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6. Reencarnação de Lúcifer

~ Hades (Gael) ~

Sentado em meu escritório, revisando alguns números de um dos meus negócios. As últimas semanas têm sido um caos, como sempre, mas é o tipo de desordem que eu aprendi a dominar. Controle. Poder. Isso é tudo o que importa.

— Gael, o carregamento do porto está em ordem. — Marco, meu capo e braço direito, entra com sua postura rígida, como sempre.

— Eu já disse pra me chamar de Hades — reclamo e volto a falar — Ótimo. Certifique-se de que a entrega seja feita sem erros. Não tenho paciência para incompetentes.

Ele assente e sai, deixando-me sozinho. Depois de concluir os últimos detalhes, decido voltar para casa e descer ao porão. Ali é onde escondo os segredos mais sombrios, os erros que precisei corrigir e as dívidas que outros não puderam pagar. É aonde Summer se encontra.

Passo horas lá, perdido em pensamentos e decisões e a observando sem que ela perceba. O ambiente é escuro, abafado, o cheiro metálico de ferrugem impregnado no ar. Cada objeto, cada centímetro deste lugar, é um lembrete do tipo de homem que eu me tornei — ou sempre fui.

— "Ele é um carcereiro, assassino e perigoso..." — ouço sua voz baixa, mas carregada de angústia.

Ela está sozinha, e falando coisas a meu respeito ao vento, mesmo sem saber que estou aqui. Um sorriso maquiavélico se forma no meu rosto. A garota não sabe o que está fazendo.

— "...e eu estou com síndrome de estocolmo..."

Sem fazer barulho me aproximo dela.

— Então eu sou um carcereiro, assassino e perigoso? — falo com a voz fria, rompendo o silêncio.

Ela se sobressalta, seus olhos arregalados de pavor. A visão dela acuada, recuando contra a parede, me diverte.

— E você está com síndrome de estocolmo? — continuo, observando como ela reage.

— Eu estou falando com você, garota — rebato, a voz firme, autoritária.

Ela tenta disfarçar, mas vejo sua mente girando, procurando uma maneira de me atingir. Ela não entende que não há brechas em mim.

— Hades... seu nome é esse mesmo? Eu nunca conheci ninguém com esse nome.

Eu arqueio uma sobrancelha. Isso é o que ela tem a dizer?

— É mesmo?

— Sim, foi sua mãe que escolheu?

Sinto meu corpo endurecer ao ouvir a palavra "mãe". Não sei por que, mas aquela pergunta simples me irrita mais do que deveria.

— Minha mãe? — rio, mas sem humor. — Mia Béla, eu não tenho mãe. E, com certeza, não foi aquela filha de uma puta que escolheu meu nome.

Ela me encara, surpresa com a resposta. Há algo nos olhos dela, uma curiosidade inocente que me deixa desconfortável.

— Mas você tem alguém? — pergunta, fazendo um biquinho que claramente não me afeta.

Dou as costas para ela, pronto para sair. Essa conversa já foi longe demais.

— Você pode sair.

Ela hesita por um segundo, mas me segue.

— E também pode caminhar pela casa, mas não tente nada que vá se arrepender depois.

— Ainda estamos na Sicília? — sua voz soa mais firme agora.

— Você está aonde deveria estar, e isso basta.

— Aonde estamos? — ela pergunta de novo, dessa vez gritando.

Paro imediatamente e me viro, fazendo com que ela trombe em mim. Meu olhar a prende no lugar.

— Não grita comigo, cacete.

Ela recua, mas não desiste.

— Eu... eu só quero te pedir para ir ao cemitério ver minha mãe — ela diz, a voz quebrando enquanto as lágrimas começam a cair sem controle.

O choro dela mexe comigo de uma forma que não quero admitir. Há algo em sua vulnerabilidade que rasga a armadura que carrego. Desvio o olhar, tentando sufocar o peso daquela cena.

