Capítulo 6
— Kiara, se acontecer alguma coisa com ela, eu quero ver como você vai se explicar! — Davi me lançou um olhar sombrio antes de sair apressado com Clara nos braços.

Fiquei parada ali, atordoada, por um longo tempo. A cena do rosto furioso e implacável de Davi continuava gravada na minha mente. Onde tinham ido parar todas aquelas promessas de amor eterno? Tudo parecia uma piada cruel agora. Quando foi que ele começou a mudar? E como eu pude ser tão cega?

O abismo da dor parecia me consumir, até que Tatiana entrou na sala, perguntando com preocupação se eu estava bem. Sua presença me trouxe de volta à realidade. Por que eu estava desperdiçando lágrimas com um homem tão desprezível? Respirei fundo, recompus-me e voltei minha atenção ao trabalho.

Perto do horário do almoço, meu celular começou a tocar. Era Isabela. Recusei a ligação sem pensar duas vezes. Mas, alguns minutos depois, o telefone tocou novamente. Dessa vez, era meu pai.

Um pensamento atravessou minha mente: Será que Clara não resistiu? Será que morreu?

Depois de hesitar por alguns segundos, atendi. Mal coloquei o telefone no ouvido e a voz estrondosa do meu pai explodiu como trovão:

— Kiara! Você perdeu completamente a cabeça? Clara já está fraca, e você ainda a empurra no chão? O que você tem na cabeça?!

Afastei o telefone do ouvido enquanto ele gritava, esperando que terminasse. Quando o silêncio finalmente veio, respondi, calma:

— Meu escritório tem câmeras. Posso mandar as imagens para vocês, assim todos saberão o que realmente aconteceu.

Era claro que eu sabia que, mesmo com as imagens provando minha inocência, eles dariam um jeito de me culpar.

E, como esperado, meu pai rebateu com firmeza:

— O que importa a verdade? O que importa é que sua irmã está doente, prestes a morrer, e você, como irmã mais velha, não tem um pingo de compaixão!

Não valia a pena discutir. Qualquer coisa que eu dissesse seria um desperdício de energia.

Quando percebi que eu não ia responder, ele mudou o tom, agora mais calculista:

— Esquece isso. Clara quer que você seja a testemunha da cerimônia. Você não tem nada para fazer nesse dia mesmo. Pode ajudar sua irmã, não pode?

Soltei uma risada seca:

— Se vocês não têm medo de eu estragar o casamento, então eu vou.

Houve um silêncio do outro lado da linha. Então, meu pai finalmente respondeu, com um tom mais sério:

— Você quer as ações que eram da sua mãe, não é? Se você cumprir esse papel no casamento da sua irmã, eu transfiro aquelas ações para o seu nome.

Fiquei surpresa. As ações que pertenciam à minha mãe eram algo que eu vinha tentando reivindicar há anos, sem sucesso. Agora ele estava disposto a me entregar tudo?

— Quero metade transferida antes do casamento. Depois da cerimônia, você transfere o restante. — Eu sabia que ele não era confiável e precisava me proteger.

— ...Tudo bem. — Ele hesitou por um momento, mas acabou concordando. Antes de desligar, ainda murmurou com desprezo. — Você é igualzinha à sua mãe. Sempre gananciosa.

— Melhor do que ser como você. Um traidor de coração podre.

A queda de Clara havia piorado ainda mais sua saúde. No dia do casamento, ela mal conseguia ficar de pé. Aquele vestido de noiva, que eu mesma havia costurado sob medida para o meu corpo, agora parecia desajustado nela. Clara estava tão magra que o tecido ficava largo no busto e na cintura.

— E ainda dizem que a Kiara é uma grande estilista internacional… Fez um vestido que nem serve direito. — Isabela resmungou, encarando o caimento imperfeito da peça com desdém.

— Esse vestido foi feito para o meu corpo, não para o dela. — Retruquei sem me conter. — Quem rouba coisas dos outros não tem direito de reclamar.

— Você…

— Mãe… — Clara interrompeu, segurando o braço da mãe com suavidade. Sua voz era fraca, mas ainda doce. — Não culpe a Kiara. Não faz mal que o vestido esteja grande. Assim fica mais fácil de tirar depois.

Depois de dizer isso, ela se virou para mim e sorriu, com os olhos brilhando como se estivesse cheia de gratidão:

— Obrigada, irmã. Graças a você, meu sonho está se tornando realidade.

O enjoo tomou conta de mim. Precisava sair dali para respirar. Quando cheguei à porta, dei de cara com Davi.

Vestindo um terno feito sob medida, com um corte impecável, ele parecia ainda mais deslumbrante do que nunca. Seu porte elegante chamava a atenção de todos os convidados no salão. Era impossível não olhar para ele.

Aquele terno também era obra minha. Eu mesma havia projetado cada detalhe, com carinho e amor. Agora, vê-lo vestindo aquilo naquele dia parecia mais um insulto do que um elogio ao meu trabalho.

