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O Exílio de um Herdeiro

Anos antes:

O ambiente estava envolto em uma escuridão impenetrável, a única luz que conseguia penetrar o espaço vinha das pequenas frestas nas paredes grossas, quase imperceptíveis.

O ar era denso, úmido e pesado, como se a própria estrutura do lugar tivesse absorvido anos de estagnação. ,

O lugar era uma prisão disfarçada de esquecimento.

Ferro, em suas mais variadas formas, dominava o ambiente. Grades enferrujadas cruzavam o espaço, dividindo-o em pequenos compartimentos, como se cada canto fosse uma cela isolada do resto.

As barras, cobertas por manchas de oxidação, refletiam a pouca luz que ousava entrar, criando sombras distorcidas nas paredes úmidas e escuras.

Correntes pesadas se arrastavam pelo chão, ainda presas a pontos fixos, os elos enferrujados se entrelaçando de maneira desordenada, como serpentes que se arrastam sem rumo, mas com um peso de permanência.

Preso a elas, havia um corpo nu, sem uma peça que o cobrisse sequer, não havia mais resquício de vergonha, como poderia ter?

Exceto pelas manchas roxas que se formavam em algumas partes, além das vermelhas, o sangue  impregnado, seco, os pés presos para o teto, levando todo o corpo para baixo, deixando os cabelos negros em pé.

A cada movimento, o atrito do metal, contra a pele, tornava-se agonizante, forçando uma pressão contra a carne, o que tornava a dor incessante, o levava a beira da loucura.

Giovani Ferreti, possuia lembranças turvas, mas algumas imagens persistiam: rostos conhecidos, vozes, risadas, um mundo além de paredes sujas e escuras.

Ele já não sabia o que era pior, naqueles trinta e seis dias, presos nas mãos dos inimigos.

Os momentos que se via sozinho sentindo cada parte do seu corpo doer, latejar, reclamando da dor ou quando era levado aos tanques de água, sendo submesso neles, ate ficar sem ar, e em seguida sendo questionado sobre os negócios de sua família.

Sendo o único herdeiro do Don Giussepe, tudo desde cedo deveria lhe ser ensinado.

Mas não foi assim.

O Don, mal o olhava, pouco falava com ele.

O que para Giovani no inicio, era visto como que o pai não gostava dele, mas a medida que fora crescendo, sentia vividamente a rejeição paterna.

Porém, isso não era tudo.

Após oito sequestros, seu pai ainda se tornava cada vez mais frio e distante dele.

Ser o futuro Don da Cosa Nostra di Velenza exigia mais do que simplesmente carregar o nome da família ou ter o direito de governar. Era necessário um peso constante, um fardo invisível que se apegava à alma, que consumia até os menores momentos de paz.

Não era apenas uma questão de poder; era uma questão de respeito, lealdade, e, acima de tudo, sobrevivência.

A vida de um futuro Don não poderia ser como a dos outros, e Giovani soubera disso desde cedo. Quando, finalmente, conseguiu escapar de um sequestro, sua mente estava apenas focada na fuga, garantir a sobrevivência.

Ele se esgueirava pelos cantos escuros da mata, corria pela trilha que, apesar de familiar, parecia infinitamente distante de casa.

O medo e a adrenalina conduziam cada passo, e a única coisa que ele queria era encontrar abrigo, voltar à sua família, sentir-se seguro, como um filho comum, livre da pressão que sempre o acompanhara.

Mas a realidade que o aguardava seria cruelmente diferente.

Ao chegar em casa, depois de horas de fuga, ele imaginava um momento de alívio, um encontro caloroso, o alívio nos olhos de sua mãe, talvez até um sorriso de orgulho do pai.

Ele acreditava, por um momento, que sua dor e esforço teriam sido compreendidos, que sua fuga, sua sobrevivência, seriam celebradas.

Mas ao ser levado até o seu pai, uma sensação estranha e gelada tomou conta de seu estômago. A figura do velho, seu próprio pai, parecia mais distante e implacável do que nunca.

