Karev
O silêncio dentro do carro era ensurdecedor.
Dirigia sem rumo, as mãos firmes no volante, a mente girando como um furacão.
"Você não é só humano. Você é um lobo."
As palavras de Mallory ainda ecoavam nos meus ouvidos.
Ridículo.
Absurdo.
Impossível.
Então por que minha pele estava quente, como se algo se movesse sob ela?
Meu peito subia e descia rápido, cada respiração mais pesada que a anterior. O maxilar travado, os dedos apertando o volante até os nós ficarem brancos.
Era raiva.
Era confusão.
Era medo.
E era algo mais. Algo primitivo. Algo que eu não sabia nomear.
Desde que pisei em Denver, senti que havia algo diferente nesse lugar. Algo que fazia meu corpo reagir de formas que eu não entendia. Não foi só a merda da revelação sobre meu pai.
Foi outra coisa.
Palavras soltas que ouvi aqui e ali.
Alfa. Beta. Alcateia.
Eu não sabia o que significavam, mas algo dentro de mim sabia. Algo dentro de mim reconhecia essas palavras.
E toda vez que as ouvia, aquela inquietação dentro de mim parecia... se acalmar.
Perguntei sobre isso em algumas conversas casuais, e meus amigos riram.
"Ah, é aquele pessoal maluco que acredita que descende de lobisomens. Mutantes ou alguma coisa assim."
"Eles acham que têm habilidades especiais, sei lá. É engraçado pra caramba."
Rimos juntos, e eu não dei importância.
Mas agora?
Agora minha mente queimava com dúvidas que eu não sabia como responder.
E o pior de tudo foi a forma como Mallory reagiu quando aquele som escapou de mim.
Aquele rosnado.
Aquilo veio do fundo do meu peito, como se sempre tivesse estado ali, esperando para sair.
E Mallory não pareceu surpresa.
Ela não riu.
Ela não me chamou de maluco.
Ela sabia.
Ela sabia o que diabos estava acontecendo comigo.
E eu precisava de respostas. Agora.
E eu sabia onde encontrá-lo.
Gabriel Dixon.
O homem que me abandonou antes mesmo de saber da minha existência. O homem que Mallory conhecia e respeitava.
O homem que, supostamente, tinha sangue de lobo.
Eu o vi pela última vez perto da piscina, na competição. Então foi para lá que eu fui.
O centro aquático estava praticamente vazio quando entrei. Algumas luzes ainda estavam acesas, refletindo na água límpida. O cheiro de cloro ainda impregnava o ar.
E ele estava lá.
Sozinho, parado perto da borda, olhando para a água como se procurasse algo dentro dela.
O som dos meus passos ecoou pelo ambiente. Ele virou a cabeça levemente, mas não se moveu.
— Precisamos conversar. — Minha voz saiu dura, sem espaço para enrolação.
Gabriel suspirou, como se já soubesse que esse momento chegaria.
— Eu imaginei que viria me procurar.
Ele se virou para mim, os olhos cansados, mas firmes.
Agora que eu o via de perto, a semelhança era inegável.
A mesma estrutura óssea. O mesmo olhar afiado.
E, de alguma forma, isso me irritou ainda mais.
— Então fala. — Cruzei os braços, o peito subindo e descendo com a fúria contida. — Mallory me disse que eu sou um lobo. O que caralho isso significa?
Ele ficou em silêncio por um momento.
Então inclinou a cabeça levemente, como se estivesse me estudando.
— Eu imaginei que seu lobo nunca tivesse se manifestado, ao ser criado como um humano.
Minha paciência evaporou.
— Fala de uma vez o que isso quer dizer. — Minha voz saiu mais baixa, mais rouca. Quase um rosnado.
O olhar de Gabriel se estreitou ligeiramente.
— Desde quando começou a senti-lo?
— Desde que pisei nessa droga de cidade. — Passei uma mão pelos cabelos, exasperado. — Desde que ouvi aquelas palavras. Alfa. Beta. Alcateia.
Os olhos dele brilharam por um breve instante.
— E quando você ouviu essas palavras, o que mudou?
Aquilo me irritou.
— Que tipo de pergunta é essa?
— Responda.
A pressão no meu peito aumentou, e a forma como ele me encarava fez algo dentro de mim se render.
Minhas mãos se fecharam em punhos.
— Eu me senti... estranho. Como se... como se finalmente estivesse no lugar certo.
Gabriel soltou um longo suspiro e passou a mão pelo rosto.
— Merda, seu lobo quer espaço. Se você não aprender a lidar com ele, vai se machucar.
— Então é verdade? — Dei um passo para frente, meu corpo inteiro tenso. — Eu sou algum tipo de aberração, metade humano, metade monstro?
Os olhos dele endureceram.
— Você não é um monstro, Karev.
Soltei uma risada amarga.
