Capítulo 5
Eu soltei uma risada irônica, tentando controlar a raiva que fervia dentro de mim. Olhei para o movimento desordenado da rua por alguns segundos, até sentir minha mente esfriar. Quando finalmente me virei para ele, a voz saiu carregada de sarcasmo:

— Davi, eu não sou uma lixeira. Não importa o quanto eu tenha te amado ou o quanto fiz por você. No momento em que você escolheu me trair, perdeu o direito ao meu amor.

Virei-me para ir embora, mas, incapaz de me conter, voltei a apontar para ele e acrescentei:

— Mesmo que não sobrasse nenhum homem no mundo, eu não olharia para você de novo. Você me dá nojo.

Talvez minha atitude decidida tenha ferido algo dentro dele, porque Davi deu um passo em minha direção e segurou meu braço. Sua voz, antes tão confiante, agora estava embargada de súplica:

— Kiara, eu ainda te amo. Esses seis anos juntos foram os melhores da minha vida. Eu nunca vou esquecer o que vivemos. Mas… a Clara está morrendo. Ela é tão... tão miserável, tão vulnerável. Tudo o que ela quer antes de partir é realizar esse único desejo...

— Solta! — Gritei, interrompendo-o.

— Kiara, eu juro que assim que a Clara…

Antes que ele terminasse de falar aquela frase nojenta, levantei a mão e dei outro tapa, desta vez na outra face. Agora seus dois lados estavam marcados. A expressão de dor no rosto dele, misturada com o vermelho das marcas, o fazia parecer ridículo.

— Davi, pelo sangue que um dia eu tirei para salvar sua vida, faça um favor a si mesmo: seja um homem decente e pare de me enojar. — Lançando essas palavras, virei as costas e fui embora sem olhar para trás.

Eu não contei a ninguém sobre o cancelamento do casamento, apenas informei minha avó e minha tia.

Minha avó, já com quase oitenta anos, havia passado por muitas tragédias, incluindo a perda do meu avô e da minha mãe. Sua saúde vinha se deteriorando nos últimos anos, e eu temia que a notícia fosse demais para ela.

Mas, para minha surpresa, ela recebeu tudo com uma calma inesperada. Ficou triste e indignada por um tempo, mas logo me consolou:

— É melhor descobrir que tipo de pessoa ele é agora do que mais tarde, quando você já tivesse filhos. Seria ainda mais doloroso, e as crianças sofreriam junto. Você é jovem, linda e bem-sucedida. Não tenha pressa. Vamos esperar alguém que realmente valha a pena. E, se não encontrar, desde que você esteja bem e feliz, isso é o suficiente para mim.

Minha tia, mais prática, comentou:

— Sua avó pode estar com a visão fraca, mas o coração dela enxerga tudo com clareza. Ela já viu o suficiente na vida para saber que homem e casamento geralmente não valem a dor de cabeça.

As palavras delas me deram força e me ajudaram a me levantar. Em poucos dias, voltei ao trabalho. Agora que eu era oficialmente a dona da empresa, tinha ainda mais motivos para me dedicar.

Na manhã seguinte, após a reunião semanal, voltei ao meu escritório. Pouco depois, minha assistente, Tatiana, bateu na porta e entrou:

— Srta. Kiara, o Sr. Davi está aqui.

Levantei os olhos, surpresa. Davi? O que ele queria agora? Antes que eu pudesse perguntar, ele já aparecia na porta do meu escritório. Fiz um gesto para Tatiana sair e deixá-lo entrar.

Davi entrou, mas ficou parado perto da porta, sem se aproximar.

— Só passei para pegar minhas coisas. Estou levando a Clara para casa, e parei aqui no caminho. — Ele explicou, parecendo desconfortável.

Seu tom era quase casual, como se nada tivesse acontecido. Ele costumava ter um escritório na empresa, com alguns pertences pessoais lá.

Sem dar atenção, voltei meu olhar para a papelada na mesa e continuei trabalhando. Ignorando minha indiferença, ele saiu, fechando a porta atrás de si.

No entanto, alguns minutos depois, outra batida na porta. Levantei os olhos e vi Clara parada ali.

— O que você quer? — Perguntei, com o rosto fechado.

— O Davi não está aqui. Se você está procurando por ele, vá ao escritório dele. — Acrescentei, seca.

Clara entrou e fechou a porta atrás de si. Sua voz saiu doce, quase tímida:

— Não, eu vim falar com você, irmã.

Franzi o cenho, surpresa, e a encarei, tentando entender o que ela queria agora. Depois de alguns segundos, percebi.

— Você ainda quer me tirar algo? — Perguntei, com o tom carregado de ironia.

Ela já tinha roubado meu noivo, meu vestido, minhas joias e até meu casamento. O que mais poderia querer?

