No horário combinado Aria foi até o local de encontro. Novamente Tumen já a aguardava lá, sorridente. Ela acenou pra ele.
– Boa tarde – ele cumprimentou.
– Podemos ir? – perguntou Aria.
– Claro.
Embrenharam-se na floresta e seguiram para Thoronbar. Tumen queria conversar, mas estava sem jeito de iniciar a conversa, não sabia o que dizer. Aria também não falou nada até chegarem à clareira.
Ao desmontar de Ganis e amarrá-lo a uma árvore, Águia recebeu Aria em Thoronbar, voando ao redor dela.
– Ainda estou impressionado com sua ave – disse Tumen. – Nunca vi nada igual.
– De fato não existe outra ave igual Águia – comentou Aria.
Tumen concordou, acenando com a cabeça.
– O que tem achado do meu trabalho como guia até agora? – perguntou Aria.
– Estou bastante satisfeito – disse Tumen. – Tanto que trouxe um presente para você em agradecimento por estar me mostrando a beleza de Armendor.
– Não precisa, Tumen – disse Aria constrangida. – Estou fazendo isso sem pedir nada em troca. Faço porque conheço a região melhor que outros.
– Então considere como um presente de um amigo – insistiu o rapaz.
Tumen abriu a bolsa de couro que trazia a tiracolo e tirou um livro, entregando-o a Aria. Era um belo livro encadernado em couro azul.
– Obrigada – disse Aria. – É muito lindo.
– Você me disse que gostava de ler, então achei que gostaria desse livro – explicou Tumen. – São contos.
– Tenho certeza que vou gostar.
Ela encarou o rapaz. Também precisava retribuir de alguma forma. Mas não poderia comprar algo, pois não tinha dinheiro. Mas ela poderia criar algo.
– Tumen! – chamou Aria. – Venha comigo.
Aria foi até Ganis e Tumen seguiu atrás dela. A garota montou em seu cavalo, incitando o rapaz a fazer o mesmo.
– Vou lhe mostrar um lugar novo – disse ela.
Aria saiu cavalgando e Tumen, sem entender nada, foi atrás dela. Quando pararam estavam de frente para uma casa bem simples, com um galpão ao lado, no interior da floresta. Aria desmontou, e amarrou Ganis próximo ao galpão.
– E então? – perguntou Aria mostrando a construção.
– Onde estamos? – perguntou Tumen desmontando de Rohalak
– Eu morei aqui durante minha infância. Ali – disse Aria apontando para o galpão – era a oficina do meu pai, e agora minha oficina. Venha, vamos entrar.
Dentro do galpão havia uma enorme forja, já acesa, várias bigornas e inúmeras ferramentas usadas para forjar, além de facas, punhais estragados e flechas quebradas. Numa parede havia pendurado duas espadas. Uma estava embainhada e parecia ter sido feita para um grande guerreiro e a outra era apenas decorativa de cor dourada, a Espada de Ouro.
– É bem simples – disse Aria virando-se para Tumen. – O que achou?
– Sua oficina – Tumen estava boquiaberto. – Então você não é uma mera aprendiz. É dona de sua própria oficina.
– Exato.
– Você disse que pertencia ao seu pai. Foi ele quem lhe ensinou a arte ferreira?
– Sim.
– Vocês trabalham juntos aqui?
– Nunca trabalhamos juntos – Aria disse.
– Por quê?
– Meu pai faleceu há oito anos – Aria evitou olhar para o rapaz ao dizer.
– Oh! Sinto muito – disse Tumen constrangido. – Perdi meu pai também. Há poucos dias na guerra. Mas sua mãe, ela cuidou sozinha de você desde a morte de seu pai?
Aria o encarou. Então ela tinha razão. Aquela sombra nos olhos dele que ela notava de vez em quando era mesmo pesar. Ele ainda sofria pela morte recente do pai.
– Não conheci minha mãe – Aria respondeu. – Ela faleceu logo depois que me deu um nome. Depois da morte de meu pai, meus tios me criaram.
