Guilherme narrando :Eu acordei de madrugada com a dor de cabeça pulsando, quase me afogando no peso da ressaca. A luz do dia parecia atravessar as cortinas, invadindo o quarto do hotel com uma agressividade silenciosa. Me levantei de qualquer jeito, tentando me equilibrar e, com a cabeça rodando, fui até o banheiro. O reflexo no espelho não me mentiu: parecia um desastre. Eu estava cansado, com a boca seca e o estômago revirando.Dei uma olhada no celular e percebi que já era tarde. Eu devia ter ido atrás da Camila ontem mesmo, mas, por alguma razão, deixei o tempo passar. Fiquei ali, parado, encarando a tela do celular. O que eu estava fazendo da minha vida? Fiquei me perguntando se eu estava realmente deixando ela escapar de novo. Mas não era só ela, né? Eu também estava fugindo das respostas que minha vida estava me dando.Voltei pro quarto e me joguei na cama, ignorando o peso da dor. Eduardo tinha ficado até tarde também. Ficamos conversando sobre o trabalho, mas não foi sobre o
Camila narrando:Eu tentei explicar da melhor forma possível pra Gabi o que aconteceu com o pai dela. Falei por cima, sem entrar em muitos detalhes, porque não queria sobrecarregar ela com mais uma história que ainda estava meio incompleta na minha cabeça. Disse que o pai dela tinha ido embora quando eu estava grávida e que, quando fui contar a ele, já era tarde demais. Ele já tinha partido e nunca mais tive notícia. A vida seguiu, e eu tentei tocar a minha, criando a Gabi sozinha.Mas agora, com tudo o que estava acontecendo, com ele na cidade de novo, eu sabia que não podia mais esconder a verdade. Não seria justo com a minha filha. Não podia mentir pra ela dizendo que o pai nunca quis saber dela, quando na verdade ele nem sabia da existência dela. E eu estava determinada a contar a verdade. Ela tinha direito de saber quem ele era, o que aconteceu e que, sim, o pai dela ainda estava por aí, mesmo que, até agora, ele não soubesse da filha que tinha.Porém, ao mesmo tempo, eu não sabi
Guilherme narrando:Cheguei no coquetel e o lugar já tava lotado. Gente pra todo lado, risadas, música ambiente e aquele cheiro de perfume caro misturado com uísque. Mal pisei ali dentro e já veio alguém me chamar pra conversar, perguntar sobre negócios, cumprimentar. Eu não podia nem respirar direito.Eduardo, por outro lado, tava todo animado. Ele ficava olhando pra entrada, como se esperasse alguém.— E aí, tá esperando quem? — perguntei, só pra puxar assunto.Ele riu, ajeitou a gravata e disse:— Minha acompanhante. Te falei dela ontem, lembra? A copeira loira dos olhos claros?Franzi a testa. Eu lembrava da conversa, mas nem dei muita bola na hora.— Ah, sei… — respondi, sem muito interesse, pegando um drink da bandeja de um garçom que passou. Enquanto Eduardo saia dali.Eu tava ali, conversando com um empresario e outras pessoas, quando ele me chamou a atenção pra alguém. Me virei, meio sem interesse, mas no momento em que meus olhos bateram nela, senti como se tivesse levado um
Camila narrando :Eu saí dali rápido, não conseguia mais ficar ali, vendo aquela cena. Minha cabeça estava a mil, as palavras daquela mulher me cortaram como lâminas afiadas. No meio do caos, eu apenas andava sem rumo, até que cheguei na saída do coquetel. Naquele momento, não sabia se estava mais brava ou confusa. Era como se todo aquele mundo que eu pensava que conhecia estivesse desmoronando bem na minha frente. Guilherme… meu Deus. Não era só um homem qualquer. Ele era meu passado, minha história, meu medo. Mas agora, com aquela mulher ao lado dele, tudo o que eu sentia era um gosto amargo na boca. Eu parei na calçada, respirei fundo e olhei para o céu. A noite estava calma, mas dentro de mim o turbilhão não cessava. O que eu esperava dele, afinal? O que eu achei que ele fosse? Um príncipe? Fui tão ingênua. É claro que ele seguiu a vida dele, só eu que me fechei pra criar a minha filha, enquanto ele se divertia com essa aí.Com o coração apertado, comecei a andar sem destino. Nã
