Sangue Bastardo
Sangue Bastardo
Por: Julien Mendes
Prólogo

86 anos atrás

Don Giorgio segura o rosto de sua esposa pela última vez antes da sua morte, essa é a ordem final da doce Genevieve. A mão dele mancha a pele pálida dela com seu próprio sangue e apesar disso ela sorri, venera ele com seu olhos grandes e azuis como o mediterrâneo, tenta agarrar-lhe o tecido da camisa como se desejasse compartilhar as suas últimas palavras antes do grito final que veio cedo demais e interrompeu a cena. Ela se contorce e o Don assiste em completo silêncio, sozinho, apenas ele e tua dama, a mulher que traz ao mundo seu herdeiro.

— Giorgio... — Ela tenta chamar, ofegante, a voz entrecortada e tão baixa que só podia ser ouvida porque ele não era humano.

Si bella mia. — Ele diz sem emoção, ainda segurando seu rosto como uma boneca.

Gio...  C’e... Gio... — Ela tentava e sua palavras seguiam presas pelas contrações que vinham uma após a outra.

O suor fresco de Genevieve se mistura ao sangue em seu rosto, Giorgio solta sua amada com a impressão de que algo está prestes a dar errado, afinal, à essa altura a criança já devia ter rasgado sua mãe e nascido como deve ser. Ele mais uma vez ergue o vestido manchado e procura por algum sinal de seu filho, mas há apenas uma quantidade exorbitante de sangue e os gritos incessantes da pobre mulher. Ele se levanta, sabe que não poderia pedir ajuda a ninguém, pois ninguém estaria bem alimentado o suficiente para não matar a mãe da sua cria. Ele se vê encurralado, volta a se ajoelhar ao lado dela e seus sentidos o confundem, ele sabe bem que o sangue perdido já significa a morte da sua companheira, ela já não responde as contrações como antes e aos poucos desfalece e ele faz uma escolha rápida que talvez lhe custaria o respeito do clã, respeito que estava disposto a recuperar à ferro e fogo se isso fosse manter a existência da sua querida. O ato desesperado dele significa o rompimento de uma veia por suas presas, aonde rapidamente verte seu sangue espesso e escuro que ele gentilmente derruba nos lábios trêmulos da pequena Geni. Apesar disso, o único som que Don Giorgio ouve no quarto é o choro desesperado do recém nascido que inesperadamente repousa entre as pernas da mulher, coberto de sangue e pele.

O choro penetra em seus ouvidos como o som de uma banshee anunciando a morte eminente, lhe amaldiçoa e perturba como nada jamais foi capaz de fazê-lo. Ele olha a pequena criatura com repulsa, recolhe o pulso que antes derramava o precioso licor da vida nos lábios da esposa e percebe que ela o rejeitou, não foi capaz de cumprir a ordem e por isso, está morta. Ele desejava poder dar a ela a imortalidade, mas os costumes condenam o desrespeito com a decisão das moiras. Insatisfeito e incrédulo Giorgio se retira, deixando naquele quarto o corpo inerte de Genevieve e a existência frágil e agora insignificante de sua cria.

Horas se passam, a criança chora em plenos pulmões, e como um animal selvagem, se move em busca de alimento sob o corpo da mãe e com dificuldade encontra-lhe os seios e suga a vida restante da falecida. De uma fresta na porta o Don encontra o filhote lutando pela sobrevivência e decepciona-se com os seus deuses pela primeira vez, não queria conviver com uma cria bastarda, não queria ter sua oração ouvida, não queria mais um guerreiro. A arma em sua mão serviria para acabar com o choro irritante daquela aberração, mas agora... Como poderia encerrar-lhe a vida e negar o desejo de Jupiter?

Giorgio bateu a porta atrás de si e em um piscar de olhos estava na companhia dos cavalheiros da famiglia que antes esperavam para brindar pelo nascimento do herdeiro e agora lamentavam pelo erro de Giorgio ao escolher la dama, que fora incapaz de dar aos seus o presente prometido pelos céus.

Il bastardo è un miracolo. — Diz o líder em desgosto.

Rafaello, o conselheiro e irmão de sangue de Giorgio, cuja energia permitia rever fatos recem vistos através dos olhos de outrém, toca no enlutado com hesitação, temia o que seu amigo queria dizer com aquela frase e a cena da criança escalando a mãe como um filhote de felino em busca de alimento o fez questionar o que os Deuses desejavam com tal mensagem. Os outros encaravam curiosos, poucos tinham qualquer habilidade então estavam no escuro, enquanto o Don encarava a arma em sua mão buscando motivação para tomar uma decisão.

Il bastardo vive! Combatti come uno di noi... Non possiamo negare il tuo sangue, Don Giorgio. — Anuncia Rafaello quebrando o silêncio, com a mão firme no ombro do amigo.

Poucas coisas entre os Capadócci eram mais importantes do que a vontade dos deuses antigos, dentre elas, o respeito pela tradição do herdeiro. A tradição os tornou independentes de seus antigos senhores, deu a eles o reinado em Favignana, deu a eles o controle de sua imortalidade. Negar o sangue é o maior pecado que um Capadócci pode cometer e Don Giorgio não gostaria de ter isso contra ele.

Ele solta a arma em sua mão e se retira da sala como sinal de que não lutaria contra o destino, desaparece, não pretendia ver aquela cria novamente e nem enterrar a mãe. Não poderia enterrar sua amada Genevieve, preferia guardar a imagem viva dela.

Rafaello, no entanto, assumiu a responsabilidade sob a criança sem ao menos ter recebido tal ordem. Estava determinado a criar o menino ao qual ele chamou por Giovanni em homenagem ao mestre, confiante de que faria Don Giorgio enxergar o propósito do menino um dia.

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