Beatriz ergueu o rosto e encarou Gabriel com firmeza, os punhos cerrados.Tudo isso... Só para namoradinha dele poder comer uma refeição quente. E a solução era simples: mandar a ela, ferida, para cozinha.Ela tinha subestimado Gabriel. Não havia nele um pingo de humanidade.— Vocês não sabem pedir delivery? — Disse, com a voz carregada de ironia. — Qualquer restaurante entrega. E você... Não é exatamente alguém que precise economizar, né?Gabriel apertou os lábios, desviando o olhar do pé machucado dela. Levou a mão ao bolso, pegando o celular, mas, antes que dissesse algo, Vitória se adiantou, falando com uma voz doce:— A ideia era vir visitar a Bia... Fazer uma comidinha pra ela. Pedir comida pronta... Ia parecer tão impessoal.— Então faz você. — Rebateu Beatriz na hora, fria como gelo.— É que... Eu não estou acostumada com a cozinha daqui. Quase me machuquei quando derrubei o prato. O Gabi ficou tão preocupado comigo... — Disse Vitória, piscando os olhos, num olhar de falsa inoc
Aquele jeitinho frágil e choroso de Vitória fez Gabriel recobrar o juízo na hora. Ele rapidamente se aproximou para consolá-la:— Não é culpa sua... Não chora. — Disse ele, com a voz suave, tentando acalmá-la.Vitória soluçava baixinho, e Gabriel a guiou até o sofá da sala, abraçando-a com extremo cuidado, sussurrando palavras doces e carinhosas.Na cozinha, Beatriz ouvia tudo. Aquelas palavras gentis... Aquela suavidade... Ele nunca tinha usado com ela.Mas agora... Ela já não desejava mais nada daquilo. Só queria ir embora, acabar logo com tudo.Respirou fundo, se controlou e continuou mexendo a comida na frigideira.O divórcio parecia muito mais difícil do que ela imaginava.Achou que Gabriel assinaria sem pensar... Mas agora via que teria que encontrar outra saída.Ele não a amava, isso estava claro, mas, mesmo assim, queria mantê-la presa.E tudo aquilo, no fundo, era o preço que ela pagava pela ambição cega de dois anos atrás.Na sala, Vitória ficou aninhada no peito de Gabriel p
— Gabi, você tá bem? E a Bia? Como ela tá? — Do lado de fora do banheiro, Vitória olhava para ele com um ar preocupado, quase dramático, observando o homem todo molhado e desarrumado.— Estou bem. Vou trocar de roupa. — Respondeu Gabriel, ainda fervendo de raiva.Vitória fingiu que ia abrir a porta do banheiro, mas sua mão foi imediatamente agarrada por Gabriel.Ele a puxou para trás, encarando a porta de vidro com fúria.— Não entra. Aquela louca vai jogar água em você também. Eu juro, essa mulher devia estar internada num hospício! — A Bia com certeza não fez por mal... não fica bravo com ela…Vitória tentou acalmá-lo, assumindo o papel de mediadora, com aquela voz doce e compreensiva que ela sabia usar tão bem.Mas isso só alimentou ainda mais a raiva de Gabriel. Ele soltou uma nova enxurrada de insultos, palavras cruéis e venenosas, carregadas de desprezo.No banheiro.As vozes dos dois atravessavam a porta, cada sílaba batendo como marteladas no peito de Beatriz.Sentada no chão
No hospital, o médico examinou o pé ferido de Beatriz e não conseguiu evitar um tom de repreensão:— Você não está cuidando do seu corpo... Todas essas bolhas estouradas... Se isso infeccionar, não vai ser brincadeira.Beatriz apenas baixou a cabeça, sem dizer nada.Ficou olhando para o próprio pé, vermelho, inchado, machucado de cima a baixo.Não era que ela não cuidava de si.É que...Alguém simplesmente não lhe dava escolha.O médico examinou novamente e percebeu que a parte inferior das costas da garotinha, perto do cóccix, estava muito roxa, marcada por hematomas profundos. No braço, havia arranhões e machucados. Os olhos estavam inchados, vermelhos de tanto chorar, e durante todo o atendimento, ela não disse uma única palavra.Ninguém a acompanhava.Naquele momento, o médico praticamente teve certeza do que estava acontecendo. Respirou fundo e falou com suavidade, mas firmeza:— Vamos fazer um raio-X da sua coluna e te internar para observação. Você não deveria voltar para casa a
