Capítulo 4
Davi permaneceu imóvel, sem dizer uma palavra.

Isabela, no entanto, ergueu a voz e disse com satisfação:

— Finalmente você falou algo sensato, Kiara. Afinal, são da mesma família. Não é natural que a irmã mais velha ceda para a mais nova? Considere isso como um presente de casamento para sua irmã.

Ri com desdém e, em seguida, olhei para minha madrasta com um sorriso súbito e gentil:

— Nesse caso, acho que ainda falta eu oferecer mais um presente.

— Que presente? — Isabela perguntou, desconfiada.

— Um caixão. Para colocar no altar da cerimônia de casamento.

— Kiara! — Isabela ficou lívida de raiva, com o rosto tremendo de indignação, mas não conseguiu dizer mais nada.

Com calma, mas com sarcasmo evidente, continuei a sorrir:

— Dizem que, antigamente, em certas culturas da China, as famílias incluíam um caixão no enxoval da noiva, para simbolizar a despedida da casa dos pais. Não é uma tradição linda? Claro, não somos chineses, mas, como irmã mais velha, achei que seria um presente de casamento muito simbólico e adequado.

Minha explicação era tão "lógica" que eles não tinham como rebater. Assim como quando abri as garrafas de champanhe, minha intenção era clara: comemorar, debochar e amaldiçoar Clara. Mas, como da outra vez, eu tinha uma desculpa pronta: era para afastar as energias ruins. O que poderiam fazer contra mim?

Durante anos, eles abusaram da minha paciência, me humilharam e me intimidaram, sem que eu tivesse direito a me defender. Agora, finalmente, era a vez deles experimentarem o gosto da impotência e da raiva.

Isabela, vermelha de ódio, apontou para a porta e gritou:

— Kiara, saia daqui! Agora!

Mas isso não foi suficiente para aliviar a raiva. Então, ela se virou para Carlos e despejou sua frustração:

— Carlos! Olha o tipo de filha que você criou! Uma cobra venenosa, cruel e sem coração! Ela está amaldiçoando minha filha, e você não faz nada?

Carlos, que já estava furioso, avançou em minha direção com passos pesados.

— Kiara, peça desculpas à sua irmã! Agora! — Ordenou ele, com os olhos faiscando de raiva.

Olhei para ele, impassível, sem qualquer intenção de ceder:

— Por que eu pediria desculpas? O que eu disse está errado? Só porque você é ignorante e não conhece certas tradições, não significa que eu tenha que me desculpar...

Antes que pudesse terminar, Carlos avançou com a mão levantada, pronto para me dar um tapa no rosto.

Davi, no entanto, se colocou entre nós no último instante. O tapa que era para mim acertou o lado da cabeça de Davi com força, fazendo até seu cabelo balançar.

— Pai! O que está fazendo? — Clara gritou da cama, assustada.

Davi parecia confuso por alguns segundos, mas logo se recompôs e continuou a segurar Carlos, tentando acalmá-lo:

— Tio, violência não resolve nada. No fim, a culpa é minha. Eu deveria ter lidado melhor com Clara e com toda essa situação. Me dê um tempo, eu vou resolver tudo.

Carlos, com o rosto vermelho e veias pulsando no pescoço, parecia prestes a explodir. Ele tinha problemas de pressão alta e diabetes, e sua respiração ofegante mostrava que estava no limite.

— Resolva isso de uma vez! Mas, se ela continuar com isso, eu mesmo vou quebrar as pernas dela! — Ameaçou Carlos, apontando para mim com o dedo trêmulo.

Davi assentiu várias vezes, tentando acalmá-lo, e então se virou para mim, dizendo em tom baixo:

— Kiara, vamos conversar.

— Não temos nada para conversar. — Respondi friamente, virando-me para sair.

Mas Davi segurou meu pulso com firmeza:

— Kiara, com essa atitude você não vai resolver nada. Somos todos da mesma família. Por que não podemos sentar e conversar como adultos?

Família? Aquela palavra me enojava.

— Vocês não têm o direito de me chamar de família.

Minha voz era fria como gelo.

Levantei o braço que ele segurava e ordenei:

— Solte-me.

— Por favor, Kiara, só quero conversar.

— Solte agora! — Esbravejei, tentando me soltar. Quando percebi que ele não me soltaria, minha paciência se esgotou. Com a outra mão, dei um tapa forte em seu rosto.

O som ecoou pela sala. Todos no quarto ficaram boquiabertos, chocados com o que acabaram de testemunhar.

