— Não... não pode ser — murmuro, quase para mim mesma. — Meus pais sempre foram pessoas boas. Trabalhavam duro. Tudo o que temos é por causa disso...
Josh me encara, e vejo um lampejo de compaixão em seus olhos. — Eu não estou dizendo que foi fácil pra eles — ele diz, lentamente. — Mas, Alex, às vezes as pessoas que mais amamos têm lados que nunca imaginamos. Fecho os olhos, sentindo as lágrimas começarem a se formar. — O que eu devo fazer agora, Josh? — minha voz sai fraca, quase quebrada. Ele se aproxima, colocando uma mão em meu ombro. — Precisamos descobrir o que realmente aconteceu, Alex. E a única maneira de fazer isso é encontrar as respostas que eles esconderam. Se você estiver disposta a me ajudar... talvez possamos descobrir toda a verdade. Eu sai rapidamente do bar em direção à floresta O céu estava nublado naquela tarde, e uma fina neblina cobria o ar enquanto eu me enfiava na floresta atrás de respostas. Cada passo no caminho coberto de folhas secas parecia me afastar mais do que eu conhecia e me aproximar de uma nova realidade, uma que eu não queria aceitar. As árvores altas ao meu redor pareciam me observar, como testemunhas silenciosas do peso que carregava. O chão úmido e o cheiro de terra molhada me acalmavam, mas também tornavam o ambiente sombrio, refletindo a escuridão da revelação que Josh havia me contado. Enquanto caminhava, a imagem dos meus pais voltava à minha mente – meu pai rindo ao lado da churrasqueira nos fins de semana, minha mãe varrendo a varanda de manhã, sempre cantarolando alguma música antiga. Era possível que eles, aquelas pessoas tão comuns e amorosas, estivessem envolvidos em algo tão horrível? Sentei-me em uma rocha coberta de musgo, sentindo o frio do chão se infiltrar pela minha pele. Fechei os olhos, tentando organizar os pensamentos e bloquear o turbilhão que crescia dentro de mim. Provas concretas, ele disse. Aquelas palavras ecoavam na minha cabeça como um pesadelo. Josh era um amigo de confiança, mas agora ele trazia acusações devastadoras contra minha própria família. Isso fazia sentido? Ou será que a investigação estava errada? Que tudo aquilo não passava de uma grande confusão, um mal-entendido que colocava em risco a honra e a memória das pessoas que eu mais amava? Meus dedos se apertam contra o musgo da rocha, como se, de alguma forma, o contato com a natureza pudesse me ancorar, me impedir de desmoronar. Cada detalhe da floresta parecia mais vívido agora: o som suave do vento passando pelas folhas, o murmúrio distante de um riacho, o canto ocasional de um pássaro. Tudo era tão real e sereno, em contraste brutal com o caos dentro de mim. Sinto a garganta apertar, um nó que me impede de respirar direito. As memórias surgem em flashes rápidos – a risada do meu pai, o cheiro de café da minha mãe pela manhã, as brincadeiras simples de uma família que, até agora, eu achava conhecer. Tento me levantar, mas minhas pernas parecem trêmulas, quase sem forças. Fecho os olhos novamente e respiro fundo, sentindo o ar gelado entrar nos meus pulmões. Isso ajudava a clarear um pouco minha mente, mesmo que só temporariamente. “Às vezes, as pessoas que mais amamos têm lados que nunca imaginamos.” As palavras de Josh retornam, e um calafrio percorre minha espinha. Eu sempre tive uma visão idealizada dos meus pais – achava que eles eram perfeitos, incapazes de qualquer maldade. Mas… e se houvesse segredos que eu realmente nunca soube? E se eles realmente estivessem envolvidos em algo maior, mais sombrio do que eu poderia compreender? De repente, uma rajada de vento sacode as folhas acima de mim, e um ramo se quebra, caindo a poucos metros de onde estou sentada. Pulo de susto, meu coração acelerado, como