Collin*A floresta estava escura e fria, o vento cortante passando por entre as árvores fazia o corpo inteiro de Collin tremer. Ela abraçou a si mesma, tentando afastar a sensação gélida que se infiltrava em sua pele. Seus olhos percorriam o breu à sua frente, mas a escuridão parecia engolir tudo ao redor.— Eve! — sua voz ecoou na noite silenciosa.Nenhuma resposta.Ela olhou por cima do ombro. A aldeia já estava distante, as luzes das tochas quase invisíveis.Se quisesse fugir, aquele era o momento. Poderia simplesmente correr. Ninguém a encontraria. Todos estariam ocupados demais tentando encontrar Eve.A ideia pairou em sua mente por alguns segundos, um pensamento sedutor. A liberdade estava ali, ao alcance de suas mãos.Mas então, sua mandíbula se contraiu.Não.Eve precisava dela.Bufando, ela balançou a cabeça e continuou caminhando, forçando os pés a se moverem sobre a terra úmida.— Eve? Onde você está? — insistiu, sua voz saindo mais baixa agora, quase uma súplica.Nada. Ape
Collin*Eve puxou Collin para trás de uma árvore grossa, ambas ofegantes, seus corpos pressionados contra a casca áspera. Os gritos ecoavam cada vez mais altos, misturados ao som de madeira se partindo e ao cheiro de fumaça.Collin sentia o coração martelar dentro do peito, tão forte que parecia prestes a saltar pela boca. Ela virou-se para Eve, seus olhos arregalados pelo pavor.— Onde estão os outros batedores? — sussurrou, a voz quase inaudível em meio ao caos.Eve olhou ao redor rapidamente, os punhos cerrados.— Eu não sei. Devem estar se preparando para o combate.Collin engoliu em seco. Seu estômago se revirava.— Eve... Eles morreram.A outra garota congelou, os músculos tensos como se tivessem sido esculpidos em pedra.— Não! — respondeu entre dentes. — Não diga isso. Eles não morreram!Collin sentiu as lágrimas molharem seu rosto, mas nem percebeu quando começaram a cair.— Eles vão matar todos nós.Antes que o desespero a dominasse por completo, Eve segurou seus ombros com
Collin*O ar estava pesado, carregado pelo cheiro metálico do sangue e pelo calor do fogo que queimava algumas estruturas mais distantes. Collin deslizou silenciosamente pelas sombras das casas, seus pés mal tocando o chão de terra batida. O templo não estava longe, mas o silêncio repentino a fez hesitar.Os gritos haviam cessado.E aquilo a aterrorizava mais do que qualquer outro som.Ela escalou a lateral de uma das casas e forçou a janela de madeira até que ela cedeu. Entrou com cuidado, o ambiente imerso em escuridão. O cheiro de mofo misturado ao sangue ressecado invadiu suas narinas, e ela prendeu a respiração, tentando ignorar o frio que rastejava por sua espinha.Tateou o quarto em busca de algo – qualquer coisa – que pudesse usar como arma. Seu coração batia tão alto que temia que alguém pudesse ouvi-lo.Seus dedos tocaram algo sólido debaixo da cama.Um baú.Ela o puxou para fora, os dedos tremendo enquanto destravava a fechadura. A tampa rangeu ao se abrir, e dentro, reflet
Collin*As mãos de Collin tremiam enquanto encarava a criatura diante dela.O lupino era enorme. Seus músculos se projetavam sob a pele grossa, e os olhos eram duas fendas escuras e brilhantes. Os dentes, expostos em um rosnado baixo, gotejavam saliva. Ele parecia se divertir com o medo dela.Ela deu um passo para trás, sentindo as fêmeas presas atrás de si. Não podiam ficar ali.— Corram. — murmurou, sem tirar os olhos da besta.Elas hesitaram.— Corram, caramba! — gritou, a voz carregada de urgência.Dessa vez, as fêmeas não pensaram duas vezes. Seguraram seus filhos e dispararam para os fundos do templo, os pés mal tocando o chão.O lupino inalou profundamente, como se absorvesse cada partícula do cheiro dela.— Você… me é familiar. — a voz gutural rasgou o silêncio, carregada de curiosidade.Collin continuou recuando.— Tem um cheiro estranho... — ele sibilou, os olhos se estreitando. — Algo que eu conheço… muito bem.Ela apertou a adaga escondida atrás das costas. Se ele chegasse
