— Bacon? - Bruce confirmou as batidas à porta. — Sim, senhor. - Ela respondeu. — Entre, por favor. - Ele se mantinha naquela enxurrada de papéis. — Senhor, posso ajudar a organizar isso? - Ela se ofereceu. Trazia uma pasta à mão. — Aceito a ajuda. O que tem aí? - Ele perguntou. — Documentos civis da Tenente. É um tanto triste. É como se fosse uma prova de que ela existiu. - Maria suspirou. - Uma vida cabe em uma pasta, Tenente. - Ela entregou os documentos para ele. — Desculpe. Não entendi o quis dizer. - Ele recebeu a pasta, parando para ouvir a Cabo. — Na cobertura, não há nada, sabe? Fotos, diplomas, condecorações, medalhas, nada dessas coisas que qualquer um ostentaria. Toda a vida e a existência dela está nesta pasta: diplomas, certidões, as duas únicas fotos dos homens do passado dela, passaporte, documentos pessoais. Tudo aí. Um catálogo da prova da existência de alguém que claramente não quer existir. Por que batalham tanto por ela? - Maria se incomodava com essa
Helena sentiu o afago em seu braço, gentil e delicado, encolheu-se como um cão amedrontado. Gregory retirou a mão do braço dela, recuou, como se levasse um choque na mão. Aquela reação o feria, intimamente. Ao menos, algo bom: os dias, retirada, a fizeram perder sua dependência. A abstinência das drogas havia encoberto ou mascarado a abstinência do álcool, a menos que algo tivesse suprido a sensação que aquelas substâncias traziam. — Como se sente, Helena? - Ela ouviu a voz do capitão, começava a chorar outra vez. O silêncio daquela guerreira era desesperador. Afligia a alma do militar. - Querida, você está ferida? - Ele mudava a abordagem, observava-a. A mulher ainda não reagia. Gregory cobriu os cabelos dela, formando um capuz e a trouxe para si, aninhando-a ao peito, como uma criança ferida. Helena soluçava, sob o afago gentil. — Isso, garota! Você consegue. Põe para fora todo esse veneno. Estou aqui. Você está segura, meu bem. - Ele a confortava, sentindo o efeito exatamente
Peter foi liberado depois de ser ouvido pelo General. Helena estava fora de serviço, mas sempre foi um pequeno terremoto para a unidade. Renard era o único que tinha conseguido liderar ela, depois do marido morto. Um ou outro superior se aventurava e era invariável: ou acabavam fora, ou submissos aquele pequeno furacão de um metro e setenta e bonitos olhos de diamantes. Suas equipes a amavam, era outra conversa. De condução firme e maternal, levava seus homens ao extremo, sem que percebessem. Cozinhava-os em operações, deserto a dentro, como a rãs. Ela pensava como uma bandida e agia como uma heroína. Isso a preservava ali. Renard voltou para a cobertura, não conseguia mais acesso ao prédio. Havia ordens estritas de não permitir sua entrada. Era informado que suas coisas estavam em sua casa, fora da base. Furioso, foi para o rancho. Encontrou sua mala revirada e as roupas rasgadas. Dentro, a casa não estava em melhor estado: uma porta de vidro quebrada. Ali, o vento e a terra seca f
DESERTO DE CHIHUAHUA — Una migra! Una migra! Una migra! Mira! - O coiote apontou para um ponto, no alto da colina, sobre o rochedo, sozinho, com uma arma de grosso calibre no colo. Dario Garcia estreitou os olhos, a figura estava parada no alto da rocha, inerte. Não parecia fazer mira ou algo assim, aliás, sequer parecia viva. Ele tratou de instruir os coiotes que trabalhavam para ele e seguiu, perpendicular, em direção à figura agourenta sobre o rochedo. Aproximou-se, devagar, passo após passo, esquivando-se, entre a rala vegetação rasteira do deserto, em seu paramento militar da cor da areia. "Uma migra, sozinha, mulher?" Ele identificava a silhueta da policial. Dario julgava: ou ela tinha se perdido ou estavam em solo estadunidense. Qualquer hipótese era problemática. Conforme se aproximava, o contrabandista percebia as nuances. Filetes de sangue seco partiam do nariz; a boca rachada, a pele exposta. Se estivesse viva, aquela criatura miserável, em pesado paramento militar,
