Karev
Meus dedos ainda estavam enterrados no pelo quente e macio do lobo à minha frente. Ou melhor, de Mallory.
Minha mente recusava-se a aceitar o que meus olhos viam, o que minha pele sentia. Meu coração batia forte contra as costelas, como se tentasse romper a barreira entre lógica e instinto. O ar dentro do galpão parecia pesado, denso, como se o próprio universo estivesse me empurrando para aceitar o impossível.
Ela era real. O lobo diante de mim era ela.
Minha respiração ficou presa no peito. Minha garganta secou. E a única coisa que eu conseguia ouvir era o eco ensurdecedor da minha própria pulsação.
"Essa também sou eu."
A voz dela soou dentro da minha cabeça. Não pela minha audição, mas como um pensamento impresso diretamente em minha mente.
Minha reação foi imediata. Um palavrão escapou dos meus lábios, e eu soltei a mão rapidamente, me afastando.
O lobo branco e marrom inclinou a cabeça de leve, como se me estudasse. Mallory não parecia preocupada, nem ofendida. Ela apenas esperava. Como se soubesse que esse momento chegaria. Como se tivesse paciência para que eu aceitasse a verdade que sempre esteve ali.
Mas como diabos eu poderia aceitar? Isso era loucura. Isso era impossível.
Meu corpo estava pesado, como se algo me puxasse para trás. Eu queria correr, sair dali, mas não conseguia. Seus olhos me seguravam no lugar. Eram os mesmos olhos de sempre, apenas em um corpo diferente. E isso me apavorou mais do que qualquer outra coisa.
A transformação, a mudança de forma — tudo isso era inacreditável. Mas o que mais me atingiu foi o fato de que, mesmo naquela forma, ela ainda era Mallory.
Ela piscou devagar, como se tentasse me tranquilizar. E então, diante dos meus olhos, seu corpo começou a se transformar novamente.
Os pelos recuaram, os ossos se realinharam, os músculos se contraíram, e, em questão de segundos, ela estava ali.
Mallory.
Totalmente nua.
Engoli em seco.
Meu olhar percorreu cada centímetro dela, meu peito subindo e descendo rapidamente. O suor ainda reluzia em sua pele, os músculos tensos pela transformação. Mas não era apenas sua beleza que me fazia perder o fôlego.
Era porque agora eu via tudo.
Ela não estava apenas nua fisicamente. Ela estava despida diante de mim em todos os sentidos.
"Essa também sou eu."
Suas palavras ecoavam na minha mente como um mantra.
E, pela primeira vez, algo dentro de mim se partiu.
— Isso é real. — Minha voz saiu rouca, quase um sussurro.
Ela sorriu de leve, pegando suas roupas do chão com calma, sem pressa.
— Sim.
Passei a mão pelos cabelos, sentindo um nó apertado no estômago.
— Como... Como você consegue?
Ela arqueou a sobrancelha enquanto vestia a blusa.
— Conseguir o quê?
Gesticulei, frustrado.
— Viver assim. Aceitar isso. Como você simplesmente lida com essa... essa coisa dentro de você?
Dessa vez, ela não riu. Apenas se ajoelhou à minha frente, seus olhos firmes nos meus.
— Porque eu nunca lutei contra ela, Karev.
Minha mandíbula travou.
— E se eu não quiser isso?
Ela me analisou em silêncio por um longo momento antes de sorrir de lado.
— Então me diga que você consegue ignorar isso.
Franzi o cenho.
— O quê?
Ela ergueu a mão e pousou no meu peito.
Bem no lugar onde meu lobo rugia dentro de mim.
O toque dela fez algo explodir dentro do meu peito. Minha pele esquentou. Minha respiração ficou presa na garganta.
Ela inclinou a cabeça levemente, me desafiando.
— Diga que não sente. Diga que nada mudou. Diga que você pode fingir que ainda é apenas humano.
Abri a boca para responder.
Mas nada saiu.
Porque eu sentia.
Porque tudo mudou.
Porque eu não era apenas humano.
Minha cabeça caiu para trás, e soltei um suspiro longo, encarando o teto do galpão. Meu corpo ainda estava tenso, como se estivesse travando uma guerra interna.
Mallory não disse nada. Apenas esperou.
E, depois de um longo momento, olhei para ela novamente.
— O que eu faço agora?
Ela sorriu.
— Você aprende a se tornar quem sempre foi.
Minha garganta estava seca quando passei a língua pelos lábios.
— Isso significa que eu vou virar um lobo também?
