Guilherme narrando :A manhã passou rápido, entre uma reunião e outra. As discussões sobre a nova gestão da empresa estavam a todo vapor, e eu precisava me concentrar. O Eduardo estava lá, como sempre, tomando as rédeas da situação e fazendo com que tudo se encaixasse. Eu só estava ali pra dar as ordens finais, como sempre.Já estava dando o horário do almoço, eu estava com fome, sai pra almoçar em algum lugar e depois ia atrás de notícia da Camila. Sai da empresa e entrei no carro ainda com a cabeça cheia. O trânsito do Rio estava infernal, mas nem era isso que me incomodava. Quando de repente uma doida entrou na frente do carro e eu quase atropelei ela.Era ela.Camila.Eu tinha certeza que era ela. Mesmo depois de tantos anos, eu reconheceria aquele rosto em qualquer lugar.Apertei o volante com força. O que ela tava fazendo aqui? Como uma mulher que cresceu cercada de luxo agora tava com uma roupa simples andando a pé.Bati a mão no painel do carro, frustrado. O destino tinha um
Guilherme narrando :Continuação :Eu dirigi até o endereço que o Medeiros me enviou, e conforme fui me aproximando, o cenário ao meu redor começou a mudar. As ruas ficavam mais estreitas, os prédios mais simples, e as calçadas tinham mais gente andando, crianças brincando, vendedores ambulantes chamando os clientes. Um bairro humilde, completamente diferente do que eu imaginava para o homem arrogante que um dia se achava dono do mundo.Encostei o carro na rua indicada e observei ao redor. Nunca imaginei que aquele desgraçado acabaria aqui. A última vez que falei com ele, ele esbanjava dinheiro, poder, falava como se fosse intocável. Agora, parecia que a vida tinha cobrado o seu preço.Desci do carro, ajeitei o relógio no pulso e caminhei até a casa que o Medeiros me indicou. Era uma casa simples, com um portão de ferro enferrujado e uma pintura descascando. Bati na porta, firme. Esperei alguns segundos até ouvir passos arrastados vindo de dentro.A porta se abriu devagar, e eu dei de
Camila narrando :Cheguei em casa com a Gabi segurando minha mão, ainda sentindo meu coração disparado. Minha cabeça estava uma bagunça. Eu vi o Guilherme. Depois de tantos anos, ele estava ali, na minha frente, e quase me atropelou.A dona Maria, que estava sentada no sofá dobrando umas roupas, me olhou com preocupação assim que entrei.— Menina, o que aconteceu? Você tá pálida! — ela perguntou, largando o que tava fazendo.Engoli em seco, tentando disfarçar.— Eu… eu vi o Guilherme.Os olhos dela se arregalaram.— O pai da Gabi?Assenti, me sentando na cadeira mais próxima. Minhas pernas pareciam feitas de gelatina.— Ele quase me atropelou. Eu saí correndo, me escondi numa loja, mas acho que ele me viu.Dona Maria cruzou os braços, com um olhar sério.— E ele sabe da Gabi?Neguei rápido.— Acho que não… Pelo menos não ainda.Ela suspirou, preocupada.— Camila, cê sabe que isso não ia ficar escondido pra sempre. Se ele voltou pro Rio, uma hora ou outra ele vai descobrir.Apertei as
Camila narrando :Tentei me concentrar no trabalho, mas minha cabeça não parava. Cada vez que eu fechava os olhos por um segundo, a imagem do Guilherme surgia na minha mente. Depois de tantos anos, ele apareceu de novo… e pior, quase me atropelando.Sacudi a cabeça, tentando afastar esses pensamentos. Peguei a bandeja com café e fui levar pra uma das salas de reunião. Passei pelos corredores como sempre, mas parecia que todo mundo tava falando mais alto do que o normal, ou talvez fosse só o barulho dentro da minha própria cabeça.Entrei na sala, coloquei as xícaras na mesa e saí sem nem olhar muito pra quem tava ali. Eduardo, como sempre, me deu um leve aceno de cabeça, mas eu saí rápido, torcendo pra ninguém puxar papo comigo.De volta à copa, me encostei na bancada por um instante e respirei fundo.— Tá tudo bem, Camila? — uma colega perguntou, me olhando com curiosidade.Forçei um sorriso.— Tá sim, só uma dorzinha de cabeça.Ela deu de ombros e voltou pro que tava fazendo. Eu, por
