Minha rotina era simples. Acordar cedo, pegar o mesmo ônibus lotado, sorrir para clientes mal-humorados e repetir o processo no dia seguinte. Eu nunca esperei que minha vida mudasse drasticamente em uma noite qualquer, muito menos que uma simples maleta jogada no lugar errado pudesse virar meu mundo de ponta-cabeça.
Era tarde quando saí do supermercado. Meu turno se estendeu por tempo demais, como sempre acontecia quando o gerente resolvia me sobrecarregar. Caminhei para casa com os fones de ouvido e os pensamentos vagando entre o que faria para jantar e o quanto desejava um banho quente. A rua estava deserta, apenas alguns postes piscando intermitentemente iluminavam o caminho. Foi quando tropecei.
Olhei para baixo, confusa. Algo duro havia esbarrado no meu pé. A luz fraca revelou uma maleta preta, aparentemente intacta, de couro reluzente. Não havia ninguém por perto. Ela estava ali, como se tivesse sido esquecida por alguém com muita pressa.
Meu coração disparou com uma mistura de excitação e receio. Eu devia ignorar e seguir em frente. Era o certo a se fazer. Mas alguma coisa me impediu. Curiosidade? Talvez. Ou talvez fosse apenas uma necessidade infantil de quebrar a monotonia da minha existência. Engoli em seco antes de me agachar e puxar o fecho da maleta.
O clique ecoou pelo beco silencioso.
Dentro, pilhas e pilhas de dinheiro estavam organizadas com perfeição. Notas de cem e cinquenta, agrupadas de forma meticulosa, ao lado de envelopes lacrados. Meu olhar se fixou em um celular descartável de modelo antigo, jogado entre os maços de notas, como se estivesse ali para ser usado apenas uma vez. Entre os documentos, pastas grossas com papéis cobertos por anotações codificadas e nomes que eu não reconhecia. Alguns tinham fotos anexadas, homens de terno e olhar severo, e o que parecia ser um relatório detalhado de suas rotinas.
Meus dedos tremeram ao folhear rapidamente o conteúdo. Isso não era normal. Isso não era de uma pessoa comum. Era como se eu tivesse aberto um portal para um mundo que nunca deveria ter conhecido. Um mundo perigoso. Um mundo onde segredos valiam mais do que vidas.
Foi quando percebi.
Eu estava sendo observada.
Um arrepio gelado percorreu minha espinha antes mesmo de ouvir o primeiro som de passos ecoando pelo beco. Levantei a cabeça rápida demais e me vi cercada por três homens. O que estava no centro tinha uma postura tensa, um olhar que imediatamente me disse que eu havia cometido um erro grave.
— A maleta. — A voz do homem era firme, sem pressa, como se já tivesse decidido o que fazer comigo.
Meu estômago revirou. Eu sabia que correr não era uma opção. O suor frio se acumulava na minha testa quando levantei as mãos em um gesto de rendição.
— Eu... Eu só encontrei aqui. Não peguei nada! — Minha voz saiu fraca, mas sincera.
O homem não pareceu convencido. Deu um passo à frente, e eu automaticamente dei um para trás. O metal de uma arma brilhou na luz fraca do poste. Meu coração batia tão rápido que parecia que eu iria desmaiar ali mesmo.
— Você abriu, não foi?
Engoli em seco. Mentir não ia me salvar.
— Eu não vi nada! Só dinheiro... Eu não vou contar para ninguém, eu juro!
O homem trocou um olhar com os outros dois. Algo foi decidido sem palavras, porque antes que eu pudesse piscar, senti as mãos fortes de um deles segurando meu braço e me puxando para longe do beco. Um grito se formou na minha garganta, mas morri de medo de soltá-lo.
Eu não sabia quem eram, mas sabia o suficiente para ter certeza de que minha vida estava em risco.
Me jogaram dentro de um carro preto, e o homem que havia falado comigo entrou no banco do passageiro. O motor roncou, e logo eu estava sendo levada para longe do único mundo que conhecia.
**
Não sei quanto tempo passou antes do carro parar. Meus nervos estavam em frangalhos quando as portas foram abertas e fui puxada para fora. Um prédio discreto, sem placas, mas com uma presença intimidadora, ergueu-se à minha frente. Me arrastaram para dentro sem cerimônia, me jogando em uma sala mal iluminada com uma única poltrona de couro no centro.
E foi então que ele apareceu.
Dante Vasquez.
Ele entrou na sala com a presença de um rei em seu próprio castelo. Alto, com um porte imponente, vestindo um paletó bem ajustado que denunciava poder. Mas não era a roupa que o fazia ameaçador. Era o olhar. Intenso, calculista, letal.
Ele caminhou até a poltrona e sentou-se com calma, como se já estivesse acostumado a decidir o destino de pessoas em sua posição.
— Seu nome.
— C-Clara. — Minha voz falhou, mas consegui responder.
Ele tamborilou os dedos na lateral da poltrona, me analisando com um interesse que não soube decifrar de imediato. Então, um sorriso lento se formou em seus lábios.
— Me disseram que você abriu a minha maleta.
Senti minha garganta secar.
— Não queria causar problemas... Eu só...
— Mas causou. — Ele me interrompeu, ainda sorrindo. — E agora preciso decidir o que fazer com você.
O silêncio que seguiu foi ensurdecedor. O peso de sua presença me esmagava, mas foi ali, naquele instante, que algo clicou dentro de mim.
Se eu demonstrasse fraqueza, estaria morta.
Então, fiz a única coisa que poderia me salvar: mantive a compostura, ergui o queixo e joguei com a única vantagem que tinha.
