Os Amonhhat se tornou uma família rica e poderosa em diversas partes do mundo. Ganhou ascensão meteórica nos negócios e colunas sócias pelo incrível trabalho exercido com maestria por seu pai Mohamed Amonhhat, ele tinha um talento incomparável para tudo o que gerasse lucros. Fora reconhecido pelos colunistas das principais revistas americanas e europeias como O Faraó, um mestre nos investimentos e criação de tendências para design no mundo da moda. A fama e fortuna do império da família de consagrou com a criação da Nefertari, uma marca de roupas e objetos de luxo que se tornou a grife mais valorizada e conceituada dos últimos tempos. Toda essa grandeza possuía uma divisão hierárquica, começando por seu pai no topo da pirâmide, logo abaixo Hórus e sua mãe, e depois, Anúbis, e o caçula da família, Seth.
A família em que nasceu, preconizava exclusivamente as tradições de seus antepassados, se lembrava bem de aprender desde cedo sobre a cultura do Egito e da América e de questionar suas diferenças com frequência. Nascido em Nova York, nunca se sentiu completamente conectado ao mesmo elo que unia seus pais e os dois irmãos mais novos nascidos no Cairo. Até mesmo sua mãe, que era americana, era muito mais adepta as primícias da história de seus antepassados egípcios do que ele próprio, que possuía o sangue de duas nações distintas nas veias. Houve um tempo em que chegou a acreditar realmente em todo o misticismo que moldava a existência de sua família, porém depois de acontecimentos catastróficos no passado, atribuiu toda aquela história como uma ferramenta nas mãos deles para o dominar e o obrigar a agir de acordo com o que eles queriam. Não acreditava que existia um ser supremo chamado Destino, que tecia a existência de seres divinos e poderosos através do tempo, muito menos em no amor eterno entre eles e as suas participações diretas no equilíbrio do mundo. Seus pais, constantemente o pressionavam a abdicar da razão e ser mais coerente ao coração. Isso jamais voltaria a acontecer no entanto, quando o fez, foi massacrado por seus sentimentos, desde então jurou a si mesmo que nunca mais permitiria que seu coração pesasse mais na balança do que sua razão. Desde então mantinha-se distante de qualquer relacionamento sério, evitando proximidade com quem quer fosse, se permitia somente a convivência e constância de sua família. O comandante anunciou a iminente aterrissagem, seu motorista fez sua prece costumeira. O avião tocava o solo, logo estavam taxiando na pista. O carro que os aguardava era idêntico ao que acabara de deixar em Nova York, geralmente o império que lhe pertencia, era padronizado. Se acomodou confortavelmente no interior e consultou o celular. O relógio já apontava além das sete, a noite caía sobre a cidade gélida. Aproveitando o trajeto, ele começou a responder e-mails, solicitando a limpeza e arrumação de seu apartamento na cobertura em Manhattan para hospedar sua esposa contratada. Quase não saia do anexo do escritório, considerava mais prático, estava sempre trabalhando até tarde e iniciando a rotina muito cedo, portanto não via motivos para não instala-la em seu apartamento praticamente desértico. Foi informado de que estavam se aproximando da casa. Após virarem em um beco, o carro deslizou por uma rua estreita e malcuidada, ladeada por casas pequenas que pareciam lutar para se manterem de pé. Hórus abaixou o vidro e observou a casa mal iluminada e decadente diante dele. Poderia estar errado o endereço dela. Porque se assim fosse, era evidente que a mulher levava uma vida miserável. Não conseguia entender, como ela gastara o dinheiro que vinha recebendo ao longo dos anos se não tinha sequer uma moradia digna. Conjecturando, considerou duas possibilidades: ou ela apreciava uma vida simples demais e anônima, o que poderia ser um problema para sua posição e para o que estava por vir; ou ela era uma viciada, o que seria um problema ainda maior. Independentemente da verdade, não tinha grandes expectativas em relação a alguém que aceitava um acordo de casamento fictício por dinheiro. Por esse motivo