Isabela estava sentada no sofá antigo da cobertura, com o pen drive em mãos, enquanto Leonardo falava ao telefone com um técnico de confiança. O silêncio entre as frases dele era preenchido pelo som abafado da chuva fina que começava a cair sobre a cidade. O céu estava cinzento, e uma melancolia doce pairava no ar.Ela encarava o dispositivo como se ele carregasse não apenas segredos, mas também os estilhaços da sua própria história. Aquela era a última ponte entre ela e um passado que, embora sombrio, agora revelava nuances inesperadas. E o mais confuso: Ricardo a estava protegendo. Mesmo depois de tudo.Leonardo desligou o telefone e se aproximou, se agachando diante dela.— O técnico vai dar um jeito. Ele disse que consegue recuperar os dados em até 48 horas. — Seus olhos procuravam os dela, como se estivessem tentando traduzir o caos que se passava em sua mente.— Você acha que ele… amava mesmo? — ela perguntou, quase num sussurro.Leonardo engoliu em seco.— Sinceramente? Sim. Do
Isabela acordou com o som abafado da chuva ainda persistente lá fora. A manhã tinha um tom acinzentado, e o céu parecia refletir a confusão em sua mente. Ainda estava deitada ao lado de Leonardo, que dormia profundamente, com um braço possessivamente enlaçado em sua cintura. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentia algo parecido com paz. Mas a tranquilidade era frágil — o que haviam descoberto na noite anterior ainda pulsava como um alerta em sua mente.Ela se soltou devagar dos braços dele e caminhou até a cozinha. Usava apenas uma camisa dele, que ia até a metade das coxas. O chão gelado provocava arrepios em seus pés descalços, mas o frio físico não era nada comparado ao que sentia por dentro.Enquanto preparava o café, seus olhos foram atraídos por um envelope caído entre as páginas da pasta preta que haviam aberto na noite anterior. Ela o pegou com cuidado. O papel era amarelado, e o envelope estava lacrado com cera — algo fora do comum. Com hesitação, ela o abriu e encontrou
O som do motor que ecoava do lado de fora do galpão era ameaçador, como um rugido vindo direto do inferno. Leonardo puxou Isabela pelo braço e a empurrou gentilmente contra a parede atrás do armário. O coração dela batia tão alto que parecia ensurdecedor dentro do peito.— Fica aqui — ele sussurrou. — Não se mexe, não faz barulho.Ela assentiu com os olhos arregalados. Leonardo fechou a porta do armário de novo e caminhou em silêncio até a entrada do galpão. Um carro preto havia estacionado do outro lado da cerca. Dois homens desceram — ambos altos, de paletó, com fisionomias frias e sem expressão.Leonardo pegou uma barra de ferro enferrujada do chão e se escondeu atrás de uma pilha de paletes de madeira. Os passos dos homens ecoaram dentro do galpão. Eles conversavam entre si, mas as vozes estavam baixas demais para entender.— Tem certeza de que ele deixou o material aqui? — perguntou um deles, enquanto iluminava o chão com uma lanterna.— Absoluta. Recebemos a dica ontem. Se algué
A noite caía como um véu espesso sobre a pousada isolada. As janelas fechadas protegiam os dois amantes do mundo lá fora, mas o perigo ainda rondava do lado de fora como um predador à espreita.Leonardo estava sentado na poltrona, apenas com a calça jeans desgastada, segurando um dos documentos encontrados no cofre. A luz amarela do abajur iluminava parcialmente seu rosto, realçando os traços fortes e concentrados. Isabela, enrolada no lençol branco da cama, observava cada movimento dele com atenção.— O que tem nesse papel? — ela perguntou, com a voz ainda rouca e suave, carregada do calor do que haviam vivido momentos antes.Leonardo levantou os olhos e respirou fundo.— É uma transferência bancária. Para uma conta no exterior. A assinatura é do Godoy, e o valor… é absurdo. Isso aqui pode derrubar ele.— Ele desviou dinheiro público? — ela se levantou, cobrindo o corpo com o lençol, sentando ao lado dele.— E mais. Isso está ligado à venda ilegal de terras. A mesma empresa que finan
