DAVINANós temos um plano.Eu repito isso mentalmente enquanto ajusto a calça jeans apertada, sentindo o tecido moldar minhas pernas com uma precisão quase incômoda. O peso da faca contra a minha pele dentro da bota me traz uma estranha sensação de segurança. Timmy me ensinou a usá-la, golpes curtos, certeiros, direto onde dói mais. Eu lembro de suas mãos segurando as minhas, do calor do seu corpo quando ele sussurrava que, no fim das contas, o elemento surpresa era a melhor arma de todas.Deslizo a pistola para dentro da cintura da calça. Meia-noite me ensinou a manejá-la, ensinou a não tremer na hora de puxar o gatilho. "Se hesitar, morre", ele sempre diz.O clique discreto da porta se abrindo me faz erguer os olhos para o espelho. Gutemberg entra no quarto sem pedir permissão, como se pertencesse a ele. E talvez pertença, não o quarto, mas o momento. Seu olhar percorre meu corpo de cima a baixo, e tem algo estranho ali. Não é desejo, não é desaprovação. É algo no meio, algo carrega
DAVINAEu sinto os olhos em nós enquanto descemos as escadas, os passos de Gutemberg firmes ao meu lado, os nossos dedos entrelaçados com naturalidade. O calor da sua mão na minha me dá uma sensação de segurança, embora eu saiba que, por mais que o toque dele seja suave, o que está por vir não será fácil. Cada degrau que descemos ecoa dentro de mim, cada movimento meu parece mais pesado que o anterior. Mas o que me surpreende é a calma dele. Como se ele soubesse exatamente o que fazer. Como se, de alguma forma, ele já tivesse aceitado o risco e soubesse que a batalha que se aproxima não é mais sobre escolha. É sobre obrigação.Chegamos ao fim das escadas e, ao olhar para a sala, vejo todos esperando. Timmy, com a expressão cerrada e os punhos provavelmente apertados. Aaron, sempre com olhar de cálculo, examinando tudo com a frieza de quem já está pensando no próximo movimento. E Meia-noite, que observa todos com a autoridade de quem já viu e fez de tudo. Nada está fora de lugar, e, po
DAVINAEu respiro fundo, me preparando para o que vem a seguir, mas no último momento, uma voz inesperada invade o fone. Uma voz que me faz prender a respiração, a garganta apertando instantaneamente. É Vincent.— Davina... — Ele diz, e a suavidade de sua voz me choca. — Meu tio fugiu. Está sendo protegido por Jimmy.O ar parece congelar por um segundo. Eu não sei se entendi direito, mas o que ele acabou de dizer? O que significa isso?A tensão no carro se intensifica. Aaron solta um resmungo irritado, as palavras saindo de sua boca em um tom baixo, mas cheio de desprezo.— Italianos fodidos... — Ele murmura, os olhos fixos na tela à sua frente.Mas o tom da voz de Vincent muda. Algo em sua fala, em seu jeito de se comunicar, muda completamente. Ele fala diretamente comigo, e sua voz carrega uma advertência, uma preocupação que me faz calafrios subirem pela minha espinha.— Cuide-se, Davina. Baby, eu... — Ele diz, e a seriedade é palpável. — É bom que vocês, idiotas, protejam, minha g
DAVINA— Davina. — Aaron falou, o tom evidentemente preocupado.Antes que eu pudesse reagir, três homens avançaram. Dois deles agarraram Aaron, o empurrando contra a mesa enquanto ele lutava para se soltar. Um soco acertou sua costela, e ele gemeu de dor. Outro golpe, agora no rosto, e o sangue manchou seu queixo.— Parem! — gritei, tentando avançar, mas mãos fortes me seguraram. Eu chutei e me debati, mas foi inútil.O tio de Vincent me segurou com facilidade, seus dedos apertando meus braços como ferro.— Eu gosto do seu espírito. Mas agora… — Ele ergueu a mão.Um golpe forte atingiu minha nuca. O mundo girou.O último som que ouvi antes de perder a consciência foi a risada cruel daquele homem.Acordei com o cheiro metálico de sangue e um latejar cortante na cabeça. A dor na minha cabeça era insuportável, como se meu cérebro estivesse tentando se expandir dentro do crânio. O ambiente era sufocante, composto por móveis escuros e paredes cinzas, com uma parede cheia de monitores exibi
