A noite caía sobre Milão, e Luca Bellucci observava a cidade do alto da cobertura de um dos hotéis mais luxuosos da família. Com um copo de uísque na mão e um sorriso irônico nos lábios, ele esperava notícias de seu informante.
Luca não era apenas o herdeiro do império Bellucci — um conglomerado que dominava a indústria imobiliária e investimentos de alto risco na Itália — ele também era um jogador perigoso, alguém que sabia manipular as peças do tabuleiro como poucos. Diferente de Ricardio, que governava com punho de ferro, Luca preferia charme e inteligência. Seu carisma, aliado à sua astúcia, o tornava um adversário imprevisível. Fisicamente, Luca era o oposto de Ricardio. Enquanto o patriarca dos Massarotti era frio e imponente, Luca carregava um ar de sedução quase natural. Alto, com cabelos castanhos levemente bagunçados e olhos verdes profundos, exalava um magnetismo difícil de ignorar. Sua presença era intensa, e ele sabia disso. Seu celular vibrou, interrompendo seus pensamentos. Ele pegou o aparelho e atendeu sem pressa. — Fale. A voz de Matteo Bernardi, o assistente de Ricardio, soou do outro lado da linha. — O chefe está furioso. A senhora Massarotti descobriu a cláusula do contrato. Luca sorriu, divertido. — Que previsível... E como ela reagiu? — Mal. Saiu da biblioteca transtornada. Mas Ricardio não está disposto a abrir mão dela tão facilmente. Luca girou o copo de uísque em sua mão, pensativo. — Ah, Ricardio... Sempre tentando controlar tudo. Ele desligou a chamada, satisfeito. A semente havia sido plantada. Agora, só precisava esperar que crescesse. *** A história das famílias Bellucci e Massarotti era antiga. No passado, as duas casas eram aliadas, dominando diferentes setores da economia italiana. Os Bellucci comandavam o setor imobiliário, enquanto os Massarotti controlavam o financeiro. Juntos, eram inabaláveis. Mas Ricardio mudou isso. Ele queria mais do que apenas um império financeiro — queria poder absoluto. E para isso, começou a minar os Bellucci, retirando investimentos e boicotando negócios. O pai de Luca, Enzo Bellucci, não aceitou a traição. O que antes era uma parceria sólida se transformou em uma guerra fria, cheia de golpes silenciosos e estratégias de destruição mútua. Enquanto Ricardio expandia a Massarotti Banks, Enzo fortalecia os investimentos da família, garantindo que os Bellucci se mantivessem poderosos. Contudo, Enzo estava envelhecendo, e agora Luca era o rosto da nova geração. Diferente do pai, ele não via sentido em batalhas diretas. Ele preferia jogar nos bastidores, usar charme, influência e persuasão para enfraquecer Ricardio. E ele sabia que a maior fraqueza do rival não era o dinheiro. Era Lana. *** Na manhã seguinte, Luca caminhava pelas ruas de Milão quando avistou Lana sentada sozinha em um café. Vestida com elegância, mas de maneira discreta, ela mexia distraidamente na xícara de cappuccino. Ele sorriu. Perfeita oportunidade. Com a confiança de quem sempre soube se fazer desejado, Luca aproximou-se da mesa. — Que coincidência, senhora Massarotti. Lana ergueu os olhos e viu o sorriso provocador de Luca. — Bellucci. — Ah, nada de formalidades... Me chame de Luca. — Ele puxou uma cadeira e sentou-se sem ser convidado. Lana suspirou. — Você me seguiu? Ele riu. — Juro que não. Mas parece que o destino gosta de nos colocar no mesmo caminho. Ela cruzou os braços. — O que você realmente quer, Luca? Ele se inclinou levemente sobre a mesa. — Quero que você entenda que tem escolhas, Lana. Você não precisa passar o resto da vida presa naquela mansão. Ela desviou o olhar. — E por que isso importa para você? Luca sorriu de lado. — Talvez eu simplesmente me preocupe com você. Ou talvez eu goste de irritar Ricardio. Os dois podem ser verdade. Lana soltou uma risada irônica. — E eu deveria confiar em você? Luca a observou por um instante, como se analisasse cada detalhe de sua expressão. — A confiança é uma moeda rara, Lana. Mas vou te dar um conselho: nunca confie em um homem que tem mais amor pelo próprio legado do que por sua esposa. Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Antes que pudesse responder, o celular de Luca vibrou. Ele olhou a tela e soltou um suspiro teatral. — Infelizmente, tenho negócios para cuidar. Mas... posso te oferecer uma carona? Lana hesitou. Parte dela queria recusar, mas outra parte... queria sentir a liberdade de sair dali sem destino. — Tudo bem. Luca abriu um sorriso satisfeito. — Ótima escolha, senhora Massarotti. *** O carro esportivo de Luca deslizou pelas ruas de Milão. Lana observava a cidade passar diante de seus olhos, sentindo um misto de inquietação e curiosidade. — Para onde estamos indo? — perguntou, quebrando o silêncio. Luca lançou-lhe um olhar de canto. — Para um lugar onde você pode ser você mesma. Sem o peso do nome Massarotti. Ela arqueou uma sobrancelha. — E por que eu confiaria nisso? Ele sorriu. — Porque eu sou o único que não quer controlar você, Lana. Só quero que veja que existe um mundo além daquelas paredes. Lana olhou pela janela novamente. Talvez, pela primeira vez em muito tempo, estivesse tomando uma decisão por si mesma. O carro parou em frente a um luxuoso restaurante à beira do Lago de Como. — Vem comigo. — Luca abriu a porta para ela, e Lana hesitou por um instante antes de sair. O garçom os conduziu a uma mesa reservada na área externa, com vista para o lago. A brisa fria tocou o rosto de Lana, e por um momento ela se sentiu... livre. — O que exatamente você quer de mim, Luca? — perguntou, encarando-o. Ele apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos. — Nada que você não queira me dar. Lana soltou uma risada seca. — E se eu não quiser dar nada? Luca sorriu. — Então só aproveite a comida e a vista. Mas acho que, no fundo, você já sabe que quer muito mais do que tem agora. Ela segurou o olhar dele por um instante antes de desviar. O jogo havia começado. E Lana não sabia mais se queria fugir dele — ou jogá-lo até o fim.O vento soprava suavemente sobre o Lago de Como, trazendo consigo o perfume fresco da água misturado ao aroma das flores ao redor do restaurante. Lana encarava Luca Bellucci do outro lado da mesa, tentando decifrar o que realmente se passava por trás daquele sorriso confiante.O garçom serviu dois pratos delicados de risoto de açafrão e um vinho tinto refinado, mas Lana mal tocou na comida. Sua mente ainda estava presa às palavras que Luca havia dito momentos antes.— Você já sabe que quer muito mais do que tem agora.Ela sabia?A verdade era que, por mais que tentasse negar, havia algo na presença de Luca que a fazia sentir-se... viva. Era um sentimento que há muito tempo não experimentava dentro da mansão Massarotti, onde tudo era frio, calculado e distante.— Você está quieta, — Luca comentou, girando levemente a taça de vinho entre os dedos. — O que está pensando?Lana suspirou, desviando o olhar para o lago.— Estou pensando que você é um homem perigoso, Luca Bellucci.Ele riu su
O clube ainda vibrava com a música e as luzes suaves, mas para Lana, tudo parecia ter desacelerado. O ar estava carregado de uma tensão invisível, e a sensação de que estavam sendo observados não desaparecia.Luca manteve o olhar fixo nela, esperando que ela dissesse algo mais, que explicasse seu súbito desconforto.— Tem certeza? — ele perguntou, sua voz baixa o suficiente para que apenas ela ouvisse.Lana umedeceu os lábios, hesitante.— Não sei... foi só uma sensação.Luca estreitou os olhos, observando-a atentamente. Ele já havia aprendido a confiar na intuição quando se tratava de perigo.— Vem comigo.Ele pegou sua mão e a guiou para fora da pista de dança, através do clube. No caminho, Lana não pôde evitar olhar por cima do ombro, mas não viu ninguém suspeito. Apenas um mar de rostos desconhecidos, sorrisos, conversas e um ambiente que, até poucos minutos atrás, parecia ser um refúgio seguro.Quando chegaram a um corredor mais reservado, Luca encostou-a contra a parede, mantend
A escuridão era pesada, sufocante. O cheiro de terra úmida e sangue estava impregnado no ar, misturado ao frio cortante da madrugada.Lana piscou lentamente, tentando afastar a dor lancinante que pulsava em seu ombro. Seu corpo estava imobilizado pelo cinto de segurança, enquanto o carro de Luca permanecia tombado entre as árvores, os faróis iluminando fracamente a vegetação ao redor.Ao seu lado, Luca permanecia inconsciente.Mas ele estava respirando.Lana sentiu o alívio misturado ao terror. Ainda podia ouvir vozes ao redor do carro, e quando ergueu a cabeça, viu Matteo Bernardi, o homem de confiança de Ricardio, parado a poucos metros.Ele falava ao telefone, sua voz baixa e controlada:— Sim, senhor, ela está aqui. O Bellucci também, mas ele não vai durar muito tempo sem ajuda.Os olhos de Lana se arregalaram.Ricardio queria Luca morto.Seu coração disparou. Ela tentou se mover, mas o cinto a prendia. Sua respiração ficou irregular enquanto lutava contra a dor.Matteo encerrou a
