A noite tornava-se cada vez mais fria, poucas estrelas pontuando o céu. Dentro da luxuosa e prestigiada residência Bellini, um acordo pré-nupcial estava sendo elaborado. Com apenas 17 anos, Scarllet Bellini estava sendo prometida à família Ferreti.
A aliança entre os Ferreti e os Bellini se fortalecia, mas Antonella Bellini não concordava com isso. Debruçada sobre a cama em seu quarto, escrevia intensamente em seu diário, descarregando as dúvidas sobre esta decisão. Não que fosse ingrata pela prestigiosa união. Para os Bellini, aquilo deveria ser uma honra. Além disso, Scarllet jamais olhara para outro homem em sua vida, seu coração pertencia a Giovani Ferreti, desde sempre. Para Antonella, isso até poderia ser bonito — se o noivo estivesse, ao menos, presente. Sentia que a sua irmã, era como uma peça em um tabuleiro de xadrez, como mulher, tendo seus sentimentos e desejos sendo ignorados em nome do legado familiar. Sempre imaginou que, ao crescer, teria a chance de escolher seu próprio caminho, ao invés de ser empurrada para um casamento arranjado, onde seu futuro poderia ser decidido sem que ela tivesse uma palavra a dizer. Cada pensamento sobre Scarllet, sua irmã mais velha, a fazia sentir um aperto no peito. Scarllet ainda não compreendia o peso dessa decisão. Como ela poderia prender-se a um homem no inicio de sua juventude, tendo anos sem tê-lo visto? O som da porta se abrindo a tirou de seus pensamentos. Era sua mãe, Elena Bellini, uma mulher de postura impecável e olhos azuis, que escondiam mais segredos do que Antonella poderia imaginar. — Filha mia, por favor, desça. Venha ficar conosco. — disse Elena, com a voz suave, porém firme, enquanto se aproximava, acariciando as costas de Antonella. — Ficar aqui enquanto selamos um acordo de casamentos para a sua irmã em casamento é falta de respeito. Antonella levantou os olhos encontrando o olhar imperturbável de sua mãe. Uma sensação de culpa a invadiu, mas também uma vontade crescente de questionar tudo o que estava sendo imposto naquela sala. Afinal, os anos haviam passado, muita coisa havia avançado. Por que os costumes deles precisavam ser tão antigos? Não havia desejo algum de descer e participar daquela reunião, mas sabia que era necessário. No futuro, o herdeiro dos Ferreti seria o don da Cosa Nostra di Velenza, e todos deveriam respeitá-los. Com pouco ânimo, assentiu. — Está bem, mamãe. Estou terminando, logo me juntarei a vocês. — Elena sorriu vagamente, sem compreender o que tanto sua filha escrevia naquele caderno, a pressão era visível em seu rosto. Ela também não desejava alimentar um amor de infancia em sua primogênita. Já fazia anos que Giovani não retornava à casa, mas a decisão de unir Giovani e Scarllet parecia vir de Dom Giussepe, embora Elena suspeitasse que fosse, na verdade, uma escolha de Irina. Nunca escondeu sua devoção por Scarlett, a mimando. Com passos curtos, Elena deixou o quarto de Antonella e, ao passar pelo corredor, observou de cima, as cinco pessoas ali presentes na sua sala. A Senhora Irina Ferreti, a dama da Cosa Nostra di Velenza, estava sentada no amplo sofá branco aveludado, usando um vestido verde oliva impecavelmente elaborado além de estar adornada com joias de luxo — esmeraldas, Elena tinha certeza — que brilhavam no pescoço, orelhas, pulsos e dedos. Ela estava atenta a tudo o que os homens diziam. Ao lado dela, Dom Giussepe, em seu habitual terno preto, fazia chegava a um acordo com o consigliere, Pablo Bellini. O esposo de Elena parecia confuso, como se soubesse que as formalidades estavam sendo apressadas demais, mas, como poderia se opor às decisões do Don? Ainda mais como beneficiava a sua família? Scarllet, sentada na ponta do sofá, com ambas as mãos sobre os joelhos, vestia um vestido rosa suave. Seus cabelos loiros estavam presos com um grampo, deixando-os metade soltos. Com a