Jamile narrando :Eu sou a Jamile, tenho 27 anos, sou morena clara, cabelo curto e liso na altura do ombro, olhos pretos e, sem modéstia nenhuma, sou muito linda. Me formei em Direito, mas nunca exerci a profissão. Na verdade, sou rica, meu pai tem muitas posses, e eu nunca precisei trabalhar. Só fiz faculdade porque ele encheu o meu saco.Sempre tive tudo do bom e do melhor, sempre fui acostumada a conseguir o que eu quero, e isso inclui homens também. Foi assim com o Guilherme. A gente começou a ficar sem compromisso, mas eu percebi que ele tinha potencial, sabe? Bonito, inteligente, bem-sucedido. Um cara desses não se encontra toda hora, então eu segurei ele pra mim.Nosso relacionamento sempre foi tranquilo, sem muitas cobranças, até ele ir pro Rio a trabalho. Eu achei estranho ele não querer que eu viesse junto, mas não dei tanta importância. Só que, nos últimos dias, ele andava meio estranho no telefone, e meu instinto me dizia que tinha alguma coisa errada. Então, decidi fazer
Camila narrando : Eu tava pegando um copo d’água quando vi Jamile saindo pisando duro, a cara fechada, e Guilherme parado no canto do salão com a expressão de quem tinha acabado de ouvir umas boas verdades. Abaixei a cabeça e fingi que não vi nada, mas meu coração tava acelerado. Aquela mulher tinha uma energia ruim demais. — Tá tudo bem? — Eduardo perguntou, chegando perto. — Tá… — murmurei, mas na verdade, não tava coisa nenhuma. – Não liga pra Jamile, ela sempre foi assim, se acha a dona do mundo, uma mulher insuportável, não sei como o Guilherme aguenta ela. Eu amei ver você colocando ela no lugar dela. – Ele diz, e eu sorrio, sem graça. – Faz tempo que eles estão juntos ? – eu pergunto por curiosidade. – Acho que um ano, por aí – ele diz, dando de ombros. Antes que eu pudesse pensar em alguma desculpa pra sair dali, senti um olhar queimando em mim. Quando levantei os olhos, era Guilherme, vindo na minha direção com passos firmes. Meu peito apertou. Era como se o
Guilherme narrando :Eu me sentei na beirada do sofá, as palavras dela ainda ecoando na minha cabeça. Quando Camila disse que eu era mesmo o pai da Gabi, o impacto foi grande, maior do que eu imaginava. Por um momento, as pernas até fraquejaram e eu precisei de um segundo pra processar tudo. Eu sabia que a minha vida estava mudando, mas ouvir aquilo de novo, com aquela certeza, fez minha cabeça rodar.Eu me deixei cair, o peso do que ela acabou de dizer me fazendo ficar ali, sem saber o que fazer com a emoção que tomou conta de mim. A ficha foi caindo lentamente.Ela estava certa, eu era o pai da Gabi, não tinha mais como negar. E o mais louco de tudo, o que me fazia perder o ar, era que eu não sabia o que exatamente fazer com essa responsabilidade que tava caindo sobre mim. Como eu faria pra ser o pai dela depois de tanto tempo?Não pude evitar de deixar um suspiro sair dos meus lábios. Fechei os olhos por um segundo, tentando me centrar, porque tudo ali, na minha cabeça, estava uma
Guilherme narrando :Me virei devagar pra Jamile, respirando fundo pra não explodir. Camila limpava o rosto, visivelmente abalada, mas se manteve firme, encarando Jamile com desprezo.— O que você tá fazendo aqui? — Perguntei, cruzando os braços.— Eu que pergunto, Guilherme. Você sumiu e quando eu venho procurar, te encontro agarrado com essa daí. — Ela sorriu debochada, mas dava pra ver que tava mordida.— Essa daí tem nome. — Camila rebateu de cara fechada. — E, diferente de você, eu não preciso de homem pra nada.Jamile riu, cruzando os braços.— Claro. Não precisa, mas tá aqui chorando nos braços dele. Vai me dizer que não tá se jogando pra cima do Guilherme?— Você não sabe nada da nossa história. — Camila falou firme. — Então faz um favor e se coloca no seu lugar.Eu vi no olhar da Jamile que ela não esperava essa resposta. Ela me olhou, esperando que eu dissesse alguma coisa, que defendesse ela, mas eu não fiz nada. Porque naquele momento, eu já tinha entendido quem realmente