Capítulo 0002
Gabriel saiu apressado, carregando Vitória nos braços.

Ao passar pela porta, esbarrou no ombro de Beatriz.

O impacto a desequilibrou. Ela cambaleou, precisando se apoiar no batente da porta.

A dor intensa que subia do dorso do pé pela perna fez com que ela apertasse o batente com força, lutando para se manter de pé.

Dentro do salão, todos os olhares recaíram sobre ela.

Olhares carregados de desprezo, sarcasmo, deboche.

Mas Beatriz… Já não se importava mais.

Com esforço, virou-se devagar, apoiando-se na parede fria, e seguiu seu caminho, passo a passo, sentindo a dor latejante a cada movimento.

Quando chegou ao pronto-socorro, uma enfermeira veio rapidamente ao seu encontro, visivelmente preocupada.

Assim que viu o estado do pé de Beatriz, prendeu a respiração, assustada:

— Meu Deus! Como você se queimou desse jeito?! — Exclamou, chocada.

As bolhas eram enormes, inflamadas.

A maior parecia quase do tamanho de um pão francês, e outras menores se espalhavam feito pequenas pérolas brilhantes sobre a pele avermelhada, em um contraste doloroso e cruel.

Beatriz mantinha os dentes cerrados desde o momento em que saiu do hotel.

A dor era lancinante. Agora, seu rosto estava rígido, travado pela tensão.

Não conseguiu nem responder.

A enfermeira começou a aplicar a pomada com delicadeza, enquanto suspirava, indignada:

— Você acredita que, há pouco, veio aqui outra moça com uma queimadura? O namorado dela trouxe ela nos braços, desesperado, exigindo que o chefe da equipe médica a atendesse na hora… E eram só uns pontinhos vermelhos! Se esperasse um pouco, nem precisaria de pomada!

Beatriz sentiu o coração apertar. Um gosto amargo subiu à boca.

Aquela moça dos pontinhos vermelhos só podia ser Vitória.

E o homem desesperado, que a carregava como se fosse o bem mais precioso do mundo, era Gabriel.

Até a enfermeira, que não sabia de nada, já os via como um casal natural.

— Agora… Se aquela moça estivesse no seu estado… Nossa, esse homem teria surtado! — A enfermeira continuou, balançando a cabeça em desaprovação.

No seu estado…

Beatriz abaixou o olhar para os vergões e bolhas brilhantes que marcavam sua pele.

Se fosse Vitória no lugar dela, Gabriel teria chamado os melhores especialistas da cidade, feito alarde, dado entrevistas se fosse preciso.

Mas com ela…

Ele a deixou para trás.

Sem uma palavra de consolo.

Sem sequer um olhar de preocupação.

Nada.

A diferença era gritante.

Cruel.

De repente, o celular vibrou.

A tela se acendeu.

Era Gabriel ligando.

Beatriz olhou para o número na tela, sem expressão.

Ele não estava com Vitória?

Por que estava ligando agora?

Ela não queria saber.

Virou o celular com a tela para baixo, abafando a luz fria da tela.

Nem forças para sentir curiosidade ela tinha mais.

A enfermeira já preparava a agulha para estourar a maior das bolhas.

Era grande demais, o líquido não seria absorvido naturalmente.

Foi nesse momento que Gabriel apareceu na porta do ambulatório.

Assim que viu Beatriz sentada na maca, sua primeira reação foi cobrar:

— Por que não atendeu minha ligação?

Beatriz, surpresa, levantou os olhos por um instante.

Ela não queria discutir, não queria falar, não queria mais nada dele.

Apenas respondeu, com um tom leve e distante:

— Estava no silencioso. Não ouvi.

Gabriel olhou para a mesinha ao lado dela.

O celular estava ali, virado para baixo, abafando o som.

Ele suspirou discretamente, perdendo um pouco do ímpeto de reclamar.

A enfermeira, até então concentrada na queimadura, virou-se para ele, o olhar desconfiado e cortante.

Não era ele o mesmo homem que, minutos antes, havia chegado às pressas carregando outra mulher nos braços?

— Você é o quê dela? — Perguntou, seca.

Gabriel abriu a boca para responder, mas antes que qualquer palavra saísse, a voz de Vitória ecoou do corredor:

— Gabi… A Bia está bem?

Gabriel virou o rosto na direção de Vitória.

As palavras “marido dela” ficaram presas na garganta.

Seus lábios se moveram… Mas nenhum som saiu.

Beatriz percebeu a hesitação, o desconforto gritante nos olhos dele.

Sorriu, amarga, com um toque de ironia em si mesma.

Então, poupando-o daquele constrangimento, respondeu por ele:

— Não temos nada a ver um com o outro.

Gabriel sentiu uma raiva inexplicável crescer dentro do peito.

Não sabia de onde vinha, nem por quê… Mas aquilo o incomodou profundamente.

Olhou fixo para ela e rebateu, num tom frio e acusador:

— Ela é minha esposa. — A voz saiu áspera, quase um aviso. — Não foi você que quis tanto se casar comigo? Agora, diante dos outros, vai negar?

