Capítulo 3
Quando terminei de falar, joguei o contrato com força no rosto de Davi e me levantei, apontando a porta:

— Quero descansar. Vocês podem ir embora. E, por favor, levem todo o lixo de vocês com vocês.

Inacreditável. Eu gostava desse homem desde os 16 anos. Foram oito anos de sentimentos e seis anos de relacionamento. Como só hoje consegui enxergar o verdadeiro caráter dele?

Na verdade, deveria até agradecer à Clara. Se não fosse ela, eu teria me casado com um homem tão nojento e hipócrita. Minha vida teria sido um verdadeiro inferno.

Eduarda, indignada com minhas palavras, levantou-se apressada, dizendo com raiva:

— Kiara, esse é o seu problema. Você é muito explosiva! Olhe para Clara. Ela é doce, educada e sempre me trata com respeito...

Segurei o riso e o desprezo que subiam em minha garganta. Nesse instante, vi meu cachorro passando pela sala. Puxei os lábios em um sorriso e chamei:

— Higger, pega eles!

— Au! Au! Au! — Higger, obediente, correu em direção a eles, latindo ferozmente.

— Você… você é… — Eduarda ficou tão pálida que parecia que ia desmaiar. Davi correu para ampará-la, enquanto os dois recuavam em pânico.

Davi me olhou, os olhos cheios de uma frieza que eu nunca tinha visto antes:

— Kiara, você passou dos limites! Eu realmente estava enganado sobre você.

Eu sorri com ironia, pensando: E eu não me enganei sobre você, Davi?

Os dois saíram apressados, praticamente correndo. Na pressa, esqueceram até o "lixo" que haviam deixado no chão. Eu olhei para aquilo com nojo e pensei que, no dia seguinte, pediria para alguém jogar tudo fora.

No dia seguinte, minha conta bancária recebeu um depósito de dois milhões. Por mais indignada que eu estivesse, não era do tipo que recusava dinheiro. Além disso, eu queria ver pessoalmente como Clara estava "definhando".

Peguei as joias que havia preparado para o casamento e fui até o hospital. No meio do caminho, recebi uma ligação do meu pai, Carlos Mendes.

— Clara está doente e você, como irmã mais velha, nem sequer vai visitá-la? Você é igualzinha à sua mãe, sem coração! — Carlos começou com as acusações de sempre. Eu já estava acostumada.

Respondi com indiferença:

— Quer que eu compre champanhe para comemorar?

— Kiara! Está maluca? — Ele gritou, a voz cheia de raiva.

— Comemorar que sua filha finalmente vai morrer. Não foi isso que você quis dizer?

Carlos ficou sem palavras.

Dei uma risada curta e acrescentei:

— Quem sabe aproveitamos para comemorar outras coisas também…

— Kiara, você é igual à sua mãe! — Ele começou, mas não esperei para ouvir o resto.

Desliguei na cara dele. Só de imaginar a expressão dele, vermelho de raiva, sem poder fazer nada, comecei a rir.

Na noite anterior, enquanto eu tentava dormir, pensei: será que Clara ficou doente tão jovem porque Deus decidiu punir os pais dela por todas as maldades que cometeram?

Quando cheguei à porta do quarto, estava prestes a bater quando ouvi vozes vindo de dentro. Parei, e meu nome logo foi mencionado.

— Kiara deve estar adorando isso. Desde criança, ela sempre implicou com a Clara. Só porque é mais velha, vivia intimidando os irmãos. Agora que Clara está com uma doença terminal, você acha que ela está triste? Aposto que está é feliz!

Era a voz de Isabela, embargada, como se estivesse prestes a chorar.

Ela soltou um soluço e começou a lamentar:

— Eu sou tão azarada… Deus, onde você está? Por que não deixa Kiara morrer no lugar da minha filha? Por que faz isso com minha Clara?

Sem pensar, empurrei a porta com força. Ela bateu na parede, fazendo um estrondo. Todos dentro do quarto se voltaram para mim ao mesmo tempo. Vi meu pai abraçando Isabela, tentando consolá-la. Que casal adorável.

A súbita entrada chamou a atenção de todos. O silêncio tomou conta por um momento, mas Davi foi o primeiro a falar:

— Kiara, você veio.

