Eu não sabia o que esperar da cerimônia. Sabia apenas que seria um marco na minha vida, e não um marco qualquer. Era o tipo de evento que mudaria tudo. Ou, pelo menos, era o que o Clã esperava. O casamento de Rafael e Selene não seria apenas uma celebração de união. Seria uma afirmação do poder, da hierarquia, da separação entre os que pertencem e os que estão destinados a viver à margem.
Minha mente estava um turbilhão de pensamentos enquanto eu me preparava, ou melhor, enquanto tentava me preparar para o que estava por vir. O vestido que me deram era simples, sem brilho, sem luxo. Nada mais do que um reflexo de minha posição dentro daquele mundo. Eu não era importante o suficiente para merecer algo especial.
Naquela manhã, antes de sair para me juntar ao Clã, o silêncio no meu interior foi quebrado de maneira inesperada. Freiren, minha loba, a presença que eu sempre mantive escondida, que raramente falava comigo, apareceu em minha mente com uma clareza que me assustou. Sua voz era suave, como uma brisa na noite fria, mas firme e cheia de uma determinação que eu não sabia que ela possuía.
— Isadora... — Sua voz, embora serena, carregava algo inusitado. Algo... urgente.
Eu congelei, meus dedos tocando o tecido do vestido. Freiren raramente se comunicava diretamente comigo. Na verdade, nossa conexão era mais silenciosa. Eu sentia sua presença dentro de mim, mas raramente ouvia palavras. Por isso, a súbita clareza em sua voz me fez parar.
— O que está acontecendo? — Perguntei mentalmente, a preocupação tomando conta de mim. Eu sabia que algo estava diferente. Eu sentia isso na maneira como a energia em meu corpo vibrava. Algo estava prestes a acontecer. Algo que não poderia ser evitado.
— Fuja. — A palavra ecoou em minha mente, simples, mas tão carregada de significado que me fez tremer. — Fuja enquanto há tempo, Isadora. Durante a cerimônia, quando todos estiverem distraídos, podemos escapar.
Eu fiquei em silêncio, a palavra fugir reverberando em meu cérebro. Fugir. Não era uma palavra que eu usava facilmente. Eu era um espectro entre os lobos, alguém sem uma identidade clara. Não pertencia a lugar algum. E, no entanto, essa sugestão de Freiren... parecia impossível, mas ao mesmo tempo, tentadora. Fugir de tudo. Fugir do Clã, de Rafael, de Selene. Fugir da dor. Fugir da realidade que me aprisionava.
— Mas... como? — Perguntei, ainda sem acreditar no que estava ouvindo. — Como podemos fugir? Onde iríamos?
Eu senti a presença de Freiren aumentar dentro de mim, uma sensação quente e reconfortante, como se ela estivesse me envolvendo com um abraço silencioso, mas poderoso.
— O Clã é uma prisão, Isadora. Sempre foi. — A voz dela parecia mais firme agora, como se suas palavras carregassem uma verdade universal, algo que ela tinha guardado dentro de si por tanto tempo. — A liberdade está além dos muros. A floresta, a noite... está esperando por nós.
Eu respirei fundo, absorvendo o peso das palavras de Freiren. Parte de mim desejava acreditar nela. Parte de mim queria estar livre. A dor do vínculo, a rejeição de Rafael, a humilhação de ser apenas uma sombra na vida dele... tudo isso me empurrava para esse desejo urgente de escapar, de encontrar um lugar onde eu pudesse ser mais do que apenas a companheira rejeitada de um Alfa.
Mas havia uma sombra de dúvida que se infiltrava em meu coração. A ideia de fugir, de romper com tudo o que eu conhecia, me deixava apreensiva. Eu não sabia o que me aguardava do lado de fora dos muros da mansão. Não sabia o que me aguardava na floresta ou na noite. E a pergunta que martelava em minha mente era: "E se nós falharmos?"
— E se nós falharmos? — Perguntei, a dúvida se infiltrando entre as palavras. — E se eu me perder ainda mais, sem um lugar para ir, sem saber para onde ir?
