Javier
O Processo de Cura Vinte dias haviam se passado desde aquela noite infernal que nos separou do normal, desde o momento em que nossos mundos desabaram e nos vimos em um hospital, com a incerteza pairando sobre nossas cabeças. Durante esses dias, a dor foi constante, como uma sombra que nos acompanhava a cada passo, mas havia algo mais também. Uma leve sensação de esperança, que crescia a cada respiração de nossas mães, esposas e figuras centrais. Elas estavam sobrevivendo, lutando. Laura, ainda nas garras da recuperação, passava os dias em um estado delicado. Sua cirurgia no rosto, uma tentativa de restaurar a beleza que o fogo tinha lhe tirado, era uma batalha em si. Seus olhos, antes sempre cheios de vivacidade e energia, estavam agora rodeados por inchaços e marcas que denunciavam o que ela havia enfrentado. Mas ela ainda tinha sua força, aquela que nos inspirava, ainda estava ali. A cada dia, com o apoio dos filhos e do marido, ela vinha se fortalecendo, como uma árvore que, mesmo cortada, encontrava uma maneira de crescer novamente. Javier estava mais presente do que nunca. Ele passava horas ao lado de Laura, segurando sua mão, falando com ela sobre as memórias que compartilhavam. Eles não falavam sobre o que poderia ter sido, mas sobre o que seria. Javier se mostrava mais calmo, embora a preocupação ainda fosse nítida em seus olhos. O sorriso de Laura ainda era uma raridade, mas ela estava começando a reagir às conversas e ao toque suave de Javier, que nunca a deixava só. — Laura, minha querida, não há cicatriz que o tempo não cure. Vamos passar por isso, como sempre passamos. Eu estou com você, sempre estarei. — Javier sussurrava essas palavras, e sabia que, por mais que as palavras fossem pequenas em comparação à dor, elas eram o que ela mais precisava ouvir. Os filhos, Luna e Mateus, estavam em constante vigilância, com uma dedicação que demonstrava o quanto estavam dispostos a fazer o que fosse necessário para apoiar a mãe. Eles estavam perto, em cada passo de sua recuperação. A presença deles era vital para Laura, pois ela sabia que, de alguma forma, a força deles se entrelaçava com a dela. — Mãe, está melhorando a cada dia, você está mais forte, eu posso ver isso. — Luna falava com um sorriso suave, embora o próprio olhar dela estivesse marcado pela preocupação. Mateus completou, com a voz mais grave, mas carregada de esperança: — Isso não vai nos quebrar, mãe. Vamos superar isso juntos. Estamos com você, sempre. Enquanto isso, Maria e Martina observavam, de longe, o progresso da recuperação de Laura. As duas também haviam sofrido. Maria, embora com a saúde já estabilizada, ainda sentia as sequelas físicas e emocionais do que aconteceu, e Martina passava os dias tentando lidar com sua própria angústia. Mas as duas, de alguma maneira, encontraram forças nas outras mulheres que estavam ao seu lado, e isso as ajudou a continuar. Naquela tarde, Horácio, embora tenso, não conseguia deixar de demonstrar sua gratidão por ter as mulheres de sua vida ainda vivas, apesar do sofrimento. Ele se aproximou de Martina, tocou seu rosto com a mão, e os olhos dele brilhavam com uma emoção que ele normalmente não demonstrava. — Amor, cada dia que passo ao seu lado, ao lado de Catalina, me faz lembrar da força que nossas mulheres têm. Não podemos esquecer disso. A recuperação delas é um reflexo do nosso amor, da nossa união. — Ele falou com um peso em sua voz, mas com um olhar que emanava a confiança que ele havia perdido por tanto tempo. Enquanto Heitor se mantinha ao lado de Maria, ele sentia a dor de vê-la tão frágil, mas ao mesmo tempo, a esperança surgia em cada pequena melhora. Ele se tornara mais calmo, mais atento, e se aproximava de Jonh e Joana para pedir conselhos sobre como apoiar melhor Maria. — Jonh, Joana, tenho que saber... como posso fazer mais por Maria? O que mais posso fazer? Eu não posso deixá-la sozinha nesse processo. — A preocupação de Heitor era visível, e ele sabia que, por mais que a recuperação fosse lenta, ele tinha de se manter forte. Eles, os filhos, eram a chave para dar essa força. Joana, com a voz suave, mas carregada de uma maturidade que impressionava, respondeu: — Pai, o que você tem feito já é mais do que suficiente. A presença de um marido como você é tudo o que a mãe precisa. Fique com ela, não a deixe de lado. O amor de vocês dois vai ser a cura dela. No entanto, enquanto os dias passavam e Laura continuava sua recuperação lenta, a ferida mais profunda não