Ele tentou se aproximar, com um sorriso gentil no rosto. Ignorei completamente. Tirei da sacola que carregava uma garrafa grande de champanhe e a coloquei sobre a mesa.

Davi mudou de expressão imediatamente, pálido:

— Kiara, o que você está fazendo?

— Vou comemorar. — Respondi com um sorriso frio.

Carlos, que já tinha entendido, apontou para mim, furioso:

— Kiara, se você ousar…

Antes que ele pudesse terminar, abri a garrafa. O champanhe espirrou com força, molhando todo mundo. Davi tentou proteger a cabeça, enquanto os outros corriam desajeitados para escapar.

A cena era cômica, quase ridícula. Parecia uma comemoração de Fórmula 1, como se eu tivesse acabado de ganhar uma corrida. Uma garrafa acabou em segundos, então abri outra. E outra.

O quarto virou um caos. O cheiro adocicado do champanhe logo tomou conta do ambiente.

O sistema de alarme do hospital foi acionado, e o som estridente da sirene ecoou pelo corredor. O luxuoso quarto particular se transformou em um cenário de completa desordem. Ouvi Isabela gritar desesperada, e Clara, da cama, choramingava, chamando pela mãe.

Enquanto eu permanecia na porta, dei dois passos para trás e fiquei fora do alcance do caos, observando a confusão. Eles, no entanto, não tiveram a mesma sorte. Um por um, tropeçaram e caíram no chão, alguns gritando de dor, outros xingando em voz alta.

Não demorou muito para que médicos, enfermeiros e até seguranças do hospital corressem para o quarto. O corredor ficou lotado de curiosos, e os "ensopados" no quarto começaram a sair, visivelmente furiosos.

Ao entender o que tinha acontecido, o médico principal explodiu de raiva:

— Que absurdo! Isso aqui é um hospital, não um parque de diversões! Vocês estão comemorando o quê? Se o paciente não recebeu alta, vocês acham que têm o direito de fazer esse tipo de bagunça? Vocês vão ser responsabilizados por isso!

Isabela, completamente molhada, saiu correndo do quarto e apontou o dedo para mim, gritando:

— Não foi culpa nossa! Foi ela! Essa mulher fez de propósito! Doutor, prendam-na! Chamem a polícia! Ela está perturbando a ordem pública!

Mas o médico, estressado com a situação, não tinha paciência para escutar as reclamações dela. Para ele, o mais importante era garantir o bem-estar do paciente.

— Resolva isso com a polícia depois. Agora, enfermeiras, arrumem outro quarto para o paciente imediatamente! — Ordenou o médico.

Clara, ainda usando uma roupa de hospital e completamente encharcada, estava sendo carregada por Davi, que a segurava com cuidado enquanto ela tremia de frio.

As enfermeiras rapidamente organizaram um novo quarto, e Davi correu com Clara para lá.

Isabela, entretanto, não conseguiu engolir aquela humilhação. Ela lançou um olhar mortal para mim, como se quisesse me fuzilar, mas, com Clara precisando de atenção, não teve escolha a não ser segui-los para o novo quarto.

Carlos, enquanto limpava o champanhe que escorria pelo rosto, apontou para mim com os dentes cerrados:

— Kiara, você vai pagar por isso!

Eu o encarei sem expressão, completamente indiferente. Minha missão estava cumprida; já havia causado o estrago que queria. Estava prestes a sair quando me lembrei das joias que ainda precisavam ser entregues para os dois traidores. Com um suspiro, voltei para o quarto.

Clara já havia trocado de roupa e estava sentada na cama, parecendo mais frágil do que nunca. Quando me viu entrar, seus olhos ganharam um brilho cortante, mas ela se manteve contida, talvez porque Davi estivesse presente.

— Kiara, o que você quer agora? — Isabela saiu do banheiro e avançou para mim, com os olhos cheios de ódio.

Ignorei a fúria dela e me aproximei calmamente do casal. Tirei o estojo de joias da bolsa e o coloquei sobre a mesinha ao lado da cama:

— Clara, parabéns pelo casamento. Você finalmente vai se casar com o homem dos seus sonhos. Agora pode morrer em paz.

— Kiara! — Isabela gritou, furiosa, mas eu só estava dizendo a verdade.

