O encontro com aqueles dois ainda martelava na mente da jovem enquanto ela caminhava pelo centro de Serra dos Riachos. A cidade estava desperta agora. O céu azul pálido se espalhava acima dos casarões coloniais, banhando as ruas de pedra em uma luz dourada. O som de passos apressados ecoava entre as vielas, mesclado ao barulho distante de sinos e ao murmúrio das primeiras conversas matinais.
Pequenos comércios abriam suas portas, e o cheiro de café fresco e pão recém-saído do forno se misturava ao perfume das flores que decoravam varandas e janelas. Serra dos Riachos parecia um lugar fora do tempo, lembrando um pouco a cidade de Petrópolis pela arquitetura. Mas havia algo estranho ali. Era uma cidade pacata demais para a tensão que se sentia no ar, para a forma como os olhares se demoravam um pouco mais sobre ela do que o necessário. A sensação de estar sendo observada a acompanhava a cada esquina. Ela pegou o celular, ainda inquieta depois da confusão com as mensagens atrasadas. Tentou ligar para sua mãe novamente, mas ninguém atendia. O número chamava, mas não havia resposta. Seu coração deu um salto desconfortável no peito. Seus pais não ignorariam suas ligações, não depois de tanto tempo sem contato. A situação toda fazia aquela sensação incômoda voltar com força total. Caminhou mais rápido, tentando pensar no que fazer. Não sabia exatamente onde seus pais e avós estavam hospedados, mas lembrava do nome Ricardo. Se ele foi a pessoa que chamou seus avós de volta, ele deveria saber onde estavam. Ricardo parecia ser a chave para encontrar respostas. Encontre Ricardo. Encontre sua família. Era isso que precisava focar. Ao atravessar a rua, parou diante de uma pequena banca de jornal, onde uma senhora de cabelos grisalhos e óculos redondos empilhava revistas. Respirou fundo antes de falar: — Com licença. A senhora levantou os olhos por cima dos óculos, a analisando rapidamente. Seu olhar parecia gentil, mas atento. — Pois não, querida? — respondeu, arrumando uma pilha de jornais com calma, mas sem desviar os olhos. — Estou procurando um homem chamado Ricardo. Ele mora aqui na cidade, certo? — perguntou gentilmente. A pergunta parecia simples, mas, por um breve segundo, a expressão da senhora mudou. Não era medo, mas hesitação, como se estivesse avaliando até que ponto deveria falar. — Ricardo? — repetiu, ajustando os óculos com os dedos enrugados, a voz carregada de cautela. — Sim. Ele é amigo da minha família — afirmou, tentando soar confiante, embora não tivesse certeza do quanto isso era verdade. Dessa vez, ela a olhou com mais atenção, apertando os olhos como se tentasse enxergar melhor. — Você não é de Serra dos Riachos — constatou, com uma certeza que a incomodou. Ela suspirou, sentindo a impaciência crescer. — Não. Mas estou tentando encontrar meus pais e meus avós. Pode me dizer onde encontrar o Ricardo? O rosto da senhora suavizou um pouco, mas a hesitação ainda estava ali. — Ricardo tem uma oficina perto da Praça dos Trovões — disse, por fim, ajeitando um bracelete de contas no pulso. — Se alguém souber de sua família, ele saberá. — Valeu. — respondeu, mas ela já havia desviado o olhar, voltando a organizar as revistas como se a conversa tivesse terminado. Embora fosse um alívio ter finalmente um destino claro, a jovem não se sentia tranquila. O jeito como a senhora demorou a responder, a maneira como o nome de Ricardo fez algo brilhar em seus olhos. Havia algo escondido naquela cidade e ela estava prestes a descobrir o quê. A Praça dos Trovões fazia jus ao nome. Mesmo sob o céu limpo daquela manhã, o vento soprava mais forte ali, como se o lugar carregasse resquícios de uma tempestade que nunca se dissipava completamente. As árvores ao redor balançavam, folhas secas rodopiavam pelo chão de pedra. Ela passou por um grupo de crianças brincando perto da fonte e seguiu pela rua que a senhora havia indicado. Quando avistou a oficina, sentiu