sua beleza marcante, ela nada dizia. O que poderia dizer? Mas seu corpo denunciava que seu coração queria correr para todos os lugares. Giovani era seu amor de infância, Elena ainda recordava os bilhetes com corações desenhado, contendo iniciais de seus nomes dentro. Desceu os degraus devagar, ciente da decisão importante que estava sendo tomada. O advogado da Cosa Nostra di Velenza digitava tudo o que fora acordado entre os homens, e, de vez em quando, Irina atrevia-se a falar. Elena, por sua vez, se sentia nervosa. Ela sabia como seriam dolorosos os próximos passos. Buscando uma desculpa para sair daquele ambiente, seguiu para a cozinha para organizar o jantar. Passados dez minutos, Antonella desceu os degraus, usando um macacão folgado azul de malha, cabelos negros soltos, ondulados, chinelos de dedo nos pés. Ela não havia se arrumado para aquela reunião, sua roupa pouco importava. Embora mais nova, com apenas 14 anos, a filha caçula dos Bellini demonstrava firmeza em suas palavras, nunca houvera medo de expressar o que pensa. Ao chegar a sala, os presentes a olharam, desviando as cabeças ao perceberem sua presença. — Buona sera a tutti! (Boa noite a todos) — os cumprimentou, olhando de um para o outro, do mais velho ao mais novo que vieram de fora. Seu olhar denunciava reprovação pelo que estava acontecendo ali, e, apesar de sua juventude, Antonella exibia uma postura firme, mais madura que a de sua irmã aos dezessete. Os olhos de Don Giussepe suavizaram-se rapidamente ao vê-la. — Buona sera, Antonella. — O advogado respondeu sorrindo, para ele, ela ainda era uma criança. — Boa noite! — Irina Ferreti a cumprimentou de volta, com pouco agrado. — Buona sera, Ella, venha aqui, a tuo tio. — disse o Don com alegria, desejando-a boa noite, estendendo a mão sobre a coxa direita para chamá-la, os olhos de Irina acompanhavam o gesto com desagrado. Não gostava de como Giussepe a tratava. Enquanto se aproximava de Don Giussepe, Antonella não pôde evitar o desconforto. A tensão no ar parecia pesar sobre seus ombros, tornando cada passo mais difícil de dar a cada olhar de todos os presentes. — Como vai, tio? — Perguntou ao se aproximar. Irina já suspeitava que seu esposo nutria sentimentos pela jovem Antonella, mas seu coração já havia escolhido Scarllet como sua futura nora. Essa lhe parecia mais bela aos seus olhos. Mais feminina. Servia perfeitamente para compartilhar a sua casa, além de parecer muito mais maleável. Com certo refino, seria perfeita para está ao lado do seu filho futuramente, fazê-la companhia. Um beijo foi depositado na bochecha do Don, e, em seguida, como uma forma de escapar daquela reunião, Antonella apontou para a cozinha. — Licenza, irei ajudar a mia madre na cucina! Don Giussepe a viu com graça, assentindo em seguida, com um semblante alegre. — vá vá tesouro mio. — Disse ele, feliz. Enquanto, Scarllet, sentada no sofá, permaneceu em silêncio. Mesmo que o assunto fosse sobre ela, nada poderia questionar. Possuía apenas 17 anos, e aos olhos dos presentes, que juízo poderia ter? Naquela noite, uma união foi selada, não apenas entre os Ferreti e os Bellini, que já durava mais de trinta anos, mas também entre Scarllet e Giovani, reforçando a aliança entre as famílias. Uma promessa foi feita, mas... Nada foi passado para o filho ausente, que, longe de sua terra, não sabia que seu futuro havia sido unido com uma jovem que, quando menina, o olhava com ternura. Para Giovani Ferreti, aquilo era coisa de criança. Pouco se lembrava disso. Nunca dera um beijo sequer em Scarllet. Não partiu por vontade própria. Foi mandado embora.Anos antes: O ambiente estava envolto em uma escuridão impenetrável, a única luz que conseguia penetrar o espaço vinha das pequenas frestas nas paredes grossas, quase imperceptíveis. O ar era denso, úmido e pesado, como se a própria estrutura do lugar tivesse