O apartamento já não parecia mais o mesmo. As caixas empilhadas nos cantos, algumas lacradas, outras ainda esperando serem preenchidas, davam um ar de transição desconfortável. Era como se estivéssemos nos preparando para desaparecer daquele lugar que, por tanto tempo, foi o nosso lar. O cheiro de incenso, que sempre pairava no ar graças ao hábito de Teri, estava se dissipando, substituído pelo odor frio de papelão e fita adesiva.As paredes vazias, antes cheias espelhos, quadros e pequenas marcas de nossa presença, agora pareciam estranhas. Vazias. Como se o apartamento já não nos pertencesse.Ainda não sabíamos para onde iríamos, mas o fato era que estávamos empacotando nossa vida.Sentei-me no chão, dobrando uma pilha de roupas com mais cuidado do que o necessário, apenas para ocupar minha mente. Teri estava do outro lado da sala, dobrando algumas de suas peças de couro e jeans, enquanto uma música baixa tocava.O clima estava carregado. Não falávamos sobre o futuro, porque cada ve
O teatro pequeno, mas acolhedor, estava cheio de pais, irmãos e familiares ansiosos para assistir às apresentações das crianças. As cortinas vermelhas fechadas e o brilho quente das luzes do palco me trouxeram uma nostalgia avassaladora. Quantas vezes eu mesma estivera ali, orientando pequenas bailarinas e preparando-as para aquele momento?Era um teatro simples, mas especial. Quando eu ainda era professora, sempre alugávamos esse espaço para que as crianças da turma inicial sentissem o que era pisar em um palco de verdade pela primeira vez. Lembro-me da excitação nos olhos delas, da mistura de nervosismo e felicidade ao se apresentarem. Agora, ali sentada, cercada por Nicolas, Sofia e Fabrício, sentia-me deslocada.Era um encontro? Talvez. Mas eu nem sabia se podia chamar aquilo assim. A bem da verdade, eu e Nicolas sequer sabíamos o que éramos. Não éramos mais cliente e acompanhante, mas também não éramos exatamente amigos. Era uma conexão intensa e silenciosa, algo que nos puxava u
~NICOLAS~Amélie ainda estava radiante quando a encontramos no camarim. Seus olhos brilhavam como estrelas, e ela falava sem parar, animada.— Você viu, papai? — Sua voz carregava uma euforia inocente. — Eu fiz tudo certinho!Ajoelhei-me à sua altura, segurando seu rostinho delicado entre as mãos. Havia um orgulho genuíno dentro de mim, um sentimento raro e precioso que aquecia meu peito.— Você estava incrível, princesa. — Pressionei um beijo suave em sua testa. — E eu tirei muitas fotos para mostrarmos para a mamãe depois.Ela abriu um sorriso enorme, abraçando-se à minha cintura antes de correr até Mia para continuar a conversa animada.Ao meu lado, Sofia cruzou os braços e me observou com aquele olhar analítico que só irmãs mais velhas têm.— Eu e Fabrício vamos levar as meninas para casa. — Sua voz soou leve, mas carregada de uma insinuação oculta. — Mas você pode ficar à vontade para levar Ayla para casa dela… — Ela fez uma pausa estratégica, abaixando o tom para um sussurro con
~AYLA~O teatro estava silencioso, a não ser pelo som dos passos de Camila ecoando no palco. Cada movimento dela parecia uma prece, um grito contido em forma de dança, a materialização de cada gota de suor e esforço dos últimos dias. Ela flutuava, leve como uma pena, mas com a firmeza de alguém que sabe exatamente o que quer. Havia algo de visceral na forma como seu corpo contava uma história, como se, naquele momento, nada mais existisse além da arte que pulsava dentro dela.Eu estava sentada na terceira fileira, as mãos entrelaçadas no colo, sentindo meu coração bater forte contra as costelas. Estávamos ali, finalmente, no momento que definiria tudo.Um movimento ao meu lado me fez desviar os olhos do palco. Nicolas deslizou para o assento ao meu lado, movendo-se com a discrição de alguém que não queria interromper.— Desculpe o atraso. — Sua voz soou baixa, mas o suficiente para eu ouvir.Soltei um riso nervoso, mantendo os olhos em Camila.— Em plena quarta-feira à tarde, eu nem e