A floresta ainda estava mergulhada na penumbra quando encontraram as fêmeas. Elas estavam reunidas em meio às árvores, os corpos trêmulos e os olhos arregalados de medo. Algumas ainda choravam baixinho, segurando seus filhotes contra o peito, como se temessem que o pesadelo daquela noite terrível voltasse a se repetir.Collin olhou ao redor, sentindo o peso da tragédia sobre os ombros. O cheiro de sangue e fumaça ainda impregnava o ar.Quando voltaram para a aldeia, o sol já se erguia no horizonte, tingindo o céu com tons alaranjados. Collin parou por um instante na entrada da aldeia e voltou o olhar para a floresta, incapaz de afastar a sensação de que não estavam seguras.Foi quando algo se moveu entre as árvores.Seu coração parou por um segundo.Um vulto emergiu da mata, mancando. O jovem lupino que havia atraído os inimigos para longe surgiu ensanguentado, cambaleando como se cada passo fosse uma luta.— Não… — murmurou Collin, correndo até ele.Os joelhos do jovem cederam antes
A chuva ameaçava cair desde o amanhecer, mas ainda não havia despencado. O cheiro de terra molhada pairava no ar, misturado ao ferro do sangue seco e à fuligem das casas queimadas.Após a chegada dos lupinos sobreviventes, a aldeia se encontrava mergulhada em uma mistura de alívio e luto. As fêmeas que reencontraram seus companheiros correram para abraçá-los, lágrimas e soluços se misturando a palavras de gratidão. Mas algumas apenas ficaram paradas, os olhos vasculhando entre os que retornaram… e não encontrando aqueles que esperavam.Liam observava tudo em silêncio. Seu rosto estava endurecido, mas as veias saltadas em suas mãos cerradas denunciavam a raiva e a culpa que o consumiam. Seu olhar percorreu as casas destruídas, os corpos cobertos por panos, e ele soltou um longo suspiro antes de erguer a voz.— Todos para o templo.Sua ordem ecoou forte e, mesmo sem mais explicações, todos obedeceram.O templo estava lotado. O clima ali dentro era um misto de esperança e pesar. Alguns o
A água morna ainda os envolvia, os corpos colados em um encaixe perfeito. O silêncio agora só era quebrado pelas respirações entrecortadas de ambos. O choro de Collin havia cessado, mas sua mente ainda estava um turbilhão.Liam apertava sua cintura, os dedos firmes segurando-a como se temesse que ela desaparecesse. Ele suspirou contra seu pescoço, a respiração quente arrepiando cada centímetro da pele sensível.Collin sentiu um leve tremor atravessar seu corpo quando ele inclinou o rosto e inalou seu cheiro profundamente.— Liam… — sua voz saiu fraca, quase um sussurro.Ele não respondeu. Ao invés disso, sua língua quente deslizou sobre a marca fraca que ele deixara em seu pescoço antes. Collin se arrepiou dos pés à cabeça, mordendo o próprio lábio para conter um gemido.Sem aviso, Liam segurou seu queixo com firmeza e virou seu rosto. Seus olhos estavam intensos, escuros, famintos.E então ele a beijou.Não havia delicadeza, não havia hesitação. O beijo era bruto, faminto, uma colisã
O quarto estava silencioso, exceto pelo farfalhar das vestes de Collin enquanto ela se movia inquieta na cama. Diante dela, dois vestidos repousavam sobre os lençóis, mas sua mente estava longe da escolha trivial entre cores e tecidos.Os humanos tinham funerais, cerimônias envoltas em flores, lágrimas e despedidas murmuradas. Mas aquilo… aquilo era diferente. A tradição dos lupinos ainda era um mistério para ela.Ela suspirou e se levantou, decidida a vestir qualquer coisa. Mas antes que pudesse escolher, a porta do banheiro se abriu.Liam entrou no quarto, seu olhar baixo, os ombros tensos. O vapor da água quente ainda pairava sobre sua pele, e seus cabelos úmidos caíam sobre a testa. Ele não olhou para ela, apenas caminhou até o guarda-roupa, revirando as prateleiras em busca de suas roupas.Collin engoliu em seco e desviou o olhar.— Eu… não sei que tipo de roupa usar.Ele permaneceu em silêncio, continuando a buscar suas vestes, como se não a tivesse ouvido.Ela cruzou os braços.