– Desculpe-me – disse o rapaz –, por perguntar essas coisas. Minha mãe também faleceu quando eu era criança.
Aria não deixou de sentir ternura por ele. O rapaz, assim como ela, era órfão de ambos os pais.
– Não vamos falar de coisas tristes – disse Aria.
– Tem razão – concordou Tumen.
Ele olhou ao redor da oficina, reparando nos mínimos detalhes.
– Devo dizer que para uma oficina – pensou ele – está muito organizada.
Aria riu. Entendera o que ele quis dizer.
– Ela não era assim – disse Aria. – Quando meu pai trabalhava aqui era uma bagunça. Mas eu venho aqui quase todos os dias para consertar utensílios e outras coisas para meus tios e aquela bagunça estava atrapalhando meu trabalho, então dei uma arrumada.
Tumen olhou para as espadas penduradas na parede e apontou.
– Seu pai era um grande ferreiro – disse ele. – São raros os ferreiros que conseguem a Espada de Ouro.
Aria olhou a espada dourada e assentiu. Os ferreiros eram requisitados por sua arte. De acordo com sua experiência e seu trabalho eles recebiam nomeações. A Lança de Bronze, o Machado de Prata e a Espada de Ouro. Quanto mais requintado e quanto maior a qualidade da arte do ferreiro maior seria sua nomeação. A última delas era a Espada de Ouro e, como Tumen havia dito, eram poucos os ferreiros que a alcançavam.
– Meu pai a conseguiu ainda bem jovem – disse Aria. – O trabalho dele era maravilhoso. Ele muitas vezes foi chamado para restaurar as armas de grandes famílias. Era contratado para fazer espadas para nobres.
– E a outra espada? – perguntou Tumen.
– Era do meu pai – disse Aria. – Não quis me desfazer dela. É um belo trabalho.
– Com certeza – disse Tumen.
O rapaz continuou a andar pela oficina. Foi até uma mesa onde havia vários panos manchados de sangue e pontas de flechas quebradas. Ele pegou um dos panos e virou-se para Aria.
– Você está machucada? – perguntou Tumen preocupado.
– Ah, não. Esqueci isso aí já faz um tempo – disse Aria tentando acalmá-lo. – Nem sempre tenho sorte e às vezes quando vou caçar acabo me encontrando com os Gatunos, aí você já conhece o resto da história. Então eu venho pra cá cuidar dos ferimentos antes de voltar para casa. Não gosto de deixar meus tios preocupados. Mas eu não trouxe você aqui para ficarmos conversando. Vou retribuir o presente que me deu. Então pensei em fazer alguma coisa para você. O que você quer? Pode escolher.
– Ora, obrigado – disse Tumen. – Mas não precisa retribuir.
– É claro que preciso.
– Já que insiste – disse o rapaz –, quero uma coisa que me faça lembrar de você.
– Humm! – pensou Aria. – Já sei! Quando eu era criança meu pai me ensinou a andar por Taurdin utilizando um instrumento. Como estaremos sempre atravessando a floresta para conhecer a região, acho que este seria o presente ideal para você.
– E o que seria esse instrumento? – perguntou Tumen.
– Deixe-me ver – disse Aria que começou a procurar algo pelas prateleiras da oficina. – Eu estava trabalhando em um deles algum tempo atrás, mas não cheguei a finalizá-lo. Ah! Aqui está.
Ela sacudiu um pequeno objeto, mostrando-o para Tumen.
– Um sino? – disse ele.
– Um sino! Aprendi a me orientar na floresta usando um sino como este. Meu pai usava outro igual. Caso eu me perdesse, eu tocava o sino e meu pai me respondia com outra badalada, então conseguíamos nos encontrar através do som. Agora não carrego mais o sino comigo, mas seria interessante que você tivesse um deste enquanto estamos caminhando por Taurdin.
– Gosto da ideia. Nunca se sabe o que pode acontecer.
