03. O Despertar do Lobo

Mallory

O sol já havia nascido há algumas horas, mas o peso da noite ainda estava sobre mim.

Eu não dormi.

Passei a madrugada inteira rolando na cama, minha mente inquieta, os pensamentos presos em um único nome.

Desde que ele descobriu a verdade, nada foi mais o mesmo. Eu sentia a presença dele em cada parte do meu corpo, como se o vínculo entre nós estivesse crescendo, mesmo que ele ainda não soubesse disso.

E agora ele estava aqui.

Na propriedade de Ragnar.

Andando como um predador, o corpo rígido, a raiva pulsando em cada movimento. Ele estava indo direto para o espaço de treinamento.

Meu coração disparou.

Ele não estava apenas aceitando o que era.

Ele queria lutar.

— Lory, não vá até lá.

A voz de Cameron carregava uma firmeza incomum.

Ela não estava apenas pedindo. Ela estava me alertando.

Mas nem mesmo minha irmã conseguiria me impedir de fazer o que precisava ser feito.

Eu sabia que Karev era intenso, mas agora ele parecia algo além disso. Cada fibra do seu corpo irradiava uma energia bruta, instintiva, algo que eu nunca tinha visto antes. Não havia mais um humano ali.

Ele não era mais apenas o nadador olímpico.

Ele não era mais apenas um jovem perdido tentando entender quem era.

Ele era um lobo indo para o abate.

Meu coração bateu mais forte.

Eu sabia que isso aconteceria. Mas saber era diferente de ver.

O Karev que caminhava agora não era o garoto que conheci na piscina.

Não era o garoto irritado e perdido que descobriu a verdade sobre si mesmo.

Era um guerreiro.

Um predador.

E ele estava pronto para desafiar o pai que nunca teve.

Eu senti Cameron segurar meu braço com mais força.

— Lory, me escuta. Você sabe como Gabriel é. Ele vai testá-lo até o limite. E se Karev perder o controle...?

— É exatamente por isso que eu preciso ir até lá. — Minha voz saiu firme, mas minha respiração já estava acelerada.

Puxei meu braço da mão dela e saí correndo pela porta antes que minha irmã pudesse me segurar.

A cada passo que eu dava, a tensão aumentava.

O espaço de treinamento ficava nos fundos da propriedade, um ringue de combate ao ar livre, cercado por árvores e observadores silenciosos. O cheiro de terra batida misturado ao suor e testosterona se intensificava conforme eu me aproximava.

E então eu o vi.

Karev.

Sem camisa. Os músculos definidos brilhavam sob o sol da manhã, cada movimento seu era uma ameaça silenciosa. O rosto estava rígido, os olhos selvagens, fixos em Gabriel.

Ele não piscava. Não hesitava.

Ele queria atacar.

Mas Gabriel apenas o estudava, sem pressa, como um caçador observando sua presa.

A diferença entre os dois era gritante. Gabriel era um guerreiro experiente. Um Beta de sangue puro. Um lobo treinado para proteger o Alfa Supremo.

E Karev?

Karev era um jovem que acabou de descobrir o próprio poder.

Ele era forte. Mas não forte o suficiente para Gabriel.

E aquilo só o deixaria mais frustrado.

Parei na entrada do galpão, meus olhos fixos neles. Mas antes que eu pudesse dar um passo à frente, a voz de Gabriel ecoou, fria e sem emoção:

— Pare onde está, Mallory.

Mas eu não parei.

Continuei andando, ignorando a ordem.

— Se você continuar desse jeito, só vai afastá-lo ainda mais.

Karev se virou para mim num movimento brusco.

rosnou.

O som reverberou pelo ringue, profundo, vibrante, um aviso animal.

Meu corpo inteiro se arrepiou.

Minha loba se contorceu dentro de mim, reconhecendo aquele chamado. Meu instinto gritou para que eu me aproximasse, para que provasse a ele quem realmente éramos um para o outro.

Mas eu me controlei.

E sorri.

Mostrei minhas presas.

Os olhos de Karev se arregalaram por um segundo.

— O quê...?

Inclinei a cabeça, a provocação estampada no meu rosto.

— Bem-vindo ao nosso mundo, Karev.

Ele ainda parecia absorver aquilo quando subi no ringue. Gabriel me lançou um olhar de advertência, mas eu já sabia o que ele diria. 

 — Tome cuidado. Sorri de canto. 

 — Eu confio no lobo dele. Gabriel arqueou uma sobrancelha e riu. 

 — Hm. Existe alguma ligação aqui? 

 Dei de ombros, sem responder. 

 A verdade? Eu não sabia. Mas algo dentro de mim me dizia que Karev era meu, mesmo que ele ainda não entendesse isso. 

 Eu me virei para ele, meu olhar o analisando. Ele ainda estava tenso, respirando pesado.

— Mesmo que você também seja uma aberração, eu não vou lutar com você. — Karev disse, a voz baixa, carregada de algo que eu não sabia nomear.

Eu ri.

— Não? — Inclinei a cabeça, fingindo inocência. — Então tente encostar em mim.

Me abaixei em posição de ataque, meus movimentos fluídos, graciosos, naturais.

Algo brilhou nos olhos dele. Não ele. Mas seu lobo.

Eu estava chamando sua atenção.

Instigando seu instinto.

Nossos corpos começaram a se movimentar em um ritmo próprio, como uma dança. Eu deslizava ao redor dele, minhas mãos roçando sua pele, mas nunca me deixando ser pega.

A cada vez que ele tentava avançar, eu desviava, rindo.

— Você precisa ser mais rápido do que isso.

Ele riu, ofegante.

— Você foi treinada, mas eu não.

— Sim, então vamos treiná-lo. Deixe que seu lobo observe o que eu faço. Seus olhos humanos não vão conseguir me acompanhar.

Ele cerrou os dentes, percebendo o que eu estava fazendo. Desafiando-o.

E então, eu vi.

Seus olhos mudaram.

Seus músculos endureceram.

Ele começava a entender.

E quando Gabriel deu um passo para trás, senti o cheiro dele se alterando.

O cheiro de desejo.

Territorialidade.

Meu coração bateu rápido.

Minha pele queimava onde ele me olhava.

E então eu ataquei.

Meus dedos deslizaram pelo seu peito, rápidas, firmes, sentindo cada centímetro da pele quente. Ele tentou me pegar, mas eu escapei, girando pelo ringue.

— Isso não é justo, Mal. — Ele rosnou, o tom baixo e perigoso.

O som da sua voz me fez ronronar.

Ele parou no mesmo instante.

Me olhou como se eu fosse a única coisa no mundo que importava.

E então ele sorriu. De forma safada.

Ele tinha entendido.

Não só Karev. Mas seu lobo.

Eu podia sentir a energia queimando entre nós. Meu corpo queria tomá-lo. Marcá-lo.

O dele queria o mesmo.

Meu coração batia forte quando ele deu um passo à frente.

Eu não recuei.

Mas antes que qualquer um de nós pudesse fazer qualquer coisa, Gabriel limpou a garganta.

Nós dois congelamos.

Como se tivéssemos sido pegos no meio de algo proibido.

E então, Gabriel riu.

— Então é assim que você quer aprender, Karev?

Ele ergueu as mãos, exasperado.

— Não foi isso que eu planejei!

Mas a verdade?

Era exatamente o que seu lobo queria.

E talvez... o que nós dois quiséssemos o tempo todo.

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