Capítulo 0005
Dentro do quarto.

Beatriz já dormia profundamente quando as batidas violentas na porta e os gritos a despertaram bruscamente.

Franziu a testa, respirou fundo, acendeu o abajur e, mancando levemente, foi até a porta.

— Bea… — Do lado de fora, Gabriel já ia bater novamente, com força. Mas a porta se abriu de repente, e sua mão golpeou o vazio.

— O que você tá fazendo aqui? Batendo na minha porta feito um louco no meio da noite. — Disse Beatriz, irritada, o tom carregado de impaciência.

Gabriel viu a frieza dela e sentiu o sangue ferver.

Sem pensar, agarrou o braço dela com força, furioso:

— Eu estou fazendo o quê? Voltando para minha própria casa! Isso não é normal?

O olhar desafiador de Beatriz apagou por um instante.

Ela baixou a cabeça, o cenho franzido, a expressão ficando tensa, dolorida.

Gabriel achou que ela havia voltado a ser aquela mulher submissa de sempre.

Mas, de repente, ela levantou a outra mão e tentou afastar a mão dele do próprio braço.

Foi aí que ele sentiu.

A palma da sua mão… Estava úmida.

Olhou para baixo.

Sangue.

Ele havia apertado com tanta força que reabriu o ferimento dela.

Beatriz sentiu a dor aguda subir pelo braço, os olhos se encheram de lágrimas, mas eram lágrimas de dor misturadas à indignação.

Ela o encarou, furiosa, os olhos brilhando.

— Você tá machucada? — Gabriel tentou se aproximar, preocupado, estendendo a mão para o braço dela.

Mas ela recuou, fria, desviando dele como quem evita um estranho desagradável.

— Tá me perguntando? Isso não é culpa sua? — Disparou, amarga.

Gabriel congelou por um segundo.

As cenas daquela noite passaram como flashes em sua mente: ele largando Beatriz na calçada, ela caindo, machucando-se sozinha.

O olhar dele caiu sobre o cotovelo dela, a pele esfolada, sangrando de novo, graças à força que ele havia feito.

Desceu o olhar mais uma vez…

Além das bolhas no pé, os dedos dela estavam enfaixados, com manchas de sangue escapando pela gaze.

Sua garganta travou.

Quis dizer algo.

Mas Beatriz já estava fechando a porta na cara dele.

— Solta a porta. — Disse ela, irritada, sentindo resistência.

Gabriel impedia o fechamento.

Queria falar.

Queria pedir desculpa.

Mas as palavras simplesmente não saíam.

Em vez disso, veio uma cobrança ríspida:

— Por que você não atendeu minhas ligações? Você sabe… Eu… — E parou. Nem ele sabia terminar a frase.

Beatriz soltou uma risada seca, sarcástica.

Então era por isso?

Ele estava batendo na porta feito um louco só porque ela não atendeu o telefone?

Ótimo motivo. Realmente importantíssimo.

Ela foi mancando até o criado-mudo.

Gabriel, observando aquela figura frágil de costas, sentiu um aperto estranho no peito — uma sensação sufocante que ele não conseguia explicar.

— O telefone caiu no chão. A tela se despedaçou. Tá quebrado, não liga mais. Satisfeito com a explicação?

Gabriel olhou para o aparelho, a tela completamente estilhaçada, e ficou sem palavras.

— Beatriz… — Tentou dizer algo, mas a porta fechou com força, batendo na cara dele.

Ficou parado ali, imóvel, olhando a madeira fria e fechada.

Depois de vários segundos, soltou o ar com força, virou-se lentamente e saiu.

Dentro do quarto, Beatriz suspirou, exausta e irritada.

Pegou o celular quebrado e, antes de desligar, viu o registro de chamadas, trinta e seis ligações perdidas de Gabriel.

Ridículo.

"Se me largou na rua pra correr atrás da Vitória, pra quê ligar tanto depois?"

Desligou o celular de novo, virou-se na cama com dificuldade e fechou os olhos.

Não valia a pena pensar mais nisso.

Na suíte principal.

Gabriel tomou um banho rápido e foi direto para a cama.

A tela do celular acendeu.

Era uma mensagem de Vitória: perguntava se Beatriz estava bem, se tinha chegado em casa em segurança… E pedia que ele não fosse duro com ela.

