— O que foi, Gabi? — Vitória sentou-se na cama e abraçou a cintura dele.Gabriel afastou suavemente os braços dela. Sua voz saiu rouca, baixa, carregada de culpa:— Me desculpa. Eu passei dos limites. Descansa bem, tá?Levantou-se às pressas, os passos apressados e desajeitados, como se fugisse do próprio pecado.— Gabi! Gabi! — Vitória chamou, correndo até a porta. Mas, quando abriu, o corredor já estava vazio.Ela ficou parada, mordendo o lábio até quase sangrar, as unhas cravadas no batente da porta. No olhar, um ódio frio, amargo e crescente.No estacionamento subterrâneo, Gabriel entrou no carro e permaneceu imóvel, o olhar perdido, o peito arfando. Levou a mão à testa, sentindo o arrependimento esmagar seu orgulho.No banco do passageiro, algo chamou sua atenção: o brilho do celular novo que havia comprado. Desviou o olhar imediatamente, o desconforto e a culpa pesando ainda mais.No quarto do hotel, Vitória fechou a porta devagar e foi até o banheiro. Encarou o próprio reflexo n
— Continue procurando. Não acredito que ela tenha evaporado. — Gabriel falou entre os dentes, a voz carregada de frustração.Rafael já havia tentado de tudo. Ligou incontáveis vezes, mas Beatriz não atendia.Quando já estava quase desistindo, sem mais esperanças… Finalmente, a ligação completou. E do outro lado da linha, alguém atendeu.— Sra. Beatriz! Onde a senhora está? — Ele perguntou, a voz tremendo de tanta ansiedade.— Por que está me procurando? — a voz de Beatriz soou fria, distante, cortante como gelo.— É o Sr. Gabriel... — Rafael respondeu no impulso, mas logo percebeu o perigo e inventou na hora uma desculpa. — O Sr. Gabriel me pediu pra encontrar uns documentos… Mas não achei, e são urgentes. Pensei em perguntar à senhora, mas... A senhora sumiu...Beatriz revirou os olhos, completamente sem paciência. “Perde as próprias coisas e vem perguntar para mim? Patético.”— Que ele procure sozinho. — Respondeu, seca, quase indiferente.— Sra. Beatriz … O Sr. Gabriel passou o dia
Depois que expulsaram todos do quarto, o médico finalmente chegou. Beatriz mordeu os lábios com força, tentando conter a dor, mas era impossível… As lágrimas simplesmente transbordaram, silenciosas e incontroláveis.O quarto voltou a ficar em silêncio, interrompido apenas pelos soluços abafados dela. As outras pacientes olhavam-na com compaixão nos olhos; todas sabiam exatamente o que tinham acabado de presenciar.— Violência doméstica é crime. Eu vou chamar a polícia agora. — A enfermeira declarou, indignada, pegando o celular.Gabriel, como se despertasse de um transe, arrancou o telefone das mãos dela com brutalidade.— Não foi por minha causa! Que violência doméstica, o quê! Falar besteira assim… Posso acabar com o seu emprego! — Rosnou, cruel.— E essa fratura no cóccix dela? Não foi você que causou? — A enfermeira rebateu, encarando-o com desprezo.Cóccix...Gabriel ficou paralisado. Seus olhos caíram lentamente sobre a região machucada de Beatriz.Primeira vez… Ele a jogou no ch
— Foi você quem esbarrou a faca nela naquela hora. Eu vi com meus próprios olhos. — Gabriel disse, tentando se justificar.— Ah, é? E ela se machucou? — Beatriz rebateu, fria e afiada.Gabriel ficou em silêncio.O tal ferimento da Vi… Não passava de uma marquinha menor que um arranhão de unha. Nem curativo precisava.— Você me acusa de manipular a situação… Mas, no fundo, é você quem distorce tudo. — Beatriz continuou, o sarcasmo escorrendo em cada palavra, enquanto observava o silêncio dele.Ela respirou fundo e prosseguiu, cada frase cortante como uma lâmina:— E agora fica me perguntando se eu voltei pra casa ontem. Por quê? Tá com medo que eu tenha te flagrado se divertindo com aquela mulher? Traição dentro do casamento… E você ainda age como se tivesse razão?Ao ouvir isso, Gabriel enrijeceu, a coluna reta como um soldado em posição de sentido.— Eu não traí! — Retrucou, quase gritando.— Não? E essa marca no seu pescoço, foi o quê? Mordida de cachorro? — Ela rebateu, o olhar chei
