Gabriel hesitou por um segundo, apertou os lábios, olhou para Vitória… Mas, no fim, não disse nada.Beatriz ouviu o diálogo entre os dois e não conseguiu evitar um sorriso amargo, carregado de ironia.Ela era a esposa de Gabriel, no papel.Mas, naquele momento, a sensação era nítida: os verdadeiros marido e mulher eram eles… E ela era apenas a intrusa, a amante inconveniente.Gabriel caminhava à frente, Vitória ao lado dele, como se fossem um casal perfeito saído de um comercial.E, mesmo que Beatriz tentasse ignorar toda a falsidade de Vitória, a boazinha não perdia uma chance de manter seu teatrinho:— Bia, deve estar doendo muito… Me desculpa. Na hora, o Gabi só pensou na minha carreira, por isso me trouxe primeiro ao hospital. Não fica brava com ele, tá? — Disse Vitória, num tom doce e caridoso, olhando para ela como se estivesse pedindo desculpas sinceras.Beatriz sorriu de canto, amarga, e respondeu com calma:— Eu não estou brava. Afinal… Na cabeça dele, você sempre vem em prime
Quando Beatriz finalmente chegou em casa, já passava das onze da noite.A casa estava silenciosa, mergulhada na escuridão.Beatriz não deixou nenhuma luz acesa na sala.Afinal, era quase certo que Gabriel estaria por aí, provavelmente nos braços de Vitória, aproveitando a noite em algum lugar. Voltar para casa? Isso era pouco provável.Apoiando-se nas paredes, sentindo o corpo inteiro latejar de dor, Beatriz pegou a caixa de primeiros socorros.Caminhou devagar até seu pequeno quarto.Dois anos de casamento.Na prática, um casamento de fachada.Gabriel sempre manteve distância, fiel apenas ao seu verdadeiro amor.Nunca deixou que ela sequer se aproximasse da suíte principal.“Ainda bem”, pensou Beatriz, com amargura.Só de imaginar ser tocada por ele agora… Sentia náusea.Com dificuldade, desinfetou o cotovelo ferido e o dorso do pé, inchado e dolorido.Nem teve forças para guardar a caixa de primeiros socorros.Deixou-a sobre o criado-mudo, prometendo a si mesma arrumar tudo pela ma
Dentro do quarto.Beatriz já dormia profundamente quando as batidas violentas na porta e os gritos a despertaram bruscamente.Franziu a testa, respirou fundo, acendeu o abajur e, mancando levemente, foi até a porta.— Bea… — Do lado de fora, Gabriel já ia bater novamente, com força. Mas a porta se abriu de repente, e sua mão golpeou o vazio.— O que você tá fazendo aqui? Batendo na minha porta feito um louco no meio da noite. — Disse Beatriz, irritada, o tom carregado de impaciência.Gabriel viu a frieza dela e sentiu o sangue ferver.Sem pensar, agarrou o braço dela com força, furioso:— Eu estou fazendo o quê? Voltando para minha própria casa! Isso não é normal?O olhar desafiador de Beatriz apagou por um instante.Ela baixou a cabeça, o cenho franzido, a expressão ficando tensa, dolorida.Gabriel achou que ela havia voltado a ser aquela mulher submissa de sempre.Mas, de repente, ela levantou a outra mão e tentou afastar a mão dele do próprio braço.Foi aí que ele sentiu.A palma da
A noite se arrastou lentamente, e Gabriel mal conseguiu pregar o olho. Seu estômago estava cada vez mais exigente, os remédios aliviavam um pouco, mas não eram suficientes para curá-lo nem para deixá-lo realmente confortável.Antes mesmo do despertador tocar, ele já estava de pé. Ao abrir a porta do quarto, deu de cara com Beatriz, que saía do apartamento em frente, na diagonal.— O que você tá fazendo? — Perguntou, no impulso.— Vou fazer café da manhã. — Respondeu ela, fria, enquanto, cambaleando um pouco, fechava a porta atrás de si e seguia para a cozinha.Gabriel ficou parado, surpreso. Sempre saía do quarto e encontrava o café da manhã pronto, como se fosse mágica. Nunca tinha se dado conta de que ela acordava às cinco da manhã para preparar tudo.Observando as costas frágeis e hesitantes de Beatriz, ele murmurou:— Não precisa fazer.Beatriz parou. Virou-se lentamente para encará-lo.Havia servido Gabriel por dois anos. Mesmo com febre alta, mesmo exausta, era obrigada a se leva
