Faltam 30 dias para eu ir embora — Sr. Gabriel perdeu o controle
Faltam 30 dias para eu ir embora — Sr. Gabriel perdeu o controle
Por: Lívia Andrade
Capítulo 0001
No dia em que Beatriz Silva decidiu pedir o divórcio, duas coisas aconteceram.

A primeira: a mulher que sempre foi o amor idealizado de Gabriel Pereira, o famoso amor da vida dele, havia retornado ao Brasil.

Para recebê-la, ele não mediu esforços, gastou milhões mandando fabricar um iate exclusivo, personalizado nos mínimos detalhes, onde passaram dois dias e duas noites entregues à pura indulgência.

Os jornais e sites de fofoca não falavam de outra coisa. Para todos, a reconciliação entre Gabriel e sua antiga paixão parecia só uma questão de tempo.

A segunda coisa: Beatriz aceitou o convite do seu antigo colega de faculdade para voltar à empresa que haviam criado juntos, desta vez como diretora.

Em um mês, ela iria embora.

Claro... Ninguém se importava com o que ela fazia ou deixava de fazer.

Na cabeça de Gabriel, ela não passava de uma empregada de luxo que havia entrado na família Pereira por conveniência.

Ela não comentou nada com ninguém.

Silenciosamente, foi apagando todos os vestígios de sua existência na mansão dos Pereira, pouco a pouco, ao longo daqueles dois anos.

Também, em segredo, já havia comprado sua passagem de avião.

Em três dias, tudo aquilo não teria mais absolutamente nada a ver com ela.

Ela e Gabriel seriam completos estranhos.

[Traga sopa para ressaca. Em dobro.]

O celular vibrou. A mensagem apareceu na tela, curta e imperativa.

Beatriz encarou o visor por alguns segundos, o olhar vazio, os dedos se fechando levemente em torno do aparelho.

Eram nove e quarenta da noite.

Gabriel estava na festa de boas-vindas para Vitória Lima.

Antes, ele jamais permitiria que ela saísse para entregar uma sopa dessas pessoalmente.

Sempre fazia questão de tomar em casa, dizia que apresentá-la em público era vergonhoso, algo que não combinava com sua imagem perfeita.

Se fosse em outros tempos, Beatriz teria ficado feliz.

Teria acreditado que, enfim, ele estava pronto para reconhecê-la diante dos outros.

Mas agora...

Seus olhos pararam nas palavras “em dobro”.

Ela entendeu na hora.

Era para a querida Vitória.

No fundo, quando o verdadeiro amor estava em jogo, Gabriel não tinha nenhum problema em expor a própria esposa, desprezível e sem importância, para resolver suas pequenas conveniências.

Beatriz suspirou baixinho e foi até a cozinha preparar a sopa.

Restavam exatamente vinte e nove dias para o fim do contrato que tinha com o avô de Gabriel, o Sr. Henrique Pereira.

Ela olhou para o contador no celular.

Assim que aquele prazo terminasse, ela estaria livre.

Dois anos de dedicação, paciência e companhia... E nem um pingo de afeto verdadeiro conquistado.

No fim das contas, tudo não passava de uma ilusão dela.

Ela... Já não tinha mais forças para amar.

Restava apenas o último mês.

Um mês para encerrar o papel que, um dia, ela aceitou desempenhar o de esposa.

A sopa borbulhava na panela de barro, espalhando um aroma quente e acolhedor pela cozinha.

Era o prato que ela mais sabia preparar, afinal, nos últimos dois anos, quantas vezes já tinha feito aquela receita para aquele homem?

Seus olhos se perderam no vazio, enquanto o coração se enchia de uma calma triste, resignada.

Meia hora depois, o recipiente térmico estava pronto, bem fechado, com duas porções generosas.

Beatriz chamou um táxi e seguiu em direção ao Hotel Royal Lux.

Dentro do carro, em silêncio, ela encarava a tela do celular.