Lembrei-me do aniversário de 18 anos de Clara, quando ela declarou para todos os convidados que seu maior desejo era se casar com Davi. Na época, ela disse que preferia morrer a não conseguir realizar esse sonho. Bem, sonho realizado.

O mais surpreendente foi que Clara não se irritou com minhas palavras. Em vez disso, me olhou com olhos lacrimejantes, como uma vítima indefesa:

— Obrigada, irmã. Obrigada por ceder Davi para mim. Eu sei que você está magoada e por isso fez o que fez, mas a culpa é toda minha. Eu te entendo e não guardo rancor…

Antes que terminasse, lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela, como se fosse a pessoa mais injustiçada do mundo.

Não pude deixar de rir:

— Clara, quando éramos crianças, você era abertamente cruel. Agora, aprendeu a fingir e a ser hipócrita? Está com medo que Davi descubra o quão maldosa você realmente é?

Clara continuou com sua expressão de vítima:

— Eu era pequena e imatura. Você sempre foi tão perfeita, tão talentosa. A única maneira de chamar atenção era… bem, usando métodos errados. Você não sabe como é viver como uma hóspede na casa dos outros.

Minha vontade era aplaudi-la. Que atuação digna de um Oscar!

Desde o dia em que ela entrou na família Mendes, sempre viveu como uma princesa mimada, enquanto eu, a verdadeira herdeira, fazia o papel de empregada. E agora ela tem a coragem de dizer que era uma "hóspede"?

Sem paciência para discutir, simplesmente segui o jogo:

— Você está certa. Seus problemas são irrelevantes comparados aos meus. Mas você sabe o que eu nunca vou entender? Como é a sensação de estar morrendo. Essa é uma experiência que só você pode descrever.

— Kiara, chega! — Davi finalmente interveio, com a voz cheia de reprovação.

Carlos, como sempre, não perdeu a oportunidade de me criticar:

— Kiara, sua irmã está morrendo e você ainda faz piada com isso? Cuidado, o próximo azarado pode ser você!

Virei-me lentamente para ele, com um sorriso frio:

— Não me amaldiçoe assim. Se isso realmente acontecer, sua filha querida vai ficar muito sozinha lá no céu. Sem a proteção de vocês, ela não é páreo para mim.

— Você… — Carlos ficou sem palavras, o rosto vermelho de raiva.

Sem me importar, coloquei o estojo de joias ao lado de Clara e disse friamente:

— Pegue. Seu querido Davi já pagou por isso.

Clara olhou para Davi, que evitou meu olhar enquanto seu rosto mostrava desconforto.

— Quando será o casamento? — Perguntei, fingindo interesse. Achei que pelo menos esperariam Clara melhorar antes de marcar a data.

Mas Clara, com uma voz mansa, respondeu:

— No mesmo dia que você e Davi iam se casar. Só mudamos a noiva.

O quê? Franzi a testa, tentando processar o que ela havia dito. Então, além de roubarem meu noivo, meu vestido e minhas joias, eles também decidiram roubar o meu casamento inteiro?

Isabela, percebendo minha expressão, sorriu com satisfação:

— Tudo já estava organizado, Kiara. Os convites foram enviados, seria um desperdício cancelar tudo. Por que não usar o que já está pronto? É mais prático assim.

Engoli a raiva e me virei para Davi, esperando por sua reação. Ele sabia que eu havia passado meses organizando cada detalhe daquele casamento. Desde a contratação dos melhores profissionais até a escolha dos menores detalhes, como as lembrancinhas. Eu até viajei para o exterior para escolher as joias.

E agora, tudo isso seria entregue de bandeja para Clara?

Davi percebeu minha frustração e tentou se aproximar, mas afastei a mão dele com um movimento brusco.

— Kiara… me desculpe. Sei o quanto você se esforçou por este casamento. Mas é exatamente por isso que não podemos deixar tudo ser desperdiçado. Clara é sua irmã, afinal. Isso é… — Ele hesitou diante do meu olhar mortal e parou de falar.

Cerrei os punhos, lutando contra o impulso de estapeá-lo. Em vez disso, soltei uma risada sarcástica:

— Ah, entendi. Isso é o que chamam de “manter tudo na família”, não é?
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