— Te leszel a megváltásom vagy kudarcom, Mia Béla? — murmuro em húngaro, uma das línguas que domino, escolhendo propositalmente algo que ela não entenderá.

— O quê? Não entendi. Que idioma é esse? — ela pergunta, os olhos ainda brilhando com as lágrimas.

"Você será minha salvação ou meu fracasso, Minha Bela?" — penso, mas não respondo. Em vez disso, permaneço em silêncio, carregando a dúvida e o medo dessa verdade apenas comigo.

— Não te diz respeito e eu não seu babá, tenho coisas mais importantes para fazer.

Ela continua chorando, e por um instante, penso em ceder. Mas eu não posso. Não vou me deixar amolecer.

— Pare de chorar. Isso não vai mudar nada — digo, seco, antes de sair.

Enquanto desço as escadas, uma pontada de incômodo me atravessa. Algo nela me desestabiliza. Algo que preciso destruir antes que cresça e se transforme em algo que não consigo controlar.

Sou Don Hades. Não me apaixono. Não sinto. Não tenho alma. Essa verdade é meu escudo, meu mantra. Com esse pensamento, pego o telefone e ligo para Marco, minha sombra mais eficiente.

— Descubra de quem ou do quê Summer mais gosta — ordeno, seco e direto desligando a chamada.

Marco não demora a retornar uma mensagem com a informação.

"Ela é reservada, senhor. Sem amigos próximos. Mas tem um cavalo. Parece que ela é apegada a ele."

Um sorriso frio e cruel surge em meu rosto enquanto digito a resposta: "Mate-o. E me traga o coração."

"Você é uma pessoa muito doente Gael" — me retorna, parecendo brincar com a sorte, só o ignoro.

Ele pode estar certo, sou uma pessoa doente. Estou deixando Summer entrar na minha mente.

Algumas horas depois, Marco retorna com o que pedi, envolto em um embrulho discreto. Não digo nada, apenas aceno, indicando que ele pode sair.

Subo até o quarto de Summer, carregando um prato de comida coberto. A cada passo, penso na mensagem que estou prestes a transmitir. Ela precisa entender que, no meu mundo, nada escapa ao meu controle.

Abro a porta sem bater. Ela está sentada na cama, os olhos perdidos em algum ponto da janela.

— Aqui está sua janta — anuncio, colocando o prato sobre a mesa de cabeceira.

Summer olha para mim com desconfiança, como sempre.

— O que é? — pergunta, franzindo o nariz.

Meu sorriso é lento, quase divertido. Levanto a tampa, revelando o que há no prato.

— O coração do Príncipe — digo, em um tom que mistura humor sombrio e desafio.

Os olhos dela se arregalam, e por um momento vejo o pânico surgir. Em um acesso de raiva, ela b**e no prato, que cai no chão com um estrondo, espalhando seu conteúdo.

Sem hesitar, ela se levanta e começa a me bater no peito, os t***s desajeitados e impulsivos, como se estivesse tentando extravasar toda a dor e a raiva que sente. É quase engraçado, se não fosse tão patético. Seguro seus pulsos firmemente, obrigando-a a parar.

— Olhe para mim — ordeno, minha voz baixa e cortante. Ela tenta desviar o olhar, mas não deixo.

— Esse coração — continuo, aproximando meu rosto do dela — é um símbolo. Para te mostrar que, no meu mundo, eu faço o que quero. E você, Summer, não tem poder algum para impedir.

As lágrimas que começam a brotar nos olhos dela não me afetam. Pelo menos é o que eu quero acreditar.

Ela me encara, os olhos fervendo de ódio e dor, mas não diz nada. Apenas respira fundo, como se tentasse reunir forças para me desafiar mais uma vez.

— Você é a reencarnação de Lúcifer — sussurra, finalmente.

— E você é uma erva daninha... minha erva daninha. Nunca esqueça disso. — enfatizo a palavra "minha" e solto seus pulsos dando um passo para trás.

Saio do quarto sem olhar para trás, deixando-a ali, com os destroços de mais uma parte de sua alma.

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