A lua cheia pairou sobre a ravina, derramando uma luz prateada que banhou as pedras e a vegetação, tingindo o cenário de um brilho fantasmagórico. À beira do precipício, Lyra, a concubina de Donaldo, assentou-se com os pés balançando no vazio, ao que seus olhos mergulharam nas profundezas, onde as sombras se estendiam como dedos esqueléticos, conforme um arrepio gelado percorria sua espinha.Entre as muitas concubinas de Donaldo, Lyra era singular. Sua mente inquieta e seu coração ainda não haviam sido absolutamente subjugados pelo poder e pela riqueza de seu senhor. Ela nutria uma curiosidade insaciável sobre o passado de Donaldo, sobre os fios que teceram o homem que ele se tornara. Seria ele ainda aquele que conquistara corações femininos, ou apenas uma casca vazia, arrastada para as trevas?— Ele está bem? — sussurrou Lyra, sua voz quase engolida pelo vento que sibilava entre as rochas. — Ou está se perdendo nas sombras, afundando, como um navio à deriva?As histórias que ouvira s
O ar em volta parecia carregado de eletricidade, cada movimento uma melodia de sensações que os conectava de maneira quase transcendental. Ele sentia o calor dela envolvê-lo, um abraço íntimo que o fazia perder o fôlego. Cada avanço, cada recuo – uma dança que ambos conduziam com paixão e ternura, como se o mundo exterior tivesse deixado de existir.Ela arqueava as costas, os dedos dele marcando levemente sua pele, conforme murmúrios escapavam de seus lábios, palavras entrecortadas que misturavam desejo e afeto. Ele respondia com ações, cada toque, cada movimento, uma promessa silenciosa de que aquele momento era só deles, um segredo guardado a portas fechadas.O ritmo acelerava, a respiração ofegante ecoando no quarto, enquanto as mãos dela exploravam suas costas, sentindo cada músculo tensionado, cada onda de prazer que o percorria. Era como se estivessem à deriva em um mar de sensações, onde o tempo não tinha mais importância.E então, quando o ápice se aproximou, ela o fitou, os ol
A floresta despertava com o primeiro canto dos pássaros, um coro suave ecoando entre as antigas árvores, como se a própria natureza estivesse anunciando o início de um novo dia. O sol ainda não havia rompido o horizonte, mas o céu já se tingia de tons de lavanda e dourado, prometendo uma manhã clara e fresca. Era nesse momento, quando o mundo parecia suspenso entre a noite e o dia, que Tupã, ainda um menino, começava sua jornada.Seus pés descalços pisavam levemente sobre a terra úmida, sentindo cada raiz, cada pedra, como se a floresta lhe contasse histórias através do toque. Ele carregava um arco pequeno, feito por suas próprias mãos, e uma aljava de flechas que seu pai lhe dera no último aniversário. Tupã não era apenas um menino; era um aprendiz, um caçador em formação, e cada dia trazia uma nova lição.— Tupã, você está pronto? — chamou seu pai, Araçá, cuja voz era grave como o trovão distante. Araçá era um guerreiro respeitado na aldeia, um homem cujas histórias de caçadas e bat
A floresta ainda dormia sob o manto da madrugada. A névoa rasteira dançava sobre o solo úmido, conforme as folhas, orvalhadas pelo frescor da noite, sussurravam segredos ao vento. Lá, no coração desse antigo silêncio, duas sombras se moviam com a suavidade de felinos. Yara, de olhos afiados como a lâmina da sua adaga, conduzia seus passos compactos sobre as raízes da terra que tanto conhecia. Ao seu lado, Tupã, o caçador cuja respiração ritmada harmonizava-se com o pulsar da floresta, mantinha os sentidos aguçados, preparado para defender a mulher que amava. Unidos, eram como duas metades de uma mesma alma — um elo forjado pela necessidade de sobrevivência e temperado no fogo do amor.A alvorada não tardaria a banhar os céus de laranja e ouro, mas aquela manhã não seria como as outras. Desta vez, a luz do sol traria consigo caçadores — não de presas, mas de almas humanas.Yara olhou de relance para Tupã, os olhos expressando a certeza e a preocupação que tentava esconder. Ele não preci