se fosse um sinal de que eu estava perto demais da verdade, de um mundo que eu nunca deveria ter conhecido. Decido que preciso sair dali, mas antes respiro fundo uma última vez, tentando absorver cada detalhe ao meu redor, me lembrando de quem eu sou, de onde vim. Talvez, essa paz da floresta fosse a última vez que eu sentiria algo assim, simples e genuíno. Então me levanto, firmo os passos de volta pelo caminho e prometo a mim mesma que, não importa o que esteja por vir, vou descobrir a verdade sobre minha família. Mesmo que isso signifique enfrentar meus próprios medos e talvez a maior decepção da minha vida. A caminho de casa, vou pensando em tudo que Josh me disse, sobre meus pais estarem envolvidos em uma operação criminosa. Me pergunto como vou encontrar coragem para confrontá-los sobre a verdade. Mas é tudo o que me resta agora: descobrir o que está realmente acontecendo. Quando chego, estaciono o carro em frente e sigo pela entrada. Moro ao lado de uma floresta, o que sempre dá um clima agradável ao ambiente. A casa também fica perto de um lago isolado, um dos privilégios de morar aqui. Enquanto me aproximo da entrada, noto algo estranho. Os carros dos meus pais e dos meus irmãos estão aqui, mas a casa está completamente escura, sem sinais de movimento ou qualquer barulho. Tento abrir a porta da frente, mas ela está trancada, o que é estranho, pois ninguém da minha família costuma trancá-la. Aqui em Vermont, o índice de furto domiciliar é muito baixo, então nunca nos preocupamos com isso. Como não tenho as chaves da porta da frente, pego meu celular e tento ligar para minha mãe, mas ela não atende. Faço o mesmo com todos os outros, mas ninguém responde. De repente, me lembro de uma coisa que meu pai me disse: a porta dos fundos, que está quebrada há tempos, abre com um pouco de força. Dou a volta na casa e chego até a porta dos fundos. Faço um pouco de força e consigo abrir. Aqui nos fundos, meus pais guardam alguns materiais da empresa — madeiras, furadeiras, e outras coisas. Uma verdadeira bagunça, e ninguém vem aqui, exceto eles. A porta dos fundos dá acesso a uma cozinha reserva, então vou até lá. Quando entro na cozinha, está tudo escuro. Acendo a lanterna do celular e vou até o interruptor, mas a luz não liga. Parece que a energia da casa foi cortada. Isso começa a me deixar ainda mais nervosa — meus pais não atendem minhas ligações, e a casa está sem luz? Isso é estranho demais.Volto ao cômodo dos fundos e procuro o quadro de energia. Consigo religá-lo, e a luz da casa volta ao normal. Retorno para a cozinha para ver se minha família deixou algum recado. Assim que entro, noto alguns copos quebrados perto do corredor e quadros caídos no chão. Não tinha reparado nisso antes, por causa da escuridão. Meu coração dispara. Algo está errado. Objetos quebrados, fora do lugar… Minha cabeça está a mil com as informações sobre meus pais, e o fato de ninguém dar sinal de vida só aumenta minha ansiedade e medo. Me aproximo devagar do corredor, cada passo fazendo o chão ranger. Quando chego à sala de jantar, tudo parece fora do lugar, como se o tempo tivesse parado. Então, vejo o horror.Meu coração para por um instante. Ali, ao redor da mesa, estão todos — minha mãe, meu pai, meus irmãos e até meus sobrinhos. Estão imóveis, silenciosos, com os rostos pálidos e os olhos fechados. Todos mortos. Meu corpo se recusa a se mover. É como se minhas pernas tivessem sido a