era a física, mas a emocional. Ela sabia que seu rosto, embora pudesse ser reconstruído, nunca mais seria o mesmo. E ela sentia isso. Mas o amor dos filhos, o apoio de Javier e a força de Mateus, Maurício e Luna a mantinha firme. A cirurgia havia sido um sucesso, mas o verdadeiro trabalho estava na recuperação emocional. Ao longo dos dias seguintes, enquanto o inchaço diminuía e as cicatrizes começaram a se fechar, Laura conseguia sorrir levemente, embora fosse um sorriso tímido. Ela sabia que a vida tinha mudado, mas estava decidida a seguir em frente. — Estamos juntos, Laura. Vamos superar isso, e quando isso terminar, vamos tomar de volta tudo o que é nosso. — Javier sussurrou, sentando ao seu lado, enquanto os filhos observavam com olhares de esperança. Naquele momento, o juramento de vingança era algo que já estava impregnado em cada um de nós. A dor que eles haviam causado, as marcas que deixaram, nos impulsionavam. Mas sabíamos que a luta não era apenas contra os inimigos externos, mas contra as cicatrizes que eles tinham deixado em nossos corações.Javier A Recuperação e o Retorno para CasaOs dias de dor, tensão e esperança finalmente começaram a dar lugar a um novo ritmo. Laura já não estava mais imersa nas camadas de bandagens e curativos. Após a cirurgia e as semanas de recuperação lenta, seu rosto, embora ainda com cicatrizes visíveis, começava a se curar. As marcas deixadas pelas queimaduras ainda eram profundas, mas o progresso era visível. Sua pele estava regenerando, e as linhas que se formavam ao redor de seus olhos, resultado da dor, começavam a suavizar com o tempo. O mais importante: Laura estava viva, e seu espírito, aquele espírito inquebrantável, estava de volta.No dia marcado para sua alta, o hospital estava agitado. Ela havia passado os últimos dias com os filhos ao seu lado, recebendo apoio de Javier, que se mostrava cada vez mais dedicado. Mateus, Maurício e Luna, sempre presentes, não saíam de perto, acompanhando cada passo da recuperação e cuidando de sua mãe com uma intensidade comovente. Maria, Mar
O Retorno de Laura Luna A fazenda Feitiço do Sol Nascente nunca esteve tão cheia. Desde que deixamos o hospital, a família inteira se reuniu aqui para receber minha mãe. Que após lutar bravamente pela vida, volta ao lugar que a recebeu desde os dezoito anos, onde criou raízes, se apaixonou, casou, teve seus filhos, me criou e fez uma coleção de amigas e amigos. O tempo parece ter desacelerado nesses últimos vinte dias, mas, ao mesmo tempo, tudo mudou. Estou de pé na varanda principal, observando os carros se aproximando. Mateus, ao meu lado, cruza os braços, claramente tentando disfarçar a ansiedade. Ele sempre foi protetor com nossa mãe, e esse momento é importante para ele. Maurício também está inquieto, andando de um lado para o outro. José e Paola cochicham algo entre si, mas a verdade é que todos estamos nervosos. Quando o carro para, meu pai abre a porta para ajudar minha mãe. As cicatrizes ainda estão visíveis, mas os olhos da minha mãe transbordam uma força que m
Uma Nova VidaA noite cai sobre a fazenda, com uma magnífica lua cheia clareando os campos e todos se reúnem para jantar na mesa da varanda. A grande mesa está repleta de risadas, conversas animadas e um sentimento de união que há muito não sentíamos. Minha mãe está radiante, e ver Javier sorrindo novamente aquece meu coração.Mas minha mente está em um turbilhão. Olho para Théo, que me encoraja com um pequeno aperto de mão. Paola, ao meu lado, percebe minha tensão e levanta uma sobrancelha. Ela sempre me lê com facilidade.Levanto-me, batendo levemente um garfo contra a taça, chamando a atenção de todos. O barulho das conversas diminui, e todos os olhares se voltam para mim.— Eu tenho algo para contar.Théo se levanta ao meu lado, segurando minha mão com firmeza. Meu coração bate acelerado, mas quando olho para minha mãe, que voltou para casa depois de tanto sofrimento, e para meu pai, que passou semanas vivendo no limite entre a dor e a esperança, encontro a coragem que precis