— É mesmo? Porque ultimamente meu corpo está agindo como se tivesse vida própria. — Cerrei os dentes. — Estou mudando. Sentindo coisas que não deveria sentir. E ninguém me diz nada.
Gabriel hesitou por um momento.
— Eu queria ter te contado antes...
— Então por que não contou?! Estou na cidade há duas semanas, te procurando. Por que não me achou?
Ele desviou o olhar para a água.
— Porque eu achava que você estava seguro vivendo sua vida como humano. Que talvez isso nunca despertasse. Mas parece que me enganei.
Meu peito se apertou.
— Isso é real, então?
— Sim.
Minhas entranhas se reviraram.
Gabriel inspirou fundo e me olhou nos olhos.
— Você é meu filho. O sangue de um lobo corre em suas veias. Você é um híbrido, Karev.
O ar ao meu redor pareceu pesar.
Meu coração bateu forte contra o peito.
— E agora?
Gabriel cruzou os braços.
— Agora, ou você aceita isso e aprende a controlar, ou um dia vai perder o controle sem aviso.
Minha respiração ficou irregular.
Então senti.
Algo se mexendo dentro de mim. Algo vivo. Algo querendo sair.
Minha pele formigou, e um som grave reverberou no fundo da minha garganta.
Meus olhos se fixaram nos dele.
— Me ensine.
Gabriel assentiu.
MalloryO sol já havia nascido há algumas horas, mas o peso da noite ainda estava sobre mim.Eu não dormi.Passei a madrugada inteira rolando na cama, minha mente inquieta, os pensamentos presos em um único nome.Desde que ele descobriu a verdade, nada foi mais o mesmo. Eu sentia a presença dele em cada parte do meu corpo, como se o vínculo entre nós estivesse crescendo, mesmo que ele ainda não soubesse disso.E agora ele estava aqui.Na propriedade de Ragnar.Andando como um predador, o corpo rígido, a raiva pulsando em cada movimento. Ele estava indo direto para o espaço de treinamento.Meu coração disparou.Ele não estava apenas aceitando o que era.Ele queria lutar.— Lory, não vá até lá.A voz de Cameron carregava uma firmeza incomum.Ela não estava apenas pedindo. Ela estava me alertando.Mas nem mesmo minha irmã conseguiria me impedir de fazer o que precisava ser feito.Eu sabia que Karev era intenso, mas agora ele parecia algo além disso. Cada fibra do seu corpo irradiava uma
KarevO rosnado escapou do meu peito antes que eu pudesse contê-lo.Alto. Grave. Possessivo.Meus olhos estavam fixos em Gabriel, meu corpo inteiro tenso, pronto para atacar, como se algo dentro de mim estivesse prestes a explodir.Ele ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços, a expressão completamente relaxada. Sabia exatamente o que estava acontecendo comigo. E, pior, sabia que eu não fazia ideia de como lidar com aquilo.Eu sentia Mallory ao meu lado, sua respiração ainda acelerada depois da nossa luta no ringue. Meu lobo rugia dentro de mim, irritado pela presença de outro macho tão perto dela. Não importava que fosse meu pai. Não importava que ele não fosse uma ameaça.Meu instinto berrava uma única coisa: afaste-o.E, sem pensar, minha mão deslizou pela cintura de Mallory e a puxei para perto.O choque em seus olhos durou apenas um segundo antes de desaparecer. Ela não recuou, nem tentou se afastar. Pelo contrário, sua respiração pareceu prender por um instante, e seu cheiro s
KarevMeus dedos ainda estavam enterrados no pelo quente e macio do lobo à minha frente. Ou melhor, de Mallory.Minha mente recusava-se a aceitar o que meus olhos viam, o que minha pele sentia. Meu coração batia forte contra as costelas, como se tentasse romper a barreira entre lógica e instinto. O ar dentro do galpão parecia pesado, denso, como se o próprio universo estivesse me empurrando para aceitar o impossível.Ela era real. O lobo diante de mim era ela.Minha respiração ficou presa no peito. Minha garganta secou. E a única coisa que eu conseguia ouvir era o eco ensurdecedor da minha própria pulsação."Essa também sou eu."A voz dela soou dentro da minha cabeça. Não pela minha audição, mas como um pensamento impresso diretamente em minha mente.Minha reação foi imediata. Um palavrão escapou dos meus lábios, e eu soltei a mão rapidamente, me afastando.O lobo branco e marrom inclinou a cabeça de leve, como se me estudasse. Mallory não parecia preocupada, nem ofendida. Ela apenas
