Beatriz não respondeu à primeira pergunta, porque honestamente, não via necessidade. Mas, quanto à segunda, sobre quem havia entrado na casa, respondeu com calma:— Entrei em contato com o seu assistente. Ele trabalha para você e já esteve na nossa casa algumas vezes. Não considero isso um vazamento de endereço, e você confia nele.Gabriel sentiu o sangue ferver. Queria dizer tudo o que realmente pensava, mas o que saiu da sua boca foi:— E daí que ele é meu funcionário? Naquelas vezes, ele foi quando você estava em casa. Agora você não tá.Era só um pretexto pra descontar sua raiva. O verdadeiro motivo… Ele não conseguia colocar em palavras.Por que ela preferiu ligar pro Rafael, em vez de insistir com ele? Só porque ele desligou na primeira ligação? E as centenas de ligações dela que ele não atendeu, isso não contava?Ela preferiu recorrer a um estranho em vez de a ele. Aquilo o deixava completamente fora de si.Do outro lado da linha, Beatriz ficou em silêncio por alguns segundos.E
Naquele momento, no hospital, Rafael havia trazido tudo o que Beatriz precisava. Colocou os itens com cuidado sobre a mesinha ao lado da cama.— Muito obrigada, de verdade. Deve ter sido cansativo vir até aqui. O dinheiro do táxi que te transferi… Por favor, aceite. — Beatriz sorriu gentilmente, agradecendo.— Sra. Beatriz, a senhora é muito gentil… Mas não precisava. Fazer isso por você é o mínimo. Na verdade, ainda me sinto mal por algo que aconteceu no almoço… Eu deveria ter avisado que o Sr. Gabriel estava indo te procurar. — Rafael falou, cheio de culpa.— Você é assistente dele. Como teria coragem de me contar? Eu entendo perfeitamente. — Ao mencionar Gabriel, o rosto de Beatriz perdeu o calor, tornando-se frio e distante.Rafael chegou a pensar em explicar... No fundo, ele sabia que poderia ter avisado sem grandes consequências. Mas, no fim, foi ele quem escolheu se calar.— Obrigada mais uma vez. Vai, volta pro trabalho. Você ainda está no expediente. — Beatriz sorriu levemente
Vitória desbloqueou o celular e abriu o aplicativo de mensagens. No topo da tela, a segunda conversa mais recente fez o sorriso dela desaparecer instantaneamente. Seu rosto, que antes brilhava de satisfação, ficou frio e rígido.O horário: 17h57. Exatamente quando Gabriel estava a caminho do restaurante.Ela abriu o chat e viu que o histórico havia sido apagado. Restavam apenas duas mensagens, enviada primeira por Gabriel:[Você me ligou para quê? O que queria que eu fizesse?][Não precisa.]Vitória apertou os lábios, o coração apertado. Mudou para a aba de chamadas. No topo da lista, lá estava: uma ligação para Beatriz, feita por Gabriel, com duração de dois minutos.Antes que pudesse imaginar o que eles tinham conversado nesses dois minutos, ouviu passos se aproximando. Assustada, rapidamente saiu da tela, bloqueou o celular e o colocou de volta na mesa, voltando à sua pose doce e tranquila.A porta do salão se abriu, e Gabriel entrou novamente:— Esqueci meu celular. — Disse, simple
No quarto do hospital.Beatriz estava deitada de bruços, rabiscando alguns esboços na prancha digital, tentando recuperar firmeza na mão. Ao lado, o celular começou a tocar. Ela pegou o aparelho, olhou o visor e, com total indiferença, largou-o de volta na cama.A ligação caiu depois de quarenta segundos. Ela imaginou que a pessoa do outro lado desistiria. Mas logo o telefone tocou de novo.Veio a terceira, a quarta chamada… Insistentes, incansáveis, como se ele quisesse repetir as cem ligações daquela manhã.Beatriz não entendia. O que Gabriel queria ligando naquela hora? Será que ele esperava que ela voltasse para casa para preparar o jantar? Mas ele sabia que ela estava internada, não sabia?Com receio de que ele aparecesse do nada no hospital, surtando e descontando nela, como já tinha feito na hora do almoço, Beatriz largou a caneta digital, respirou fundo e atendeu o telefone.Ela nem teve tempo de dizer “alô”. Do outro lado, a voz dele veio carregada de raiva:— Por que só atend
