O Viúvo e a Babá
O Viúvo e a Babá
Por: Maddu Nascimento
Capítulo 1

—Você me traiu primeiro. — A voz firme do homem desconhecido que eu dividia a vida encheu o quarto.

Fico imóvel, tentando compreender aquela situação. Meu noivo, na cama em que foi o cenário de tantas juras de amor, a dividia com outra. Com minha própria irmã.

—Você enlouqueceu? — minha voz sai mais alta e mais trêmula do que imaginei, pois sinto os estilhaços do meu próprio coração cortando minha garganta.

Quando foco o olhar em direção a minha irmã, eu vejo o sorriso enigmático em seu rosto e a compreensão de todo aquele cenário de terror recai sobre mim.

—Não precisa mais fingir, Ayla, a Diana já me contou tudo.

Um sorriso descrente sai entre os meus lábios, e eu só sabia que já estava cansada demais pra tudo aquilo.

—Ainda bem que Diana é uma pessoa decente e que jamais mentiria ou enganaria alguém, então.

Erlon não compreende a ironia em minha voz, o que só comprova o quão patético ele sempre fora. Naquele instante, enquanto via as sombras de crueldade nos rostos dos dois, eu só soube que precisaria ir embora. Adiantaria em algo eu ficar e mostrar o quanto eles haviam me destruído, quando claramente sabiam disso?

— Mas isso é realmente ótimo, Erlon. Porque você finalmente me libertou. — Começo a falar, enquanto puxo minha mala do guarda-roupas e jogo peças aleatórias ali. —Finalmente poderei aceitar aquela proposta de emprego, longe daqui. Porque nada mais me prende nessa cidadezinha.

Termino de fechar as malas, enquanto o silêncio dos dois preenchiam aquele quarto, e aquilo falou mais alto do que qualquer palavra que poderia ser dita.

—Ah, e Diana, só te desejo boa sorte para sustentar esse canalha pelos próximos meses.

Começo a sair do quarto, abandonando a casa que sempre foi meu lar e o meu porto seguro. As lágrimas lutam para sair, mas me recuso que testemunhem o exato momento em que macularam a minha alma.

Ouço a voz e os passos de Erlon atrás de mim, até que ele para em minha frente.

— O que quer dizer com isso? Você vai realmente embora?

Olho uma última vez em seus olhos, enquanto me forço a apagar cada sorriso e planos que prometemos sempre manter entre nós dois. Vejo meu coração me traindo ao acelerar, porque por mais que a única coisa que eu precise realmente fazer é ir embora, aquilo me queimava profundamente.

— Você conseguiu arrancar algo de mim que não sei se posso recuperar. E por isso, você jamais voltará a ouvir falar de mim.

Ao dizer isso, atravessei aquelas portas e segui direto ao aeroporto. Deixando para trás toda a vida que eu conheci e deixando o único coração que eu amei, com a certeza que jamais amaria outra vez.

***

Três horas havia se passado quando finalmente deixei aquele avião. Enquanto esperava minha mala ser despachada, pude observar, através dos reflexos daquele salão, o quanto o meu rosto estava completamente manchado pelas lágrimas que me acompanharam a viagem inteira.

Passo rapidamente as mãos pelos meus cabelos desalinhados, tentando deixar ao menos uma coisa em mim em seu devido lugar, uma vez que tudo ao meu redor se encontrava na mais intensa bagunça.

Após alguns minutos, finalmente saí aeroporto afora. O vento gelado de um início de outono me abraçou de imediato e eu respirei fundo, tentando internalizar que aquele lugar ali, aquela cidade onde eu não conhecia ninguém, era a minha nova realidade.

Enquanto confirmava através da tela do meu celular, o endereço em que se localizava o hotel em que ficaria, um táxi parou em minha frente. Rapidamente abri as portas e entrei no veículo, no entanto, no exato momento em que falaria ao motorista onde iria ficar, a porta do lado oposto do carro foi aberta.

— Rua das Acácias, por favor. — A figura potente de um homem senta ao meu lado após dizer o endereço em que ficaria.

— Senhor, esse táxi já está ocupado. — Falo no mesmo instante, chamando sua atenção, caso não tenha notado minha presença.

No exato momento em que minha voz enche aquele táxi, olhos do tom mais forte de negro recai em minha direção. Engulo em seco no mesmo instante, porque algo em seu olhar apático, me faz recuar por um segundo. Mas tudo dura realmente um segundo.

— Ok. — Ele diz, antes de desviar os olhos dos meus e voltar a atenção para o motorista. — Por favor, eu estou com pressa. Pode dar partida?

A ousadia que emanou daquele homem fez o meu sangue ferver instantaneamente. Eu havia convivido com seres dessa arrogância o suficiente para reconhecer quando via um cretino.

— Se está com tanta pressa, sugiro que procure logo um táxi para você. Esse já está alugado. — Minha voz sai firme e um tanto raivosa.

