Me assustei ao ouvir gritos. O barulho de homens trabalhando. Passos na escada. Meus olhos ainda não haviam se acostumado à escuridão, e meu primeiro impulso foi me proteger. Encontrei uma pena sobre a mesa à minha frente. Me armei com ela. Ele entrou. Sua presença era forte. Imponente, como se carregasse o mundo nas costas. — Oi, minha jovem. — Sua voz invadiu meus tímpanos como adagas, talvez pelo tempo em silêncio. — Onde estou? — perguntei assustada, segurando a pena atrás das costas. — Bem... — Ele começou. — Este é o meu navio, O Vingança da Rainha Ana. Olhei para ele, esperando que dissesse mais alguma coisa. — Não sabe mesmo onde está? Você... — Como cheguei aqui? — É uma história engraçada. Uma garça bateu no meu imediato. Creio que eu fosse o alvo, mas estava dormindo, então meu imediato foi avisado por ela que você estava à deriva. Eu sabia que ele estava falando de Katar, mas não queria demonstrar fraqueza. — Então... seu
TESSAR VRYNNO Capitão Barba Negra praticamente nos obrigou a participar da festa. Não que eu reclamasse — afinal, uma noite de rum e risadas era algo raro em alto-mar —, mas eu sabia que aquela exceção tinha um motivo. Ele havia reencontrado Garrick, seu filho, depois de tanto tempo.Garrick não era um filho perdido. O Capitão se envolveu com uma mulher em Dessrosa e, dessa noite, veio Garrick, que, nove meses depois, chegou ao navio dentro de uma caixa de mariscos. Temendo pela segurança do menino, o capitão não o levou para o alto-mar. Pagou a uma conhecida para cuidar dele e deixou uma quantia significativa de dinheiro para que tivesse uma boa vida e bons estudos. Mas filho de peixe, peixinho é, e Garrick se tornou um pirata aos 15 anos. Apaixonou-se em uma ilha qualquer e ancorou ali mesmo.Mas ele perdeu tudo. Nunca disse como ou por quê, mas voltou a navegar comigo depois que salvei sua vida.— Capitão, vamos, beba! — Jarek encheu meu copo, arrancando-me de minhas lembranças.A
Meu corpo parecia estar sendo eletrocutado. Cada vez que ele abria a boca, meu corpo respondia. Estamos longe da Baía da Espuma, então por que estou me sentindo assim? Meu corpo queima. O frio na minha barriga, ao invés de me congelar, me aquece. Não sei o que acontece quando ele age assim... dessa forma que eu não sei descrever. Ele tem efeito sobre mim.— Aai... — deixei escapar um gemido que não deveria enquanto ele me colocava sobre a mesa. Ele me olhou como se fosse me devorar, mas parecia estar com raiva.— Eu não posso fazer isso. Se você disser não, vou usar o resto da minha racionalidade pra sair daqui.Eu não ouvi nada do que ele disse. Só o jeito como falava devagar e ofegante fazia eu me sentir embriagada. Toquei a boca dele com o dedo, deslizando até o peito.— Eu vou fazer o que você quiser.Ele parecia queimar enquanto eu falava. Eu sabia que havia raiva ali, mas não sabia que sentimento era aquele que deixava seu olhar como o de um lobo faminto diante de um pedaço
TESSAR VRYNN Eu deveria estar saciado. Mas nunca estou. Liora dorme ao meu lado, a pele marcada pelos meus dedos, pelos meus dentes. Ela pertence a mim. Não porque a conquistei, mas porque a tomei, e ela me deixou tomar. Seu peito sobe e desce, tranquilo, como se os últimos minutos não tivessem sido um caos de suor, gemidos e promessas feitas entre suspiros. Mas sei que não está dormindo de verdade. Seu corpo está mole, mas sua mente ainda vagueia. Eu poderia acordá-la. Poderia puxá-la para mim, fazê-la gemer meu nome outra vez, até que ela não tivesse força para fugir. Mas algo dentro de mim me mantém parado, observando-a. Minha mão desliza por sua pele, traçando os hematomas que deixei. Seu pescoço está vermelho, os lábios inchados. Ela se mexe sob meu toque, suspira baixinho. Ela gosta. De ser marcada. De ser tomada. Minha. Minha. Minha. Fecho os olhos e respiro fundo, forçando meu corpo a relaxar. O cheiro dela ainda está em mim. A noite foi embor