A voz de Freiren foi suave, mas cheia de confiança.
— A falha é permanecer onde você não pertence, Isadora. A falha é aceitar que alguém ou algo tenha o poder de decidir o seu destino. O Clã... Rafael... eles não podem nos prender. Não mais.
A certeza na voz de minha loba me fez engolir a ansiedade crescente dentro de mim. Eu nunca imaginei que Freiren, tão silenciosa e observadora, tivesse tal força em suas palavras. Mas, de alguma forma, tudo o que ela dizia parecia certo. Eu já não sabia o que mais me prendia ali. O que mais havia para perder?
Ficar no Clã significava uma vida de submissão, de dor, de uma existência sem identidade, onde eu jamais seria mais do que a sombra silenciosa ao lado de Rafael e Selene. A ideia de seguir em frente, de sair daquela prisão, mesmo que o futuro fosse incerto, parecia agora uma opção muito mais atraente do que continuar vivendo como uma espectadora da vida deles.
Eu não queria mais viver para eles. Eu finalmente disse isso em voz baixa, para mim mesma, mas com uma resolução crescente.
— Então, você deve ir. Agora. — Freiren respondeu, sua voz cheia de urgência, mas também de uma estranha tranquilidade. — Durante a cerimônia, enquanto eles estiverem distraídos com os votos, você terá uma chance. Não será fácil, mas você precisa tentar. O tempo é agora. Não há mais desculpas, Isadora. Nós dois sabemos que você não pertence àquela vida. Não mais.
Eu fechei os olhos, sentindo o peso de sua decisão pesando sobre mim. Eu não podia mais voltar atrás. Fugir. Era o único caminho que me restava. E a sensação de liberdade, embora assustadora, era mais atrativa do que qualquer coisa que o Clã pudesse me oferecer. Era uma chance de recomeçar, uma chance de ser algo mais, de ser alguém por mim mesma.
Olhei uma última vez para o espelho. O vestido simples, sem brilho, refletindo um rosto cansado, uma mulher que havia sido derrotada, mas que agora estava pronta para lutar pela sua liberdade. Meu reflexo mostrava alguém que nunca havia tido escolha, mas que agora tinha o poder de decidir seu próprio destino. A dor do vínculo, a humilhação e a rejeição de Rafael... tudo isso poderia ser deixado para trás. Eu não seria mais uma sombra. Eu não seria mais a companheira rejeitada.
O que quer que o futuro me reservasse, eu não sabia. Mas, naquele momento, estava clara para mim uma verdade: o vínculo, a dor, as correntes invisíveis que me prendiam àquele lugar, poderiam ser rompidas. Eu não era mais a mesma mulher. Eu não tinha mais medo de desafiar a ordem do Clã. Eu não tinha mais medo de fugir.
Com um suspiro profundo, me virei para a porta. A cerimônia estava prestes a começar. O peso da decisão que eu tomava era imenso, mas ao mesmo tempo, a leveza da liberdade parecia me envolver. E, com isso, minha fuga, minha jornada para a liberdade, também começava.
Eu sabia que o caminho não seria fácil. A floresta, o desconhecido, as incertezas... tudo isso me aguardava, mas havia uma coisa que eu sabia com certeza: eu estava prestes a deixar para trás a vida que me aprisionava. O grito silencioso da minha alma, que sempre buscou ser livre, agora tinha um caminho a seguir.
A porta se abriu, e eu dei o primeiro passo. O futuro ainda era uma grande incógnita, mas uma coisa estava clara para mim: finalmente, a liberdade não era mais um sonho distante. Ela estava ali, ao meu alcance. Eu iria lutar por ela, acontecesse o que acontecesse.