Ele bateu a porta com força, virou-se e foi direto para a cozinha. Olhou para as refeições que havia levado para casa e, de repente, tudo lhe pareceu ridículo. Uma raiva silenciosa tomou conta dele. Sem pensar duas vezes, jogou tudo no lixo.Pegou o celular e discou o número dela. Chamou três vezes, mas ninguém atendeu. Prestes a explodir novamente, lembrou-se de que o celular da Beatriz estava quebrado.Gabriel suspirou fundo, engoliu a irritação e decidiu não ligar de novo. Com o rosto fechado e o olhar frio, voltou para a suíte, tomou um banho e se preparou para dormir.“Que vá para onde quiser. Se quiser morrer, que morra. Não é problema meu.”Duas da manhã.Na cama, Gabriel acordou com o estômago revirando, um desconforto crescente que o deixava cada vez mais irritado. Sem perceber, murmurou:— Beatriz... A sopa pra ressaca...Olhou para a porta do quarto, ainda entreaberta, do mesmo jeito que havia deixado horas antes. Cerrando os punhos, frustrado, levantou-se para procurar algu
— O que foi, Gabi? — Vitória sentou-se na cama e abraçou a cintura dele.Gabriel afastou suavemente os braços dela. Sua voz saiu rouca, baixa, carregada de culpa:— Me desculpa. Eu passei dos limites. Descansa bem, tá?Levantou-se às pressas, os passos apressados e desajeitados, como se fugisse do próprio pecado.— Gabi! Gabi! — Vitória chamou, correndo até a porta. Mas, quando abriu, o corredor já estava vazio.Ela ficou parada, mordendo o lábio até quase sangrar, as unhas cravadas no batente da porta. No olhar, um ódio frio, amargo e crescente.No estacionamento subterrâneo, Gabriel entrou no carro e permaneceu imóvel, o olhar perdido, o peito arfando. Levou a mão à testa, sentindo o arrependimento esmagar seu orgulho.No banco do passageiro, algo chamou sua atenção: o brilho do celular novo que havia comprado. Desviou o olhar imediatamente, o desconforto e a culpa pesando ainda mais.No quarto do hotel, Vitória fechou a porta devagar e foi até o banheiro. Encarou o próprio reflexo n
— Continue procurando. Não acredito que ela tenha evaporado. — Gabriel falou entre os dentes, a voz carregada de frustração.Rafael já havia tentado de tudo. Ligou incontáveis vezes, mas Beatriz não atendia.Quando já estava quase desistindo, sem mais esperanças… Finalmente, a ligação completou. E do outro lado da linha, alguém atendeu.— Sra. Beatriz! Onde a senhora está? — Ele perguntou, a voz tremendo de tanta ansiedade.— Por que está me procurando? — a voz de Beatriz soou fria, distante, cortante como gelo.— É o Sr. Gabriel... — Rafael respondeu no impulso, mas logo percebeu o perigo e inventou na hora uma desculpa. — O Sr. Gabriel me pediu pra encontrar uns documentos… Mas não achei, e são urgentes. Pensei em perguntar à senhora, mas... A senhora sumiu...Beatriz revirou os olhos, completamente sem paciência. “Perde as próprias coisas e vem perguntar para mim? Patético.”— Que ele procure sozinho. — Respondeu, seca, quase indiferente.— Sra. Beatriz … O Sr. Gabriel passou o dia
Depois que expulsaram todos do quarto, o médico finalmente chegou. Beatriz mordeu os lábios com força, tentando conter a dor, mas era impossível… As lágrimas simplesmente transbordaram, silenciosas e incontroláveis.O quarto voltou a ficar em silêncio, interrompido apenas pelos soluços abafados dela. As outras pacientes olhavam-na com compaixão nos olhos; todas sabiam exatamente o que tinham acabado de presenciar.— Violência doméstica é crime. Eu vou chamar a polícia agora. — A enfermeira declarou, indignada, pegando o celular.Gabriel, como se despertasse de um transe, arrancou o telefone das mãos dela com brutalidade.— Não foi por minha causa! Que violência doméstica, o quê! Falar besteira assim… Posso acabar com o seu emprego! — Rosnou, cruel.— E essa fratura no cóccix dela? Não foi você que causou? — A enfermeira rebateu, encarando-o com desprezo.Cóccix...Gabriel ficou paralisado. Seus olhos caíram lentamente sobre a região machucada de Beatriz.Primeira vez… Ele a jogou no ch