05. Além da Pele

Karev

Meus dedos ainda estavam enterrados no pelo quente e macio do lobo à minha frente. Ou melhor, de Mallory.

Minha mente recusava-se a aceitar o que meus olhos viam, o que minha pele sentia. Meu coração batia forte contra as costelas, como se tentasse romper a barreira entre lógica e instinto. O ar dentro do galpão parecia pesado, denso, como se o próprio universo estivesse me empurrando para aceitar o impossível.

Ela era real. O lobo diante de mim era ela.

Minha respiração ficou presa no peito. Minha garganta secou. E a única coisa que eu conseguia ouvir era o eco ensurdecedor da minha própria pulsação.

"Essa também sou eu."

A voz dela soou dentro da minha cabeça. Não pela minha audição, mas como um pensamento impresso diretamente em minha mente.

Minha reação foi imediata. Um palavrão escapou dos meus lábios, e eu soltei a mão rapidamente, me afastando.

O lobo branco e marrom inclinou a cabeça de leve, como se me estudasse. Mallory não parecia preocupada, nem ofendida. Ela apenas esperava. Como se soubesse que esse momento chegaria. Como se tivesse paciência para que eu aceitasse a verdade que sempre esteve ali.

Mas como diabos eu poderia aceitar? Isso era loucura. Isso era impossível.

Meu corpo estava pesado, como se algo me puxasse para trás. Eu queria correr, sair dali, mas não conseguia. Seus olhos me seguravam no lugar. Eram os mesmos olhos de sempre, apenas em um corpo diferente. E isso me apavorou mais do que qualquer outra coisa.

A transformação, a mudança de forma — tudo isso era inacreditável. Mas o que mais me atingiu foi o fato de que, mesmo naquela forma, ela ainda era Mallory.

Ela piscou devagar, como se tentasse me tranquilizar. E então, diante dos meus olhos, seu corpo começou a se transformar novamente.

Os pelos recuaram, os ossos se realinharam, os músculos se contraíram, e, em questão de segundos, ela estava ali.

Mallory.

Totalmente nua.

Engoli em seco.

Meu olhar percorreu cada centímetro dela, meu peito subindo e descendo rapidamente. O suor ainda reluzia em sua pele, os músculos tensos pela transformação. Mas não era apenas sua beleza que me fazia perder o fôlego.

Era porque agora eu via tudo.

Ela não estava apenas nua fisicamente. Ela estava despida diante de mim em todos os sentidos.

"Essa também sou eu."

Suas palavras ecoavam na minha mente como um mantra.

E, pela primeira vez, algo dentro de mim se partiu.

— Isso é real. — Minha voz saiu rouca, quase um sussurro.

Ela sorriu de leve, pegando suas roupas do chão com calma, sem pressa.

— Sim.

Passei a mão pelos cabelos, sentindo um nó apertado no estômago.

— Como... Como você consegue?

Ela arqueou a sobrancelha enquanto vestia a blusa.

— Conseguir o quê?

Gesticulei, frustrado.

— Viver assim. Aceitar isso. Como você simplesmente lida com essa... essa coisa dentro de você?

Dessa vez, ela não riu. Apenas se ajoelhou à minha frente, seus olhos firmes nos meus.

— Porque eu nunca lutei contra ela, Karev.

Minha mandíbula travou.

— E se eu não quiser isso?

Ela me analisou em silêncio por um longo momento antes de sorrir de lado.

— Então me diga que você consegue ignorar isso.

Franzi o cenho.

— O quê?

Ela ergueu a mão e pousou no meu peito.

Bem no lugar onde meu lobo rugia dentro de mim.

O toque dela fez algo explodir dentro do meu peito. Minha pele esquentou. Minha respiração ficou presa na garganta.

Ela inclinou a cabeça levemente, me desafiando.

— Diga que não sente. Diga que nada mudou. Diga que você pode fingir que ainda é apenas humano.

Abri a boca para responder.

Mas nada saiu.

Porque eu sentia.

Porque tudo mudou.

Porque eu não era apenas humano.

Minha cabeça caiu para trás, e soltei um suspiro longo, encarando o teto do galpão. Meu corpo ainda estava tenso, como se estivesse travando uma guerra interna.

Mallory não disse nada. Apenas esperou.

E, depois de um longo momento, olhei para ela novamente.

— O que eu faço agora?

Ela sorriu.

— Você aprende a se tornar quem sempre foi.

Minha garganta estava seca quando passei a língua pelos lábios.

— Isso significa que eu vou virar um lobo também?

Ela inclinou a cabeça, pensativa.

— Talvez.

Minha testa franziu.

— Talvez?

— Depende.

— Depende do quê?

Seus olhos prenderam os meus.

— Depende de você aceitar seu lobo.

O silêncio se estendeu entre nós.

Aceitar.

Essa era a palavra.

Porque, no fim das contas, não era sobre se eu podia ou não me transformar.

Era sobre se eu aceitaria quem eu realmente era.

E naquele momento, eu considerei essa possibilidade.

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