Caminho entre Luas: Onde o destino começa
Caminho entre Luas: Onde o destino começa
Por: Joana Rodrigues
PRÓLOGO – O DESTINO ADORMECIDO

Serra dos Riachos não era uma cidade qualquer, era viva e pulsava sob os pés dos que passavam, sussurrava através das árvores, escondia segredos no reflexo dos riachos, era uma cidade que respirava. Aqui, o mundo visível e o invisível se entrelaçavam. Aqui, lendas não eram apenas lendas.

Safira foi a primeira a ouvir o aviso, nas águas calmas do Bosque da Névoa, onde as guardiãs buscavam refúgio para se centralizarem, criarem amuletos e discutirem o destino da cidade. Em um desses momentos, a profecia veio até ela como um sussurro no vento, como se a própria Serra dos Riachos se materializasse.

A noite estava densa, o ar carregado com o peso de algo que não podia ser visto, apenas sentido. A lua cheia pairava alta no céu, derramando sua luz prateada sobre a floresta silenciosa, que servia como testemunha de segredos antigos.

No centro da clareira, um círculo de guardiãs permanecia imóvel, como se aguardassem algo. No meio delas, Safira ergueu o rosto, seu olhar intenso refletindo o brilho da lua. Ela se aconchegou no abraço que o vento lhe oferecia e prestou atenção ao que era dito. Não hesitou, o destino da cidade estava prestes a mudar.

A guardiã inspirou fundo, sentindo que cada palavra dita a seguir selaria o futuro de todos.

"Quando a lua erguer-se sobre o destino selado, a Luna despertará. O Alfa será testado, dividido entre a profecia moldada pelo medo e o chamado do seu próprio sangue. Juntos, serão a ruína ou a salvação da alcateia. Mas, se a escolha for errada, os inimigos unidos, acabarão com o equilíbrio."

O vento soprou forte uma última vez entre as mulheres, trazendo consigo uma verdade há muito esperada. Safira fechou os olhos brevemente, absorvendo o chamado da cidade, e inspirou profundamente antes de falar. Quando os abriu novamente, sua voz ressoou pelo círculo, carregada de uma certeza inabalável.

— A loba lunar enfim despertará, e seu destino será selado. Seu Alfa hesitará entre a profecia que será dita e a verdade de seu coração.

Um murmúrio percorreu o grupo. Algumas guardiãs se entreolharam, outras baixaram a cabeça, ponderando o peso daquelas palavras. A profecia estava lançada. E não havia mais como voltar atrás.

Mas, junto dela, veio uma sensação persistente, como um sussurro diferente dos demais. Um aviso, tentariam enfraquecer a cidade antes mesmo de a profecia se cumprir. Os inimigos circulavam de dentro e de fora de Serra dos Riachos. Safira sentiu a presença, como uma ameaça crescente.

A anciã sabia que se algo não fosse feito, o equilíbrio conquistado há muito tempo atrás, através de muita luta e de sangue derramado, seria desfeito e o caos reinaria novamente. Uma nova guerra estava sendo armada, moldada pelas mãos de uma guardiã ambiciosa e de alguém em busca de poder e vingança. O cheiro de submissão vinha forte no vento, junto com o cheiro de mais sangue. A morte já estava a espreita, na espera das almas dos que sucumbirem. E Safira também sabia que não tinha mais muito tempo.

Ela precisava agir. Safira alertou através do vento a Madalena, esposa do líder da Matilha do Vento Cortante, a Luna despertaria da família dela, e para impedir que aqueles que estavam por trás dos bastidores interferissem com a profecia, eles precisam partir de Serra dos Riachos.

Por gerações, os Vento Cortante estiveram ligados à linhagem dos Supremos, servindo como guardiões da cidade e da ordem entre os lupinos.

Afastar a linhagem de Madalena da cidade era a única maneira de evitar que a profecia caísse nas mãos erradas. Assim, Safira lançou um feitiço para adormecer o lobo dentro de Flor, filha de Madalena e Júlio, e de toda a geração que viria dela. Com isso, garantiriam que os inimigos não pudessem usar o vínculo de Flor contra a cidade. Se isso acontecesse Serra dos Riachos sucumbiria a algo sombrio e irreversível.

Júlio, um dos seus líderes mais respeitados, governava a matilha com sabedoria, mantendo a aliança entre lupinos e guardiãs intacta. Embora nunca tenha sido um Líder Supremo, sua matilha fazia parte da linhagem que, geração após geração, deu origem aos alfas supremos da cidade. Mesmo sem governar todas as matilhas, a influência dos Vento Cortante era inegável.

Mas o destino, como os ventos da Serra Alta, é imprevisível. A profecia foi um chamado que nem Júlio pôde ignorar. Ele e Madalena partiram, carregando consigo um segredo que mudaria o equilíbrio da cidade. Júlio, o líder da matilha, conhecia o peso dessa responsabilidade. Ele sabia que ignorar um aviso como aquele seria um erro. Para proteger sua cidade e sua família, eles precisavam partir. O equilíbrio de Serra dos Riachos precisava ser mantido.

