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Capítulo 4: Ecos do Passado

Os Guerreiros da Lua Negra avançavam lentamente, suas pinturas de guerra brilhando sob os raios de sol que filtravam pelas copas das árvores. Seus olhos não mostravam piedade, apenas a frieza de quem cumpre uma missão sagrada. Do outro lado, os caçadores de recompensas, armados até os dentes, começavam a se reorganizar após a queda de um dos seus. O despenhadeiro era uma ameaça silenciosa, um abismo que poderia ser tanto uma armadilha quanto uma saída.

Tupã olhou para Yara, e em seus olhos ela viu não apenas a obstinação de um guerreiro, mas a resolução de alguém que já havia perdido tudo e não tinha mais medo de perder. Ele sussurrou, quase inaudível:

— A floresta nos protege, mas só se a respeitarmos. Vamos agir. Depressa.

Yara acenou com a cabeça, sua mente trabalhando em sincronia com a dele. Ela sabia que encarar tantos inimigos de uma só vez era imprudente, mas também tinha plena consciência de que a floresta estava do seu lado. Com um olhar ligeiro, ela indicou uma árvore próxima, cujas raízes se entrelaçavam em uma rede natural, formando uma passagem estreita para um túnel escondido.

— Ali — sussurrou ela. — É nossa única chance.

Tupã concordou com um movimento quase imperceptível. Eles precisavam agir antes que os Guerreiros da Lua Negra e os caçadores de recompensas se coordenassem. Enquanto os dois grupos se encaravam, hesitantes, Yara e Tupã se moveram como sombras, deslizando para o túnel escondido.

Dentro do túnel, a escuridão era quase absoluta, mas Tupã conhecia cada centímetro daquela floresta. Ele guiou Yara com segurança, seus passos silenciosos e precisos. O som de vozes e passos pesados ecoava atrás deles, mas logo começou a se dissipar. O túnel os levou para uma clareira escondida, onde a luz do sol brilhava suavemente sobre um riacho cristalino.

— Eles não nos seguirão por aqui — disse Tupã, respirando fundo. — Este lugar é sagrado. Meu povo acredita que espíritos guardiões protegem esta clareira.

Yara olhou em volta, sentindo a energia tranquila do local. Era como se a floresta os abraçasse, oferecendo um momento de paz em meio ao caos. Ela se ajoelhou à beira do riacho, molhando o rosto com água fresca.

— Precisamos de um plano — disse ela, secando o rosto com a manga. — Eles não vão desistir. E agora sabem que estamos juntos.

Tupã assentiu, sentando-se ao lado dela. Ele olhou para o céu, onde as nuvens começavam a se formar, anunciando um possível diluvio.

— A chuva pode nos ajudar — disse ele. — Se conseguirmos chegar ao Vale das Sombras, podemos perdê-los. É um lugar traiçoeiro, cheio de névoa e ilusões. Até os mais experientes caçadores se perdem lá.

Yara franziu a testa.

— E nós? Como não nos perderemos?

Tupã sorriu, um gesto raro que iluminou seu rosto por um instante.

— Porque eu conheço os caminhos. Meu avô me ensinou. Ele disse que o vale é protegido pelos espíritos dos Antigos, e só aqueles que respeitam a floresta podem atravessá-lo em segurança.

Yara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela se perguntou se ele dizia aquilo apenas para confortá-la, mas havia algo na maneira como Tupã falava que a fazia querer acreditar. A floresta era mais do que apenas árvores e animais; era um ser vivo, com vontade própria.

— Então vamos — disse ela, levantando-se. — Antes que a chuva comece e torne o caminho mais difícil.

Eles seguiram adiante, deixando a clareira sagrada para trás. A floresta parecia mais densa agora. O som da chuva começou a cair, suave no início, mas logo se transformando em uma cortina de água que dificultava a visão.

Conforme caminhavam, Yara sentiu algo estranho. Era como se estivessem sendo observados, mas não por inimigos. Ela olhou para Tupã, que parecia sentir o mesmo.

Os espíritos estão nos observando, pensou ela, sem parar de caminhar. Eles sabem por que estamos aqui.

Yara não disse nada, mas sentia um peso em seu coração. Parte de si intuía que a jornada deles não era apenas sobre sobrevivência. Era sobre redenção, sobre provar que eram mais do que as sombras de seus passados.

Quando finalmente chegaram ao Vale das Sombras, a névoa era tão densa que mal podiam ver a poucos metros à frente. Tupã parou, fechando os olhos por um momento, como se estivesse se conectando com algo maior.

— Siga-me — disse ele, estendendo a mão para Yara. — E não solte, não importa o que aconteça.

Yara agarrou sua mão com firmeza, e juntos eles adentraram a névoa. O ar estava frio, e os sons da floresta pareciam distorcidos, como se estivessem em outro mundo. Yara sentiu uma sensação estranha, como se o tempo e o espaço não fizessem mais sentido.

De repente, ouviram vozes atrás deles. Os caçadores de recompensas e os Guerreiros da Lua Negra haviam se unido, formando uma aliança temporária em sua busca. Mas no vale, suas vozes soavam distantes, quase irreais.

— Eles não nos alcançarão — sussurrou Tupã, sua voz ecoando na névoa.

— O vale os confundirá. Eles não têm respeito pela floresta — observou Yara.

Yara se permitiu experimentar um breve alívio, embora intuísse que a jornada estivesse longe do fim. Conforme avançavam, sua mente voltava às palavras que Tupã lhe dissera antes. Até onde estavam dispostos a ir? A resposta era clara: até o fim. Juntos, eles encarariam não apenas os inimigos que os perseguiam, mas também os demônios internos que os assombravam.