Beatriz o encarou, franzindo levemente a testa.

Por um segundo, não entendeu.

Depois, achou aquilo simplesmente ridículo.

Quem sempre se recusou a admitir publicamente o relacionamento deles não foi ele mesmo?

Ela só estava ajudando a livrá-lo de uma situação constrangedora.

Atrás deles, Vitória ouviu claramente aquelas quatro palavras: “Ela é minha esposa.”

Seus olhos congelaram por um segundo.

O rosto ficou rígido, a expressão travada.

Logo depois, uma sombra amarga, venenosa, brilhou em seu olhar.

Suas unhas, perfeitamente pintadas de vermelho, afundaram na palma da mão.

A enfermeira lançou um olhar de desprezo para Gabriel, entendendo a situação com rapidez.

Sem paciência, disparou:

— Pessoas sem relação direta, por favor, saiam. Não atrapalhem meu trabalho.

A expressão de Gabriel mudou na hora.

“Pessoas sem relação direta?”

Essas palavras lhe acertaram como um golpe seco no peito.

Incomodaram mais do que ele gostaria de admitir.

Ia responder, mas, nesse momento, a enfermeira se inclinou ligeiramente para o lado.

Foi aí que ele viu.

O dorso do pé de Beatriz, coberto por bolhas inchadas e avermelhadas, brilhava sob a luz branca da lâmpada.

As bolhas eram grandes, assustadoras… A pele em volta toda queimada.

A imagem o atingiu como uma punhalada.

O coração apertou, pesado, e qualquer palavra que ele pensava em dizer… Simplesmente desapareceu.

Instintivamente, Gabriel estendeu o braço, bloqueando a passagem de Vitória na porta. Ao mesmo tempo, virou ligeiramente o corpo, deixando a luz continuar entrando.

Ele não saiu dali.

Ficou parado, encostado na parede, o olhar fixo no pé machucado de Beatriz, a expressão no rosto indecifrável.

Do dorso do pé até a panturrilha, a pele estava vermelha, inchada.

Ao redor das grandes bolhas, pequenas bolhas se espalhavam como um campo de pérolas inflamadas, reluzindo sob a luz fria do consultório.

A enfermeira perfurou uma delas com a agulha, e o líquido amarelado foi rapidamente absorvido pelo algodão estéril.

A perna de Beatriz tremeu involuntariamente.

Aquela mulher... Aquela mulher que, oficialmente, era sua esposa.

A mesma mulher que, aos olhos dele, havia sido manipuladora o suficiente para convencer seu avô a forçá-lo ao casamento...

Dois anos ao lado dele, sempre ignorada, invisível.

E só agora ele percebia o quanto ela era frágil. O quanto parecia pequena.

— Nos próximos dias, evite sapatos fechados, não se esforce demais e aplique a pomada três vezes por dia. — Recomendou a enfermeira, após drenar a maior das bolhas.

Beatriz assentiu levemente e tentou se levantar.

Mas a dor foi tão intensa que suas pernas fraquejaram. Seu corpo inteiro tremeu, prestes a desabar.

Antes que ela caísse, Gabriel avançou num reflexo rápido, pegando-a nos braços com facilidade.

Beatriz, surpresa, agarrou o ombro dele instintivamente para se equilibrar.

Quando se deu conta do que estava fazendo, afastou-se desconfortável e murmurou, com a voz baixa:

— Me coloca no chão.

— Se não segurar firme e cair, a culpa não é minha. — Ele respondeu, sem olhar para ela.

Ajustou a posição, passando a segurá-la com apenas um braço.

Beatriz, com medo de escorregar, acabou se agarrando mais forte ao pescoço dele, contra a própria vontade.

Com a mão livre, Gabriel pegou as sandálias dela e o celular em cima da cadeira.

Beatriz olhou para o perfil dele em silêncio, observando os traços frios, duros, fechados.

Não tentou resistir.

Sabia que aquilo não vinha de carinho.

Era apenas uma migalha de compaixão tardia, despertada pela visão do ferimento.

Ou, talvez… Medo da reação do Sr. Henrique, caso viesse a saber.

Um ato calculado, nada além disso.

Quando saíram da sala, Vitória estava ali, à espera.

Ela viu Gabriel carregando Beatriz nos braços.

Por um breve segundo, o sorriso dela vacilou.

Mas logo recompôs a expressão, forçando um semblante doce e preocupado:

— Bia… Você está bem? — Perguntou, com aquela voz suave que Beatriz sabia ser pura falsidade.

Beatriz sequer respondeu.

Seu olhar era frio, indiferente.

Não tinha mais energia para participar daquele teatro ridículo.

Gabriel, por outro lado, respondeu automaticamente:

— Vi, o pé dela está machucado. Ela não consegue andar… Tive que carregá-la.

Vitória manteve o sorriso no rosto, mas os olhos traíam um desconforto sutil, difícil de disfarçar.

— Não precisa me explicar nada, Gabi. — Ela inclinou levemente a cabeça, doce. — A Bia é sua esposa. Carregar ela nos braços é mais do que natural, ainda mais desse jeito...
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