Ela inclinou a cabeça, pensativa.
— Talvez.
Minha testa franziu.
— Talvez?
— Depende.
— Depende do quê?
Seus olhos prenderam os meus.
— Depende de você aceitar seu lobo.
O silêncio se estendeu entre nós.
Aceitar.
Essa era a palavra.
Porque, no fim das contas, não era sobre se eu podia ou não me transformar.
Era sobre se eu aceitaria quem eu realmente era.
E naquele momento, eu considerei essa possibilidade.
KarevAceitar.A palavra martelava em minha mente, pesada como chumbo, enquanto eu tentava ignorar o calor pulsante que percorria cada centímetro do meu corpo.Mallory estava ali, me observando, a expressão séria, os olhos azuis fixos nos meus. Sua mão quente ainda pressionava meu peito momentos antes, como se quisesse me ancorar à realidade. Mas que realidade era essa? A que eu conhecia desde sempre ou essa nova que se desenrolava diante de mim?Minha pele ainda formigava. Meu peito subia e descia rapidamente, como se meus pulmões estivessem tentando acompanhar o ritmo frenético da minha mente. Era como se meu próprio corpo estivesse sendo puxado em duas direções opostas, uma luta silenciosa entre o que eu pensava ser e o que, aparentemente, eu realmente era.— Levanta. — A voz de Gabriel quebrou o silêncio.Meu olhar encontrou o dele. O homem que eu deveria chamar de pai estava parado, os braços cruzados, a expressão impassível. Ele parecia inabalável, como se nada naquele momento f
MalloryCada golpe acertado reverberava através de mim como se fosse em meu próprio corpo. O som dos impactos, os grunhidos abafados e a respiração irregular de Karev enchiam o espaço, tornando o ar pesado. Eu sabia que isso era necessário, que Gabriel não estava apenas ensinando, mas testando os limites dele. Era cruel, talvez, mas essencial.Karev precisava despertar.Um lobo trancado por quase duas décadas não surgiria simplesmente como se sempre tivesse existido. Ele poderia emergir feroz, incontrolável, uma força indomável que não reconheceria limites. Ou poderia ser algo que ninguém esperava. Gabriel não estava disposto a esperar para descobrir. Ele queria ter certeza antes que Ragnar percebesse o quão instável Karev poderia ser.O suor escorria pelo corpo dele, misturando-se ao sangue de pequenos cortes e hematomas. Os músculos rígidos denunciavam seu cansaço, mas o fogo em seus olhos dizia que ele ainda não havia desistido. Seu orgulho não o permitiria.Eu conhecia bem esse ol
KarevEu não conseguia desviar o olhar dela.A provocação ainda estava no ar, como um desafio silencioso entre nós."Você já me teve antes. Mas não como um lobo."As palavras de Mallory ainda vibravam dentro de mim, misturadas à adrenalina da luta e ao calor que queimava sob minha pele.Ela sabia exatamente o que estava fazendo.E sabia que estava funcionando.Minha respiração estava pesada, meu corpo ainda pulsava da surra que levei de Gabriel. Mas nada disso importava mais. Não quando o cheiro dela estava me envolvendo dessa forma. Eu nunca tinha notado antes. Ou talvez tivesse, mas não como agora.O cheiro de Mallory era quente, amadeirado, com um toque levemente adocicado, como algo viciante. Ele entrava nos meus pulmões e ia direto para a corrente sanguínea, me intoxicando. Meu corpo inteiro reagia a isso, como se algo dentro de mim reconhecesse seu perfume e implorasse por mais.Ela sabia disso.Seu olhar era puro desafio. Seu corpo se movia de maneira calculada, provocante, esp
KarevO olhar de Mallory me desafiava a ir além. A me render ao que já era inevitável.Ela sabia o que estava fazendo. Sabia como cada parte do meu corpo reagia aos seus toques, aos seus olhares, ao simples fato de sua pele roçar na minha.E, naquele momento, eu não queria mais lutar contra isso.Seus dedos percorreram meu peito, explorando as marcas da luta. Seu toque era firme, mas ao mesmo tempo delicado, como se estivesse redescobrindo cada pedaço de mim. Meu corpo inteiro pulsava em resposta, um misto de desejo e algo mais profundo que eu ainda não sabia explicar.Mallory me puxou para um beijo, e foi como se meu mundo pegasse fogo.O beijo foi intenso, feroz, carregado de algo primal. Minha boca tomava a dela com fome, minha língua explorava cada canto, como se precisasse gravar seu gosto em mim. Ela gemeu contra meus lábios, e um rosnado grave escapou do fundo do meu peito.Ela sorriu, satisfeita.— Isso... — murmurou contra minha boca. — É disso que estou falando.O calor entr