Clara começou a chorar, gritando:

— Kiara, o que você está fazendo? Por que bateu nele? Se está com raiva, desconta em mim! Fui eu que pedi para ele se casar comigo!

Olhei para ela com um sorriso irônico:

— Eu preciso de um motivo para bater em um homem desprezível? Quanto a você, Clara, não se preocupe. Deus já está cuidando de te punir. Não preciso sujar minhas mãos.

Com isso, virei as costas para eles, ignorando suas expressões de raiva e choque, e saí do quarto, batendo a porta com força.

De volta ao meu carro, sentei-me por alguns minutos em silêncio, tentando recuperar o controle das minhas emoções. Uma tristeza amarga tomou conta de mim enquanto pensava na situação.

Sempre acreditei que Davi seria o homem que curaria as feridas causadas pela minha família. Mas ele acabou sendo quem mais me machucou.

Lembrar de todos os sacrifícios que fiz por ele, incluindo anos ajudando em sua recuperação, fazia meu coração doer como se estivesse sendo rasgado em pedaços.

O toque do celular me tirou dos pensamentos. Olhei para a tela: era Bela Gomes, minha melhor amiga.

— Alô?

— Kiara, você esqueceu que combinamos de almoçar hoje? Onde você está? Não me diga que o Davi te prendeu em casa! — Bela disse em tom de brincadeira, sem saber o que eu estava passando.

Fechei os olhos, tentando conter a raiva e a tristeza que ainda dominavam meu peito. Só então me lembrei do almoço que havíamos combinado dias atrás, originalmente para discutir os ensaios do casamento.

— Estou a caminho. — Respondi.

O casamento podia não acontecer mais, mas precisava contar a ela o que tinha acontecido.

Quando cheguei ao restaurante, Bela percebeu imediatamente que algo estava errado.

— O que houve? Você está péssima. Brigou com a sua família de novo? — Ela perguntou, preocupada.

Bela sabia bem como minha relação com minha família era um desastre.

Com uma voz calma e controlada, respondi:

— Bela, o casamento foi cancelado.

Ela estava tomando um gole de café quando ouviu isso. Parou imediatamente e me olhou, incrédula:

— O quê? Kiara, você está brincando? O casamento é na próxima semana! Como assim foi cancelado?

Eu dei um sorriso vazio, sentindo uma dormência completa dentro de mim:

— Para ser precisa, o casamento continua, mas com outra noiva.

Bela largou a cafeteira e se levantou de repente. Esticou a mão e colocou sobre minha testa, como se quisesse medir minha temperatura:

— Você tá doente? Pegou febre e está delirando? Só pode.

Afastei a mão dela e a fiz sentar de novo, antes que acabasse caindo no chão de tanto choque. Resumi os acontecimentos dos últimos dias de forma breve, mas direta.

Os olhos de Bela se arregalaram, a boca ficou aberta como se tivesse visto um fantasma:

— Puta merda! O Davi enlouqueceu? A Clara tem "vadia" escrito na testa e ele não consegue enxergar? Trocar a noiva assim, de uma hora pra outra? Ele não tem medo de virar piada, de ser massacrado pelos convidados e virar meme no país inteiro? Quer ferrar a própria vida, mas precisa ser tão dramático assim?

A indignação tomou conta dela, e sua voz aumentou tanto que os clientes ao redor começaram a nos encarar.

— Não, isso não vai ficar assim. Vou ligar agora mesmo e acabar com ele! — Gritou Bela.

Bela era explosiva, mais até do que eu. Sem pensar duas vezes, pegou o celular e começou a discar. Eu, cansada demais para me importar, continuei tomando meu café em silêncio, sem tentar impedi-la.

— Davi, você foi envenenado pela Clara, foi? Que tipo de idiota você é? O que te importa que ela tem uma doença terminal? A Kiara ficou ao seu lado por seis anos, fez de tudo pra salvar sua vida. Já esqueceu que ela te deu o próprio sangue? Se não fosse por ela, você já estaria morto, seu ingrato!

Bela fez uma pausa para respirar e continuou, ainda mais feroz:

— E desde quando você e a Clara estão juntos? Já estavam transando, não é? Eu já vi muito homem canalha, mas você conseguiu superar todos! Você não tem vergonha? No mínimo, no dia do casamento, vai ser apedrejado pelos convidados!

Bela continuou despejando sua fúria sem parar, por uns bons cinco ou seis minutos, até que um garçom se aproximou para pedir que ela abaixasse o tom. Para evitar chamar ainda mais atenção, levantei-me e tirei o celular da mão dela, encerrando a ligação.