A inveja crescia dentro dela, descontrolada, feroz. Vitória sabia, precisava agir rápido.No quarto do hospital.Beatriz franziu a testa. Não queria gastar energia pensando na última frase de Gabriel. Em vez disso, abriu o aplicativo de mensagens e viu a transferência que ele tinha feito.Sessenta mil reais. Na descrição: despesas da cirurgia.Sem hesitar, devolveu o dinheiro na mesma hora. Se não fizesse isso agora, tinha certeza de que ouviria cobranças depois, na hora do divórcio.Primeira fila do evento.Gabriel percebeu que Beatriz havia recusado o dinheiro. Mandou uma mensagem, perguntando o motivo. Ela respondeu, seca:[Não vou fazer cirurgia. Não preciso.][Mas você vai ficar internada. Pelo menos use para as despesas.]Beatriz leu a mensagem e respondeu, sem rodeios:[É pouco dinheiro. Eu posso pagar sozinha.]Depois disso, bloqueou a tela do celular, largou-o de lado e não olhou mais.Gabriel enviou mais mensagens. Primeiro, perguntando quanto era esse "pouco dinheiro". Depoi
Os olhos do diretor do evento brilharam na hora. Ele adorava lidar com gente objetiva e generosa. Sorriu, todo simpático:— Sem nenhum prejuízo. Situações inesperadas acontecem… Quando a Srta. Vitória estiver recuperada, a passarela vai estar sempre aberta pra ela.Gabriel se levantou e, com elegância, entregou o cartão do seu assistente. Em seguida, foi até Vitória para ajudá-la.Quando percebeu que ela mancava e quase caiu de novo, não pensou duas vezes, tomou-a nos braços mais uma vez, carregando-a como uma princesa.Vitória, corada, aninhou-se contra o peito dele, passando os braços em volta do seu pescoço com um ar de fragilidade encantadora.Do lado de fora...Os fotógrafos mais rápidos já estavam estrategicamente posicionados. Assim que Gabriel saiu do prédio com Vitória nos braços, os flashes começaram a pipocar.Assustada, Vitória escondeu o rosto contra o peito dele, como se buscasse proteção.A voz de Gabriel soou fria e autoritária:— Apaguem essas fotos agora… Ou se prepar
— E agora? — A voz de Vitória saiu embargada. — Meus documentos estão todos na bolsa… Não posso ir para outro hotel sem eles.Gabriel ficou em silêncio por alguns segundos, depois respondeu com firmeza:— Vamos para minha casa.Vitória hesitou por um momento. Baixou a cabeça, assumindo um ar humilde e contido:— Não sei se é o certo… Não quero ser o motivo de mais brigas entre você e a Bia.Gabriel soltou um suspiro impaciente:— Ela não tem do que reclamar. A casa é minha. Quem entra ou fica lá, decido eu.As palavras dele foram frias, cortantes.Vitória ainda tinha o rosto molhado pelas lágrimas, mas diante da atitude decidida de Gabriel, não insistiu. Fingiu uma última resistência tímida, que ele ignorou por completo, conduzindo-a diretamente ao condomínio.No elevador, Vitória caminhava atrás dele. Quando chegaram ao andar, ela discretamente passou o dedo pelo pescoço, esfregando com força a base da maquiagem até deixar à mostra, de propósito, a marca de uma chupada.A porta do apa
Ao pensar nisso, Beatriz mordeu o lábio com força.Se culpava por não ter rasgado e queimado aquele diário antes…Mas, por sorte, lembrava-se de tê-lo trancado na gaveta. Vitória não conseguiria abrir.Respirou fundo, forçando-se a manter a calma.Quando estava prestes a desligar o celular, uma notificação apareceu na tela.O título gritava:[O herdeiro da família Pereira aparece em desfile e sobe na passarela por sua musa!]Beatriz ficou olhando para a tela por alguns segundos.O herdeiro da família Pereira… Quem mais poderia ser, senão o Gabriel?Seus olhos deslizaram automaticamente até a palavra “musa”.Sem perceber, já tinha clicado na notícia.A primeira imagem era nítida: Gabriel, segurando uma mulher nos braços, num clássico colo de princesa.Ela estava aninhada contra o peito dele, como se aquele fosse o lugar mais seguro do mundo.Beatriz reconheceu o rosto de lado na hora, era Vitória.Continuou rolando a tela.Mais fotos. Close no olhar protetor de Gabriel, o rosto tenso de