06. O Chamado do Instinto

Karev

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A palavra martelava em minha mente, pesada como chumbo, enquanto eu tentava ignorar o calor pulsante que percorria cada centímetro do meu corpo.

Mallory estava ali, me observando, a expressão séria, os olhos azuis fixos nos meus. Sua mão quente ainda pressionava meu peito momentos antes, como se quisesse me ancorar à realidade. Mas que realidade era essa? A que eu conhecia desde sempre ou essa nova que se desenrolava diante de mim?

Minha pele ainda formigava. Meu peito subia e descia rapidamente, como se meus pulmões estivessem tentando acompanhar o ritmo frenético da minha mente. Era como se meu próprio corpo estivesse sendo puxado em duas direções opostas, uma luta silenciosa entre o que eu pensava ser e o que, aparentemente, eu realmente era.

— Levanta. — A voz de Gabriel quebrou o silêncio.

Meu olhar encontrou o dele. O homem que eu deveria chamar de pai estava parado, os braços cruzados, a expressão impassível. Ele parecia inabalável, como se nada naquele momento fosse inesperado.

Mas para mim, era como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo.

A irritação cresceu dentro de mim. Ele não parecia surpreso, não parecia afetado, enquanto tudo dentro de mim gritava, tentando encontrar um ponto de equilíbrio.

— Levanta, Karev. — Ele repetiu, dessa vez mais firme.

Mallory deu um passo para trás, e eu me obriguei a erguer o corpo. Minhas pernas estavam pesadas, como se carregassem o peso de algo invisível.

Gabriel me avaliou por um momento, então deu um passo à frente e apontou para o ringue.

— Sobe.

Minha mandíbula se contraiu.

— Mais luta?

Ele me olhou como se eu fosse um idiota.

— Se quer entender o que está acontecendo com você, precisa aprender a canalizar seu instinto. Você está cheio de energia, cheio de algo que não sabe nomear. Isso precisa ser usado da maneira certa.

Ele subiu no ringue, os músculos relaxados, mas seus olhos atentos.

— Eu vou te ensinar a controlar isso.

Minha pele formigava. Meu sangue fervia.

— Então você quer que eu lute com você.

Um sorriso irônico surgiu no canto dos lábios dele.

— Quero que tente sobreviver.

O ar ao meu redor pareceu ficar mais denso.

Mallory permaneceu em silêncio, mas vi a tensão em seu rosto. Ela sabia que aquilo não seria apenas um treino.

Eu inspirei fundo, subindo no ringue, os músculos tensos.

— Isso é um treinamento ou um acerto de contas?

O brilho afiado no olhar dele me deu a resposta antes mesmo que falasse.

— Talvez os dois.

E então ele avançou.

Não houve aviso. Não houve tempo para reagir.

O punho dele atingiu meu abdômen como um raio, me tirando o fôlego. Meu corpo foi lançado para trás, a dor vibrando através das costelas.

Porra.

Me apoiei no joelho, tossindo, tentando recuperar o ar.

Ele nem hesitou.

Não estava pegando leve.

Gabriel se afastou alguns passos, me analisando como um predador estudando sua presa.

— Você é um atleta, Karev. Seu corpo já sabe como se mover, como reagir. Mas agora precisa parar de pensar como humano.

Minha raiva cresceu.

— E como eu deveria pensar? Como um animal?

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Exatamente.

O fogo dentro de mim explodiu.

Avancei, os punhos cerrados, e disparei um golpe direto.

Ele desviou sem esforço.

Foi como socar o ar.

O riso baixo dele me atingiu mais do que qualquer golpe. Antes que eu pudesse me reposicionar, Gabriel girou e me acertou com um chute firme na lateral do corpo.

Um grunhido escapou de minha garganta enquanto cambaleava para o lado, o impacto reverberando pelos ossos.

Ouvi Mallory prender a respiração.

Eu ergui o olhar, minha visão embaçada por um segundo.

Gabriel ainda estava ali. Sem cansaço. Sem hesitação.

E eu?

Eu estava ficando para trás.

Minha respiração ficou mais pesada. Meu coração batia contra as costelas com força. A frustração queimava dentro de mim, junto com algo mais. Algo que se agitava, tentando se libertar.

Foi então que aconteceu.

A vibração na minha pele ficou mais intensa. A pressão em minha cabeça aumentou. Minha visão oscilou por um segundo, como se tudo ao meu redor estivesse mais nítido.

Cada som ficou mais alto.

Cada cheiro, mais forte.

Meu peito se expandiu com um ar quente e denso.

Minha mandíbula doía, os dentes cerrados com tanta força que quase senti algo se partir.

Era como se algo estivesse tentando emergir. Algo que não era apenas humano.

Minha cabeça latejava.

— Merda.

Gabriel me estudou com atenção.

— Está sentindo, não está?

Minha visão piscou entre claro e escuro, a luz do galpão parecia mais agressiva.

Eu balancei a cabeça, tentando afastar aquilo.

— Eu não sei o que está acontecendo.

— Seu lobo está acordando.

Eu ri. Um riso curto, irônico, mas sem humor.

— Isso é um inferno.

— É a sua natureza.

Antes que eu pudesse responder, Gabriel atacou de novo.

Dessa vez, eu senti antes mesmo de ver.

Meu corpo reagiu sozinho.

Desviei para o lado, o golpe dele passando no vazio. Meu peito subia e descia rápido, mas não era exaustão. Era algo mais.

Minha pele queimava.

Minha mente gritava.

Meu lobo rosnava.

Então, veio o impacto.

Gabriel me atingiu na lateral e fui ao chão. Meu corpo bateu contra o tatame, e o gosto metálico do sangue preencheu minha boca.

Minhas mãos cavaram o chão, os músculos pulsando, uma força nova se espalhando por cada fibra do meu ser.

Foi quando ouvi.

Baixo, profundo, ameaçador.

Meu rosnado.

A vibração atravessou meu peito, meus ossos, minha alma.

Gabriel deu um passo para trás, me observando.

— Você pode lutar contra isso. Ou pode aceitá-lo.

Minha respiração estava ofegante.

O que diabos eu fazia agora?

Meu olhar encontrou o de Mallory.

Ela não estava assustada.

Ela estava esperando.

Minha mente dizia que eu não pertencia àquele mundo. Que eu deveria levantar e ir embora, fingir que nada disso era real.

Mas meu lobo dizia outra coisa.

Ele dizia que eu estava exatamente onde deveria estar.

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