O homem ao meu lado, vestido completamente de um terno negro, apenas puxa um cigarro do bolso do seu paletó e o acende, enquanto j**a para trás alguns fios negros do seu cabelo que recaem sobre o seu rosto. Estou presa nos movimentos que ele faz até que ele se vira para mim outra vez, e com um sorriso cínico no rosto, diz:

—Isso é tudo?

Respiro fundo, enquanto aperto minhas próprias mãos com tanta força, que sinto minhas unhas rasgarem a palma. A minha primeira experiencia naquela cidade estava sendo divertida o suficiente.

— Eu não vou a lugar algum com você ao meu lado. — Digo rispidamente.

Ele sorri e de um jeito estúpido, aquilo chama minha atenção, como se uma força magnética me prendesse ao jogo que se expressava em seu rosto naquele momento. Porque mesmo que o seu sorriso fosse límpido e insinuante, uma áurea obscura ocultava os seus olhos sombrios. Aquilo foi o suficiente para me fazer arrepiar-se por inteira.

— E o que você está esperando? Só desça do carro. — Ele diz, por fim.

— Escuta aqui, seu... — antes que eu começasse com uma lista interminável de xingamentos que eu dedicaria exclusivamente a ele, eu fui interrompida.

— Calma, vamos resolver isso aqui. — O motorista interveio. — Moça, para onde você vai?

Estridentes, olhei mais uma vez para o endereço em meu celular e resmunguei:

— Ficarei na Praça Central, no Grand Palace Hotel.

— Ótimo. É no mesmo trajeto do nosso amigo aqui, posso atender os dois.

O silêncio recaiu sobre aquele táxi, enquanto o motorista esperava pela resposta. O indivíduo irritante ao meu lado apenas continuou fumando em sua tranquilidade e eu percebi que ele não estava se importando com nada ao seu redor. Que tudo aquilo dependia de mim.

— Tudo bem. — Cedi e no mesmo instante, o motorista arrancou com o carro.

Porque a verdade era que eu estava cansada demais para qualquer mínimo combate naquele dia. Tudo que eu queria era chegar naquele hotel ou em qualquer lugar em que eu pudesse ficar sozinha e me afogar em minhas lágrimas inquietas.

Enquanto o carro cortava a avenida, eu observava aquela imensa cidade e percebia que era tudo diferente do que eu conheci a vida inteira e a ansiedade e os temores do que aquilo poderia me trazer me fez engolir em seco.

— Em qual lugar exato o senhor ficará? — o motorista pergunta após longos minutos.

O homem ao meu lado j**a a bituca do seu quarto cigarro pela janela e responde:

— Cemitério das Flores. — Responde simplesmente.

No mesmo momento, eu viro os meus olhos em sua direção e eu sinto o meu coração se apertar em meu peito, porque só agora entendo o porquê daquele homem estar vestido daquela maneira. Isso também poderia explicar o seu jeito rude e cruel naquele dia. Cada um lidava com o luto a sua maneira.

— De quem é? — eu me vejo perguntando, a voz quase inaudível.

Ele vira o pescoço em minha direção, a sobrancelha arqueada e a testa franzida, como se pedisse confirmação de que eu realmente estava falando com ele.

— O funeral. De quem é? — insisti.

— Isso não soa inconveniente? — ele se esquiva da pergunta com puro tom irônico em sua voz.

— Você estar aqui nesse táxi também é inconveniente. — Rebato de imediato.

Ele faz um barulho rápido que quase soa como um pequeno sorriso, e segundos depois, enquanto olhava através da janela, ele sussurra:

— Minha esposa.

Sinto um gosto amargo no mesmo instante, uma espécie de empatia pela dor de um desconhecido me cobre o peito. Olho para aquele homem outra vez. Ele deveria ser cinco ou seis anos mais velho que eu, e penso em quanto tempo de vida ele havia dividido com ela. Se havia tido tempo suficiente. Claramente não.

— Eu sinto muito. — Falo baixinho. — De verdade, eu sinto muito.

O rosto dele vira até a mim no mesmo instante em que o táxi para, e ele me olha de cima abaixo antes de revelar:

— Do que você está falando? Eu estou aliviado por ela finalmente ter morrido.

E dizendo isso, ele abre a porta do carro e simplesmente vai embora.

Ainda estou extasiada com o que saíra da sua boca, mergulhando em pensamentos tumultuados. Em meio à confusão, percebo que algo cintilante escapou de seus pertences e repousa agora no banco de trás do táxi. Ao inclinar-me para pegar o objeto, me deparo com um isqueiro sofisticado, ostentando as iniciais J.B. de maneira sutil.

Enquanto o táxi finalmente volta a se movimentar, eu observo a figura enigmática desaparecendo na entrada do cemitério, deixando para trás não apenas perguntas sem resposta, mas também um rastro de curiosidade e fascínio.

Um calafrio percorre meu corpo, intensificando a sensação de que estava prestes a entrar em um universo complexo e repleto de segredos.

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