Guilherme narrando :Eu cheguei no Rio já tarde, o voo tinha se atrasado um pouco, mas nada que me tirasse do sério. O importante era que eu estava ali, pronto para resolver o que precisava. Quando desembarquei, vi o Eduardo esperando por mim, aquele cara sempre foi bem pontual.— E aí, irmão, tudo certo? — Ele perguntou, puxando minha mala.— Tudo certo, mano. Vamos logo que tenho que resolver um monte de coisa — respondi, ajeitando minha jaqueta. O Rio já estava silencioso, a cidade parecia que já estava adormecida. O som do carro na estrada e as ondas ao fundo eram tudo o que eu ouvia.— Eu já reservei o hotel, mas se você preferir ir direto para a empresa amanhã, podemos passar lá primeiro — Eduardo sugeriu, olhando de vez em quando para o retrovisor.— Não, vou descansar hoje. Amanhã a gente resolve isso. Preciso estar de boa para encarar tudo — falei, mais para mim mesmo do que para ele. Não estava no clima de correr atrás de mais nada agora.Quando chegamos no hotel, me despedi
Camila narrando :Acordei cedo, como sempre. O sol ainda estava fraco, mas a rotina não esperava. Levantei da cama e fui direto para o banheiro, tomei um banho rápido, tentando despertar de vez. Quando saí, Gabi ainda estava dormindo, abraçada ao ursinho de pelúcia. Fiquei ali por um instante, admirando a carinha tranquila dela, até que decidi acordá-la.Chamei ela baixinho, mexendo no cobertor para que ela despertasse aos poucos.— Gabi, filha... já tá na hora de acordar, vamos tomar banho, menina.Ela abriu os olhinhos, me olhou com aquele olhar preguiçoso de quem não queria sair da cama e fez aquele biquinho. Eu ri, porque sabia que em instantes ela estaria pulando de um lado para o outro, cheia de energia.Fui pegar a toalha e, enquanto ela ainda estava se espreguiçando, fui ligando a água do chuveiro. A água morna logo fez ela sorrir e, antes que eu percebesse, já estava me pedindo para jogar a espuma do sabonete na parede, como sempre fazia.— Mãe, olha, tô fazendo a parede vira
Camila narrando :Eu entrei na sala, equilibrando a bandeja com as xícaras de café. O Eduardo estava conversando com um homem moreno, de costas para mim. Eles pareciam concentrados no assunto e nem notaram minha presença.Coloquei as xícaras sobre a mesa com cuidado, sem querer interromper. Mas, no instante em que olhei para aquele homem, meu coração deu um salto. Tinha algo familiar nele. O jeito de se movimentar, a postura… Me lembrou o Guilherme.Engoli seco. Não podia ser. Era só impressão minha. Fazia anos que eu não via ele. O Eduardo me lançou um olhar rápido e fez um sinal com a mão, um simples gesto de agradecimento. Sem dizer nada, virei e saí da sala, mantendo a calma.Saí da sala sem fazer barulho, mas meu coração batia acelerado. Voltei para a copa e tentei me concentrar no trabalho. Mas a curiosidade ficou ali, me incomodando. Por que justo hoje, com a chegada desse novo dono, eu tive que lembrar do passado?Continuei minha rotina, limpando as bandejas e organizando tudo
Guilherme narrando :A manhã passou rápido, entre uma reunião e outra. As discussões sobre a nova gestão da empresa estavam a todo vapor, e eu precisava me concentrar. O Eduardo estava lá, como sempre, tomando as rédeas da situação e fazendo com que tudo se encaixasse. Eu só estava ali pra dar as ordens finais, como sempre.Já estava dando o horário do almoço, eu estava com fome, sai pra almoçar em algum lugar e depois ia atrás de notícia da Camila. Sai da empresa e entrei no carro ainda com a cabeça cheia. O trânsito do Rio estava infernal, mas nem era isso que me incomodava. Quando de repente uma doida entrou na frente do carro e eu quase atropelei ela.Era ela.Camila.Eu tinha certeza que era ela. Mesmo depois de tantos anos, eu reconheceria aquele rosto em qualquer lugar.Apertei o volante com força. O que ela tava fazendo aqui? Como uma mulher que cresceu cercada de luxo agora tava com uma roupa simples andando a pé.Bati a mão no painel do carro, frustrado. O destino tinha um
