~ Summer ~
O brilho fraco da manhã invade o quarto pelas frestas da cortina, lançando sombras suaves sobre as paredes. Meus olhos piscam lentamente, pesados pelo cansaço, pelo choque, pela realidade que me atinge como um soco no estômago. Meu corpo dói. Cada músculo, cada osso, cada pedaço de mim parece lembrar do que aconteceu na última noite.Gael. Hades. Ele me possuiu, e agora o arrependimento queima dentro de mim como ácido.Fecho os olhos com força, tentando afastar as lembranças que se desenrolam como um filme cruel. O toque dele, a forma como me consumiu sem hesitação, como se eu já fosse dele antes mesmo de perceber. O desejo avassalador que senti me enoja. Como posso estar tão dividida entre o ódio e algo que me assusta ainda mais? Será que estou me apaixonando por ele?Meu coração se aperta ao pensar nisso. Não, não pode ser. Ele é um monstro, um homem cruel que só conhece o poder e a dominação. Mas então, por que meu peito dói desse je~ Summer ~Os dias passam se arrastando, e Hades está cada vez mais distante, o que é bom. A distância entre nós me traz uma sensação estranha de alívio, como se minha mente começasse a recuperar um pouco do espaço que ele havia roubado.Mas meu estômago ainda se revira ao lembrar da cena. O jeito como ele tocou outra mulher, como me fez assistir a cada detalhe cruelmente, como se quisesse arrancar de mim qualquer ilusão de que ele poderia ser algo diferente de um monstro.E conseguiu.Eu já deveria saber.Estou no jardim da casa, observando tudo ao meu redor, como se o simples ato de olhar pudesse me distrair dos pensamentos que constantemente me assombram. Em meio ao silêncio, sempre percebo que Lourdes me observa, como se quisesse dizer algo. Me aproximo dela e tento puxar assunto, mas, como sempre, suas respostas são vagas. Ela diz que tudo tem seu tempo. Não entendo o motivo de ela trabalhar nessa casa, mas algo em seus olhos demonst
~ Summer Monteiro ~Vivo em Petralia Soprana, um pequeno vilarejo na Sicília que parece parado no tempo. A cidadezinha era tranquila até ser descoberta pela máfia, que a transformou em uma rota discreta e conveniente. Dizem que há um homem que governa a região com punhos de ferro, mas isso pouco me importa. Vivo isolada na fazenda da minha família e raramente saio, exceto para visitar o túmulo da minha mãe no cemitério local.Hoje é mais um dia comum, acordo às 06 da manhã com o cantar dos galos, faço minha higiene matinal e tomo um café rápido antes de encarar as tarefas do dia. Tudo na fazenda é responsabilidade minha, já que meu pai só sabe beber e, pelo visto, nem dormiu em casa esta noite. Alimentar os animais, consertar cercas, colher o que a terra dá — tudo isso cai sobre mim.Depois de alimentar os bichos, selo meu cavalo, Príncipe, e vou ao cemitério. É o único lugar onde sinto que realmente posso respirar. Passo horas conversando com minha mãe, contando a ela sobre os dias m
~ Gael Martinez (Hades) ~O mundo da máfia não espera ninguém crescer. Ele te engole antes que você tenha a chance de entender quem é. Eu fui tragado por ele antes mesmo de aprender a amarrar meus sapatos. Aos dez anos, ainda um moleque, meu pai colocou uma arma na minha mão e apontou para o homem que supostamente nos devia algo.— Puxa o gatilho, garoto. — Ele disse, a voz fria e sem emoção. — Ou morre como um inútil.Eu puxei. Não hesitei.O som do tiro ainda ecoa na minha mente às vezes, mas não sinto remorso. Nunca senti. Foi ali que comecei a entender como o mundo funciona: ou você