— Kiara… — Davi me chamou em voz baixa, quase hesitante.

Revirei os olhos e passei por ele sem dizer nada. Estava prestes a sair quando ouvi a voz do meu pai atrás de mim:

— Para onde você pensa que vai? A cerimônia vai começar. Sua irmã está fraca demais. Você vai ajudá-la a entrar.

Virei-me de volta para encarar todos na sala, incrédula:

— Eu? Ajudar ela?

— Você é a irmã mais velha e, além disso, a testemunha do casamento. Qual é o problema? — Isabela respondeu com um tom de provocação.

Antes que eu pudesse responder, Davi também se pronunciou:

— Kiara, depois do que aconteceu, a Clara está ainda mais debilitada. O vestido é pesado e o caimento é longo. Ela precisa de ajuda.

As palavras dele eram tão descaradas que pareciam um tapa na cara. Sem esperar que ele terminasse de falar, voltei para dentro da sala, furiosa.

Clara já estava com o braço estendido, esperando por mim como se fosse uma rainha esperando pela criada.

— Obrigada, irmã… — Murmurou Clara quando segurei seu braço, com um sorriso que só podia ser de puro triunfo.

Deixe-a se gabar. Deixe que tenha seu momento. Afinal, o tempo dela estava acabando. Reprimi a raiva, engoli o orgulho e fiz o que pediram. Eu iria suportar isso. Só mais um pouco.

O casamento começou. A marcha nupcial, elegante e solene, ecoava pelos cantos do salão dourado. As portas altas e imponentes do salão foram abertas lentamente, revelando a grandeza do momento. Todas as luzes dos holofotes convergiram para um único ponto, focando em mim e Clara.

Eu apertava os dentes com tanta força que minha mandíbula doía. Meu peito parecia esmagado por uma montanha, tão grande era o peso que eu sentia. Cada passo que eu dava carregava uma humilhação sufocante.

Sob os olhares de todos os presentes, segurei o braço de Clara e, juntas, começamos a caminhar pelo longo tapete vermelho. Assim que aparecemos, o salão, antes tomado por um silêncio reverente, foi preenchido por murmúrios chocados:

— O que está acontecendo? A noiva não era a Srta. Kiara? Por que é a Srta. Clara vestindo o vestido de noiva?

— Exato! Eles trocaram as noivas?

— A noiva virou dama de honra? Que tipo de brincadeira é essa da família Mendes?

Essas palavras cortavam como lâminas, mas eu mantive a cabeça erguida, lutando para não demonstrar o turbilhão de emoções que me consumia. Com cada passo, eu engolia a vergonha e a raiva, até finalmente conduzir Clara ao final do tapete.

Lá, Davi aguardava. Elegante e imponente, ele parecia a personificação de um príncipe de conto de fadas. Havia algo em seu rosto que me fez estremecer: uma expressão de leve excitação, e, se eu não estivesse enganada, lágrimas brilhavam em seus olhos?

Mas ele não olhou para mim. Seu olhar estava fixo em Clara, queimando de intensidade.

Foi como se uma faca atravessasse meu coração. O veneno da dor se espalhou como uma névoa tóxica por todo o meu corpo. Era difícil acreditar que aquele era o homem que eu amei com todo o meu ser por oito anos.

Ele dizia que tudo isso era apenas para realizar o último desejo de Clara, para que ela pudesse partir sem arrependimentos. Mas, olhando para ele agora, era impossível não perguntar a mim mesma: Será que ele realmente quer casar com Clara? Será que ele sempre a amou de verdade?

As lágrimas encheram meus olhos antes que eu pudesse perceber. A visão diante de mim começou a ficar turva, mas, mesmo assim, minha mão, quase como por instinto, entregou Clara a Davi. Ele a segurou com delicadeza, envolvendo seu corpo frágil com um gesto de proteção. Os dois trocaram olhares que transbordavam de emoção, e, juntos, subiram ao altar.

Virei-me lentamente e caminhei até o assento reservado para mim, na primeira fila. Pensei que já havia me anestesiado, que seria capaz de assistir àquela cerimônia como uma espectadora, como alguém que não se importa. Mas fui tola. A dor continuava presente, me rasgando como uma lâmina invisível.

Enquanto eu lutava para controlar minhas emoções, uma mão masculina, limpa e elegante, surgiu ao meu lado, segurando um lenço.

O dono daquela mão não disse nada. E eu, sem forças ou curiosidade para olhar para ele, apenas peguei o lenço e murmurei com a voz rouca:

— Obrigada...

— Não há de quê. — A voz que veio em resposta era baixa, profunda e tão melodiosa quanto o som de uma corda de violino. Apesar da suavidade, havia algo afiado e penetrante em suas palavras. — Quem não conseguiu casar com você é quem saiu perdendo.
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