Clara se aproximou, devagar, com seu rosto pálido e frágil. Parecia prestes a desmaiar a qualquer momento. Por que ela havia saído do hospital? Desistiu do tratamento?

— Eu queria te pedir um favor… — Disse ela, parando na frente da minha mesa. — Queria que você fosse a celebrante do nosso casamento.

Por um momento, achei que tinha ouvido errado.

— O quê? — Minha voz saiu em um tom mais alto do que eu pretendia.

Clara continuou, a voz doce como mel:

— Sua posição é especial. Se você nos der sua bênção na frente dos convidados, ninguém vai ter coragem de falar mal de nós...

Eu fiquei sem palavras, tamanha a audácia. Levantei-me de repente, encarando-a com um sorriso frio:

— Você não tem vergonha, Clara? Não tem medo de ser apontada e humilhada pelos nossos parentes e amigos no dia do casamento?

Clara começou a chorar, as lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto soluçava:

— Irmã... desde que eu era pequena, você sempre foi melhor do que eu. Sempre tão perfeita, tão admirada. Eu sempre te invejei tanto... E agora, nem isso eu consegui. Eu sou tão inútil que até fiquei doente. Só quero casar com o Davi antes de morrer. Só isso. Depois que eu morrer, ele volta pra você. Eu não vou tirar ele de você de verdade...

— Já chega! — Gritei, apontando para a porta. — Saia daqui agora, Clara, antes que eu perca a paciência e te ponha pra fora à força!

— Irmã… — Clara chorava ainda mais alto, contornando a mesa e vindo até mim. Agarrou meu braço com força, implorando entre soluços. — Por favor, me ajuda. Eu sei que no passado tomei muitas coisas suas, sei que você me odeia… Eu… eu te peço desculpas, me perdoa… Mas é só dessa vez. Só dessa vez, eu juro. Me ajuda, por favor…

— Solte-me. — Disse eu.

Não suportava seu toque, nem as palavras que saíam de sua boca, tão repulsivas quanto ela.

— Por favor, irmã… estou te implorando…

— Solte-me! — Ordenei novamente, vendo que ela não me ouvia. Continuava agarrada ao meu braço, balançando-o enquanto chorava e suplicava, até que perdi a paciência. Num movimento brusco, me soltei de sua mão.

— Ah! — Clara soltou um grito agudo e, como se fosse uma boneca quebrada, caiu no chão de forma desajeitada. Por reflexo, tentei segurá-la, mas já era tarde demais.

O impacto foi forte. Clara caiu como um peso morto, e antes que eu pudesse reagir à situação, a porta do escritório se abriu com força. Era Davi.

— Clara!

O rosto dele ficou pálido e tenso ao ver a cena. Sem pensar duas vezes, correu até ela.

— Clara, você está bem? Onde dói? Fala comigo! — Davi a levantou delicadamente, os olhos repletos de pânico.

Fiquei ali parada, observando a cena. Por um segundo, pensei em explicar o que tinha acontecido, mas logo desisti. Não valia a pena. O olhar de Davi me dizia que, qualquer coisa que eu falasse, cairia em ouvidos surdos.

E, como eu já esperava, ele logo se virou para mim, o rosto tomado por raiva e decepção:

— Kiara! Você sabe em que estado ela está. Sabe o quão frágil é a saúde dela. Como você teve coragem de empurrá-la? Você ainda tem coração? Mesmo que ela tenha cometido erros, ela ainda é sua irmã!

Clara, nos braços de Davi, suspirou de forma dramática e, com a voz fraca, tentou me defender:

— Davi... não brigue com minha irmã... ela não fez por mal...

Por dentro, eu só conseguia rir de desdém. Por fora, minha expressão era completamente neutra, fria. Minha voz saiu calma, mas afiada como uma lâmina:

— Vocês dois têm até cinco minutos para sair daqui. Não quero ninguém morrendo no meu escritório e deixando o ambiente pesado.

Os olhos de Davi se arregalaram, como se ele não acreditasse no que tinha acabado de ouvir:

— Kiara, você está irreconhecível! Eu fui quem te decepcionou, eu sou o culpado. Mas você ser tão cruel com uma pessoa inocente, que está à beira da morte… Você não tem medo de ser punida por isso?

Eu ri, um riso frio e sem emoção, antes de revidar:

— Quem é ingrato e traiçoeiro aqui é você. Quem cometeu erros foi você. Se você não tem medo de punição, por que eu deveria ter?

Davi abriu a boca para responder, mas foi interrompido por um gemido de dor de Clara.

— Davi… — Clara murmurou, a voz frágil como se estivesse prestes a desmaiar.

Ele olhou para ela e, ao perceber sangue escorrendo do canto de sua boca, entrou em pânico.

— Clara! Aguente firme, eu vou te levar ao hospital agora. Por favor, não desista! — Davi parecia completamente desesperado, segurando-a com ainda mais cuidado enquanto corria para a porta.
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