Dario passou horas observando sua paciente. Trocou a bolsa de soro e umedeceu seus lábios com o algodão molhado. Ela era bonita para uma militar, admirava-se do motivo de alguém, como ela, ter virado uma. Com o fim da segunda bolsa, ele a rolou e pôs sob o corpo um tapete descartável higiênico, para cães, para o caso de ainda estar inconsciente quando todo aquele líquido resolvesse sair. Adormeceu, com a pistola em punho, pronto para matá-la, se fosse necessário. Helena sentia a dor excruciante lhe roer a alma, forçando-a a perceber-se. Algo lhe tampava os olhos, estava viva e aquilo bastava naquele instante. A cabeça doía um inferno e os olhos, mesmo fechados, ardiam. A boca e a garganta secos, algo lhe feria o braço, dolorosamente. Ela gemeu, baixinho. Dario despertou. A mulher respirava, ofegante, inquieta. Se não estivesse desperta, logo acordaria. — Me ouve? Me entende? - Ele perguntou, em espanhol, percebia o gesto de cabeça dela, confirmando. Estava desperta. - Qual seu
Algo naquele lugar escuro, no Deserto de Chihuahua cheirava bem. Helena gostava do aroma. Dario a servia de um caldo de legumes, batido e leve. Guiou as mãos dela até a borda da tigela e da colher, mas ela não tinha firmeza nas mãos, tremia muito, ainda sem forças. — Me permita ajudá-la, senhora. - Dario tomava a frente, alimentando-a, colher por colher. Ela se fartou com pouco, o estômago cheio. - Amanhã, vamos partir e levar você até a fronteira. - Ele anunciou, precisava resolver aquela militar antes que ela identificasse o caminho. - Não se preocupe, você estará em casa, com sua criança, antes do anoitecer. — Não tenho uma criança, amigo. - Ela respondeu, curtamente.— Mas tem uma cicatriz no ventre. - Ele seguiu, aplicando o gel sobre a queimadura e o colírio nos bonitos olhos daquela mulher. — Oh! Isso. - Ela piscou os olhos, já não ardiam mais e nem sentia tanta dor. O ferimento no braço era o mais incômodo. Dario limpou o ferimento, cobrindo-o com gaze. — Não precisa falar
Um dia no trabalho e o relatório da ação indicava falha na ação. Em seu escritório recebia o comandante, com o braço que repousava, fora da tipóia, sobre a mesa.— Como está, Helena? - Renard perguntou, fechando a porta atrás de si. — Ah, Peter! Cara! Tive muita sorte. - Ela suspirou. - Fomos emboscados. Ou errei feio nos cálculos do planejamento ou vazou informação. De qualquer forma, a sindicância vai encontrar o problema e me cortar ou achar o boca aberta. Fiz o que pude para livrar a equipe. No time, só eu não tenho família. Sabe como é difícil dar notícia de "Morto em Ação" para quem sobrevive. — Helena, mesmo assim, deveria ser mais cautelosa com esses imprevistos. - Peter a repreendia, suave e amistosamente.— Vou tentar na próxima, Peter. - Ela respondeu, massageando os olhos sob as pálpebras. — Complicadas essas queimaduras nos olhos. Coçam um inferno. - Ele puxava conversa. — Começou aqui. No deserto, esse cara que me resgatou, tinha um colírio que foi excelente. - Ela r
Peter a fez companhia. Stuart foi chamado e chegou o quanto antes, examinou Helena. Parecia bem. — Tenente Brown, a senhora está esgotada e passou por eventos importantes recentemente. - Ele informou, friamente. - Minha dificuldade está em traçar o claro limite entre Burnout e TPT. - Ele disse, direto. — Impossível, Capitão. - Peter interveio. - Ela estava bem ontem. — Ontem? Eu apaguei vinte e quatro horas? - Helena perguntou, impressionada. — Aí é que estamos. - Stuart pontuava. - Você já tinha passado mal assim antes, quando seu marido morreu e você, por pouco, não foi a terceira vítima daquele caminhão. O que a fez saber que ia desmaiar? - O médico investigava. — Senti um desequilíbrio, minha visão turvou de uma vez, como se eu estivesse, não sei, flutuando no ar. - Ela respondeu. — Você precisa tirar algum tempo para si. - Stuart recomendou. - Encontre algum apoio, talvez o comandante. Ao que me parece, são amigos chegados. - O médico se virou para Peter. - Certifique-s