O Primeiro BatimentoA brisa morna da noite percorre a varanda, misturando-se ao aroma do jantar recém-servido. A lua cheia ilumina os campos ao redor da fazenda Feitiço do Sol Nascente, banhando a terra em um brilho prateado.A conversa está animada como sempre em torno desta mesa que nos viu crescer! Quantas brincadeiras, almoços, jantares, planos e estratégias dividimos nesta mesa, e agora dividimos a alegria da chegada de mais uma vida que sentará nesta mesma mesa entre nós Mas, dentro de mim, um brilho diferente começa a nascer, um amor que cresce a cada segundo, pulsando em sincronia com o pequeno coração que bate em meu ventre.Os ecos das risadas ainda preenchem o ambiente após meu anúncio. Minha mãe, continua segurando minhas mãos, seus olhos brilhando de emoção. Ela acaricia meu rosto com ternura, e seu toque carrega o peso de tudo o que já enfrentamos.— Você vai ser mãe, Luna. Sua voz quebra levemente, e eu vejo um mar de sentimentos refletido em seu olhar.Meu pai
O primeiro Batimento 2 Paola, ao meu lado, cutuca minha cintura levemente, seus olhos brilhando em diversão. — Agora tudo faz sentido. Eu sabia que tinha algo diferente em você ultimamente! Ela ri, mas há carinho em sua voz. — A insolente Luna, agora mãe. Quem diria? Solto uma risada fraca. Quem diria mesmo? Há meses, tudo que eu conhecia era o fogo da vingança, a adrenalina das batalhas e o peso de um legado sombrio. Agora, dentro de mim, cresce algo puro. Algo que muda tudo. — Você precisa começar a se cuidar, Luna. A voz de María, minha tia, soa com doçura. — Os primeiros meses são delicados. Mal tenho tempo de responder antes que Javier solte um resmungo, cruzando os braços. — E isso significa que você não vai mais montar Sombra. Meus olhos se arregalam. — O quê? Sombra, meu cavalo, sempre foi uma extensão de mim. O pensamento de ficar sem montá-lo é insuportável. — Nem adianta discutir. Javier continua, seu tom inflexível. — É um risco desnecessário.
O Peso da Responsabilidade O jantar segue em meio a conversas animadas, mas percebo que, aos poucos, os olhares preocupados voltam a mim. A euforia inicial da notícia se dissipa, dando espaço à realidade inescapável da nossa vida. Meu filho não será apenas um bebê. Ele será um herdeiro. Um símbolo. Um alvo. Sinto Théo apertar minha mão sob a mesa. Sua presença me ancora, mas a ansiedade cresce dentro de mim. — Você precisa começar o pré-natal imediatamente, Luna. María diz com firmeza, assumindo o papel de tia preocupada. — Precisamos de um médico de confiança, alguém que possa te acompanhar sem riscos. Minha mãe assente, sua expressão séria. — Já pensei nisso. Temos um obstetra que trabalhou comigo quando eu estava grávida de Mateus e Maurício. Ele é confiável. Javier não hesita. — Então ele vem até aqui. Minha mãe franze a testa. — Javier, não é tão simples. Ele tem uma clínica, pacientes… — Não me importo. Javier corta, sua voz firme. — Luna não pode ficar se expon
O Medo e a Promessa A noite se arrasta enquanto tento dormir. O quarto está silencioso, e o calor do corpo de Théo ao meu lado deveria ser reconfortante, mas minha mente não para. Cada palavra dita no jantar ecoa dentro de mim. Perigo. Alvos. Equilíbrio de poder. Coloco uma mão sobre meu ventre ainda liso, tentando sentir algo, qualquer coisa que me faça acreditar que posso protegê-lo. Mas tudo o que sinto é um medo sufocante. — Luna… A voz rouca de Théo me tira dos pensamentos. Ele se vira na cama, os olhos semicerrados, observando-me na penumbra. — Não está conseguindo dormir? Suspiro, sem saber se devo mentir. — Minha cabeça não desliga. Ele passa uma mão pelo rosto antes de se sentar, os músculos tensos sob a luz fraca do abajur. — Quer conversar? Balanço a cabeça, mas ele já me conhece bem demais. Ele se aproxima, os dedos roçando minha pele em um carinho silencioso. — Você está preocupada com o bebê. Minha garganta aperta. — Como não estaria? Nós não somos pes
O Medo e a Promessa 2 Na manhã seguinte, acordo antes do sol nascer. Há algo de mágico nesse momento do dia, quando o céu ainda está tingido de sombras suaves, mas a promessa de luz já dança no horizonte. Saio da cama silenciosamente para não acordar Théo e caminho até a varanda do nosso quarto. O ar fresco da madrugada acaricia minha pele, e a visão diante de mim me enche de uma paz profunda. A Fazenda Feitiço do Sol Nascente sempre foi meu refúgio, mas agora parece diferente. Agora, cada detalhe tem um significado novo, como se eu estivesse enxergando esse lugar com os olhos do meu filho. As vastas planícies ondulam até onde a vista alcança, cobertas por um tapete vibrante de verdes e dourados, banhados pelo orvalho da noite. Árvores frondosas se erguem ao longe, seus galhos dançando suavemente com a brisa. Mais perto da casa, os jardins transbordam vida. Flores silvestres crescem em uma profusão de cores de tons quentes de laranja, vermelho e dourado, refletindo as mesmas n