Lá estava a mensagem, recebida naquela manhã de um número desconhecido:

[Bia, ainda se lembra de mim? Aqui é a Vitória. Voltei para o Brasil! Fico tão feliz em poder te ver de novo. Mesmo você tendo roubado o meu Gabi, ainda somos boas amigas, né? Vamos jantar juntas hoje à noite!]

Sim… Gabriel sequer havia mencionado aquela recepção.

Beatriz só soube porque a própria Vitória fez questão de convidá-la com toda aquela doçura carregada de veneno.

Ela leu cada palavra lentamente, sentindo a falsidade escorrendo entre as linhas.

“Boas amigas?”

Um sorriso frio e irônico surgiu em seus lábios.

"Roubado o Gabriel?"

Que absurdo.

Foi o próprio Sr. Henrique quem colocou um fim no relacionamento deles. Além disso, Vitória aceitou a compensação sem pestanejar: dez milhões de reais e uma temporada no exterior.

No fim das contas… Quem tomou algo de quem?

Beatriz sabia. Sim, ela tinha sido ambiciosa. Aproveitou a chance quando apareceu.

Mas nunca tinha se metido diretamente.

Nunca foi ela quem destruiu nada.

E aquela bondade generosa de Vitória? Que piada.

Antes, quando eram adolescentes, Beatriz realmente acreditava que Vitória era pura e doce.

Até que, no ensino médio, a máscara caiu.

Vitória tinha um lado cruel, escondido por trás daquele sorriso angelical.

Quando Beatriz percebeu… Já era tarde demais.

Havia sido afastada de todos, isolada, alvo de fofocas, humilhações e bullying.

Mais tarde, descobriu que a própria Vitória estava por trás de tudo aquilo.

E agora, naquela recepção, estariam lá vários colegas do colégio, inclusive aquelas "boas amigas" de antigamente.

Ela sabia: todos continuavam do lado da princesa Vitória.

Beatriz não queria fazer parte daquela armadilha.

Sabia que era um banquete armado só para humilhá-la.

Tudo o que queria era entregar a sopa e ir embora.

Quando chegou à porta da sala reservada, respirou fundo, ajeitou discretamente o cabelo e bateu.

Alguns segundos depois, a porta se abriu.

Mas não era Gabriel.

Era Vitória, num elegante vestido branco, o sorriso radiante e a maquiagem impecável.

Parecia uma princesa saída de um conto de fadas.

— Bia, que bom que você veio! Entra, estávamos todos te esperando! — Disse ela, com aquela voz doce e inocente que Beatriz conhecia bem demais… E sabia o quanto escondia de falsidade.

No pescoço dela, brilhava um colar de safira azul, o Oceano Azul.

Beatriz reconheceu na mesma hora.

Era exatamente o mesmo que tinha visto em casa, dois dias antes, quando Gabriel o arrematou em um leilão.

Então era isso.

Um presente… Para Vitória.

— Não, eu só vim trazer a sopa para ressaca. — Respondeu Beatriz, com o rosto sereno e a voz fria.

— Bia… Depois de dois anos, você vai agir assim tão distante comigo? — Vitória mordeu o lábio, já assumindo a posição de vítima. — Eu já disse que não guardo mágoa de você por ter tirado o Gabi de mim.

Beatriz mal podia acreditar naquela encenação. Já estava exausta desse teatrinho de menina boazinha e sofredora.

Suspirou baixinho e tentou entrar para deixar a sopa, mas Vitória estendeu o braço, bloqueando sua passagem.

A mão dela pousou sobre a tampa do recipiente, o polegar deslizando sutilmente, quase imperceptível.

— Se você realmente não quer entrar, eu mesma levo para o Gabi. — Disse Vitória, em um tom doce, como se estivesse fazendo um favor.

Beatriz franziu a testa, desconfiada. Desde quando Vitória desistia tão fácil?

Mas, no fundo, ela não queria mesmo entrar naquela sala cheia de olhares hipócritas.

