Duncan correu pelas sombras, seus pés não fazendo som algum contra o chão. O ar ali era... era denso, como se submerso num lago abissal e sem fim. As paredes pulsavam, algo indistinto nelas, como se feitas de carne viva e não de pedra. Sons distantes ecoavam pelo espaço – sussurros e soluços e lamentos. Duncan tentava ignorá-los. A única coisa que importava agora era... era encontrar uma forma de sair daquela ratoeira antes que o inimigo o encontrasse primeiro. Antes que fosse surpreendido — de novo.Outra vez, seus dedos tracejaram o ar, conforme sentia as asas do tempo batendo contra sua pele.Convenientemente, sua arte — Blue Butterfly — dispensava uma ancoragem, permitindo-o manipular o tempo, mas sempre manter sua posição atual ao voltar... Exigia menos energia também — nada de deslocamento a longas distâncias no espaço, nada de acurada canalização energética antes da ativação.Ele quase sorriu, não de alegria, mas de amargo alívio — cada revoada no tempo um véu que ele podia
Antes de se tornar o homem que agora moldava sombras e impunha sua vontade ao mundo, Donaldo fora apenas um menino.Um menino de pés sujos de areia, de olhos brilhantes como moedas de ouro, de coração inflado pelo vento salgado que vinha do mar.Ele crescera em uma vila de pescadores, onde as lendas de piratas e exploradores eram sussurradas entre redes de pesca e tonéis de rum barato. Havia sempre um marinheiro de passagem contando histórias de cidades de ouro perdidas, de ilhas onde monstros dormiam, de mapas riscados à faca sobre peles de animais exóticos.E Donaldo escutava. Escutava como quem bebe de uma fonte inesgotável, como quem quer engolir o mundo antes mesmo de poder zarpar.Quando tinha seis anos, Donaldo construiu seu primeiro barco.Não passava de tábuas velhas pregadas de qualquer jeito, com uma vela feita de lençol roubado, mas na mente do menino, era uma nau majestosa, cortando o oceano em busca de esquecidas riquezas.Ele mesmo se nomeou capitão. E os outros garotos
Antes de se tornar Hei, o Caçador Espectral, antes de ser um nome sussurrado com reverência e medo pelos inimigos, ele foi apenas um menino sem nome.Um garoto de pés leves e olhos atentos, criado na neve e na escuridão.Ele aprendera desde cedo que o mundo não pertencia aos fortes. Não aos brutos, não aos que gritavam ordens, não aos que se impunham com músculos e arrogância.O mundo pertencia aos que sabiam esperar.Aos que observavam.Aos que atacavam sem serem vistos.Primeira Lição: Não Seja Visto, Não Seja PegoSeu primeiro mestre não era um guerreiro. Era um ladrão.Hei cresceu entre becos e templos abandonados, onde os pobres e esquecidos construíam seus próprios lares.O homem que o criou não tinha nome — ninguém de verdade tem nome quando se vive nas sombras.— A primeira regra, garoto. — disse ele certa vez, enquanto caminhavam sob o véu da lua. — O mundo é um tabuleiro. Você quer ser a peça ou o jogador?Hei, ainda uma criança, franzira a testa.— O jogador.O homem riu.—
O vento soprava entre os bambuzais, murmurando segredos aos ouvidos atentos de Mei-Lian.Desde criança, ela escutava as histórias dos antigos mestres taoístas — os andarilhos da harmonia, aqueles que enxergavam além do véu da realidade e compreendiam o equilíbrio entre todas as coisas.Seus dias eram banhados pelo sol dourado da manhã, e suas noites pelo brilho prateado das estrelas, enquanto praticava os sutis movimentos da espada, do leque e da respiração.Seus mestres lhe diziam que a vida não era uma estrada reta, mas um rio sinuoso, onde a resistência levava à dor, e a aceitação, à paz.E Mei-Lian acreditava nisso.Até que o destino decidiu testá-la.🍃 Primeira Paixão: A Dança do LequeO leque era sua primeira paixão. E não apenas como arma.Ela via poesia no dobrar da seda, na suavidade de um gesto que confundia, encantava e, num piscar de olhos, poderia matar.Os monges diziam que era vaidade.Mas Mei-Lian não via problema em ser bela e perigosa ao mesmo tempo.Em noites de fe