~ Summer ~O silêncio no celeiro é opressor, cortado apenas pelo som dos meus soluços abafados. Minhas mãos estão vermelhas de tanto esmurrar a porta, mas ela não cede. Minhas forças se esvaem, e eu desabo no chão de terra batida, sentindo a humilhação me consumir.Quanto tempo passou? Minutos? Horas? Não sei. Meu coração acelera ao ouvir passos do lado de fora. A porta range e, de repente, ele está ali — o homem que transformou minha vida em caos num piscar de olhos.— Quem é você? — minha voz falha, mas eu me forço a encará-lo.Ele sorri, um sorriso cheio de algo sombrio e predatório.— Seu dono, Mia Béla.Me levanto num salto, tentando passar por ele, mas sua mão firme agarra meu braço. Num movimento rápido, ele me joga ao chão como se eu fosse nada.— Não me machuque... — imploro, minha voz quase um sussurro, mas ele apenas ri, uma risada baixa e ameaçadora.Ele se aproxima novamente, e eu sinto o peso de sua presença. Ele me puxa de volta para cima, tão perto que posso sentir seu
~ Summer ~Acordo sentindo o peso do dia anterior como uma pedra no peito. O quarto onde estou é grande, mas frio, sem vida. As paredes brancas parecem me sufocar, e o silêncio é tão denso que quase ouço meus próprios pensamentos berrando.Caminho até o banheiro com as pernas trêmulas. Abro a torneira e deixo a água correr, tentando encontrar alguma normalidade em escovar os dentes. Uma, duas, três vezes. Escovo até minhas gengivas começarem a doer. Tento ignorar o gosto metálico do sangue e lavo o rosto com água gelada, como se isso pudesse apagar tudo o que aconteceu.Tomo banho em silêncio, deixando a água quente cair sobre mim. N&atild
~ Summer ~A dor ainda lateja no meu corpo. Cada movimento que faço parece um lembrete cruel do que aconteceu, do que ele fez. Não consigo mais ficar aqui. Preciso sair, nem que seja a última coisa que eu faça.Olho ao redor do quarto. É luxuoso, sim, mas não passa de uma prisão decorada. A janela está fechada, mas eu vejo o mundo lá fora. A liberdade está tão perto, e mesmo assim parece impossível alcançá-la.Respiro fundo. Preciso tentar.Espero até o sol começar a se pôr. A casa está mais silenciosa, os passos ecoam distantes. É a minha chance. Abro a porta
~ Hades (Gael) ~ Sentado em meu escritório, revisando alguns números de um dos meus negócios. As últimas semanas têm sido um caos, como sempre, mas é o tipo de desordem que eu aprendi a dominar. Controle. Poder. Isso é tudo o que importa.— Gael, o carregamento do porto está em ordem. — Marco, meu capo e braço direito, entra com sua postura rígida, como sempre.— Eu já disse pra me chamar de Hades — reclamo e volto a falar — Ótimo. Certifique-se de que a entrega seja feita sem erros. Não tenho paciência para incompetentes.Ele assente e sai, deixando-me sozinho. Depois de concluir os últimos detalhes, decido voltar para casa e descer ao porão. Ali é onde escondo os segredos mais sombrios, os erros que precisei corrigir e as dívidas que outros não puderam pagar. É aonde Summer se encontra.Passo horas lá, perdido em pensamentos e decisões e a observando sem que ela perceba. O ambiente é escuro, abafado, o cheiro metálico de ferrugem impre
~ Summer ~Acordo com o sol invadindo o quarto pela fresta da cortina. Depois da tempestade que minha mente viveu nos últimos dias, o silêncio da casa parece quase ensurdecedor. É como se o mundo ao meu redor estivesse adormecido, mas sei que, em algum canto, Hades continua me observando, mesmo que eu não possa vê-lo.Levanto-me, decidida a explorar o lugar. A casa é enorme, quase um labirinto, cheia de cômodos que carregam histórias invisíveis nas paredes. Preciso conhecer cada canto, entender onde estou e, principalmente, descobrir como sair daqui.Descendo as escadas, encontro a cozinha: ampla, bem iluminada, uma mistura de móveis rústicos e modernos que não combinam com a frieza deste lugar. Lá, está a mulher que trouxe minha comida há alguns dias. Ela corta vegetais em silêncio, mas sei que percebe minha presença.— Oi... qual seu nome? — arrisco, tentando soar amigável.Ela não levanta os olhos. — O patrão me deu ordens para não con