava. O ambiente era luxuoso, como tudo naquela casa. A cama era grande, com lençóis escuros e pesados, e havia uma lareira no canto.– Tem um banheiro aqui? – perguntei, querendo qualquer desculpa para não pensar demais na companhia dela.– Sim, ali. – Ela apontou para uma porta à direita, já se sentando na cama e tirando os sapatos.Eu fui até lá, abrindo a porta e sendo recebido pela visão de uma banheira enorme, quase um pequeno lago de mármore negro incrustado no chão. O banheiro inteiro parecia um spa, com prateleiras de vidro contendo frascos de sais de banho e óleos perfumados.– Isso aqui é praticamente uma piscina – murmurei, inspecionando os detalhes.Davina apareceu atrás de mim, o rosto iluminado pela curiosidade infantil. Ela deu um pulinho, os olhos brilhando ao ver a banheira.– Você acha que funciona mesmo?Ela se abaixou para pegar um frasco de sais de banho, analisando a validade como se estivess
DAVINAA noite estava tão escura que parecia conspirar contra nós. A Albânia já não nos queria por perto, e sinceramente, o sentimento era mútuo. O esconderijo era lindo,a mãe de Vincent tinha bom gosto, mas eu estava com saudade da minha mãe e precisava de um sanduíche gorduroso com batatas fritas direto da minha cidade natal.Eu tamborilava os dedos no braço do sofá, observando Vincent do outro lado do cômodo. Ele fingia ler um livro, mas não enganava ninguém. Coçava a testa como se quisesse arrancar a própria pele e encarava a mesma página há uns bons minutos.— Se você continuar esfregando essa testa assim, vai acabar fazendo um buraco no cérebro.Vincent me olhou por cima do livro, os olhos cinzentos carregados de uma exasperação tão profunda que eu quase senti um calafrio.— E se você continuasse calada por cinco minutos? Só para testar algo novo.Eu rolei os olhos.— E perder a chance de te irritar? Nem morta.Do outro lado da sala, Gutemberg gargalhou.— Eu amo o som da sua voz
MEIA-NOITE (HUXLEY)O ar está pesado dentro do velho galpão. O cheiro de óleo e ferrugem se mistura com o de cigarro barato, e a única iluminação são as lâmpadas fluorescentes piscando no teto. Meus homens estão reunidos ao redor da mesa, discutindo as táticas para o ataque aos Ceifadores de Derbim. Enquanto falam, minha mente vaga para outro lugar.Eu nunca deveria estar aqui. Eu sei disso. Minha infância foi cercada por luxos, boas escolas, possibilidades. Um futuro brilhante, diziam. Eu acreditava nisso até o dia em que meu irmão apareceu na minha porta.Um irmão que eu nunca sobia que existia até aquele momento.Ele chegou sem aviso, sem preparação, carregando a verdade que mudaria minha vida para sempre. Ele foi assassinado dias depois, nos meus braços, sem que eu tivesse tempo de entender o que significava sua existência. Sua morte me empurrou para um caminho sem volta. Eu herdei seu lugar. A Colina tornou-se minha responsabilidade, e a vingança, meu alimento.Agora, ao observar
HUXLEY (MEIA-NOITE)Eu sempre fui um admirador do fogo, como as chamas dançam, as cores.O fogo consome a boate como uma fera faminta, rugindo alto contra o céu escuro. Apoiado na minha moto, observo o espetáculo, sentindo o calor no rosto e o cheiro de gasolina se misturando com madeira queimada. KJ está lá dentro, reduzido a cinzas. Inalo fundo, deixando a satisfação se espalhar em meu peito. Os Ceifadores de Derbim estão sem líder, mas ainda há uma pergunta sem resposta: quem bancava KJ? Esse figurão nas sombras precisa ser encontrado. E quando for, não terá uma morte tão rápida quanto KJ.Escuto passos atrás de mim, ma não preciso olhar para saber quem é. Timmy e Aaron param ao meu lado, os rostos iluminados pelas chamas, observando comigo.— M2 já levou o líder dos Derbim para interrogar — comenta Aaron, estalando o pescoço. — Não deve demorar pra ele abrir o bico.— Melhor que não demore — murmuro, girando o anel no dedo. — Quero saber quem estava financiando o KJ.— Isso pode