Beatriz ergueu o rosto e encarou Gabriel com firmeza, os punhos cerrados.Tudo isso... Só para namoradinha dele poder comer uma refeição quente. E a solução era simples: mandar a ela, ferida, para cozinha.Ela tinha subestimado Gabriel. Não havia nele um pingo de humanidade.— Vocês não sabem pedir delivery? — Disse, com a voz carregada de ironia. — Qualquer restaurante entrega. E você... Não é exatamente alguém que precise economizar, né?Gabriel apertou os lábios, desviando o olhar do pé machucado dela. Levou a mão ao bolso, pegando o celular, mas, antes que dissesse algo, Vitória se adiantou, falando com uma voz doce:— A ideia era vir visitar a Bia... Fazer uma comidinha pra ela. Pedir comida pronta... Ia parecer tão impessoal.— Então faz você. — Rebateu Beatriz na hora, fria como gelo.— É que... Eu não estou acostumada com a cozinha daqui. Quase me machuquei quando derrubei o prato. O Gabi ficou tão preocupado comigo... — Disse Vitória, piscando os olhos, num olhar de falsa inoc
Aquele jeitinho frágil e choroso de Vitória fez Gabriel recobrar o juízo na hora. Ele rapidamente se aproximou para consolá-la:— Não é culpa sua... Não chora. — Disse ele, com a voz suave, tentando acalmá-la.Vitória soluçava baixinho, e Gabriel a guiou até o sofá da sala, abraçando-a com extremo cuidado, sussurrando palavras doces e carinhosas.Na cozinha, Beatriz ouvia tudo. Aquelas palavras gentis... Aquela suavidade... Ele nunca tinha usado com ela.Mas agora... Ela já não desejava mais nada daquilo. Só queria ir embora, acabar logo com tudo.Respirou fundo, se controlou e continuou mexendo a comida na frigideira.O divórcio parecia muito mais difícil do que ela imaginava.Achou que Gabriel assinaria sem pensar... Mas agora via que teria que encontrar outra saída.Ele não a amava, isso estava claro, mas, mesmo assim, queria mantê-la presa.E tudo aquilo, no fundo, era o preço que ela pagava pela ambição cega de dois anos atrás.Na sala, Vitória ficou aninhada no peito de Gabriel p
— Gabi, você tá bem? E a Bia? Como ela tá? — Do lado de fora do banheiro, Vitória olhava para ele com um ar preocupado, quase dramático, observando o homem todo molhado e desarrumado.— Estou bem. Vou trocar de roupa. — Respondeu Gabriel, ainda fervendo de raiva.Vitória fingiu que ia abrir a porta do banheiro, mas sua mão foi imediatamente agarrada por Gabriel.Ele a puxou para trás, encarando a porta de vidro com fúria.— Não entra. Aquela louca vai jogar água em você também. Eu juro, essa mulher devia estar internada num hospício! — A Bia com certeza não fez por mal... não fica bravo com ela…Vitória tentou acalmá-lo, assumindo o papel de mediadora, com aquela voz doce e compreensiva que ela sabia usar tão bem.Mas isso só alimentou ainda mais a raiva de Gabriel. Ele soltou uma nova enxurrada de insultos, palavras cruéis e venenosas, carregadas de desprezo.No banheiro.As vozes dos dois atravessavam a porta, cada sílaba batendo como marteladas no peito de Beatriz.Sentada no chão
No hospital, o médico examinou o pé ferido de Beatriz e não conseguiu evitar um tom de repreensão:— Você não está cuidando do seu corpo... Todas essas bolhas estouradas... Se isso infeccionar, não vai ser brincadeira.Beatriz apenas baixou a cabeça, sem dizer nada.Ficou olhando para o próprio pé, vermelho, inchado, machucado de cima a baixo.Não era que ela não cuidava de si.É que...Alguém simplesmente não lhe dava escolha.O médico examinou novamente e percebeu que a parte inferior das costas da garotinha, perto do cóccix, estava muito roxa, marcada por hematomas profundos. No braço, havia arranhões e machucados. Os olhos estavam inchados, vermelhos de tanto chorar, e durante todo o atendimento, ela não disse uma única palavra.Ninguém a acompanhava.Naquele momento, o médico praticamente teve certeza do que estava acontecendo. Respirou fundo e falou com suavidade, mas firmeza:— Vamos fazer um raio-X da sua coluna e te internar para observação. Você não deveria voltar para casa a