absorvido anos de estagnação. , O lugar era uma prisão disfarçada de esquecimento. Ferro, em suas mais variadas formas, dominava o ambiente. Grades enferrujadas cruzavam o espaço, dividindo-o em pequenos compartimentos, como se cada canto fosse uma cela isolada do resto. As barras, cobertas por manchas de oxidação, refletiam a pouca luz que ousava entrar, criando sombras distorcidas nas paredes úmidas e escuras. Correntes pesadas se arrastavam pelo chão, ainda presas a pontos fixos, os elos enferrujados se entrelaçando de maneira desordenada, como serpentes que se arrastam sem rumo, mas com um peso de permanência. Preso a elas, havia um corpo nu, sem uma peça que o cobrisse sequer, não havia mais resquício de vergonha, c
Era manhã naquela terça-feira, quando, ao terminar uma reunião, Giovanni suspirou profundamente.Sua mãe o ligava mais uma vez, e ele sabia o que ela diria: que sentia sua falta, que o amava.No entanto, a cada ligação, a cada palavra reconfortante que ele já ouvira tantas vezes, uma sensação crescente de distanciamento se formava dentro dele.Ana, com sua presença constante e seu carinho, parecia ter tomado o lugar que antes era reservado para a mãe, mas ainda assim, ele atendeu.— Madre? — A voz de Giovanni estava calma, mas ele sabia que algo diferente estava prestes a acontecer.Do outro lado da linha, a voz de sua mãe tremia. E, em um suspiro carregado de dor, ela revelou o inesperado:— Figlio mio, tuo padre è morto... (Filho, seu pai está morto...) — a voz dela falhou por um momento, como se uma parte dela ainda não acreditasse no que estava dizendo. Então, ela prosseguiu, com uma mistura de alívio e tristeza na voz: — Agora, tu pode tornare para casa.As palavras da mãe de Giov
— O Giovani, o amore mio está voltando, Ella! — Scarllet exclamou, com as bochechas ruborizadas, sua excitação crescendo a cada palavra. Ela estava praticamente radiante, com os olhos azuis celestiais brilhando, como se o mundo tivesse se tornado um lugar melhor só pela ideia de que Giovani, aquele homem por quem ela nutria um amor profundo, estava prestes a retornar.No entanto, à medida que as palavras de sua irmã tomavam forma, a alegria de Antonella, foi diminuindo rapidamente, voltando a deitar-se no chão, abrindo novamente o seu livro sobre o tapete, ouvi aquela notícia e, em vez de partilhar da mesma empolgação, viu seus ombros caírem em desânimo.Ela sabia que as promessas de retorno de Giovani não eram novidades. Havia mais de dois anos desde a morte de Don Giussepe, e as promessas de retorno de Giovani para ocupar seu lugar, como herdeiro e líder da família Ferreti, tornaram-se quase um eco vazio no ar. Cada vez que a esperança era reacendida, parecia que o retorno de Giovan
A alegria de Scarlett era efêmera, se dissipando à medida que o dia avançava. Ao ouvir que a viúva Ferreti, Irina, logo se juntaria à sua irmã, Antonella sentiu um peso sobre os ombros. Ela sabia que as tensões na casa Bellini estavam longe de se acalmar.Como de costume, Antonella pegou seu livro, o guardou na bolsa e, sem ser notada, saiu em direção a um lugar que conhecia bem: a praia.Caminhar pela orla sempre lhe trazia uma sensação de tranquilidade que nada mais parecia oferecer. Naquela tarde, a ideia de caminhar até o café na praia parecia a melhor escolha, uma oportunidade para se afastar um pouco da tensão que sempre rondava sua casa.Irina Ferreti, a viúva do antigo Don, havia se tornado um espinho em seu coração. Antonella não a suportava. E a viúva, por sua vez, deixava claro, com sua postura e atitudes, que Antonella e sua presença na família Bellini não tinham valor algum.Antonella se opunha a cada movimento de Irina, principalmente no que dizia respeito à educação de S