A mansão Massarotti estava em um silêncio peculiar à noite, mas não era o tipo de silêncio reconfortante, mas sim um manto opressor que pesava sobre os ombros de quem vivia ali. Para Lana, aquele lugar nunca tinha sido um lar, mas agora parecia ainda mais uma prisão. A lareira queimava lentamente, iluminando as paredes de mármore com sombras dançantes. Sentada em uma poltrona de veludo azul, ela tentava encontrar um pouco de calor ali, mas era inútil, pois seus pensamentos estavam longe, aflita para saber como estava Luca.A imagem dele ferido no hospital era um fantasma que a assombrava a cada instante. O homem que sempre a tratou com gentileza estava agora lutando para sobreviver, e tudo por culpa de Ricardio.— Seus olhos dizem que sua alma não está aqui, minha querida.A voz profunda e carregada de Ricardio cortou o silêncio como uma lâmina afiada.Lana não se virou de imediato. Fechou os olhos por um instante, sentindo a irritação crescer dentro dela.— O que você quer, Ricardio?
A manhã fria de Milão se estendia sobre o horizonte, envolvendo a cidade em um véu de névoa suave. Lana Peroni observava pela janela do seu quarto, com as mãos delicadamente segurando a taça de café quente. As ruas da cidade estavam começando a ganhar vida, com os primeiros passos das pessoas apressadas para o trabalho, mas dentro da grande mansão Massarotti, o silêncio era ensurdecedor.Lana sabia que ele estava em algum lugar da casa. Ela o sentia, mas ele raramente aparecia. Ricardio Massarotti, seu marido, sempre fora assim. Frio. Distante. E, no fundo de seu coração, Lana sabia que o amor que ela sentia por ele era uma chama que, aos poucos, estava se apagando.Aquela sensação de solidão não era nova para ela. Desde o dia em que se casaram, ela sentira que o amor de Ricardio por ela era uma ilusão. Ele nunca falara sobre amor, apenas sobre o dever de manter o legado de suas famílias. Mas Lana não queria desistir. Ela acreditava, com uma inocência quase tocante, que ele podia apre
A mansão dos Massarotti estava mergulhada em um silêncio sepulcral. Apenas o tic-tac do grande relógio no hall ecoava pelos corredores de mármore. Lana caminhava lentamente pelo salão principal, segurando um livro que pegara na biblioteca, mas não conseguia se concentrar em suas páginas. Seus pensamentos estavam longe dali, presos em um labirinto sem saída.Havia algo de cruel na frieza de Ricardio. Não era apenas indiferença, era como se ele conscientemente se recusasse a vê-la, a reconhecer que ela estava ali, esperando por algo mais do que um casamento de conveniência.O som da porta principal se abrindo quebrou o silêncio. Lana ergueu o olhar e viu Ricardio entrar, acompanhado de seu fiel assistente, Matteo Bernardi. O homem, alto e de feições afiadas, usava um terno escuro tão impecável quanto o de Ricardio. Matteo era um mistério para Lana. Sempre discreto, sempre na sombra do marido, mas presente o suficiente para que ela percebesse que ele não era apenas um funcionário.— Os d
A brisa da noite soprava suavemente pelo jardim da mansão Massarotti, balançando as folhas das roseiras bem cuidadas. Lana sentia o coração pulsar contra o peito enquanto encarava Luca Bellucci. O brilho enigmático nos olhos dele a deixava em alerta.— O que você quer dizer com isso, Luca? — Ela cruzou os braços, tentando manter a postura firme.Luca lançou um olhar rápido para a mansão, como se esperasse que Ricardio surgisse a qualquer momento.— Acho que esse não é o melhor lugar para conversarmos — disse ele, dando um passo à frente. — Mas você precisa saber a verdade sobre Ricardio.Lana hesitou. Confiar em Luca Bellucci, o filho do maior rival de seu marido, era arriscado. Mas uma parte dela ansiava por respostas.— Se tem algo a dizer, diga agora — retrucou, mantendo a voz firme.Luca suspirou.— Você sabe por que Ricardio aceitou esse casamento, Lana?Ela franziu a testa.— Nossas famílias concordaram que a união beneficiaria ambos os lados.Luca soltou uma risada seca.— Bene