DAVINAGutemberg tomou a frente, a voz carregada de autoridade e tensão.— Davina está certa. Se prenderem Jimmy, ele não vai perdoar o dia de hoje. Ele retaliará, e a cadeia não será impedimento. — declarou, os olhos faiscando de convicção.Sem hesitar, ele colocou uma pistola na minha mão, pressionando-me para seguir com o grupo.— Vá com eles, eu vou procurar por Jimmy — ordenou.Mas eu me recusei. Aaron gemeu, o som fraco e de dor fazendo meu coração apertar. Timmy se adiantou, encarando meu rosto.— Aaron precisa de um hospital.Fiquei dividida, meus olhos oscilando entre Gutemberg e Aaron, com a vida se esvaindo em cada respiração lenta. Então, num gesto de urgência, Gutemberg se aproximou e beijou meus lábios com paixão abrupta. —Aaron precisa de você agora. —ele sussurrou com intensidade.—Eu vou com Gutemberg. Tenho minhas próprias contas para acertar com Jimmy!— Pryia, com os punhos cerrados e o olhar perdido, declarou com voz carregada de raiva.Todos nós olhamos para el
DAVINAO auditório está lotado, mas me sinto estranhamente só enquanto caminho pelo palco. O diploma em minhas mãos é um símbolo de tudo o que conquistei, mas também de tudo o que perdi. Seis meses atrás, eu nunca teria imaginado estar aqui sem meu pai na plateia. Minha mãe não veio. Ainda está no sítio de Vincent, levando uma vida tranquila ao lado de outras mulheres que, como ela, carregam cicatrizes. Sinto saudades, mas compreendo. Ainda assim, ver minha avó sentada na primeira fila me traz um pequeno alívio.Quando ergo os olhos, encontro os rostos que se tornaram minha nova família. Timmy, com seu ar protetor e seu sorriso torto, veste um terno azul profundo que reflete sua ousadia e estilo. Meia-noite, ou Huxley, como o chamo agora, carrega sua aura de mistério em um terno vinho, sóbrio e imponente. Gutemberg, o Fantasma, que já não é mais tão fantasma assim, está em um cinza chumbo, impecável como o menino rico que sempre foi. Vincent, encostado, displicente, mas atento a cada
Gutemberg (Fantasma). — Fantasma, acorde.— Alguém cutuca meu braço e pela firmeza do toque posso dizer que não é uma mulher. Murmuro alguma coisa e puxo o lençol, cobrindo metade do meu rosto.— Acorda! Aqui não é motel, não. Espere, talvez seja uma mulher. Essa voz… —Meu marido está vindo, você precisa ir!— Eu puxo o lençol para baixo, avistando um par de pernas femininas, sorte minha. Costumo fazer loucuras quando fico bêbado. Subindo o olhar, vejo a camisa curta e então a comissão de frente. Foda-se! Os dois melões são tão cheios que estão quase pulando na minha cara e exigindo uma mordida. Oh! Eles têm marcas de biquíni. Adoro essas marcas. —Você é casada, linda?— Abro um sorriso indecente, passando a língua entre os lábios sem me desviar do lindo par de seios. — OK… está brincando com a minha cara?— Ela diz, adquirindo uma expressão irritada que me faz querer revirar os olhos, mas permaneço neutro, apenas olhando para ela e esperando por uma resposta.— Sério?—Fala, com as du
DAVINAO cheiro doce da calda de morango que a vovó fez ainda é forte quando entro na cozinha, apesar de tudo estar limpo e desinfectado. Ela disse que este é um bolo especial, pois faz parte de uma grande encomenda que recebeu, e que o dinheiro será usado para alugar um espaço comercial para abrir sua padaria. Como uma formiga atrás de um doce, sigo meu perfume favorito até rastrear o recipiente de plástico transparente, estampado com o logotipo exclusivo de sua marca. Que eu mesmo fiz no celular, na bancada de mármore que separa a parte do fogão da mesa que usamos para as refeições. Pergunto ao exagerado laço rosa que ela coloca em todos os seus pedidos e leio o nome escrito na cobertura do bolo.Amber.A irmã do meio do traficante local. Bem, não qualquer mafioso, o mais assustador que conheço.Eu sabia que ela estava fazendo aniversário hoje, fui acordada pela queima de fogos que o irmão organizou exclusivamente para a data, mas não sabia que era a vovó quem estava preparando todos