KarevAceitar.A palavra martelava em minha mente, pesada como chumbo, enquanto eu tentava ignorar o calor pulsante que percorria cada centímetro do meu corpo.Mallory estava ali, me observando, a expressão séria, os olhos azuis fixos nos meus. Sua mão quente ainda pressionava meu peito momentos antes, como se quisesse me ancorar à realidade. Mas que realidade era essa? A que eu conhecia desde sempre ou essa nova que se desenrolava diante de mim?Minha pele ainda formigava. Meu peito subia e descia rapidamente, como se meus pulmões estivessem tentando acompanhar o ritmo frenético da minha mente. Era como se meu próprio corpo estivesse sendo puxado em duas direções opostas, uma luta silenciosa entre o que eu pensava ser e o que, aparentemente, eu realmente era.— Levanta. — A voz de Gabriel quebrou o silêncio.Meu olhar encontrou o dele. O homem que eu deveria chamar de pai estava parado, os braços cruzados, a expressão impassível. Ele parecia inabalável, como se nada naquele momento f
MalloryCada golpe acertado reverberava através de mim como se fosse em meu próprio corpo. O som dos impactos, os grunhidos abafados e a respiração irregular de Karev enchiam o espaço, tornando o ar pesado. Eu sabia que isso era necessário, que Gabriel não estava apenas ensinando, mas testando os limites dele. Era cruel, talvez, mas essencial.Karev precisava despertar.Um lobo trancado por quase duas décadas não surgiria simplesmente como se sempre tivesse existido. Ele poderia emergir feroz, incontrolável, uma força indomável que não reconheceria limites. Ou poderia ser algo que ninguém esperava. Gabriel não estava disposto a esperar para descobrir. Ele queria ter certeza antes que Ragnar percebesse o quão instável Karev poderia ser.O suor escorria pelo corpo dele, misturando-se ao sangue de pequenos cortes e hematomas. Os músculos rígidos denunciavam seu cansaço, mas o fogo em seus olhos dizia que ele ainda não havia desistido. Seu orgulho não o permitiria.Eu conhecia bem esse ol
KarevEu não conseguia desviar o olhar dela.A provocação ainda estava no ar, como um desafio silencioso entre nós."Você já me teve antes. Mas não como um lobo."As palavras de Mallory ainda vibravam dentro de mim, misturadas à adrenalina da luta e ao calor que queimava sob minha pele.Ela sabia exatamente o que estava fazendo.E sabia que estava funcionando.Minha respiração estava pesada, meu corpo ainda pulsava da surra que levei de Gabriel. Mas nada disso importava mais. Não quando o cheiro dela estava me envolvendo dessa forma. Eu nunca tinha notado antes. Ou talvez tivesse, mas não como agora.O cheiro de Mallory era quente, amadeirado, com um toque levemente adocicado, como algo viciante. Ele entrava nos meus pulmões e ia direto para a corrente sanguínea, me intoxicando. Meu corpo inteiro reagia a isso, como se algo dentro de mim reconhecesse seu perfume e implorasse por mais.Ela sabia disso.Seu olhar era puro desafio. Seu corpo se movia de maneira calculada, provocante, esp
KarevO olhar de Mallory me desafiava a ir além. A me render ao que já era inevitável.Ela sabia o que estava fazendo. Sabia como cada parte do meu corpo reagia aos seus toques, aos seus olhares, ao simples fato de sua pele roçar na minha.E, naquele momento, eu não queria mais lutar contra isso.Seus dedos percorreram meu peito, explorando as marcas da luta. Seu toque era firme, mas ao mesmo tempo delicado, como se estivesse redescobrindo cada pedaço de mim. Meu corpo inteiro pulsava em resposta, um misto de desejo e algo mais profundo que eu ainda não sabia explicar.Mallory me puxou para um beijo, e foi como se meu mundo pegasse fogo.O beijo foi intenso, feroz, carregado de algo primal. Minha boca tomava a dela com fome, minha língua explorava cada canto, como se precisasse gravar seu gosto em mim. Ela gemeu contra meus lábios, e um rosnado grave escapou do fundo do meu peito.Ela sorriu, satisfeita.— Isso... — murmurou contra minha boca. — É disso que estou falando.O calor entr
Karev— KAREV, NÃO!A voz de Mallory cortou o nevoeiro na minha mente como uma lâmina afiada, mas o instinto já havia assumido o controle.Meus pés se moviam antes que minha mente pudesse intervir. Meu corpo inteiro vibrava com a necessidade de atacar. A floresta parecia mais nítida do que nunca, os cheiros mais intensos, cada som amplificado. Eu sentia o chão úmido sob os pés descalços, o vento cortando minha pele quente, o cheiro da terra misturado ao de Mallory.Mas havia algo mais ali.Algo que não pertencia.O estrondo da minha própria pulsação era tudo o que eu ouvia, até que uma voz carregada de tédio e irritação interrompeu minha corrida.— Pelo amor da Deusa, irmã! Segura teu macho. Estou aqui apenas para dar um recado.Minha visão se ajustou ao escuro e então a vi: Astoria, parada entre as árvores com os braços cruzados e uma expressão de puro desdém.Minha respiração era irregular. Meu peito subia e descia com força, e eu sentia meu lobo rosnando dentro de mim, ainda pronto