Guilherme narrando :Eu passei a tarde inteira rodando pelo bairro, indo de prédio em prédio, perguntando por Camila, mas ninguém sabia de nada. Eu tava ficando cada vez mais frustrado. O calor do Rio parecia piorar a cada passo, minha cabeça já tava a mil, e a cada porta que se fechava na minha cara, eu sentia a pressão aumentar. Fui até a última rua que me mandaram, entrei em um posto de gasolina e perguntei pro frentista, mas ele também não soube de nada.No fim do dia, já exausto, decidi ligar pro meu advogado, o Medeiros, pra ver se ele tinha alguma atualização. Quando ele atendeu, a voz dele foi direta, quase sem emoção.— Não achei nada ainda, Guilherme. Mas a pesquisa continua. Vou te avisando.Eu desliguei sem dizer mais nada, sentindo um vazio no peito. Eu sabia que precisava encontrar Camila, precisava dela, mas parecia que a cidade inteira estava me enganando. Como ela podia desaparecer assim, sem deixar rastros?O medo de que ela estivesse fugindo, ou que alguém a estives
Camila narrando :Acordo devagar, ainda com aquele sono gostoso que só quem dormiu a noite inteira sabe. O sol entra pela janela, batendo de leve na minha cara, e eu dou aquele estiramento, sem pressa. Olho pro lado e lá está ela, a Gabi, dormindo tranquila, toda enrolada nas cobertas, com aquele jeitinho de anjo que me faz sorrir toda vez. Ela parece tão calma, tão serena, que por um segundo, me esqueço do resto do mundo.Fico ali só observando, pensando em como tudo pode ser tão confuso e simples ao mesmo tempo. Como uma criança tão pequena pode ser a razão de tudo o que faço, o meu ponto de equilíbrio, meu tudo. Aquele sorriso bobo aparece no meu rosto enquanto a vejo dormir. Só ela tem esse poder sobre mim.Respiro fundo e me forço a tirar os olhos dela, mesmo que seja difícil. A mente começa a voltar para o que me espera. Guilherme. Eu sei que ele vai voltar a aparecer, só não sei quando. E é isso que me aperta o peito, a incerteza. O que ele quer agora? O que ele pensa sobre tud
Guilherme narrando :Eu acordei de madrugada com a dor de cabeça pulsando, quase me afogando no peso da ressaca. A luz do dia parecia atravessar as cortinas, invadindo o quarto do hotel com uma agressividade silenciosa. Me levantei de qualquer jeito, tentando me equilibrar e, com a cabeça rodando, fui até o banheiro. O reflexo no espelho não me mentiu: parecia um desastre. Eu estava cansado, com a boca seca e o estômago revirando.Dei uma olhada no celular e percebi que já era tarde. Eu devia ter ido atrás da Camila ontem mesmo, mas, por alguma razão, deixei o tempo passar. Fiquei ali, parado, encarando a tela do celular. O que eu estava fazendo da minha vida? Fiquei me perguntando se eu estava realmente deixando ela escapar de novo. Mas não era só ela, né? Eu também estava fugindo das respostas que minha vida estava me dando.Voltei pro quarto e me joguei na cama, ignorando o peso da dor. Eduardo tinha ficado até tarde também. Ficamos conversando sobre o trabalho, mas não foi sobre o
Camila narrando:Eu tentei explicar da melhor forma possível pra Gabi o que aconteceu com o pai dela. Falei por cima, sem entrar em muitos detalhes, porque não queria sobrecarregar ela com mais uma história que ainda estava meio incompleta na minha cabeça. Disse que o pai dela tinha ido embora quando eu estava grávida e que, quando fui contar a ele, já era tarde demais. Ele já tinha partido e nunca mais tive notícia. A vida seguiu, e eu tentei tocar a minha, criando a Gabi sozinha.Mas agora, com tudo o que estava acontecendo, com ele na cidade de novo, eu sabia que não podia mais esconder a verdade. Não seria justo com a minha filha. Não podia mentir pra ela dizendo que o pai nunca quis saber dela, quando na verdade ele nem sabia da existência dela. E eu estava determinada a contar a verdade. Ela tinha direito de saber quem ele era, o que aconteceu e que, sim, o pai dela ainda estava por aí, mesmo que, até agora, ele não soubesse da filha que tinha.Porém, ao mesmo tempo, eu não sabi