Por que ele estava tão irritado?Sim… Era porque…— Ela não podia falar comigo diretamente? — Gabriel explodiu, indignado. — Por que precisou falar através de você?!Por que usar um assistente? Será que era tão difícil o ligar ou mandar uma mensagem?Rafael encarava o vazio à frente, o rosto impassível, enquanto o silêncio pesado preenchia o ambiente.Será que a forma de avisar importava tanto assim? Será que justificava toda aquela fúria do Sr. Gabriel?Ele já não sabia o que pensar.Se dissesse que o Sr. Gabriel não amava a Sra. Beatriz, não faria sentido vê-lo tão desesperado, correndo atrás dela. Mas, se dissesse que amava… Como explicar o fato de ter ido para a cama com outra mulher e feri-la daquela forma?No quarto do hospital, Beatriz recusara a preocupação das outras pacientes. Só queria ficar em paz.A mensagem que enviara a Rafael tinha sido sincera. Ela não pretendia, de forma alguma, expor o que aconteceu entre Gabriel e Vitória. Só queria poupar o Sr. Henrique daquele con
No escritório, o humor de Gabriel tinha melhorado consideravelmente. Estava até de pernas cruzadas, tomando café com calma, como se nada tivesse acontecido.Quando o relógio marcou cinco e meia, ele se levantou, pegou o paletó e saiu. Planejava jantar com Vitória antes do desfile.Assim que ligou o carro, o celular tocou. Ele pegou o aparelho, olhou para a tela e, ao ver o nome, soltou uma risada fria antes de desligar na hora e guardar o telefone de volta no bolso.— De manhã me xingou e me bateu… Liguei umas cem vezes e ela não atendeu nenhuma. Agora tá precisando de mim? — Murmurou com desdém, pisando fundo no acelerador.Ele sabia exatamente o motivo da ligação da Beatriz. Com certeza era por dinheiro. Hospital, contas, sem trabalhar há dois anos… De onde ela tiraria algum recurso? Quem mais ela poderia procurar senão ele?Lembrou-se da raiva que já tinha engolido por causa dela... Sempre fazendo o papel do bom moço e recebendo ingratidão em troca. Na noite anterior, ela ainda teve
Beatriz não respondeu à primeira pergunta, porque honestamente, não via necessidade. Mas, quanto à segunda, sobre quem havia entrado na casa, respondeu com calma:— Entrei em contato com o seu assistente. Ele trabalha para você e já esteve na nossa casa algumas vezes. Não considero isso um vazamento de endereço, e você confia nele.Gabriel sentiu o sangue ferver. Queria dizer tudo o que realmente pensava, mas o que saiu da sua boca foi:— E daí que ele é meu funcionário? Naquelas vezes, ele foi quando você estava em casa. Agora você não tá.Era só um pretexto pra descontar sua raiva. O verdadeiro motivo… Ele não conseguia colocar em palavras.Por que ela preferiu ligar pro Rafael, em vez de insistir com ele? Só porque ele desligou na primeira ligação? E as centenas de ligações dela que ele não atendeu, isso não contava?Ela preferiu recorrer a um estranho em vez de a ele. Aquilo o deixava completamente fora de si.Do outro lado da linha, Beatriz ficou em silêncio por alguns segundos.E
Naquele momento, no hospital, Rafael havia trazido tudo o que Beatriz precisava. Colocou os itens com cuidado sobre a mesinha ao lado da cama.— Muito obrigada, de verdade. Deve ter sido cansativo vir até aqui. O dinheiro do táxi que te transferi… Por favor, aceite. — Beatriz sorriu gentilmente, agradecendo.— Sra. Beatriz, a senhora é muito gentil… Mas não precisava. Fazer isso por você é o mínimo. Na verdade, ainda me sinto mal por algo que aconteceu no almoço… Eu deveria ter avisado que o Sr. Gabriel estava indo te procurar. — Rafael falou, cheio de culpa.— Você é assistente dele. Como teria coragem de me contar? Eu entendo perfeitamente. — Ao mencionar Gabriel, o rosto de Beatriz perdeu o calor, tornando-se frio e distante.Rafael chegou a pensar em explicar... No fundo, ele sabia que poderia ter avisado sem grandes consequências. Mas, no fim, foi ele quem escolheu se calar.— Obrigada mais uma vez. Vai, volta pro trabalho. Você ainda está no expediente. — Beatriz sorriu levemente