A cerimônia era tudo o que eu esperava e temia. A mansão do clã estava tomada por uma vibração frenética, lobos de todas as idades reunidos em celebração, aguardando o momento em que Rafael e Selene fariam seus votos sob a luz da lua. Eu os observei de longe, fingindo que estava ali apenas para cumprir o meu papel de empregada, mas o peso no meu peito era quase insuportável.Rafael estava deslumbrante em sua postura de líder, o Alfa que todos respeitavam. Ele falava com autoridade e charme, sorrindo para Selene como se ela fosse a única coisa que importava. Enquanto isso, eu era apenas uma sombra, um eco na periferia daquele mundo brilhante.Mas esta noite seria diferente.Essa noite eu seria finalmente livre.Freiren estava comigo, como sempre. Mas, ao contrário do habitual, sua presença não era silenciosa. Ela pulsava dentro de mim, ansiosa e determinada, como uma fera que esperou muito tempo para ser libertada. Suas palavras ecoavam em minha mente desde a manhã, me guiando, me prep
A floresta era um labirinto de sons e sombras, uma tapeçaria intricada tecida com o sussurro das folhas, o canto dos pássaros e o crepitar de galhos sob o vento. Mas, para Freiren, não era apenas um labirinto; era um lar. Cada galho quebrado sob suas patas, cada folha farfalhando ao toque do vento, cada aroma terroso que dançava no ar, tudo fazia parte de uma sinfonia complexa e harmoniosa que apenas ela entendia. Após anos aprisionada, escondida dentro de mim como uma chama adormecida, Freiren estava finalmente livre. A escuridão que a sufocava havia se dissipado, revelando uma força e uma determinação que eu mal podia imaginar.E ela corria. Corria com a força de mil tempestades, como se tentasse compensar todo o tempo perdido. Cada passo era uma declaração de independência, uma rejeição das correntes invisíveis que a prendiam. Todo o tempo em que passou aprisionada, observando o mundo através de uma janela embaçada, agora se transformava em pura energia, impulsionando-a para frente
A lua estava alta no céu, sua luz prateada banhando a floresta com um brilho etéreo. A escuridão ao meu redor parecia infinita, como se a noite nunca fosse chegar ao fim. Meu corpo, em forma lupina, se movia rápido, quase sem pensar. As folhas secas estalavam sob minhas patas, e o vento gelado cortava meu pelo negro como a noite. Há dias eu não descansava, mas sabia que não poderia parar. Não até encontrar as respostas que buscava. Não enquanto aquele fardo, aquela questão, ainda pairasse sobre mim como uma tempestade iminente.“Encontre sua Luna ou escolha uma loba do clã.”As palavras do conselho ecoavam em minha mente, sem cessar. A pressão que sentia aumentava a cada dia. Meus próprios guerreiros, aqueles que sempre me seguiram sem questionar, agora me olhavam com uma preocupação disfarçada, sussurrando entre si. Ser um Alfa sem uma Luna era um tabu para muitos. Não porque eu não fosse forte o suficiente ou incapaz de liderar. Não era isso. Mas matilha acreditava que a verdadeir
A chuva caía em torrentes, uma cortina incessante que envolvia a floresta. O som do impacto das gotas sobre as folhas e o solo parecia um tambor que batia furiosamente, refletindo o tumulto interno que tomava conta de mim. Cada gota era uma lembrança constante da nossa vulnerabilidade, um lembrete implacável de que estávamos sendo caçadas. O chão se transformava rapidamente em um emaranhado escorregadio de lama e folhas mortas. A cada passo, sentia a terra ceder sob minhas patas, dificultando ainda mais nossa fuga. Estávamos nos afundando no terreno traiçoeiro, mas não havia escolha. A perseguição estava mais próxima do que nunca, e a única chance de sobrevivermos era se conseguíssemos despistar os Rogue's que nos seguiam implacavelmente.A exaustão pesava sobre mim como uma mortalha. Cada músculo doía, cada respiração era um esforço. As batalhas recentes haviam nos cobrado um preço alto, deixando-nos à beira do colapso. Mas eu sabia que não podia ceder. Não podia permitir que o cansa