— Por que desligou? Eu ainda nem terminei de xingar! Não é só o Davi que merece ouvir, aquela vaca da Clara também precisa! Só porque tá morrendo acha que pode roubar o marido da própria irmã?

Bela estava fora de controle. Peguei a cafeteira e enchi sua xícara, tentando acalmá-la:

— Chega, Bela. Não precisa estragar o almoço dos outros.

Ela olhou ao redor, percebendo os olhares curiosos, e finalmente respirou fundo, tentando controlar sua raiva.

— Me explica uma coisa, Kiara. O Davi ama a Clara? — Perguntou ela, ainda sem entender o absurdo da situação.

Balancei a cabeça, com um sorriso amargo:

— Não sei. Mas tenho certeza de que ele não me ama.

Se ele me amasse, nunca teria feito algo tão absurdo, tão humilhante.

— A Clara é completamente desequilibrada. Ela passou a vida inteira tentando roubar tudo de você. Será que o Davi nunca percebeu? — Bela falou, incrédula.

Dei um sorriso irônico:

— Ele sempre achou que era coisa da minha cabeça. Que eu tinha preconceito contra ela.

Bela bufou, bebendo mais alguns goles de café. Depois de um momento de silêncio, perguntou:

— E ele sabe que a Clara e o Tiago são seus irmãos por parte de pai?

— Não sei. Nunca contei. Talvez ele saiba, talvez não.

Afinal, quem gosta de expor os podres da própria família? Mesmo para alguém que amamos. Porque, quando o amor acaba, essas verdades se tornam armas para nos ferir.

— Ele não sabe? — Bela arqueou as sobrancelhas e riu, cínica. — Quero só ver o dia em que o Davi descobrir a verdadeira face da Clara. Vai se arrepender tanto que vai chorar de joelhos.

Eu dei de ombros, sem responder. O arrependimento dele, sinceramente, já não me importava mais.

Depois do almoço, Bela tentou me consolar:

— Olha pelo lado bom, pelo menos você ficou com a empresa. Um lixo de homem desses é melhor perder do que achar. Agora foca na sua carreira.

As palavras dela me fizeram lembrar que a transferência da empresa ainda dependia de algumas formalidades.

— Você tem razão. Não vou perder mais tempo com isso. É até sorte ter descoberto a verdade agora.

Nos despedimos, e à tarde marquei com Davi para resolver a documentação da empresa. Ele aceitou na hora. Quando nos encontramos, notei que ele ainda tinha uma marca de mão no rosto. A visão daquela cena foi tão patética que quase ri.

— Anda logo. Depois disso, ainda temos que pegar o certificado de divórcio. — Disse eu, impaciente, ao vê-lo andar vagarosamente.

Eu e Davi tínhamos nos casado há apenas um mês. Se eu soubesse como terminaria, nunca teria me apressado para fazer isso. Ele me olhou com um olhar triste, como se quisesse dizer algo, mas permaneceu em silêncio.

Após finalizar os documentos da empresa, fomos direto ao cartório. Mas, ao chegar lá, descobrimos que era necessário agendar o pedido de divórcio, e, mesmo assim, havia um período de espera de 30 dias para reflexão.

Peguei meu celular e agendei o mais rápido possível. O único horário disponível era para dali a duas semanas. Isso significava que, no dia do casamento de Davi e Clara, eu ainda seria, legalmente, sua esposa. Que piada de mau gosto.

Davi percebeu minha irritação crescente e tentou suavizar a situação, falando com doçura:

— Não precisa ter pressa. A Clara não está me cobrando isso.

Levantei os olhos para ele com um olhar tão afiado que o vi recuar levemente.

— Não está cobrando? Ela não tem medo de não chegar viva até lá? — Perguntei, com uma risada fria.

Davi ficou calado, visivelmente desconfortável. Afinal, com tantos obstáculos, era possível que o divórcio demorasse meses, talvez até mais de um ano. Nesse meio tempo, Clara poderia até ser chamada de noiva, mas nunca seria sua esposa de verdade.

Ele suspirou e avançou um passo, ainda com aquele tom gentil:

— Nesse caso, por que não deixamos isso pra lá? Podemos continuar casados. Assim, no futuro, não teremos que remarcar o casamento quando voltarmos a ficar juntos.

Fiquei estática, encarando-o com incredulidade. Então, mesmo depois de tudo, ele ainda acreditava que, quando Clara morresse, eu o aceitaria de volta? Que tipo de delírio era esse?
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