Karev— KAREV, NÃO!A voz de Mallory cortou o nevoeiro na minha mente como uma lâmina afiada, mas o instinto já havia assumido o controle.Meus pés se moviam antes que minha mente pudesse intervir. Meu corpo inteiro vibrava com a necessidade de atacar. A floresta parecia mais nítida do que nunca, os cheiros mais intensos, cada som amplificado. Eu sentia o chão úmido sob os pés descalços, o vento cortando minha pele quente, o cheiro da terra misturado ao de Mallory.Mas havia algo mais ali.Algo que não pertencia.O estrondo da minha própria pulsação era tudo o que eu ouvia, até que uma voz carregada de tédio e irritação interrompeu minha corrida.— Pelo amor da Deusa, irmã! Segura teu macho. Estou aqui apenas para dar um recado.Minha visão se ajustou ao escuro e então a vi: Astoria, parada entre as árvores com os braços cruzados e uma expressão de puro desdém.Minha respiração era irregular. Meu peito subia e descia com força, e eu sentia meu lobo rosnando dentro de mim, ainda pronto
MalloryA água estava perfeita.Fresca, límpida, deslizando suavemente pela minha pele como um convite para algo proibido.Eu me virei na cachoeira, deixando meu corpo flutuar, observando Karev parado na margem, ainda esbaforido da corrida.Ele estava uma visão selvagem.Os cabelos desgrenhados, a pele quente brilhando sob a luz da lua, o peito subindo e descendo rápido, os músculos tensos como se ele ainda não tivesse aceitado que perdeu.Sorri, satisfeita."Tão previsível."Ele ergueu uma sobrancelha.— O que foi?Meu sorriso cresceu.— Você não vai entrar?Karev cruzou os braços, os olhos analisando a água com desconfiança.— E se tiver animais peçonhentos?A risada saiu antes que eu pudesse evitar.Joguei a cabeça para trás e gargalhei, sentindo a água fria deslizar por meu pescoço.— Você tá falando sério?— Sim. — Ele resmungou. — Pode ter cobras aí dentro.O riso só aumentou.— Não acredito que um lobo tem medo de cobra!Ele franziu o cenho, claramente irritado.— Não é medo. É
KarevA caminhada até a casa de Ragnar foi silenciosa.Minutos atrás, Mallory estava brincando, me provocando, me fazendo esquecer de tudo que não fosse seu toque. Agora, ela estava distante. Seu corpo se movia de maneira contida, menos solta, como se estivesse trancada dentro da própria mente.Aquilo me incomodava.Queria perguntar mais sobre o que aconteceu. Queria entender por que falar daquele cara mexeu tanto com ela. Mas pelo jeito que mantinha os olhos fixos à frente, fechada em sua própria bolha, ficou claro que esse não era o momento.A casa de Ragnar surgiu entre as árvores, imponente e iluminada. As sombras de quem nos esperava podiam ser vistas através das janelas. Assim que cruzamos a porta, todos os olhares se voltaram para nós.Ragnar.Cameron.Astoria e Connor.E, para minha surpresa, Gabriel.Meu corpo ficou tenso.Minha mandíbula travou. Meu peito subiu e desceu lentamente enquanto tentava controlar o desconforto que cresceu no meu estômago.Minha primeira reação foi
MalloryO silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.Meu coração martelava contra minhas costelas enquanto Ragnar me encarava, os olhos negros avaliando cada mínima expressão.— O que você quer fazer, Mallory? — Sua voz era calma, mas carregada de tensão.O peso dos olhares ao meu redor era sufocante.Minhas irmãs estavam rígidas, a indignação estampada em seus rostos. Cameron e Astoria já tinham decidido que essa ideia era absurda e esperavam que eu concordasse sem hesitação.Mas eu não podia.Minha mente girava, analisando cada consequência.Se eu recusasse, poderia colocar meu pai em uma posição vulnerável. Se rejeitasse sem apresentar uma alternativa, isso poderia ser visto como uma afronta, algo que tornaria Ragnar responsável por resolver a crise.Eu não queria isso.Eu não podia deixar isso acontecer.Astoria foi a primeira a se manifestar.— Isso é um absurdo! Vamos dar um jeito, Lory. Não precisamos disso!— É isso! — Cameron concordou, a fúria brilhando em seus olhos. — Ragnar