Então estendeu o recipiente para ela.

E foi nesse instante, no simples gesto de passar o recipiente de mão em mão, que tudo aconteceu.

Vitória não conseguiu segurar direito, e o recipiente caiu no chão com força.

A tampa abriu-se completamente, e a sopa quente espalhou-se pelo chão.

Vitória deu um passo para trás e então…

— Aaah! Que dor! Minha perna! — Gritou ela, dramática, atraindo imediatamente a atenção de todos no salão.

As conversas cessaram.

Todos os olhares se voltaram para a porta.

Gabriel já estava de pé, caminhando a passos largos até elas.

Vitória começou a chorar, contorcendo-se de dor, como se tivesse sido gravemente ferida.

— Beatriz! Como você conseguiu deixar cair o recipiente? Nem isso você consegue fazer direito?

Gabriel a repreendeu, ajoelhando-se ao lado de Vitória. Tirou o paletó de grife e começou a limpar suavemente a perna dela, o olhar cheio de preocupação.

— Eu… — Beatriz tentou se explicar, mas não teve nem chance.

Vitória foi mais rápida:

— Gabi, não briga com a Bia… A culpa foi minha, fui eu que não segurei direito… — Disse ela, com os olhos cheios de lágrimas, mordendo o lábio inferior, parecendo ainda mais frágil e inocente.

Gabriel olhou para o recipiente no chão.

Pegou a tampa, examinou-a cuidadosamente, e então ergueu o olhar, furioso:

— A tampa está intacta, sem nenhum arranhão. — Seus olhos se estreitaram, frios como gelo. — Me diz, Beatriz: foi a Vi quem deixou escorregar… Ou foi você quem abriu de propósito antes de entregar?

Beatriz olhou para o chão, surpresa, sem conseguir responder de imediato.

O recipiente era de excelente qualidade. Uma queda daquelas não deveria ter sido suficiente para abrir a tampa.

Mas ali estava… Aberta, sem nenhum dano.

— Eu não abri antes! Se tivesse aberto, como eu teria carregado até aqui sem derramar? — Tentou argumentar, a voz embargada.

— Fez de propósito, sim. — A voz de Gabriel cortou como uma lâmina fria. — Para quê se defender?

Na cabeça dele, Beatriz sempre fora uma mulher capaz de qualquer coisa para entrar na família Pereira.

Ele ainda lembrava, vívido, de como, anos atrás, ela havia convencido o avô dele a forçar a separação com Vitória e obrigá-lo a casar com ela.

Como ele poderia confiar nela agora?

Gabriel jogou a tampa no chão, levantou-se e se preparou para carregar Vitória nos braços.

Mas, de relance, o canto do olho captou algo que o fez hesitar por um segundo.

No pé de Beatriz, subindo pelo tornozelo até a parte superior do pé, havia uma grande mancha avermelhada.

Ela também tinha sido atingida pela sopa quente e, claramente, em uma área ainda maior do que a de Vitória.

A testa de Gabriel franziu levemente. Um pensamento rápido cruzou sua mente.

Mas durou apenas um instante.

Logo ele se forçou a afastar qualquer dúvida.

No fim das contas… Pouco importava.

Beatriz tinha trazido aquilo para si mesma.

Ferida? Problema dela.

Se causou confusão, se machucou no processo, isso era só o destino cobrando a conta.

Ele se abaixou novamente, passou um dos braços sob as pernas de Vitória e o outro nas costas dela, erguendo-a do chão com facilidade, como se fosse leve como uma pluma.

Vitória, com seus braços delicados enlaçados ao redor do pescoço dele, parecia ao mesmo tempo tímida e preocupada:

— Gabi… A Bia também…

— Não se preocupe com ela. — Respondeu Gabriel, frio, sem sequer olhar para trás. — Não vai morrer. Se precisar, que vá sozinha ao hospital. Você é modelo. Uma lesão na perna é algo grave.
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