Capítulo 0006
A noite se arrastou lentamente, e Gabriel mal conseguiu pregar o olho. Seu estômago estava cada vez mais exigente, os remédios aliviavam um pouco, mas não eram suficientes para curá-lo nem para deixá-lo realmente confortável.

Antes mesmo do despertador tocar, ele já estava de pé. Ao abrir a porta do quarto, deu de cara com Beatriz, que saía do apartamento em frente, na diagonal.

— O que você tá fazendo? — Perguntou, no impulso.

— Vou fazer café da manhã. — Respondeu ela, fria, enquanto, cambaleando um pouco, fechava a porta atrás de si e seguia para a cozinha.

Gabriel ficou parado, surpreso. Sempre saía do quarto e encontrava o café da manhã pronto, como se fosse mágica. Nunca tinha se dado conta de que ela acordava às cinco da manhã para preparar tudo.

Observando as costas frágeis e hesitantes de Beatriz, ele murmurou:

— Não precisa fazer.

Beatriz parou. Virou-se lentamente para encará-lo.

Havia servido Gabriel por dois anos. Mesmo com febre alta, mesmo exausta, era obrigada a se levantar e cozinhar. Ele sempre arranjava novas formas de torturá-la. E, agora, pela primeira vez, ele dizia que não precisava?

Ela baixou os olhos, encarando os próprios pés machucados. Será que ele finalmente estava sentindo algum remorso por tudo o que tinha feito? Mas logo ouviu a continuação, fria, sem emoção:

— O jantar também não. Vou sair para comer com a Vi.

E, sem olhar para trás, saiu, fechando a porta com um clique seco.

Beatriz ficou parada, olhando para a porta fechada. Um sorriso amargo surgiu no canto dos lábios. Pensou, com ironia: "Hah... Arrependimento? Eu só imaginei demais."

Na verdade, era até melhor assim. Não precisava cozinhar. Poderia descansar. Já estava cansada de ser uma criada.

Voltou para a cama e dormiu mais um pouco. Às oito, levantou-se para trocar o curativo das queimaduras. Quando abriu a caixa de primeiros socorros, percebeu que o remédio para o estômago havia sumido.

Franziu a testa. Lembrou-se de que, mais cedo, ao abrir a porta, a fechadura não estava trancada. Teria esquecido de trancar na noite anterior? O remédio… Teria sido levado junto?

Não quis se aprofundar naquilo. Depois de se trocar, pegou o notebook e sentou-se no tapete da sala.

Durante a manhã, acessou a plataforma de estudos e revisou conteúdos da faculdade. À tarde, começou a praticar: escreveu códigos, desenhou personagens e montou cenários na prancheta digitalizadora.

Nesses dois anos em que mal podia sair de casa, talvez tivesse esquecido parte dos conhecimentos técnicos mais avançados. Mas o desenho… O desenho nunca a abandonara. Além disso, de vez em quando, aceitava encomendas e ganhava um bom dinheiro. Já até tinha conquistado alguns fãs fiéis.

O tempo passou depressa. Quando percebeu, o céu já estava pintado de dourado. Levantou-se para pegar água e estava prestes a pedir comida pelo aplicativo quando ouviu o som da fechadura girando.

Virou-se, atenta. No segundo seguinte, a porta se abriu e, do lado de fora, apareceu o rosto sorridente de Vitória.

— Bia! Vim te visitar! Como você tá? Melhorou um pouquinho? — Vitória abriu um sorriso radiante. Atrás dela, vinha Gabriel, carregando sacolas de comida.

O rosto de Beatriz gelou na hora. Virou-se, ignorando-os.

Graças àquela ali… Se não fosse por ela, não teria se queimado. E agora ainda tinha a cara de pau de aparecer? Uma cobra vestida de santa… Só pode.

— Bia... — Chamou Vitória, num tom manhoso e carregado de mágoa, ao perceber que Beatriz a ignorava completamente.

— Que atitude é essa? — Gabriel franziu o cenho, repreendendo-a com irritação. — A Vi veio aqui de coração para te ver, ainda quer cozinhar para você. Não seja ingrata.