– Podemos começar agora – disse Aria. – Este sino já está quase pronto. Falta apenas colocar o badalo e finalizar a peça. Você me ajuda?
– Claro – assentiu Tumen.
– Mãos à obra – Aria esfregou as mãos uma na outra.
Aria preparou o metal que usaria para moldar o badalo do sino e o colocou na forja. Enquanto esperava o metal aquecer, pegou o corpo do sino para decorá-lo. Com um cinzel começou a entalhar desenhos. Ora e outra pedia que Tumen lhe passasse uma lima, um pequeno martelo e outras ferramentas. Aos poucos o corpo do sino foi ganhando uma nova forma, mais elaborada e delicada.
Assim que o metal na forja ficou incandescente Aria o retirou e sobre a bigorna começou a moldá-lo com marteladas. Ela voltou o metal para o forja e repetiu o processo mais algumas vezes até o badalo estar pronto para ser acoplado ao corpo do sino. Quando finalizou Aria testou o sino para saber se estava bem feito. Um som límpido e puro pôde ser ouvido.
– Está pronto – Aria parecia orgulhosa de seu trabalho. – Agora o sino é seu.
Ela o entregou nas mãos de Tumen que admirou os detalhes. Aria havia entalhado galhos de árvores e uma águia voando no sino. Era um trabalho tão delicado e cuidadoso que renderia a garota um bom título de ferreiro.
– É lindo!
– Fico feliz que tenha gostado – Aria sorriu. – Carregue-o sempre com você quando vier para Taurdin. Passarei a trazer o meu sino também para alguma eventualidade.
– Sim, vou trazê-lo – assentiu Tumen.
– Precisamos ir agora – disse Aria olhando pela janela.
O sol já começava a se pôr. Os dois guardaram os materiais e limparam o que havia sujado. Aria fechou a oficina e soltou os cavalos, levando Rohalak para Tumen. Foram embora, rapidamente pela floresta. Ao chegarem à orla Aria, como sempre, parou.
– Estará disponível amanhã? – ela perguntou.
– Estarei.
– Ficarei aguardando no mesmo local, no mesmo horário. Vamos a um lugar diferente amanhã.
– Muito bem! – disse Tumen. – Aguardarei ansioso. Até amanhã.
– Até! – acenou Aria.
Aria estava exausta, mas satisfeita. Fazia tempo que não trabalhava na forja e fora a primeira vez que fizera um presente para alguém que não era da família. Estava orgulhosa. Voltou para casa sorrindo.
O sino tilintava amarrado ao cinto de Tumen. Logo à frente, um sino semelhante ao dele também retinia preso ao alforje de Aria. Naquela tarde a garota os levava por um caminho diferente. Cavalgavam por uma parte da floresta que era bem próxima à Cidade das Árvores. – Hoje vou levá-lo a um lugar bastante conhecido – comentou Aria. – Podemos ter a sorte de o lugar estar vazio, pois caso encontremos alguém, teremos que voltar. – Por quê? – perguntou Tumen, curioso. – O lugar tem dono – foi tudo o que Aria disse. – Já estamos chegando. Eles entraram num local que parecia ser uma fazenda. Árvores frutíferas diversas haviam sido
Aria se sentou, apreensiva com o que seu tio tinha para lhe falar. Anne que preparava o jantar tentava não olhar nos olhos de Aria. Tia Célia estava com o rosto preocupado, mas tio Palomir tinha a expressão séria. “Será que ele descobriu que estou passando minhas tardes com um homem desconhecido? Ou será que contaram a ele que furtei o pomar real?” – Tio... – começou Aria, mas foi interrompida. – Aria, quero lhe dizer algo – disse tio Palomir. – Tio Palomir, eu juro que eu não farei de novo – tentou explicar Aria. Tio Palomir riu. “Como ele pode estar rindo se o assunto parece ser tão sério”, pensou Aria. &n
