Na mesma hora, todos na sala entenderam o recado por trás da fala de Daniel.Um dos entrevistadores se adiantou com um sorriso diplomático:— A Srta. Beatriz tem uma base técnica muito sólida, além de já ter liderado equipes em várias competições universitárias. Acredito que seria uma excelente candidata ao cargo de diretora de design.Beatriz ouviu com atenção e apertou levemente os lábios. Depois, virou o rosto na direção de Daniel e disse com firmeza:— Desculpa, mas acho que meu nível ainda não é suficiente para isso. Ficaria muito grata se pudesse começar como designer da equipe. Um cargo normal já está ótimo.A sala ficou em silêncio por um segundo. Os entrevistadores se entreolharam, claramente surpresos com a recusa.— Agradeço muito o voto de confiança de vocês. — Continuou Beatriz, com um sorriso calmo. — Mas as competições na universidade eram em grupo. O responsável principal era o próprio Sr. Daniel. Eu só atuava como apoio, então não posso me apropriar de méritos que não
A verdade é que… Gabriel estava completamente perdido.Do lado do Sr. Henrique, ainda existia a possibilidade de contato com a Sra. Beatriz mas, para Gabriel, esse acesso estava totalmente bloqueado.Naquela mesma manhã, um dos gerentes foi até a sala da presidência com uma proposta de planejamento de produto.Mas bastaram poucas palavras para perceber: Gabriel não estava nem um pouco presente.Os olhos vermelhos, a expressão vazia, o silêncio... Deixavam claro que ele não tinha condições de lidar com nada naquele momento.O gerente suspirou e preferiu se retirar discretamente.— Rafael, você sabe o que está acontecendo com o Sr. Gabriel? — Perguntou, ao passar pelo escritório dos assistentes.— Ah... tá com o coração partido. — Rafael respondeu sem pensar, levantando os olhos do computador.Mas assim que as palavras saíram da boca, ele franziu a testa.“Espera... Coração partido? Eles eram casados, não namorados.”Então corrigiu mentalmente:“Na real... É dor de divórcio mesmo. Pior a
No dia em que Beatriz Silva decidiu pedir o divórcio, duas coisas aconteceram.A primeira: a mulher que sempre foi o amor idealizado de Gabriel Pereira, o famoso amor da vida dele, havia retornado ao Brasil.Para recebê-la, ele não mediu esforços, gastou milhões mandando fabricar um iate exclusivo, personalizado nos mínimos detalhes, onde passaram dois dias e duas noites entregues à pura indulgência.Os jornais e sites de fofoca não falavam de outra coisa. Para todos, a reconciliação entre Gabriel e sua antiga paixão parecia só uma questão de tempo.A segunda coisa: Beatriz aceitou o convite do seu antigo colega de faculdade para voltar à empresa que haviam criado juntos, desta vez como diretora.Em um mês, ela iria embora.Claro... Ninguém se importava com o que ela fazia ou deixava de fazer.Na cabeça de Gabriel, ela não passava de uma empregada de luxo que havia entrado na família Pereira por conveniência.Ela não comentou nada com ninguém.Silenciosamente, foi apagando todos os ves
Gabriel saiu apressado, carregando Vitória nos braços.Ao passar pela porta, esbarrou no ombro de Beatriz.O impacto a desequilibrou. Ela cambaleou, precisando se apoiar no batente da porta.A dor intensa que subia do dorso do pé pela perna fez com que ela apertasse o batente com força, lutando para se manter de pé.Dentro do salão, todos os olhares recaíram sobre ela.Olhares carregados de desprezo, sarcasmo, deboche.Mas Beatriz… Já não se importava mais.Com esforço, virou-se devagar, apoiando-se na parede fria, e seguiu seu caminho, passo a passo, sentindo a dor latejante a cada movimento.Quando chegou ao pronto-socorro, uma enfermeira veio rapidamente ao seu encontro, visivelmente preocupada.Assim que viu o estado do pé de Beatriz, prendeu a respiração, assustada:— Meu Deus! Como você se queimou desse jeito?! — Exclamou, chocada.As bolhas eram enormes, inflamadas.A maior parecia quase do tamanho de um pão francês, e outras menores se espalhavam feito pequenas pérolas brilhant