A noite desceu sobre a floresta como um manto de veludo negro, ocultando os segredos e os medos que cresciam sob as copas altas das árvores. O vento murmurava canções antigas, que só aqueles de coração selvagem podiam compreender. Yara e Tupã caminhavam entre essas sombras, suas respirações sincronizadas com o pulsar da floresta viva, sentindo em cada passo o peso da perseguição que os rondava, como lobos famintos à espreita.A escuridão era um refúgio e um perigo. Ali, onde os raios da lua mal atravessavam o denso dossel de folhas, o casal sabia que a floresta poderia ser sua aliada ou sua ruína. As árvores, testemunhas silenciosas de séculos de histórias, pareciam abrigar segredos, oferecendo-lhes proteção, mas também alertando sobre o que viria.Tupã, com seus sentidos afiados, parou abruptamente e olhou para Yara. Um leve farfalhar de folhas ao longe indicava que seus perseguidores não estavam distantes. A tensão pairava no ar, espessa como o aroma úmido da terra.— Precisamos acha
O sol nascente despontava no horizonte, tingindo de dourado as copas das árvores, mas a luz que quebrava a escuridão não trazia consolo. Pelo contrário, o amanhecer revelava o início de um novo desafio, e Yara e Tupã sabiam que a perseguição havia apenas começado.As marcas no solo eram inconfundíveis. Tupã, agachado junto a uma trilha de folhas amassadas, examinava os rastros com olhos atentos. Havia pegadas largas, impressas profundamente na terra úmida, pesadas como as intenções daqueles que as deixaram. Ele passou os dedos pelos sulcos no chão e estreitou os olhos.— Não são guerreiros comuns — murmurou Tupã, a voz grave cortando o silêncio da floresta. — São homens brancos, caçadores de recompensas. A paga deles é o peso de nossas cabeças.Yara se a
Os Guerreiros da Lua Negra avançavam lentamente, suas pinturas de guerra brilhando sob os raios de sol que filtravam pelas copas das árvores. Seus olhos não mostravam piedade, apenas a frieza de quem cumpre uma missão sagrada. Do outro lado, os caçadores de recompensas, armados até os dentes, começavam a se reorganizar após a queda de um dos seus. O despenhadeiro era uma ameaça silenciosa, um abismo que poderia ser tanto uma armadilha quanto uma saída.Tupã olhou para Yara, e em seus olhos ela viu não apenas a obstinação de um guerreiro, mas a resolução de alguém que já havia perdido tudo e não tinha mais medo de perder. Ele sussurrou, quase inaudível:— A floresta nos protege, mas só se a respeitarmos. Vamos agir. Depressa.Yara acenou com a cabeça, sua mente trabalhando em sincronia com a dele. Ela sabia que encarar tantos inimigos de uma só vez era imprudente, mas também tinha plena consciência de que a floresta estava do seu lado. Com um olhar ligeiro, ela indicou uma árvore próxim
A floresta, até então cúmplice silenciosa de Yara e Tupã, parecia respirar com um peso diferente naquela manhã. O ar, carregado de umidade e segredos, não trazia o frescor habitual. O vento que costumava sussurrar suas canções ancestrais agora se calava, como se os espíritos da selva pressentissem o que estava por vir.Yara e Tupã haviam fugido por tempo suficiente para conhecer o gosto amargo da liberdade. Mas, naquele momento, sob o céu cinzento que mal deixava o sol atravessar as nuvens, eles sabiam que não poderiam correr para sempre. A escolha que se aproximava era inevitável, como a maré que lentamente engole a areia da praia.— Tupã — Yara começou, seus olhos fixos no horizonte incerto —, até quando poderemos escapar? Até onde podemos ir sem nos perder de nós mesmos?A voz dela era suave, mas as palavras traziam consigo uma carga pesada. A pergunta que ela fizera não era apenas sobre a fuga física. Yara sentia, como um peso em seu peito, que cada passo dado na direção contrária