LIORA NIX
Não fazia ideia do porquê Tessar estava tão bravo comigo, mas também… o que eu podia fazer? Eu só tinha que continuar limpando, fazendo o que mandassem. Era isso que um escravo fazia, afinal. Só percebi que estava chorando quando senti algo quente escorrendo pelo meu rosto. Limpei rápido, desesperada, antes que alguém visse. Se me pegassem chorando, eu podia acabar sem comida. Ou pior… com o chicote cortando minhas costas de novo. O pensamento da dor me trouxe memórias ruins, e meu estômago roncou. Fazia dois dias que eu não comia nada além do pedaço de pão e queijo que Tessar me deu. Depois disso, não tive coragem de tocar na comida. Todos acreditavam que, se eu comesse, a comida ficaria amaldiçoada. Que ninguém mais conseguiria comer. Que adoeceriam, morreriam de fome, e o navio se tornaria um navio fantasma… tudo por minha causa. Meus olhos começaram a arder, e o mar… o mar começou a se agitar. Eu pisquei, e no reflexo da água percebi que meus olhos, antes verdes, agora estavam azuis. E então, veio o caos. Um cardume de peixes-espada começou a se atirar contra o barco, um após o outro, como se algo os tivesse enlouquecido. O som das batidas ecoava pelo convés, e eu continuei esfregando o chão freneticamente, tentando ignorar tudo, tentando desaparecer. Mas os marujos não ignoraram. Eles olhavam, maravilhados e assustados ao mesmo tempo. Meu rosto estava molhado. Eu estava chorando. As lágrimas continuavam caindo, até que senti uma mão forte segurar a minha. Meu corpo travou. Olhei para cima e encontrei Tessar. Ele me encarava de um jeito que fez meu peito apertar. Meu primeiro pensamento foi puro pânico: "Eu estou chorando." — Me desculpe, senhor. — Minha voz saiu apressada, e eu tentei soltar minha mão, pegar o pano e continuar limpando. — Eu já vou voltar ao trabalho, não se preocupe. Não estava chorando, eu juro. Esfreguei as lágrimas no rosto, espalhando mais sal do que limpando. Mas ele não me soltou. Pelo contrário. Segurou minha mão com mais força e me puxou para si, me envolvendo em um abraço forte. No começo, resisti. Tentei pegar o pano de novo, tentei voltar a esfregar o chão, mas ele não me soltou. Meu corpo cedeu antes da minha mente. Parada ali, no calor do abraço dele, eu senti algo que não sentia há muito tempo. Descanso. Fechei os olhos. Por um momento, o mundo não existia. Nem o barco, nem o mar, nem os peixes enlouquecidos. Nem mesmo as lembranças ruins. Mas o passado sempre encontra um jeito de nos alcançar. Naquele instante, voltei para o dia em que desisti de tudo. O dia em que meu corpo estava frio, meus pés sangravam e as pedras se cravavam nas feridas abertas. O dia em que os locais me condenaram. Eles disseram que eu era uma bruxa. Que Deus os perdoaria se me tirassem da aldeia. As freiras… elas tentaram me proteger. Foram boas para mim. E pagaram com a própria vida. Então eu corri. Corri até onde o mundo acabava, até onde só existia o céu e o mar. E pulei. A morte parecia uma amiga. O fundo do oceano era um abraço. Mas, quando achei que finalmente seria livre, ele apareceu. Um homem forte, sem camisa, me puxou de volta, me arrastando para a margem. — Por que fez isso?! — gritei, assim que meus pulmões conseguiram ar. Ele franziu o cenho. — Eu salvei você. — Eu não pedi pra ser salva! Você não me salvou de nada! Levantei, furiosa, e corri de volta para o mar. Mas ele me segurou. — Espera! O que está fazendo?! — Você é cego e surdo? Me deixa em paz! Eu não quero mais viver! Tentei me soltar, mas ele apertou meu braço com força. O suficiente para doer, mas não o bastante para machucar de verdade. Seu olhar prendeu o meu. Ele viu. Viu o desespero. A dor. E então ele disse: — Se não quer mais a sua vida… então eu a reivindico. Você pertence a mim agora. Eu pisquei. O quê? — Você bebeu muito rum ou bateu a cabeça? — Eu já disse. — Antes que eu pudesse reagir, ele me jogou nos ombros. Eu esperneei, chutei, bati nele, mas ele não cedeu. Apenas continuou andando, carregando-me como se eu não passasse de um saco de batatas, enquanto as pessoas na cidade nos olhavam boquiabertas. — Você pertence a Tessar Vrynn, o rei dos sete mares. Eu queria rir. Mas não consegui. Quando vi as novas freiras vindo em minha direção, meu corpo encolheu de medo. — O que está fazendo?! Por que está toda molhada, garota? Antes que eu pudesse responder, Tessar interveio. — Não fale assim com ela. As freiras se entreolharam, confusas. — Tessar Vrynn. — Ele disse seu próprio nome devagar, como se