O salão do hotel estava lotado. O som dos copos tilintando, risadas e conversas paralelas criava uma melodia abafada no ambiente luxuoso. Lustres imponentes pendiam do teto, refletindo a luz dourada sobre os convidados vestidos com trajes impecáveis.Isabela caminhava entre eles com postura impecável, seu vestido preto justo ressaltando cada curva com elegância e sofisticação. Seu olhar estava firme, seu sorriso ensaiado, sua máscara bem ajustada. Afinal, ela aprendera, à força, que fraqueza não tinha espaço no mundo que conquistara.E, naquele momento, mais do que nunca, precisava sustentar essa armadura.— Dra. Isabela, parabéns pela conquista! — Um dos investidores mais influentes do setor aproximou-se, segurando uma taça de champanhe. Ele apertou sua mão com um sorriso admirado. — Sua nova campanha foi um sucesso absoluto.— Fico feliz que tenha gostado, Sr. Albuquerque. Trabalhamos duro para isso.Ela agradeceu com um aceno discreto e ergueu a taça para um brinde silencioso. Esse
Isabela entrou apressada no elevador, sentindo a respiração irregular. Assim que as portas se fecharam, ela encostou-se à parede fria e fechou os olhos por um instante, tentando recuperar o controle.Não podia se permitir fraquejar. Não por ele.Cinco anos. Cinco anos sem uma ligação, uma explicação, um pedido de desculpas. E agora Leonardo reaparecia como se nada tivesse acontecido? Como se pudesse simplesmente pedir para conversar e ela fosse aceitar?Ridículo.O elevador fez um pequeno som ao chegar ao andar de sua suíte. Isabela abriu os olhos e ergueu o queixo, retomando sua postura implacável. Saiu apressada, ignorando os olhares discretos dos funcionários do hotel. Tudo que queria era um momento de silêncio. De solidão.Mas, ao abrir a porta do quarto, seu corpo paralisou.Leonardo estava lá.Sentado confortavelmente em uma das poltronas de couro, uma taça de uísque na mão, observando-a com um olhar intenso.O choque rapidamente se transformou em raiva.— Como diabos você entro
O silêncio entre eles era sufocante.Isabela cruzou os braços, tentando conter a inquietação que crescia dentro de si. O olhar de Leonardo queimava sobre ela, carregado de algo que ela não conseguia decifrar.— Você quer me proteger de você? — repetiu, sem esconder a incredulidade. — Isso é uma piada?Leonardo não respondeu de imediato. Ele a observava como se estivesse lutando consigo mesmo, como se cada palavra que pensava em dizer pudesse mudar tudo.E, no fundo, Isabela sabia que poderia.— Eu não posso explicar agora. — A voz dele carregava uma tensão palpável. — Mas você precisa confiar em mim.Ela soltou uma risada amarga.— Confiar em você? Depois de tudo?Ele fechou os olhos por um breve segundo, como se esperasse essa reação.— Eu nunca quis te machucar, Isabela.— Mas machucou. — O tom dela era cortante. — E agora quer que eu simplesmente aceite essa desculpa vazia?Leonardo avançou um passo. Isabela sentiu sua presença como uma corrente elétrica, e isso a deixou furiosa. M
---O ar do quarto parecia mais denso após a revelação de Leonardo. Isabela, com os olhos ainda marejados pela mistura de raiva e curiosidade, respirou fundo, tentando encontrar firmeza em meio ao turbilhão de emoções. Ela não conseguia acreditar que aquele homem, que havia abandonado seu coração e sua vida, agora se colocava no centro de uma trama tão obscura e perigosa.— Protegê-la de mim? De que ou de quem você está falando? — Isabela insistiu, a voz trêmula, mas repleta de determinação. Seus dedos tamborilavam nervosamente na beira da mesa enquanto ela aguardava uma resposta.Leonardo desviou o olhar por um breve instante, como se pesasse cada palavra antes de proferi-la. Finalmente, com um tom baixo e carregado de pesar, ele respondeu:— Eu não posso explicar tudo de uma vez, mas há forças obscuras, grupos que operam nas sombras, manipulando destinos e espalhando o medo. Há pessoas que acreditam no controle absoluto sobre a vida dos outros, e fui coagido a fazer escolhas que hoj