Cada passo é uma luta. Minhas roupas molhadas e pesadas grudam no corpo, e o frio da noite parece se infiltrar em meus ossos. Meus pés afundam na terra molhada enquanto continuo a caminhada, com o corpo exausto, mas a mente em alerta. A floresta, embora quieta, ainda guarda ecos dos gritos dos homens que deixei para trás. Não consigo evitar olhar por cima do ombro, sentindo que eles poderiam aparecer a qualquer momento. Depois de caminhar por quilômetros, vejo um brilho fraco no horizonte. Uma estrada. É uma visão surreal, quase inacreditável, e sinto uma pequena onda de alívio ao saber que estou perto de alguma forma de civilização. Me aproximo rapidamente e avisto, na beira da estrada, um telefone público. Sem hesitar, corro até ele e, com as mãos trêmulas, coloco algumas moedas que encontrei no bolso. Disco o número de Josh, e, após alguns segundos, ele atende. “Alô?” A voz dele soa cansada, mas familiar. Um alívio imediato me invade. “Josh… sou eu. Alex.” Minha voz sai quase co
Olho em volta, tentando localizar algum ponto de referência na escuridão. A floresta à minha volta é um labirinto de sombras, mas sei que preciso continuar. Josh pode estar por perto, ou pelo menos é o que eu espero. A ideia de perdê-lo também, depois de tudo, é insuportável.Caminho lentamente, com os músculos tensos e os sentidos em alerta. Cada folha que se move com o vento parece um sussurro ameaçador. Minha mão instintivamente vai até a faca presa ao meu cinto – é tudo o que tenho para me defender.“Josh!” chamo, minha voz saindo mais alta do que eu pretendia, cortando o silêncio da noite. Nada. Nem um eco. Apenas o farfalhar das árvores e o som distante de um riacho. Tento de novo, dessa vez mais hesitante: “Josh, sou eu... Alex.”Por um momento, penso ter ouvido algo. Um estalo, como um galho se partindo. Congelo no lugar, segurando o cabo da faca com força.“Alex?” A voz é baixa, quase um sussurro, mas reconheço na hora. Meu coração dispara, e viro na direção do som.“Josh!” c
Às vezes me pergunto como eu, uma pessoa tão ambiciosa, ainda moro em Vermont. A cidade é bela, a natureza salva minha alma, mas aqui nada é diferente, é sempre a mesma coisa. Sou dançarina e estudo na Escola de Artes de Stowe. Quando não estou em aula, vou para o bar do Tobias, onde trabalho. Passo poucas horas em casa e, para ser honesta, prefiro assim. São tantas pessoas morando lá que me pergunto se é possível manter a sanidade mental com meus sobrinhos chorando o dia todo. A casa onde moro tem cheiro de madeira antiga e, ao mesmo tempo, de terra molhada — deve ser porque fica em frente ao Lago Richard. O lago é patrimônio da cidade, e é incrível a vibe que traz morar em frente a ele e viver praticamente dentro da maior floresta de Vermont. A casa tem dois andares, dez cômodos, e nela vivem nove pessoas, com nenhum espaço pessoal. Essa é a minha vida. Moro com meus pais, meus irmãos, meus sobrinhos e, de brinde, meu tio recém-divorciado. São seis adultos, três crianças e outros
Assim que me visto, desço para o andar de baixo e pego as chaves do meu carro. Me despeço da minha família e, antes de abrir a porta da frente para ir trabalhar, escuto minha mãe falando: — Alex, a reserva do restaurante é às 21 horas. Não se atrase! — Okay, mãe, eu não vou me atrasar. Encontro vocês lá. Tchau, te amo. Só de pensar que terei que ficar devendo horas no meu trabalho para poder ir às bodas de casamento dos meus pais me dá uma raiva. Toda vez que eles resolvem comemorar à noite, acaba em conflito, porque nesta família a gente não sabe ser adulto o suficiente para se comportar em público. Mas, de toda forma, é tradição, então não posso fazer nada para mudar. Assim que chego perto do centro da cidade, vejo bastante movimento. Hoje tem a feira da cidade, então há muitos shows ao vivo e comida de graça. Uma pena eu ter que ir para o bar nessa hora; eu adoraria ficar aqui e comer tudo sem precisar pagar nada.Chego na rua de trás do bar e estaciono meu carro ali mesmo.