Mas partir significava deixar sua matilha para trás, e alguém precisaria manter a ordem em sua ausência. Não era uma decisão que podia ser tomada levianamente. Júlio sabia que, sem ele, sua matilha precisaria de um novo líder. Alguém forte o suficiente para mantê-la sob controle enquanto o destino se desenrolava. Assim, a decisão foi tomada: Ricardo, seu Beta e braço direito, assumiria a liderança. Um homem leal e estrategista que nunca buscou o poder, mas que, naquele momento, precisou se tornar o novo Alfa.

Ricardo, com a responsabilidade de manter a cidade a salvo prometeu proteger Serra dos Riachos e garantir que, quando chegasse a hora, a cidade estivesse pronta para receber aqueles que um dia precisariam voltar.

Naquela mesma noite, Madalena e Júlio deixaram Serra dos Riachos. A estrada de terra se estendia à frente, cada curva parecendo sussurrar um adeus. O vento uivava entre as árvores, como se a cidade lamentasse a partida deles, lamentos inaudíveis para os humanos, mas não para aqueles que verdadeiramente conheciam a cidade. Júlio segurou firme o volante, mantendo os olhos fixos no caminho. Eles não podiam hesitar. Não deviam hesitar. Mas, dentro deles, algo se retorcia, como se uma parte estivesse sendo arrancada.

E, naquela mesma noite, Safira foi morta. ninguém soube de fato o que aconteceu. Encontraram o corpo da anciã boiando nas águas do Bosque da Névoa. A profecia selada junto com a vida da guardiã, o destino de todos começando a ser manipulado.

No Rio de Janeiro, a vida seguiu seu curso. Júlio abriu um pequeno comércio com Madalena. Flor cresceu sem questionar suas origens, sem sentir falta do que nunca soube ter. Havia algo nela, no entanto. Um gosto pela natureza que não combinava com o concreto da cidade grande. Um incômodo sutil em meio a multidões. Uma estranha necessidade de estar perto da terra, de sentir o vento no rosto. Mas nada que não pudesse ser ignorado.

Então, ela conheceu Gustavo. Ele era humano, simples, gentil, dono de um sorriso fácil e de um jeito de quem sempre pertencia ao lugar onde estava. O encontro entre os dois aconteceu em um dia qualquer, mas desde o primeiro olhar, algo nela se aquietou. Era como se, sem perceber, ela tivesse encontrado seu lugar no mundo.

Quando estavam juntos, Flor se sentia ancorada. Algo dentro dela se acalmava. Ele era seu lar. O mundo inteiro se silenciava, e só restavam os dois. Ela não sabia que aquilo era o vínculo, e ele não sabia que, ao seu redor, o cheiro dela, marcante como baunilha recém-extraída, começava a impregná-lo, entrelaçando seus destinos.

Eles se casaram e tiveram dois filhos: Cauã e Camélia. Foi então que tudo começou a mudar. O chamado começou. E o primeiro sinal veio no dia em que Camélia nasceu. O dia estava abafado, o céu pesado de nuvens cinzentas, o vento forte açoitando as janelas, entrando pelos cantos da casa como um sussurro antigo, como se o tempo, enfim, soltasse a respiração que prendia há anos. E então, no instante em que o primeiro choro ecoou pelo quarto e Madalena segurou a neta nos braços, ela soube. No fundo de sua alma, soube. Era como se um fio invisível tivesse sido puxado, conectando passado e futuro.

Nos anos seguintes, pequenos sinais começaram a aparecer. O vento ficava mais forte quando Camélia ria. Os cães da vizinhança a encaravam por tempo demais. E, às vezes, sem explicação, o cheiro das matas de Serra dos Riachos parecia invadir a casa. Júlio sentiu primeiro, a inquietação, o peso no peito. Por anos, ele ignorou. Até que não pôde mais.

Camélia cresceu e tornou-se uma mulher forte, independente, teimosa. Com olhos de tempestade, cinzentos como os de Júlio, como os da linhagem de sua avó. Ela não sabia o que era, mas a cidade sabia.

Então, os sonhos de Madalena começaram. O retorno inevitável. O vento soprava com um sussurro, chamando a família de volta para casa, para junto dos seus. Sempre a mesma palavra, sempre a mesma sensação: Volte.

A cidade chamava, e Madalena não conseguia mais fingir que não ouvia. Então, Júlio adoeceu, no início, era apenas cansaço. Um peso constante nos ombros, algo que não passava, não importava quantas horas ele dormisse. Depois, veio a febre—indo e vindo como as ondas do mar, trazendo consigo um olhar perdido, como se Júlio enxergasse algo que ninguém mais podia ver. Os médicos não encontraram nada. Nenhuma explicação. Madalena sabia.

Então, numa noite de febre alta, Júlio enfim a olhou de verdade, como se voltasse a vê-la depois de muito tempo e disse o que ela já sabia.

— Precisamos voltar.

Serra dos Riachos os estava chamando de volta.

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