uma estranha pressão no peito. O prédio era simples, com um telhado baixo e um grande portão de ferro entreaberto. O cheiro de óleo e ferrugem se misturava ao aroma fresco da vegetação ao redor. Ela se aproximou devagar. Dentro, um homem robusto estava debruçado sobre o motor de um carro, murmurando algo para si mesmo enquanto mexia em uma peça com as mãos sujas de graxa. Ela limpou a garganta para chamar sua atenção, e ele ergueu o rosto, observando-a por um instante. Tinha cabelos grisalhos nas laterais e um olhar atento, como se estivesse sempre pronto para avaliar uma situação antes de reagir. Mas o que mais a chamou atenção foi a forma como seu rosto congelou assim que seus olhares se cruzaram, como se tivesse acabado de ver um fantasma. Ela ficou ainda mais tensa. — Você é Ricardo? — perguntou, mantendo o tom firme, apesar da estranha sensação de que ele já sabia quem ela era. Ele a encarou por um momento antes de limpar as mãos no pano velho que segurava. — Sou — respondeu, com uma voz carregada de algo que ela não soubera identificar. Ela cruzou os braços, estreitando os olhos. — Ótimo. Porque parece que você tem algumas explicações para me dar. O silêncio entre eles se alongou. Ricardo passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro pesado, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas. — Você é a neta da Madalena e do Júlio — afirmou, sem qualquer dúvida. — Sim. — Ela assentiu, sentindo a tensão aumentar. — Então você finalmente chegou. — Ele soltou uma risada baixa, balançando a cabeça levemente. — Tá querendo dizer o que com isso? — Sua testa franziu. Ricardo estudou seu rosto por um instante, como se avaliasse o quanto deveria contar. — Sua família está te esperando, menina. Mas antes… — Ele estreitou os olhos, a expressão carregada de significado. — Acho que você tem muitas coisas para descobrir. Um arrepio percorreu sua espinha, a forma como ele disse aquilo, a cidade, o silêncio das pessoas, as mensagens não entregues. Tudo parecia interligado, e de alguma forma, ela fazia parte daquela história muito antes de chegar ali. Ricardo jogou o pano sobre a bancada e caminhou até a porta da oficina. Virou-se para ela e indicou a rua com a cabeça. — Vem comigo — disse, como se estivesse lhe dando uma escolha, mas seu olhar deixava claro que essa escolha já estava feita. Ela engoliu em seco, sentindo um peso estranho no peito, mas deu o primeiro passo e o seguiu. A cidade parecia se moldar ao redor dela enquanto caminhava ao lado de Ricardo. Cada esquina escondia algo que ela não sabia se queria entender. Havia história em tudo: nos casarões, nas árvores que se curvavam sobre as calçadas, nas vozes baixas que pareciam acompanhá-la. Ricardo era um guia silencioso, com as mãos nos bolsos e o olhar atento, como se estivesse esperando algo ou talvez testando sua paciência. — Serra dos Riachos tem muitas histórias — ele começou, sem olhá-la. — Tá falando sobre as lendas? — perguntou, repetindo o que ele havia dito antes. — Histórias que nunca foram apenas lendas. — Ele sorriu de canto, a forma como disse isso fez com que ela estremecesse levemente. Ela passou a língua nos lábios, incerta. — Então me conta uma delas. Ele parou por um instante, como se escolhesse as palavras. — Você sabia que, antigamente, esse lugar era chamado de Vale das Duas Luas? — Duas luas? — Ela franziu o cenho. — É. Dizem que, há muito tempo, duas luas iluminavam o céu daqui. Uma prateada e uma dourada. A prateada era associada as guardiãs da cidade, a dourada àqueles que protegiam o equilíbrio do espírito. — Um arrepio percorreu sua nuca. — E o que aconteceu com a segunda lua? Ricardo suspirou e, após uma pequena pausa, respondeu. — A cidade mudou. As pessoas esqueceram. Ela esperou mais, mas ele não disse nada, como se estivesse testando sua curiosidade. E estava funcionando. Continuaram andando, a rua ficava mais isolada, e foi ali que ela sentiu. A