LIORA NIXDoze dias se passaram. Eu já estava me acostumando a cuidar da tripulação, ajudar a limpar aves, pegar água e, às vezes, depois de Tessar dormir, Alarde Garrick me ensinava a navegar ou a lutar. O velho Bjorn sabia várias histórias antigas sobre a Deusa do Mar e seus feitos aterrorizantes. E eu sempre prestava atenção—lendas se tornam lendas porque são importantes.O mastro do navio finalmente foi reposto, e as velas, costuradas. Fiquei assustada quando vi que Tessar usou uma parte da pele de Asher e Jorrik para costurar a bandeira no navio. Mas não disse nada. Tessar parecia estressado nos últimos dias, e eu não queria problemas. Ele pediu que eu dormisse no navio. Creio que suspeite das aulas de Garrick. Tomara que ele não o machuque... Eu não me perdoaria.Saímos da ilha antes do amanhecer. O mar estava calmo, mas uma tempestade crescia dentro de mim. Eu sabia que ela voltaria. E se, dessa vez, não houvesse uma ilha por perto? Toda a tripulação poderia morrer. Isso estava
Tessar Vrynn A primeira vez que a vi, pensei que fosse um fantasma.Estava escondido atrás dos rochedos, o cheiro de sal e sangue velho entupindo minhas narinas. A aldeia de Tallinn era um cemitério de pedra à beira-mar, onde as ondas batiam como punhos famintos. Os abutres estavam todos lá: velhas de véu preto, homens com rostos de cobra, e aqueles malditos sacerdotes de túnica vermelha. No centro, uma garota. Ela estava de pé na borda do penhasco, os pulsos amarrados com corda de cânhamo, o vestido branco colado ao corpo por causa do vento e da brisa que o mar trazia. Sangue escorria da barriga dela, onde uma adaga de cabo enferrujado Ainda estava cravada— aquela merda de ritual . Praguejei sozinho. Ela não era só bonita, havia algo mais. o seu rosto pálido contrastava com os cabelos castanhos, seus lábios azulados e olhos vermelhos de tanto chorar quase me hipnotizavam . Mas não gritava. Não pedia ajuda. Apenas olhava para o mar, como se já estivesse morta. Um dos sace
O cheiro dela me perseguia. Não importava quantos litros de rum eu afogasse na garganta, quantas vezes eu esfregasse o rosto com água salgada. Lavanda e sangue. Era o que ela exalava, mesmo depois de eu ter jogado aquele vestido podre de sacrifício ao mar. Lavanda das freiras mortas. Sangue do corte que ainda latejava no ventre dela. Eu a observei da escotilha, escondido nas sombras como um cachorro faminto. Ela estava no meu camarote — meu espaço, minhas paredes marcadas por facas e mapas roubados —, sentada no chão, encolhida contra a cama. Os dedos dela traçavam o contorno de uma mancha de vinho no madeirado, como se ali estivesse escrito algum tipo de salvação. — Vai ficar a noite toda encarando ou vai entrar? — a voz dela saiu rouca, mas firme. Entrei, fechando a porta com o pé. O Arraia negra rangia como um velho reclamão, mas ali, naquela sala apertada, o único som era a respiração dela. Curta. Controlada. Assustada.— Você devia estar dormindo — gritei, mais para me conven
Tessar Vrynn A primeira regra do mar: nunca confie em um céu azul. Acordei com o cheiro de eletricidade no ar — aquele odor metálico que precede os piores pesadelos de qualquer marinheiro Arraia balançava suave, mas minhas entranhas sabiam. Uma tempestade vinha. E não era qualquer vendaval. Era aquela espécie de tormenta que faz até os tubarões se esconderem. Encontrei Garrick no convés, os olhos grudados no horizonte. — A leste — ele murmurou, apontando para uma mancha cinza que se aproximava como uma avalanche de água e raios. — Vai ser pior que a maldita Noite dos Cascos Partidos. Eu cuspi no chão. A Noite dos Cascos Partidos foi quando perdi metade da tripulação para um redemoinho. Os homens ainda sussurravam sobre isso nas noites de rum. — Prepare os canhões de amarração — ordenei. — E amarre tudo que não estiver preso ao casco. Garrick hesitou, o queixo apontando para a escotilha do meu camarote. — E a garota? A palavra saiu como um veneno. Não respondi