Da escuridão em volta, gargalhadas ecoavam — risadas cortantes e maliciosas que pareciam vir de todos os lados e de lugar algum. Vozes que sussurravam segredos profanos e promessas obscuras, conforme clones sombrios de Naaldlooyee emergiam aqui e ali. As sombrias mãos, frias como a morte, moviam-se com ritualístico rigor, esculpindo marcas arcanas em seu corpo, cada símbolo gravado uma mistura de dor e êxtase, como se a própria essência da sombria magia estivesse sendo urdida em sua carne.A jovem contraiu os lábios rachados.Ela precisava sair dali.O pensamento martelava em seu crânio como um tambor de guerra. Mas cada tentativa deixava apenas sangue sob suas unhas e desespero em seu peito. Seus olhos pesavam como lápides, as pálpebras tremendo contra a vontade de ferro que as mantinha abertas.— Durma — sussurravam as sombras em vozes de seda e navalha. — Apenas feche os olhos...Não.NÃO.Se cedesse agora, seria o fim. As trevas a devorariam por inteira, penetrariam até onde nem m
O disparo estilhaçou a quietude da manhã, ecoando pela clareira como um trovão. Por um instante, o tempo pareceu suspenso — até o canto dos pássaros sumiu, engolido por um denso e expectante silêncio.A floresta transformou-se num teatro de tensão.Os mercenários avançavam em passos medidos, dedos nos gatilhos, olhos varrendo a vegetação em busca do menor sinal de vida, cada sombra parecendo esconder uma ameaça, cada galho quebrado, uma armadilha.No entanto...— Ele está morto — declarou um deles, sua voz resoluta, quase satisfeita. — Ninguém sobrevive a um tiro tão certeiro.Mas quando chegaram ao local onde Tupã caíra, encontraram apenas folhas amassadas e lama salpicada de vermelho.— Onde ele está? — perguntou outro, o tom carregado de tensão.O líder do grupo, um homem de rosto endurecido e cicatrizes profundas, estreitou os olhos, estudando o ambiente em volta.— Se escafedeu! — Sua voz era grave, carregada de frustração. — Olho vivo! Esse desgraçado não é como os outros macaco
Visões começaram a se formar na mente de Yara: árvores em chamas, o solo rachado como se vertesse sangue, e uma sombra crescente que devorava tudo em seu caminho. A dor da floresta era quase tangível, transbordando para dentro dela como uma onda avassaladora. Seu corpo tremia, tomado pela agonia que não era apenas sua, mas de algo muito maior.Yara cerrou os punhos, respirando fundo.— Tupã... — sussurrou, a voz entrecortada, não mais que um sopro. — Onde você está?Por mais desesperador que fosse o cenário, algo dentro dela insistia que ele ainda estava vivo. Talvez fosse uma esperança tola, ou talvez fosse a própria floresta, sussurrando que não o abandonara. Mas o tempo estava contra eles, e ela sabia disso.Estava prestes a se mover, para investigar a situação, quando um calafrio subiu por sua espinha. Antes que pudesse reagir, uma gélida mão sombria agarrou seu tornozelo, arrastando-a com força para o rio de águas turvas ao seu lado.Um grito sufocado escapou de Yara conforme ela
A sombra penetrava fundo nela, rompendo a tanga de folhas, invadindo seus poros como ondas de éter, despertando sensações fluidas que se espalhavam sob a pele. Ao longe, tambores batucavam em compasso irregular, ecoando cada vez que aquilo — formas sem rosto, tentáculos de trevas — deslizavam pelas coxas da jovem. Toques simultaneamente suaves, gélidos e provocantes. Vinham agora pelos quadris de Yara, desafiando-a a distinguir prazer de ameaça no mesmo arrepio.O vento sussurrava entre as árvores do refúgio de Ceiba, carregando consigo um lamento ancestral. As folhas tremulavam em uma melodia silenciosa, reverberando o peso de tempos imemoriais, conforme a presença da guardiã das árvores sagradas pairava sobre aquele santuário oculto.Tupã estava deitado sobre um leito de musgo, o corpo envolto por curativos feitos de raízes trançadas e folhas embebidas em bálsamos curativos. A dor ainda pulsava sob sua pele, uma lembrança cruel do cerco que quase o levou à morte. Cada respiração era