cidade tinha cheiro, não um cheiro comum, mas um que parecia atravessar os sentidos. Uma mistura de terra úmida, flores silvestres e algo levemente amadeirado. Era estranho, familiar. Era a mesma sensação que teve ao pisar ali pela primeira vez. Antes que ela pudesse comentar, Ricardo parou em frente a uma casa de madeira, com janelas de vidro ondulado e um alpendre envolto por trepadeiras floridas. — Chegamos. — Ele falou. Ela o olhou. — Que lugar é esse? Ricardo a encarou por um longo instante antes de dizer, simplesmente: — Sua casa. O som das palavras ecoou dentro dela. Sua casa? A informação não fazia sentido. Ela cresceu no Rio. Aquela casa nunca foi sua, mas antes que pudesse questioná-lo, Ricardo bateu na porta, o som ecoando pelo silêncio da rua. E, naquele momento, seu coração começou a bater mais forte. Ela não sabia exatamente o que estava prestes a descobrir, mas algo lhe dizia que, a partir daquele momento, sua vida nunca mais seria a mesma.Kael soube que ela estava ali antes mesmo de Júlio abrir a porta. O perfume doce e inconfundível de flor de laranjeira invadiu o ambiente antes do som da madeira sendo batida. E então, ela surgiu. A garota da praça. Kael manteve o rosto impassível enquanto via Júlio e Madalena a abraçarem, mas por dentro, uma irritação crescente o dominava. Ela não era apenas uma forasteira. Ela estava ligada à família Alencar, talvez neta de Júlio e Madalena. Isso não dissipava seu interesse, mas aumentava. Ela era bonita de um jeito perturbador. Os olhos dela, cinzentos como o céu antes da tempestade, avaliavam tudo ao redor, como se quisessem decifrar cada detalhe. Eles carregavam uma tempestade silenciosa, e Kael não sabia se queria fugir ou ser levado junto. Ela parecia mais preocupada com a família do que com ele. — O que aconteceu? — Camélia perguntou, sua voz carregada de preocupação. O silêncio tomou conta, a tensão no ar se tornando palpável. Júlio pigarreou, surpreso pela chegada repent
Camélia permaneceu imóvel enquanto a porta se fechava atrás de Kael. O cheiro de chuva, ainda em sua pele, misturava-se ao perfume amadeirado da casa. Ela inspirou profundamente, tentando dissipar a sensação inquietante que ele deixava. Por que ele mexia tanto com ela? A pergunta martelava em sua mente enquanto se dirigia até a janela. Mordendo o lábio, inquieta, não gostava da forma como seu corpo reagia sem permissão. — Ele te incomodou? — A voz calma de Madalena a trouxe de volta. Camélia se virou, encarando a avó com uma mistura de confusão e relutância. — Não. — Hesitou. — Quer dizer, sim. Mas não do jeito que você pensa. Madalena inclinou a cabeça, um brilho curioso nos olhos. — O que há entre vocês não pode ser ignorado. Só quero que esteja pronta para o que isso significa. Camélia tentou aliviar a tensão com uma risada curta, mas o peso das palavras da avó a incomodava. — Eu sei me cuidar, vó. Não temos nada, o conheci hoje. Antes que Madalena pudesse responde
Foi então que Ricardo surgiu ao lado de Júlio, com as mãos nos bolsos e um sorriso relaxado. — E eu achando que ia precisar caçar vocês pela cidade. — Ricardo brincou, olhando para Camélia e Cauã. — Finalmente temos a família Alencar em Serra dos Riachos, esse é o neto mais velho de vocês? O olho cinza não nega. — Ricardo! — Júlio sorriu e deu um tapinha no ombro do amigo. — Você já conhece Flor e Gustavo, é sim! Esse é o Cauã, não liga muito não, ele é um rapaz bem desconfiado de tudo. Esse aqui é um amigo de longa data, meu braço direito. Cauã estreitou os olhos de leve, analisando Ricardo antes de apertar sua mão. – Prazer, que engraçado ouvir que você é o braço direito dele, nunca ouvi falar de Ricardo e bem de Serra dos Riachos. — ele falou zombeteiro. — Mas, bom te conhecer. — Ah, acontece! Mas agora vocês estão aqui, não é? — Ricardo respondeu com um sorriso divertido. — Vocês já tem algum plano? O que acham de irmos almoçar