nem se preocupou em conversar com ela durante a assinatura do contrato, ela poderia ser igual a mulher que o destruí, um rosto inocente e um veneno paralisante sob a camada de ingenuidade.Ouviu o motorista conversar com alguém, uma vizinha curiosa com certeza. Ela afirmava que não havia ninguém na casa, que a dona do lugar estava trabalhando. Hórus tinha ciência de que ela possuía graduação em medicina e especialização na área, mas não imaginou que exercesse a profissão, nem mesmo mandou investigar as atividades dela. Pensando nisso, o fato de viver na completa miséria exercendo medicina e recebendo as quantias vultosas mensais que lhe enviava, era ainda mais irreal. Tinha que admitir, havia negligenciado Olívia Morrison por tempo demais. Enviou uma mensagem a Anúbis para que este o informasse onde ela trabalhava, depois de alguns minutos se lembrou que ele estava em um jantar de negócios. Não havia alternativa se não esperar. Resolveu ler novamente as informações de sua ‘esposa’, quando foi interrompido por vozes esganiçadas que se aproximavam cada vez mais do carro. Duas mulheres açoitavam a porta de seu lado, com as mãos em punhos pedindo ajuda desesperadas, ele ape
Hórus pediu ao motorista que o levasse de volta ao endereço anterior, acomodando-se no interior aquecido do automóvel. Ligou para Anúbis.— Hórus... — ele atendeu no segundo toque.— Encontrei minha querida esposa. Ela trabalha no hospital St. Mathews, aqui em Seattle. — O que te levou a um hospital? Está tudo bem?— Sim, tudo está bem. Foi só um incidente. Enfim, vou falar com ela e preciso que você contorne a situação com nossos pais até que ela esteja em Nova York, pronta para ser apresentada.— Não se preocupe, farei com que pensem que você foi pessoalmente buscá-la junto aos médicos missionários.— Ótimo. Obrigado, Anúbis.Desligando o telefone, percebeu que já estavam novamente em frente à casa dela. Olívia possivelmente o faria esperar por muito tempo; certamente seria relutante em acompanhá-lo e tentaria desfazer o contrato assim que abrisse aquela linda boca. Mas, julgando pela reação de seu corpo, não seria capaz de permitir que ela desaparecesse tão fácil assim. Algo em se
Olívia MorrisonA lufada de ar frio quase a derrubou pela calçada úmida pela quarta vez; andava devagar porque geralmente escorregava facilmente. A canseira de um turno de vinte e quatro horas também contribuía para a letargia de seus passos, e os pés estavam dormentes. O carro escuro e luxuoso estacionado em frente à sua casa era uma decepção. Esperava fervorosamente que ele já tivesse ido embora de Seattle, mas aparentemente teve esperanças em vão. Infelizmente, o plantão de hoje foi marcado pela presença daquele homem no hospital. Todos queriam saber o que o maravilhoso Hórus Amonhhat estava fazendo na cidade e por que ela falara com ele como se ele fosse um cafajeste. A bem da verdade, nunca imaginou que o veria novamente. Depois de assinar os papéis do contrato de casamento, ele simplesmente foi embora sem olhar para trás. Lembrava-se de se perguntar o motivo de tanta frieza; era tão excessiva que beirava a hostilidade. Mas não se deixou levar por esse caminho. Depois do choque d
Não seria hipócrita ao dizer que não se interessou pela vida dele após se casarem. Acompanhou a vida pública dele logo no início do acordo e sabia da existência da modelo loura e deslumbrante chamada Victória, sempre vista ao lado dele. Houve muitas outras em festas beneficentes, concertos, apresentações, viagens ao exterior, e assim por diante. Desistiu de ver tudo que se relacionava a ele depois de alguns meses, percebendo que ele era só um homem rico e arrogante, que não se importava em continuar posando ao lado de qualquer mulher, mesmo após anunciar o casamento misterioso deles à mídia. Esse fato a incomodou a ponto de querer acabar com aquela farsa. Mesmo que ninguém soubesse de sua existência, um dia acabariam sabendo, já que o propósito dele era enganar alguém, ou a todos. E quando isso viesse ao conhecimento de todos, ela seria exposta como a tola e pobre coitada traída que se conformava com sua posição. Sua cota de humilhação foi enorme até o momento e não precisava dobrá-la