Aria acordou cedo. Vestiu-se, tomou seu desjejum e foi procurar tia Célia. Ela estava no celeiro olhando para um grande porco que não estava ali na noite passada. – Tia, onde conseguiu esse porco? – perguntou Aria. – E o que vai fazer com ele? – É para a festa do casamento de Anne – respondeu tia Célia. – Seu tio o comprou no mercado. Era o maior que havia lá. – A festa vai ser aqui? – perguntou Aria. – Não. Na casa de Julian – disse tia Célia. – Lá é maior, vamos levar tudo para lá hoje. Vou esperar seu tio chegar para matar o porco e depois nós vamos prepará-lo. &nb
Como havia prometido em seu último encontro, Aria foi para Thoronbar. A garota brincava com Águia quando ouviu um relincho perto da entrada da campina. Ao se virar deparou com Tumen que acenava sorridente para ela. Aria correu em direção a ele. Sentiu uma imensa vontade de abraçá-lo, mas achou que seria inadequada essa atitude, então apenas o tocou de leve no ombro. – Que bom vê-lo! – disse Aria, sorrindo. – Bom ver você também – disse Tumen. – Conte-me o que fez durante esses três dias – disse Aria, indo se sentar na grama. – Não fiz muita coisa – Tumen sentou-se ao lado dela. – Ajudei meu tio a resolver alguns problemas
Tumen já aguardava Aria na cachoeira, no horário de sempre. Quando ela chegou, o rapaz deu um abraço tão forte em Aria que os pés dela saíram do chão. Ele a beijou ternamente e a puxou até uma área sombreada sob as árvores. – Como está o corte? – perguntou Aria, passando a mão onde ela havia cortado – Está melhor? – Logo vai cicatrizar – disse Tumen. – Além de ter uma boa pontaria, também é boa na esgrima. Aria riu. – Luto bem – disse Aria. – Mas prometo que não vou lhe cortar nunca mais. – Não quer mais duelar comigo? – perguntou Tumen. &nb
Aria acordou animada e com disposição. Caçou coelhos na floresta e os levou para casa. À tarde, preparou tudo rapidamente e foi para a oficina. Só então se lembrou que não falara a Tumen onde estaria. Mas ele saberia onde encontrá-la. Estava guardando as ferramentas quando escutou alguém chegando a cavalo. Saiu para ver quem era e já abriu um enorme sorriso de felicidade e alívio. Tumen desmontou e correu para abraçá-la. Enquanto se abraçavam Aria sentiu que o aperto em seu coração havia desaparecido. Tumen estava bem, sem nenhum arranhão, Aria havia se preocupado à toa. – Que bom vê-lo! – sussurrou Aria no ouvido de Tumen. – Senti sua falta! – sussurrou Tumen de volta.
Aria não dormira bem, estava cansada, seu corpo todo doía. Ela trocou de roupa e foi tomar o desjejum. Tia Célia já estava acordada e tio Palomir já fora para o trabalho. – Você está bem, Aria? – perguntou tia Célia quando a garota entrou na cozinha. – Não – respondeu Aria, puxando uma cadeira para se sentar. – Não dormi muito bem. – Sim, dá para ver – disse tia Célia. Ela colocou um pedaço de pão e um copo de leite na frente da garota. Aria estava com fome, não almoçara nem jantara no dia anterior, rapidamente devorou o pão e já estava querendo mais. Estava nervosa também. Não queria ver Tumen, mas precisava vê-lo. <
– Aria! – exclamou tia Célia. – Que bom que chegou. Temos notícias de Anne, ela já está voltando das núpcias. Aria já estava em casa e nem percebera, levou Ganis ao celeiro e nem se dera conta disso. – Que boa notícia, tia Célia! – disse Aria, fazendo esforço para não chorar de novo. – Preciso falar com ela. A senhora sabe quando ela vem aqui? – Não sei! – disse tia Célia. – Mas pode ter certeza que eu lhe aviso. – Tudo bem! – disse Aria. – Agora eu vou para o quarto deitar, estou com dor de cabeça. Aquilo não era verdade, só queria ficar sozinha, e