Minha ingenuidade.
— Eu posso ser mais útil viva do que morta.
Ele arqueou uma sobrancelha, como se estivesse intrigado.
E assim, sem saber, eu havia acabado de entrar no mundo de Dante Vasquez.
O silêncio na sala pesava como uma sentença. Eu podia ouvir minha própria respiração, rápida e descompassada, enquanto os olhos frios de Dante Vasquez me avaliavam. Cada segundo que passava me fazia sentir mais presa, mais vulnerável, mas eu sabia que demonstrar medo seria o pior erro que poderia cometer.Ele se inclinou ligeiramente para frente, descansando os cotovelos sobre os joelhos e entrelaçando os dedos. Era uma pose casual, mas carregada de poder. Um sorriso torto se formou em seus lábios, e não havia nada de conforto nele.— Você diz que pode ser mais útil viva do que morta. — Sua voz era baixa, mas cortante. — Explique-se, Clara.Engoli em seco. Minhas mãos tremiam levemente, mas mantive a postura o mais firme possível. Eu não podia hesitar. Meu cérebro trabalhava em alta velocidade, buscando qualquer argumento que pudesse convencê-lo a não me descartar como um problema descartável.— Eu trabalho em um supermercado. Eu vejo rostos todos os dias, pessoas que entram e saem, q
O silêncio dentro do carro era esmagador. Lorenzo dirigia com o olhar fixo na estrada, sua expressão ilegível. Eu, por outro lado, tentava controlar a respiração. Meu coração ainda pulsava freneticamente depois do que acabara de acontecer. Eu tinha cruzado uma linha, uma que jamais poderia desfazer. Agora, eu fazia parte daquilo.Meu olhar se desviou para fora da janela, observando as luzes da cidade passando rapidamente. O mundo lá fora parecia normal, como se nada tivesse mudado, mas para mim, tudo estava diferente. Eu não era mais apenas Clara, a caixa de supermercado que levava uma vida pacata. Eu era alguém que havia acabado de fazer um favor para um mafioso.— Você fez direitinho. — A voz de Lorenzo quebrou o silêncio, me trazendo de volta à realidade.Virei-me para ele, hesitante.— É sério?Ele soltou um riso baixo, mas sem humor.— Pelo menos não nos colocou em apuros. Isso já é alguma coisa. Mas não se engane, Clara. Você ainda tem muito o que provar.Assenti, mesmo sem sabe
O Jogo de PoderEu não sabia exatamente quando tinha começado a jogar, mas já estava no tabuleiro.Os últimos dias haviam sido um teste atrás do outro. Pequenas missões, favores perigosos e situações onde eu precisava provar minha lealdade. Eu não era ingênua a ponto de achar que Dante me mantinha por perto apenas por simpatia. Havia algo que o intrigava em mim, e eu precisava descobrir se isso jogava a meu favor ou se apenas me tornava um alvo mais fácil.Naquela noite, Lorenzo me buscou para mais um encontro com Dante. Eu já estava começando a reconhecer os padrões. Ele gostava de me observar, testar minhas reações, me puxar para o limite apenas para ver se eu quebrava. Mas eu ainda estava ali. Ainda intacta.— Você está diferente — Lorenzo comentou enquanto dirigia.— Diferente como?Ele me olhou de soslaio.— Antes, parecia assustada. Agora... parece que está aceitando isso.Engoli em seco. Será que estava? Ou será que era apenas uma forma de sobrevivência?O carro parou em frente
Ficar.A palavra ficou pairando no ar entre nós, carregada de significados não ditos.Dante me observava como um predador paciente, esperando minha reação, testando se eu recuaria ou se aceitaria sua oferta velada. Eu sabia que, se dissesse sim, cruzaria mais uma linha invisível. Não era apenas sobre permanecer fisicamente naquele lugar; era sobre ceder a algo que crescia entre nós e que eu não podia mais ignorar.Mas eu não podia demonstrar hesitação.— Só minha presença? — perguntei, mantendo meu tom neutro.Dante sorriu, aquele sorriso que me irritava tanto quanto me atraía.— Por enquanto.Aquelas duas palavras me fizeram prender a respiração. Meu corpo reagiu antes mesmo da minha mente processar. Um arrepio subiu pela minha espinha, e eu engoli em seco, tentando ignorar a forma como ele parecia se divertir com a minha reação.— Certo — murmurei, cruzando os braços, tentando esconder o nervosismo. — Mas não espere que eu durma no sofá.Ele soltou uma risada baixa e balançou a cabe
O sol invadia o quarto pelas frestas das cortinas, projetando sombras suaves no lençol bagunçado. Meu corpo estava pesado, e minha cabeça latejava levemente, como se eu tivesse passado por uma tempestade e só agora estivesse emergindo para a superfície. Piscando algumas vezes, tentei me situar. O cheiro amadeirado impregnado no travesseiro e a firmeza do colchão eram evidências de que eu não estava em casa.A lembrança veio em ondas: Dante, o quarto, a exaustão me arrastando para um sono inevitável. Meu coração bateu mais forte por um instante, um medo irracional de que algo tivesse acontecido. Mas, ao me mexer, percebi que minha roupa estava exatamente como antes. Um suspiro escapou dos meus lábios. Dante havia sido respeitoso.Passei a mão no rosto e me sentei devagar, sentindo o ambiente silencioso ao meu redor. A casa de Dante parecia um outro mundo, afastado da realidade que eu conhecia. Me levantei e ajeitei minhas roupas, sentindo um leve frio ao tocar o chão de madeira com os