ele fosse um aviso. Os olhos delas se arregalaram. — Ca… Capitão Tessar! É bom vê-lo aqui. Ele me apontou. — Ela é minha e ... A freira piscou, parecendo perdida. — Sua...? — Não me interrompa. — A voz dele saiu baixa, mas afiada como uma lâmina. — Liora Nix é minha protegida. Se uma lágrima cair dos olhos dela, eu matarei os responsáveis. Se ela se machucar, eu esfolarei o culpado vivo e o pendurarei no mastro do meu navio. Estamos entendidos? O silêncio foi pesado. — Sim, senhor. — Elas responderam em uníssono, a voz tremendo. Tessar se virou para sair. — Estou indo. Mas volto para buscar o que é meu. E ele voltou. Dez anos depois. Eu já tinha desistido, me esquecido dele, já tinha aceitado meu destino. Mas ele veio. Ele me salvou daquele ritual. Só que… agora ele sabia. Dez anos atrás, ele não sabia o que eu era. Ele não sabia que havia salvo uma bruxa. E eu sabia. Cedo ou tarde, ele se arrependeria. Apertei meu rosto contra o peito dele, tentando ignorar o aperto no meu coração. Mas, por enquanto… só por agora… eu queria ficar ali. Ele cumpriu o que prometeu, ele estava ali.TESSAR VRYNN Eu não sabia o que estava acontecendo.Estava no meu camarote, concentrado nas cartas náuticas, traçando uma rota que nos mantivesse longe da enseada de Lhamar, a ilha das sereias. Se fossemos pegos pelo seu canto, o navio inteiro poderia se perder. Era um risco que eu não estava disposto a correr.Então começaram os golpes no casco.Não parecia um canhão. O barulho era diferente, mais seco, como se algo estivesse se chocando contra a madeira repetidamente.Saí do camarote em passos rápidos, o cenho franzido, já preparado para qualquer ataque, mas o que vi no convés me deixou surpreso. Meus homens estavam parados, olhando maravilhados para o mar. Alguns pareciam encantados, outros assustados. E quando segui seus olhares, entendi o motivo.Peixes-espada se jogavam contra o navio. Um após o outro, como se tivessem enlouquecido. Alguns não sobreviveram ao impacto, caindo mortos na água ou deslizando pelo convés encharcado.— Bem, não precisaremos de suprimentos essa
Liora Nix Acordei depois do desastre dos peixes. O mar estava calmo, e o céu, mais estrelado do que nunca. Uma visão linda, quase irreal. O convés estava silencioso, apenas o marujo no topo do mastro montava guarda. Observei quando ele desceu devagar e, estranhamente, me desejou boa noite antes de seguir em direção à cozinha. Apesar do frio, não me cobri. Só queria sentir aquele momento, respirar a brisa salgada. A sensação de querer ir embora havia sumido, e isso era estranho. Ele fez isso comigo. De alguma forma, parecia ter arrancado a dor de dentro de mim com as próprias mãos. Me chamavam de bruxa, mas quem teve o poder de me acalmar foi ele. Ouvi passos lentos atrás de mim. Era ele. Por um momento, achei que fosse me abraçar por trás, mas ele respeitou meu espaço e sentou-se ao meu lado. — Se sente melhor? — Sua voz era baixa, quase um sussurro. Assenti sem encará-lo. — A tripulação pediu para que eu lhe agradecesse. Os peixes vão evitar que passemos a semana inteira comend
Acordei com uma dor de cabeça latejante. A noite passou rápido demais, e meu corpo parecia pesado, como se não fosse realmente meu. Nunca tinha bebido rum antes; ontem foi a primeira vez. Espero, de verdade, que tenhamos terminado a tradução das cartas. — Boa tarde, moça — Bjorn disse, entrando no camarote com um sorriso animado. — Tarde? — perguntei, confusa, enquanto me sentava na cama. — Você nunca bebeu, né? — ele riu, colocando uma tigela de caldo de peixe na mesa ao lado da cama. — Não, em 27 anos. — Isso se vê — ele respondeu, rindo baixinho. — Trouxe caldo de peixe pra você. Vai ficar enjoada, mas vai melhorar, tá? — Obrigada, Bjorn. Você é um amor. Ele sorriu, como se eu tivesse feito a melhor coisa do mundo. Quando ele saiu do camarote, sua alegria pareceu me contagiar, mesmo com a cabeça latejando. A porta se abriu devagar novamente, e ele entrou. O cheiro dele invadiu minhas narinas, e tudo ficou lento. Vi ele andando em minha direção, devagar, como se o te