Sob a névoa densa do Vale das Sombras, Yara e Tupã avançaram, decididos a forjar seu próprio destino, distante das garras daqueles que desejavam vê-los destruídos. A floresta, repleta de mistérios e segredos, era sua única aliada, e ambos sabiam que, enquanto permanecessem unidos, nada seria capaz de detê-los.


A floresta, com suas sombras ancestrais, parecia envolvê-los em um abraço silencioso. Os sons da perseguição haviam se afastado momentaneamente, e o manto da noite se estendia mais uma vez, trazendo consigo a sensação de um passado que nunca fora completamente deixado para trás. Yara e Tupã, ali, em meio ao silêncio perturbador da selva, sentiam o peso oculto de suas histórias.

Sentados sob uma árvore gigantesca, cujas raízes emergiam da terra como braços de gigantes adormecidos, ambos pareciam ser tragados pelos seus próprios pensamentos, como se os ecos de tempos antigos viessem à tona. A quietude ao redor trazia memórias, como ventos que sopram de longe, carregados de cicatrizes antigas.

Yara apertou a mão contra o peito, sentindo o coração bater com a mesma intensidade de quando fugira de sua aldeia. Os olhos, que agora fitavam as estrelas por entre os galhos das árvores, não enxergavam apenas o presente, mas também a imagem nítida de seu passado.


Ela era jovem, cheia de sonhos e desejos. Yara, filha do chefe da tribo, fora prometida ao mais poderoso guerreiro da aldeia, Caiapó, um homem temido e admirado por sua força. No entanto, aos olhos de Yara, ele não era mais que uma cela dourada. A ideia de casar-se com ele, de se submeter ao que o conselho tribal determinava, era sufocante. Seus pés ansiavam por caminhar por caminhos desconhecidos, longe das tradições que amarravam sua liberdade.

Naquela noite, sob o brilho do fogo que crepitava no centro da aldeia, as mulheres cantavam canções de casamento. Mas o coração de Yara batia em outro ritmo, um ritmo selvagem que ressoava com a batida da selva. Ao olhar para o futuro que estava sendo decidido por ela, Yara soube que aquele não era o seu destino. O vento parecia sussurrar em seus ouvidos, chamando-a para algo maior, para algo além dos limites impostos.

Com a coragem de uma tempestade e a suavidade de uma brisa, Yara tomou sua decisão. Ela não seria presa pelo destino traçado por outros. Naquela mesma noite, com a lua cheia como testemunha, fugiu. Deixou para trás a promessa de uma vida confortável, mas vazia. A liberdade, com todos os riscos e perigos, era a única amante à qual ela prometia sua fidelidade.


Do outro lado da clareira, Tupã olhava para o chão, como se as folhas caídas contassem histórias que apenas ele podia decifrar. Ele também carregava suas próprias cicatrizes, invisíveis, mas profundas, nascidas da traição e do exílio.


Tupã era o filho mais talentoso da sua tribo. Líder natural, seu domínio sobre a floresta era admirado por todos. Ele caminhava como se a selva o conhecesse, e suas habilidades com o arco eram lendárias. Os anciãos da tribo já o viam como o sucessor, o líder que guiaria seu povo por gerações.

Mas foi justamente essa confiança cega que o deixou vulnerável. Kurupi, seu amigo de infância, o homem que ele mais confiava, cobiçava o mesmo poder. Tupã não viu os sinais, os olhares de inveja, as palavras sussurradas no escuro. E quando a armadilha foi armada, foi ele, Tupã, quem caiu.

Acusado de traição contra sua própria tribo — um crime que nunca cometera —, ele foi expulso, desonrado diante daqueles que um dia o respeitaram. Kurupi assumiu o lugar que sempre quis, enquanto Tupã foi forçado a vagar sozinho pela selva, sem lar, sem tribo.

O exílio era uma dor profunda, mas a traição de alguém que ele considerava um irmão era uma ferida que jamais se fecharia.


Yara e Tupã, agora sentados lado a lado, compartilhavam o silêncio daqueles que haviam perdido tudo, exceto sua liberdade. Era um silêncio que não precisava de palavras, pois ambos entendiam o que era carregar o peso de um destino que não escolheram, mas que também se recusaram a aceitar.

— Às vezes, a floresta nos dá o que precisamos — disse Tupã finalmente, sua voz baixa como o vento que soprava entre as árvores. — Mesmo quando parece que ela nos toma tudo.

Yara desviou o olhar das estrelas e o fixou nele, percebendo nas palavras de Tupã o mesmo sentimento que ecoava em seu próprio peito. O destino havia lhes roubado muitas coisas, mas os unira, e na união deles encontraram forças que talvez nunca teriam descoberto sozinhos.

— Talvez seja isso que a floresta faz — respondeu Yara, com um leve sorriso no canto dos lábios. — Ela nos quebra, para depois nos refazer à sua maneira.

Tupã a olhou, e naquele momento, os dois compreendiam algo profundo. Suas histórias, tão diferentes, estavam unidas pelo mesmo fio invisível da luta por liberdade, da rejeição ao destino imposto. Eram foras da lei, mas, acima de tudo, eram sobreviventes. Dois espíritos livres, moldados não pelo que perderam, mas pelo que escolheram lutar.

E naquele instante, sob a proteção das árvores ancestrais, eles souberam que, enquanto estivessem juntos, não importava o quão poderosos fossem os inimigos. Estavam prontos para enfrentar o que viesse, pois a liberdade, por mais dolorosa que fosse, ainda era a única vitória que realmente importava.

A floresta, como sempre, os acolhia em seu misterioso seio, sussurrando suas canções antigas, como uma mãe que embala seus filhos rebeldes.

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