Beatriz virou o rosto, soltou uma risada fria e respondeu:

— Fiquem à vontade. Eu estou sem apetite, não vou comer.

Foi até a mesa da sala, começou a guardar o notebook. Gabriel estava claramente irritado, mas Vitória puxou o braço dele com doçura, balançando de leve e falando naquele tom meloso:

— Gabi, a Bia tá machucada... Seja mais gentil com ela. Vem, vamos cozinhar juntos. Quando tudo estiver pronto, a gente chama ela, tá?

Beatriz fingiu não ouvir aquela voz açucarada e enjoativa. Pegou o computador e seguiu para o quarto, sem olhar para trás.

Vitória desapareceu na cozinha, carregando as sacolas. Gabriel, curioso, não conseguiu se conter e perguntou, franzindo a testa:

— O que você vai fazer com esse computador?

— Estou entediada... Para assistir alguma série. — Respondeu ela, seca, sem nem se virar.

Ele apertou ainda mais os olhos, desconfiado.

— E essa prancheta? — Insistiu, notando a mesa digitalizadora.

— Apoio paras mãos. — Respondeu Beatriz, sem hesitar.

Mentira descarada. Apoio de mão com cabo USB? Ele não era idiota.

Além disso, aquela frieza dela desde o dia anterior estava começando a incomodá-lo de um jeito que ele não sabia explicar.

— Gabi! Vem aqui me ajudar a limpar as verduras! — A voz doce e manhosa de Vitória ecoou da cozinha.

Gabriel suspirou fundo e foi. Do quarto, Beatriz ouvia tudo com clareza.

Ela soltou um riso abafado e sarcástico. Inacreditável... O Gabriel, aquele Gabriel, ajudando na cozinha.

Antes, ela fazia tudo. Às vezes, levava o prato na mão para ele. E ele? Jamais moveria um dedo.

Então... Essa história de homem não entra na cozinha é só até se apaixonar de verdade, né? No fim, por amor, qualquer um arregaça as mangas e vai cozinhar.

Mesmo com a porta do quarto bem fechada, ainda conseguia ouvir a voz aguda e forçada de Vitória. Qualquer um que passasse por ali pensaria que ela fazia de propósito. E, junto com a voz dela, vinham barulhos metálicos, talheres caindo, panelas batendo... Parecia que estavam destruindo a cozinha.

A casa, agora tomada por aquela intrometida que fingia ser dona, já não incomodava Beatriz. No fundo, ela só achava tudo um circo barulhento.

Tentou voltar a assistir a um vídeo de tutoria, mas foi interrompida por um grito alto vindo da cozinha.

Suspirando, colocou os fones de ouvido, tentando ignorar.

Mas logo depois, batidas fortes começaram a ecoar na porta do quarto.

— Beatriz, sai agora. — Era a voz de Gabriel, do lado de fora.

Beatriz fechou os punhos com força. Ela já tinha cedido espaço, deixado a casa inteira livre para aqueles dois, e ainda assim vinham atrás dela para incomodar?

As batidas na porta continuavam, insistentes, como se Gabriel não fosse desistir enquanto ela não saísse.

Respirou fundo algumas vezes, tentando se acalmar. Repetiu para si mesma, como um mantra:

"Faltam só 28 dias... Aguenta firme... Vai passar."

Abriu a porta. E, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Gabriel já começou:

— Vai para cozinha. A Vi não tá acostumada com o fogão daqui... Derrubou um prato de cerâmica e quase se machucou.

Beatriz ficou olhando pra ele, incrédula.

O que uma coisa tinha a ver com a outra?

Ela quebrou o prato, quase se feriu, e agora... A culpa era dela?

— Eu também estou machucada. — Respondeu, com frieza na voz.

Só então Gabriel lembrou, finalmente, notar o estado do pé dela. Baixou o olhar e viu o curativo.

Por um segundo, Beatriz achou que talvez, só talvez, ele demonstrasse um pouco de humanidade. Afinal, de manhã ele até tinha dito para ela não cozinhar.

Mas o que veio foi só mais um balde de água fria:

— Sua mão não tá machucada. Fica parada e cozinha, pronto. — Disse ele, como se fosse a coisa mais lógica do mundo.
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