O tempo passava sem que Antonella percebesse. As palavras fluíam diante dos seus olhos, enquanto a mente trabalhava sem parar, como sempre acontecia quando se deixava envolver em seus pensamentos. A praia lá fora, o som suave das ondas, e o calor do café se misturavam à sua solidão, ao vazio que ela sentia dentro de si. Quando finalmente levantou os olhos das páginas, o mundo ao seu redor a despertou de seu transe. A noite já havia se estendido, as últimas luzes do dia sumindo lentamente no horizonte. O lugar estava totalmente vazio, com os funcionários começando a arrumar as mesas para fechar. O garçom se aproximou de sua mesa, seus passos silenciosos no chão de madeira. Ele parecia hesitante, como se sentisse culpa, por interrompe-la. Quando Antonella olhou para ele, seus olhos cruzaram, e ele murmurou suavemente: — Senhorita... A expressão no rosto do garçom não passava despercebida. Ela olhou rapidamente para o relógio, um susto apertando seu peito ao perceber que já passava
Enquanto Antonella andava, chegando a porta de casa, sob os olhares de Domênico. Giovani Ferreti caminhava em direção ao bar, em que sempre vira seu pai entrar, ele sempre quiserá estar naquele bar, quando garoto, porém, todas as vezes que veio, seu pai, nunca o levava com ele.Antoni ao seu lado desta vez, sentia-se contrariado, Giovani havia lhe dito que viria a negócios, mas agora, buscava por diversão? Dentro do primo havia medo, duvidas, sobre a vinda de Giovani a este lugar, por ele, seu parceiro nunca poderia abandona-lo. Giovani Ferreti avançava com passos firmes em direção ao bar, sentindo a familiaridade do lugar envolvê-lo, como se as memórias de sua juventude o consumissem.O local, embora já desgastado pelo tempo, ainda exalava aquele cheiro inconfundível de mistério e poder, um refúgio de negócios e segredos. A porta de madeira escura estava entreaberta, e ao atravessar o umbral, Giovani sentiu uma onda de nostalgia misturada com uma certa repulsa.Mais mulheres semi-nua
O La Trattoria del Vento já não tinha a mesma atmosfera que Giovani lembrava. O ambiente, antes acolhedor, agora exalava desconfiança, especialmente para os turistas que ousavam entrar ali. Ele e Antoni se sentaram, sentindo os olhares pesados e desconfiados daqueles que frequentavam o lugar. O clima estava tenso, quase palpável, e não havia dúvida de que algo estava errado.A ruiva que os havia recebido na entrada se aproximou apressadamente de um homem sentado no sofá, rodeado por outros homens e mulheres. Giovani sentiu o peso do olhar do homem careca, de terno bege, que os observava com uma atenção especial. Sua expressão era séria, como se os analisasse em cada movimento. A ruiva disse algo ao homem, algo que claramente envolvia os dois, e, após ouvir, o homem retirou a mão que estava próxima de uma pistola, mas seu olhar ainda permanecia fixo em Giovani.Antoni, percebendo a tensão, foi o primeiro a quebrá-la. Com as mãos erguidas, tentou amenizar a situação:— Estamos em paz, am
Um novo dia começava, trazendo com ele a luz suave que invadia as janelas, iluminando o quarto de Antonella. Ela despertou lentamente, os olhos ainda pesados, tentando se ajustar à realidade do novo dia. Não imaginava que, no andar de baixo, sua família já estava reunida, e que uma presença peculiar estava prestes a mudar o curso da manhã.Após um banho rápido, Antonella se ocupou em arrumar seu quarto. As mãos se moviam mecanicamente enquanto seus pensamentos estavam longe outra vez. Quando finalmente desceu as escadas, com poucos tilintar de xícaras, parecia ser o único som. — Bom dia família! — Ela desceu os degraus sorridente, seu rosto lavado, usando um vestido florido folgado e o cabelo preso num coque simples. O som suave dos seus pés no chão de madeira contrastava com o silêncio pesado que se fazia na casa.Quando chegou à sala de refeições, ficou parada na entrada, surpresa ao ver que não estavam apenas seus pais à mesa. Sua irmã, Scarllet, sempre tão radiante, estava ali, m