Guilherme narrando :Continuação :Eu dirigi até o endereço que o Medeiros me enviou, e conforme fui me aproximando, o cenário ao meu redor começou a mudar. As ruas ficavam mais estreitas, os prédios mais simples, e as calçadas tinham mais gente andando, crianças brincando, vendedores ambulantes chamando os clientes. Um bairro humilde, completamente diferente do que eu imaginava para o homem arrogante que um dia se achava dono do mundo.Encostei o carro na rua indicada e observei ao redor. Nunca imaginei que aquele desgraçado acabaria aqui. A última vez que falei com ele, ele esbanjava dinheiro, poder, falava como se fosse intocável. Agora, parecia que a vida tinha cobrado o seu preço.Desci do carro, ajeitei o relógio no pulso e caminhei até a casa que o Medeiros me indicou. Era uma casa simples, com um portão de ferro enferrujado e uma pintura descascando. Bati na porta, firme. Esperei alguns segundos até ouvir passos arrastados vindo de dentro.A porta se abriu devagar, e eu dei de
Camila narrando :Cheguei em casa com a Gabi segurando minha mão, ainda sentindo meu coração disparado. Minha cabeça estava uma bagunça. Eu vi o Guilherme. Depois de tantos anos, ele estava ali, na minha frente, e quase me atropelou.A dona Maria, que estava sentada no sofá dobrando umas roupas, me olhou com preocupação assim que entrei.— Menina, o que aconteceu? Você tá pálida! — ela perguntou, largando o que tava fazendo.Engoli em seco, tentando disfarçar.— Eu… eu vi o Guilherme.Os olhos dela se arregalaram.— O pai da Gabi?Assenti, me sentando na cadeira mais próxima. Minhas pernas pareciam feitas de gelatina.— Ele quase me atropelou. Eu saí correndo, me escondi numa loja, mas acho que ele me viu.Dona Maria cruzou os braços, com um olhar sério.— E ele sabe da Gabi?Neguei rápido.— Acho que não… Pelo menos não ainda.Ela suspirou, preocupada.— Camila, cê sabe que isso não ia ficar escondido pra sempre. Se ele voltou pro Rio, uma hora ou outra ele vai descobrir.Apertei as
Camila narrando :Tentei me concentrar no trabalho, mas minha cabeça não parava. Cada vez que eu fechava os olhos por um segundo, a imagem do Guilherme surgia na minha mente. Depois de tantos anos, ele apareceu de novo… e pior, quase me atropelando.Sacudi a cabeça, tentando afastar esses pensamentos. Peguei a bandeja com café e fui levar pra uma das salas de reunião. Passei pelos corredores como sempre, mas parecia que todo mundo tava falando mais alto do que o normal, ou talvez fosse só o barulho dentro da minha própria cabeça.Entrei na sala, coloquei as xícaras na mesa e saí sem nem olhar muito pra quem tava ali. Eduardo, como sempre, me deu um leve aceno de cabeça, mas eu saí rápido, torcendo pra ninguém puxar papo comigo.De volta à copa, me encostei na bancada por um instante e respirei fundo.— Tá tudo bem, Camila? — uma colega perguntou, me olhando com curiosidade.Forçei um sorriso.— Tá sim, só uma dorzinha de cabeça.Ela deu de ombros e voltou pro que tava fazendo. Eu, por
Guilherme narrando :Eu passei a tarde inteira rodando pelo bairro, indo de prédio em prédio, perguntando por Camila, mas ninguém sabia de nada. Eu tava ficando cada vez mais frustrado. O calor do Rio parecia piorar a cada passo, minha cabeça já tava a mil, e a cada porta que se fechava na minha cara, eu sentia a pressão aumentar. Fui até a última rua que me mandaram, entrei em um posto de gasolina e perguntei pro frentista, mas ele também não soube de nada.No fim do dia, já exausto, decidi ligar pro meu advogado, o Medeiros, pra ver se ele tinha alguma atualização. Quando ele atendeu, a voz dele foi direta, quase sem emoção.— Não achei nada ainda, Guilherme. Mas a pesquisa continua. Vou te avisando.Eu desliguei sem dizer mais nada, sentindo um vazio no peito. Eu sabia que precisava encontrar Camila, precisava dela, mas parecia que a cidade inteira estava me enganando. Como ela podia desaparecer assim, sem deixar rastros?O medo de que ela estivesse fugindo, ou que alguém a estives