Gabriel hesitou por um segundo, apertou os lábios, olhou para Vitória… Mas, no fim, não disse nada.Beatriz ouviu o diálogo entre os dois e não conseguiu evitar um sorriso amargo, carregado de ironia.Ela era a esposa de Gabriel, no papel.Mas, naquele momento, a sensação era nítida: os verdadeiros marido e mulher eram eles… E ela era apenas a intrusa, a amante inconveniente.Gabriel caminhava à frente, Vitória ao lado dele, como se fossem um casal perfeito saído de um comercial.E, mesmo que Beatriz tentasse ignorar toda a falsidade de Vitória, a boazinha não perdia uma chance de manter seu teatrinho:— Bia, deve estar doendo muito… Me desculpa. Na hora, o Gabi só pensou na minha carreira, por isso me trouxe primeiro ao hospital. Não fica brava com ele, tá? — Disse Vitória, num tom doce e caridoso, olhando para ela como se estivesse pedindo desculpas sinceras.Beatriz sorriu de canto, amarga, e respondeu com calma:— Eu não estou brava. Afinal… Na cabeça dele, você sempre vem em prime
Quando Beatriz finalmente chegou em casa, já passava das onze da noite.A casa estava silenciosa, mergulhada na escuridão.Beatriz não deixou nenhuma luz acesa na sala.Afinal, era quase certo que Gabriel estaria por aí, provavelmente nos braços de Vitória, aproveitando a noite em algum lugar. Voltar para casa? Isso era pouco provável.Apoiando-se nas paredes, sentindo o corpo inteiro latejar de dor, Beatriz pegou a caixa de primeiros socorros.Caminhou devagar até seu pequeno quarto.Dois anos de casamento.Na prática, um casamento de fachada.Gabriel sempre manteve distância, fiel apenas ao seu verdadeiro amor.Nunca deixou que ela sequer se aproximasse da suíte principal.“Ainda bem”, pensou Beatriz, com amargura.Só de imaginar ser tocada por ele agora… Sentia náusea.Com dificuldade, desinfetou o cotovelo ferido e o dorso do pé, inchado e dolorido.Nem teve forças para guardar a caixa de primeiros socorros.Deixou-a sobre o criado-mudo, prometendo a si mesma arrumar tudo pela ma
Dentro do quarto.Beatriz já dormia profundamente quando as batidas violentas na porta e os gritos a despertaram bruscamente.Franziu a testa, respirou fundo, acendeu o abajur e, mancando levemente, foi até a porta.— Bea… — Do lado de fora, Gabriel já ia bater novamente, com força. Mas a porta se abriu de repente, e sua mão golpeou o vazio.— O que você tá fazendo aqui? Batendo na minha porta feito um louco no meio da noite. — Disse Beatriz, irritada, o tom carregado de impaciência.Gabriel viu a frieza dela e sentiu o sangue ferver.Sem pensar, agarrou o braço dela com força, furioso:— Eu estou fazendo o quê? Voltando para minha própria casa! Isso não é normal?O olhar desafiador de Beatriz apagou por um instante.Ela baixou a cabeça, o cenho franzido, a expressão ficando tensa, dolorida.Gabriel achou que ela havia voltado a ser aquela mulher submissa de sempre.Mas, de repente, ela levantou a outra mão e tentou afastar a mão dele do próprio braço.Foi aí que ele sentiu.A palma da
A noite se arrastou lentamente, e Gabriel mal conseguiu pregar o olho. Seu estômago estava cada vez mais exigente, os remédios aliviavam um pouco, mas não eram suficientes para curá-lo nem para deixá-lo realmente confortável.Antes mesmo do despertador tocar, ele já estava de pé. Ao abrir a porta do quarto, deu de cara com Beatriz, que saía do apartamento em frente, na diagonal.— O que você tá fazendo? — Perguntou, no impulso.— Vou fazer café da manhã. — Respondeu ela, fria, enquanto, cambaleando um pouco, fechava a porta atrás de si e seguia para a cozinha.Gabriel ficou parado, surpreso. Sempre saía do quarto e encontrava o café da manhã pronto, como se fosse mágica. Nunca tinha se dado conta de que ela acordava às cinco da manhã para preparar tudo.Observando as costas frágeis e hesitantes de Beatriz, ele murmurou:— Não precisa fazer.Beatriz parou. Virou-se lentamente para encará-lo.Havia servido Gabriel por dois anos. Mesmo com febre alta, mesmo exausta, era obrigada a se leva