As paredes frias, úmidas, exalavam o cheiro de mofo e ferrugem. A cela em que me colocaram era pequena, com grades grossas e uma única lamparina fraca iluminando o corredor de pedra. Meu corpo ainda tremia, não apenas pelo frio, mas também pela exaustão. A dor nos músculos parecia ser constante, como um lembrete do ataque dos Rogue ‘s e da minha fuga desesperada.Eles haviam me jogado ali sem qualquer explicação, suas expressões severas deixando claro que eu não era bem-vinda naquele território. Freiren ainda estava silenciosa, provavelmente pela ação do sedativo que me separava dela. Era como se um pedaço de mim tivesse sido arrancado, deixando-me vazia e indefesa.Pouco tempo depois, passos ecoaram no corredor. Levantei a cabeça lentamente, meus olhos encontrando os de um homem alto e robusto. Seu cheiro carregava a força característica de um lobo Beta. Ele trazia um prato de comida simples e algo dobrado embaixo do braço. Enquanto seus homens traziam o que parecia ser um balde de á
O cheiro de pedra úmida e metal enferrujado invadiu minhas narinas enquanto eu descia as escadas estreitas e irregulares que levavam às masmorras. Cada degrau rangia sob o peso das minhas botas, um som monótono que ecoava no corredor silencioso. A umidade impregnava o ar, colando-se à minha pele como um véu invisível. O frio era cortante, penetrando nas camadas de tecido e atingindo meus ossos. Cada respiração era uma névoa branca que se dissipava rapidamente na escuridão. Ao meu lado, Damon Cross, meu Beta, mantinha-se um passo atrás, sua presença constante e confiável como uma sombra leal. Seus sentidos aguçados varriam as paredes de pedra, atento a qualquer sinal de perigo nas sombras frias que nos cercavam. — O que temos aqui, Damon? — perguntei, sem desviar os olhos do caminho à frente. Minha voz, embora baixa, carregava o peso da autoridade, um reflexo dos anos que passei liderando nosso clã. Ele cruzou os braços enquanto caminhava, sua expressão tão controlada quanto sua pos
O silêncio nas masmorras era quase absoluto, quebrado apenas pelo som das gotas de água que pingavam incessantemente das paredes úmidas. O ambiente fétido e gelado era um reflexo da condição de minha alma naquele momento. Sentada no canto escuro da cela, meus braços estavam abraçados aos joelhos, tentando desesperadamente encontrar uma maneira de acalmar minha respiração acelerada. A presença de Caelum, ainda fresca em minha mente, fazia meu coração bater mais rápido do que eu gostaria de admitir. Não era apenas o medo do desconhecido, mas algo mais profundo, algo que me conectava a ele de uma maneira que eu não podia compreender.Freiren estava em silêncio, e isso me deixou ainda mais inquieta. Ela sempre fora minha âncora, minha força em momentos de desespero. Desde que fugimos do clã Lunar, a loba nunca me abandonou. Ela esteve comigo nas batalhas, nas noites de medo e solidão, sempre me guiando e me protegendo. Mas agora, naquele momento de extrema necessidade, ela não estava comi
O aroma de chá fresco preenchia a sala iluminada pelo sol da manhã. Eu me sentava na poltrona confortável, vestindo meu robe de seda escura, um toque de elegância que contrastava com o peso da conversa que estava prestes a acontecer. A luz suave do dia parecia querer trazer algum tipo de calor àquele momento, mas nada poderia aliviar a tensão que pairava no ar. A única coisa que podia sentir de verdade era a agitação crescente em meu peito. Eu sabia que Caelum viria. Sabia que essa conversa estava inevitavelmente prestes a acontecer. E eu sabia que ele não estaria preparado para o que eu tinha a dizer.Eu estava certa de que ele chegaria, mas ele demorou mais do que o normal. Quando finalmente entrei na sala, o vi parado à porta, sua presença imponente preenchendo o ambiente. Seus olhos estavam cansados, como se carregasse um peso invisível sobre os ombros. O típico Caelum que todos conheciam, cheio de força e liderança, mas havia algo de diferente hoje. Algo em sua expressão dizia qu