Giovani mal teve tempo de explicar, antes que pudesse dizer qualquer palavra, o som do tapa ressoou alto e seco no ar. Queimando, levando a sangrar o lado atingido do seu rosto.

O menino, com apenas 11 anos, não compreendia a brutalidade das palavras de seu pai. O olhar de Giovanni estava distante, perdido, absorvendo a humilhação que lhe foi imposta.

As palavras "Covarde! Caspita!" cortavam sua alma, mais afiadas que qualquer lâmina. Seu pai estava irado, com o rosto contorcido pela raiva, e o tapa que havia lhe dado parecia pouco comparado à tormenta que se abatia sobre ele.

Giussepe Ferreti não teve piedade. O garoto, magro e frágil, parecia um menino indefeso diante dos homens fortes que compunham a Cosa Nostra.

Ele não tinha treinamento, não possuía o poder de lutar contra os inimigos que o haviam capturado. Sua mente ainda era uma criança, não estava preparado para a dureza do mundo em que nascera.

— Covarde! — O berro de Giussepe ainda ecoava nos ouvidos de Giovani, como um fardo pesado, que parecia esmagá-lo a cada segundo.

O que mais poderia fazer um garoto? Não tinha como lutar, não tinha como ser forte. Ele sentia os ossos frágeis, o corpo pequeno demais para ser um herói. Ele havia feito o que qualquer criança faria ao tentar escapar. Mas, para seu pai, isso não era suficiente.

Giussepe Ferreti, no ápice da sua raiva, tomou uma decisão cruel e definitiva. O garoto não era mais digno de ser seu herdeiro. Não importava o quanto ele fosse seu sangue, não importava a linhagem que carregava.

Aos olhos de Giussepe, ele havia fracassado. E, como resultado, a vergonha que ele trouxe para a família e para o nome Ferreti não poderia ser tolerada.

Sem hesitar, com uma frieza cortante, Giussepe ordenou que o filho fosse levado para o exterior, bem longe, onde ninguém pudesse ver a vergonha de seu fracasso.

O Exílio — essa foi a sentença que Giovanni recebeu, sem piedade. Ele não merecia ser parte da Cosa Nostra, não era mais digno do nome que carregava.

O peso da decisão caiu sobre o garoto como uma rocha. Exilado, banido de sua própria casa, da própria família. A humilhação era cruel, mais do que ele jamais imaginara.

Na Cosa Nostra, as fraquezas não eram perdoadas. A vergonha de um filho que fugira do perigo, que não soubera lutar, se tornaria motivo de risos, piadas entre os membros da organização.

O nome de Giovanni seria lembrado, mas não com respeito — e sim como o exemplo de um menino fraco, incapaz de defender o legado de seu pai.

Giuseppe Ferreti acreditava que Giovanni, ao fugir de seu destino, havia falhado e, por isso, não poderia ser parte de sua vida.

Para ele, apenas um sucessor forte e sem medo de enfrentar desafios poderia manter o poder da Cosa Nostra. Por essa razão, exilou Giovanni, sem saber o que o futuro lhe reservava.

Os anos passaram, e enquanto Pablo Bellini e Irina Ferreti ainda desejavam o retorno do filho, Giuseppe permanecia irredutível, afirmando que Giovanni só voltaria após seu funeral.

Poderia haver arrependimento, mas um don, nunca voltaria atrás em suas palavras. Ele acreditava que Giovanni havia falhado ao fugir, que nunca poderia carregar o legado da família.

Entretanto, em Seattle, Giovanni encontrou uma nova vida. Acolhido por uma família desconhecida, porém calorosa, foi orientado por seu tio, tia e primo, que o ajudaram a crescer. Ele se afastou da frieza de seu pai e se destacou nos negócios, assumindo o controle do império Zelensky com tenra idade.

Transformando a organização com sua visão estratégica, Giovanni construiu um legado próprio, muito maior que o nome Ferreti.

Enquanto seu pai continuava a rejeitá-lo, Giovanni tornou-se um homem forte e astuto, forjando seu destino longe dos olhos rancorosos de Giuseppe, transformando o exílio em um recomeço e criando um império que superava as sombras do passado.

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