A respiração de Kael estava acelerada quando abriu os olhos. Seu peito subia e descia de forma irregular, como se tivesse corrido uma longa distância. O quarto ao redor permanecia imóvel, mas o ar parecia denso, abafado. A única luz vinha da lua, filtrada pelas cortinas entreabertas.Tânia era sua predestinada. O destino deles estava traçado. Mas tudo o que sentia agora era o toque de Camélia.Kael levantou-se de súbito, irritado. Seu corpo clamava por ação, por qualquer coisa que silenciasse aquela inquietação. O cheiro dela impregnava o ambiente, como se quisesse dominá-lo. Seu lobo reagia, inquieto, mas ele se recusava a ouvir. Passou as mãos pelo rosto, afastando o incômodo. Não podia se dar ao luxo de distrações.Como Alfa Supremo, sua responsabilidade ia além da matilha. Cada líder o via como referência. Até os que o desafiavam precisavam respeitá-lo. Ele precisava manter a ordem em Serra dos Riachos.— Isso não é sobre você, Kael — murmurou
Serra dos Riachos não era uma cidade qualquer, era viva e pulsava sob os pés dos que passavam, sussurrava através das árvores, escondia segredos no reflexo dos riachos, era uma cidade que respirava. Aqui, o mundo visível e o invisível se entrelaçavam. Aqui, lendas não eram apenas lendas. Safira foi a primeira a ouvir o aviso, nas águas calmas do Bosque da Névoa, onde as guardiãs buscavam refúgio para se centralizarem, criarem amuletos e discutirem o destino da cidade. Em um desses momentos, a profecia veio até ela como um sussurro no vento, como se a própria Serra dos Riachos se materializasse. A noite estava densa, o ar carregado com o peso de algo que não podia ser visto, apenas sentido. A lua cheia pairava alta no céu, derramando sua luz prateada sobre a floresta silenciosa, que servia como testemunha de segredos antigos. No centro da clareira, um círculo de guardiãs permanecia imóvel, como se aguardassem algo. No meio delas, Safira ergueu o rosto, seu olhar intenso refletindo o
Camélia nunca gostou de perguntas sem respostas, ela era do tipo que desvendava padrões, que lia entrelinhas e desconfiava de silêncios longos demais. Cresceu sendo a pessoa que resolvia problemas, que planejava antes de agir, que não gostava de sentir que estava sendo deixada de fora de algo. E, naquele momento, algo não fazia sentido, a avó arrumando a mala com um olhar perdido. O avô mais silencioso do que o normal e o nome de uma cidade que nunca tinha ouvido antes: Serra dos Riachos. Desde pequena, Camélia sabia que sua família era diferente. Mas, em vez de histórias mirabolantes sobre o passado, havia apenas silêncio. Seu avô mudava de assunto quando questionado. Sua avó sempre dizia que o passado já havia ficado para trás. Seus pais também nunca pareceram curiosos sobre isso. Agora, aos vinte e cinco anos, Camélia percebia que aquilo nunca tinha sido normal. Seus pais, Flor e Gustavo, eram um casal equilibrado. Flor era mais reservada, dona de uma paciência invejável, mas
A primeira passagem que encontrou foi comprada sem pensar duas vezes por Cauã. Camélia arrumou suas coisas rapidamente, a tensão aumentando a cada minuto que se passava. A viagem pareceu interminável. Cada quilômetro percorrido apenas reforçava sua certeza de que algo estava errado, de que estavam atrasados para algo que ainda não compreendiam. Quando a aeronave finalmente pousou, ainda de manhã cedo, ela inalou profundamente o ar fresco, notando como ele parecia diferente. Mais puro, carregado com o frescor da vegetação e o perfume das flores espalhadas pelo vento. A névoa fina dançava entre as montanhas, como um véu separando dois mundos. O ar gelado da manhã a envolveu assim que saiu do avião, um abraço aconchegante depois de horas abafadas dentro da cabine. O cheiro de terra e grama molhada entrou em seus pulmões, como uma brisa suave e bem-vinda. Porém, algo a fez hesitar. Camélia sentiu que estava pisando em um território que carregava mistérios, e ela não sabia o porquê. Tam