Mesmo em seus sonhos mais delirantes, nunca imaginou ver Hórus com os cabelos úmidos pela chuva fina, parado na sua porta. Um arrepio percorreu sua pele; os olhos dele contrastavam com o clima lá fora, estavam mais escuros e aparentavam um brilho estranho, quase sobre-humano. A expressão era misteriosa e indecifrável, e sua boca se curvava levemente em um sorriso divertido e charmoso. Ele não demonstrou nenhum desconforto ao entrar em sua humilde casa e fechar a porta atrás de si como se fosse o dono do lugar.— É um lugar interessante para morar — disse ele suavemente, enquanto esquadrinhava cada canto da pequena sala com móveis gastos, sofá de segunda mão e uma TV pequena sobre um aparador.— Obrigado — Olívia cruzou os braços e apertou os olhos. Não tinha imaginado aquele brilho cintilante em sua íris. — O que quer, Sr. Amonhhat?Poderia ser lentes de contato internas; talvez o ângulo da luz pudesse gerar aquele efeito. Sim, essa deveria ser a justificativa.Olívia fez questão de e
Olívia pensava furiosamente depois daquela frase. Nova York? Como assim? E o divórcio?— Nunca foi necessária minha presença para esse acordo. Na verdade, nem a sua. — Sentiu minha ausência, então? — ele riu ironicamente, divertindo-se com o ar inflamável que exalava da pequena mulher. — Podemos resolver isso rapidamente. Arrume suas coisas e partiremos em seguida. — Costuma ser sempre tão prepotente? O que o faz crer que eu abandonaria minha vida e meus compromissos pela sua vontade? Notando a insistência do olhar intenso dele, que se insinuava pelo corpo dela como se a tocasse intimamente, ela se encolheu e olhou com uma firmeza que não sentia. Esperava que, sendo rude, ele desistisse desse contrato. — Querida, não fale assim. Minha família exigiu a presença da minha adorada esposa em um evento grandioso da empresa. Desejam apresentá-la publicamente à sociedade. Esse homem cínico! Agora ela era algum objeto? Estava em sua casa, como se ela fosse uma de suas prioridades, ex
O silêncio absoluto imperava dentro do carro luxuoso. Partiram noite adentro em direção ao aeroporto. A neve e a chuva haviam cessado; o tempo parecia colaborar para aquela loucura à qual ela estava sendo obrigada a participar. Às vezes, ele falava com alguém no celular ou digitava no mesmo. Frustrada e impotente diante da situação de ser arrastada pelos caprichos desse homem, Olivia amaldiçoava o momento em que assinou aquele pedaço de papel. Infelizmente, não tinha escolha; aquele contrato era sua coleira. Abraçou a mochila rota como se esta fosse uma tábua de salvação. Voltou-se para a janela somente para evitá-lo, alheia ao fato de que, com isso, chamou a atenção dele para uma ávida observação.Lembrou-se de que não havia avisado aos seus parceiros do centro comunitário sobre essa ausência não programada. Preocupada com o andamento das coisas no próximo evento, em dois dias, tirou o celular do bolso e enviou algumas mensagens a Jackson e Noelle. Acrescentou algumas instruções para
(Pensamentos de Paul Ferris)O bom motorista ainda não acreditava no que seus olhos viram. Se um dia lhe dissessem que seu patrão agiria daquela forma, tão impulsiva, certamente mandaria a tal pessoa procurar um médico, pois estaria louca. Trabalhava para o Sr. Amonhhat desde que ele assumiu a presidência das empresas de sua família. Ele sempre foi meticuloso, perfeccionista, não admitia que o tocassem intencionalmente e jamais se deixou levar por interesses sexuais ou amorosos. Paul perdeu a conta de quantas situações constrangedoras aconteceram entre o patrão e a senhorita Vitória por esse motivo. Apesar do que diziam os tabloides, até mesmo a relação que mantinha com essa bela senhorita estava longe de ser considerada calorosa ou romântica; seu senhor fazia questão de manter seu espaço pessoal sem exceções e se mantinha no outro extremo do veículo quando saía com a senhorita. Julgava-se capaz de dizer que o conhecia melhor que a própria mãe. Com o tempo, percebeu que seu patrão tin