Gabriel leu a mensagem e, naquele instante, qualquer resquício de culpa que ainda sentia por Beatriz evaporou.

Afinal… Se ela não tivesse tentado machucar a Vi de propósito, nada daquilo teria acontecido.

Digitou a resposta:

[Não se preocupe com ela. Vai dormir cedo. Boa noite.]

Na suíte do hotel, Vitória sorriu ao ler a resposta.

A frieza e o desprezo de Gabriel por Beatriz a deixavam satisfeita.

Exatamente como ela queria.

Passava da meia-noite.

Gabriel desligou o abajur e tentou dormir.

Mas poucos minutos depois, aquela dor no estômago começou a incomodar de novo.

Desde o ensino médio, ele sofria de gastrite.

Naquela época, era a Vi quem cuidava dele, lembrava-o de comer, preparava refeições leves, ficava ao lado dele nas crises.

Na faculdade, as dores quase desapareceram.

Mas, depois que entrou no mercado de trabalho, com a rotina pesada, reuniões intermináveis, eventos e tantas noites mal dormidas, as crises acabaram voltando.

Nos últimos anos, Beatriz sempre preparava para ele uma sopa quente, calmante, que aliviava a dor e o ajudava a dormir a noite inteira.

Levantou-se, foi até a cozinha, esperando encontrar alguma coisa pronta.

Mas o fogão estava limpo, a geladeira vazia.

Tudo impecável.

Ao lembrar da sopa quente derramada na porta do camarote, ele, por um instante, sentiu até um certo desperdício.

Logo em seguida, veio a irritação, como Beatriz não tinha pensado em fazer mais?

Por instinto, pensou em acordá-la e pedir que fizesse outra.

Mas… Parou no meio do corredor.

Mordeu o lábio, hesitando.

Voltou para a sala e começou a procurar o remédio no armário de primeiros socorros.

Nada.

Franziu a testa.

Então lembrou: quando estava batendo na porta do quarto dela, tinha visto a caixa de medicamentos sobre o criado-mudo.

Por um segundo, talvez por resquício de consciência, hesitou.

Não teve coragem de bater na porta de novo.

Em vez disso, foi até o escritório e começou a revirar gavetas à procura da chave reserva.

Depois de alguns minutos, encontrou-a.

Levantou-se, respirou fundo, foi até a porta do quarto de hóspedes…

E destrancou, devagar, tentando não fazer barulho.

A maçaneta girou com um leve clique, e Gabriel prendeu a respiração sem perceber.

Seus passos ficaram silenciosos, quase furtivos.

E então, ele mesmo se sentiu ridículo.

Afinal… Aquela casa era dele.

Por que estava entrando ali como um ladrão?

O quarto estava na penumbra.

Um leve aroma adocicado misturava-se com o cheiro sutil de antisséptico.

Na cama, Beatriz dormia de lado, o rosto tranquilo, levemente voltado para a parede.

O lençol fino cobria apenas parte do corpo.

Gabriel desviou o olhar rapidamente, tentando manter o foco.

Pegaria o remédio e sairia.

Ao se agachar para pegar a caixa sobre o criado-mudo, algo chamou sua atenção no canto do olho.

Pela fresta da porta, a luz suave do corredor incidia sobre a parte inferior das costas dela.

A barra da blusa havia subido um pouco, revelando a pele marcada por hematomas grandes e profundos.

Manchas roxas espalhadas, tão evidentes que nem a luz quente do abajur conseguia suavizar.

Gabriel ficou imóvel por dois segundos, encarando aquelas marcas.

O peito apertou, um incômodo súbito crescendo dentro dele.

Mas, logo, desviou o olhar.

Levantou-se devagar, saiu do quarto em silêncio e fechou a porta com cuidado.

"Só machucados superficiais."

Tentou convencer a si mesmo.

"Nada grave."

"Se ela não tivesse sido tão ciumenta… Se não tivesse insistido em causar aquela confusão… Eu jamais teria precisado carregá-la. Quem provocou tudo isso foi ela mesma."

Com esse pensamento, virou as costas e foi embora, abafando o desconforto que, por um segundo, ameaçou apertar seu peito.
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