Tessar Vrynn Duas noites. Malditas duas noites com ela naquele estado, e ainda nem chegamos à enseada de Lhamar. Se eu ficar, Liora não vai passar por tudo isso, mas se não ultrapassar a ilha, nunca serei, de fato, o rei dos Sete Mares. Que pirata maldito eu seria se temesse mulheres-peixe? — Capitão, estamos a todo pano, como o senhor mandou, mas... O senhor tem certeza? A senhorita Nix não parece nada bem. Olhei por cima do ombro para Garrick, meus olhos cheios d’água. A cena dela amarrada veio outra vez à minha mente, e eu levei a mão ao rosto. — Senhor, talvez, se dissesse a ela... talvez… Toquei o ombro de Garrick e desci as escadas do camarote. Havia pouco que eu não faria se Garrick me aconselhasse. Ele era um demônio do mar quando o conheci, tinha perdido esposa e filhos para uma doença e se embebedava todas as noites até ficar sem dinheiro para pagar. Quase morreu depois de ser espancado pelo dono da taverna. Eu saldei sua dívida e o convidei para navegar comigo. — Um h
Tessar VrynnMeu pequeno problema. Ela é tão linda… Não sei por quanto tempo serei humano e evitarei tomá-la.— Está quente. Você se sente bem?— Sim, me sinto bem. Mas já que você não pode sair, vamos dormir na mesma cama? — Os olhos dela brilham. Essa voz doce é linda. Qualquer homem cederia ao desejo, mas eu não sou qualquer homem. Eu sou Tessar Vrynn.— Não. Pode ficar com a cama, tenho muito a fazer — respondi, colocando-a no chão e me virando para sentar na cadeira.— Tudo bem, capitão Vrynn, irei dormir agora. Eu ganho um beijo de boa noite?Caralho. Ela sentou de perna aberta no meu colo. Que visão maravilhosa. Engulo seco, imaginando as diversas formas de fodê-la.— Um beijinho? — ela pede de forma manhosa, se aproximando de mim.O beijo dela é anestesiante. Nessa posição, ela me tem nas mãos.— Não faça isso. Posso machucar você, meu pequeno problema.Ela sorri com essas malditas covinhas lindas.Não curtimos muito tempo. Ouço os gritos de Asher no convés.— Não saia. Mesmo
Tessar voltou, mas acho que não quer ficar perto de mim. Ouvi quando ele se deitou novamente no chão. Dessa vez, não vou até lá—talvez ele precise do momento dele.Levantei-me devagar, pra não acordá-lo, eu só queria o casaco que estava atrás da porta. Eu estava seminua e não queria que mais ninguém me visse assim, então precisava pegar o casaco dele. Me vesti e voltei para a cama. Estava tão frio que, parecia que ele ia penetrar meus ossos.Tessar continuava deitado naquele chão gelado. Peguei um dos panos que me cobriam e por preocupação o coloquei sobre ele, tentando lhe dar um pouco de calor. Depois, voltei para a cama em silêncio, pé ante pé, para que ele não me visse. Deitei-me novamente, cobrindo-me até a cabeça, e virei o rosto para a parede do navio.Dessa vez, eu não estava apenas com medo. Eu estava apavorada. Mas não por mim. O medo de que ele se ferisse por minha causa fazia meu estômago revirar, e era horrível.Ouvi passos na escada do camarote, mas não me virei. Garric
Enquanto remava, me permiti chorar. O mar era enorme; Tessar não me encontraria fácil. O destino não seria tão cruel comigo.Eu trouxe as frutas e a água do camarote, além de um único mapa que estava sobre a mesa – provavelmente a rota de fuga da Baía da Espuma, caso a noite chegasse e ainda estivéssemos lá. Meu coração apertou ao ouvir um grito. Era inaudível, mas eu sabia que era a voz dele. Meus braços se moveram agilmente para frente, como se quisessem voltar. Maldito medo que sempre nos faz querer retornar para algo que claramente não é para nós.Que se dane o mundo. Eu estou viva, e até meu coração parar de bater, vou atrás do que faz meu peito pulsar.Senti meus olhos se encherem d’água e fiquei feliz ao perceber que minha coragem era maior que meu medo. Bem, pelo menos até a noite chegar. Não é que eu tenha medo do escuro – é que sinto verdadeiro pavor. Meu corpo trava, eu começo a suar frio, e então congelo, sem conseguir me mover.O pensamento me levou à cela onde fiquei
Me assustei ao ouvir gritos. O barulho de homens trabalhando. Passos na escada. Meus olhos ainda não haviam se acostumado à escuridão, e meu primeiro impulso foi me proteger. Encontrei uma pena sobre a mesa à minha frente. Me armei com ela. Ele entrou. Sua presença era forte. Imponente, como se carregasse o mundo nas costas. — Oi, minha jovem. — Sua voz invadiu meus tímpanos como adagas, talvez pelo tempo em silêncio. — Onde estou? — perguntei assustada, segurando a pena atrás das costas. — Bem... — Ele começou. — Este é o meu navio, O Vingança da Rainha Ana. Olhei para ele, esperando que dissesse mais alguma coisa. — Não sabe mesmo onde está? Você... — Como cheguei aqui? — É uma história engraçada. Uma garça bateu no meu imediato. Creio que eu fosse o alvo, mas estava dormindo, então meu imediato foi avisado por ela que você estava à deriva. Eu sabia que ele estava falando de Katar, mas não queria demonstrar fraqueza. — Então... seu