O carro avançava pela cidade iluminada enquanto o silêncio preenchia o espaço entre nós. Camila ainda estava absorvendo a decepção, os olhos presos na paisagem em movimento, mas sem realmente enxergar nada. A frustração pesava em seu semblante como se seu próprio corpo estivesse cansado de sustentá-la.Eu a observava pelo reflexo do retrovisor, tentando encontrar as palavras certas para dizer. Mas, no fundo, sabia que nada que eu dissesse naquele momento poderia realmente apagar a dor da rejeição. Então, eu faria o que sempre fiz: transformar a queda em impulso.— Na próxima vez que quiser um papel, você vai conseguir. — Minha voz saiu baixa, mas carregada de certeza.Camila desviou o olhar da janela e me encarou pelo retrovisor, cética.— Como você pode ter tanta certeza?Sorri de leve.— Porque eu vou te treinar ainda mais. Vamos trabalhar mais duro, aperfeiçoar cada detalhe, e quando a oportunidade aparecer, você vai estar pronta.Ela soltou um suspiro longo, como se estivesse tent
O silêncio entre mim e Nicolas nos acompanhou pelo caminho até a loja de artigos de balé. Desde que descemos do carro, ele respeitou meu espaço, não forçando conversa, mas lançando olhares ocasionais na minha direção, como se tentasse decifrar meus pensamentos.A verdade era que eu ainda estava processando tudo que estávamos vivendo nos últimos dias, entre seus altos e baixos. Mas, ao mesmo tempo, não podia ignorar que, mais do que nunca, precisava de dinheiro. A situação de Paulo na recepção do prédio ainda ecoava na minha mente. Eu sabia que, se não aceitasse o trabalho de ensinar Amélie e Mia, logo poderia estar tão desesperada quanto ele. Era isso ou voltar para uma vida mais sombria, ainda mais agora, que eu não tinha mais a boate e as garotas que trabalhavam lá comigo estavam recorrendo as ruas.Eu não queria depender de Nicolas. Mas, pela primeira vez em muito tempo, uma oportunidade genuína se apresentava diante de mim. Eu poderia trabalhar com algo que realmente gostava e, ao
O apartamento estava uma bagunça de caixas abertas, roupas espalhadas e móveis desalinhados. Sentei-me no sofá com uma taça de vinho na mão, girando o líquido escuro no vidro enquanto tentava ignorar o nervosismo que latejava dentro de mim. O silêncio entre mim e Teri era preenchido apenas pelo som suave de uma música antiga que tocava da sua caixa de som portátil.Ela estava sentada no chão, de pernas cruzadas, o celular nas mãos, rolando a tela de cima para baixo, perdida em pensamentos.— Ele me mandou mensagem.Levantei os olhos, observando-a hesitar antes de me estender o celular. Peguei o aparelho e encarei a tela. Era um número sem identificação, mas eu não precisava perguntar quem era."Voltei para a cidade. Quero te ver."— Aquele cliente especial? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta.— O próprio.Teri jogou o celular ao lado e pegou a taça de vinho, tomando um gole longo, como se tentasse engolir mais do que apenas a bebida.Eu a observei atentamente por alguns segundos
O ronco do motor era o único som dentro do carro enquanto a estrada se estendia à nossa frente. A cidade havia ficado para trás há algum tempo, e agora tudo que víamos eram campos, algumas casinhas isoladas e a longa faixa de asfalto cortando a paisagem.Eu estava no banco do passageiro, observando a paisagem passar pela janela, perdida em pensamentos. Ainda não sabia direito como tinha me colocado naquela situação. A Sofia deu a sugestão do acampamento e na hora pareceu algo com o qual eu pudesse lidar, mas eu realmente não conseguia me imaginar fazendo xixi no mato ou mesmo dormindo dentro de uma barraca. Ainda assim, ali estava eu, indo para um acampamento com Nicolas.Talvez parte disso fosse a necessidade de afastar aquela sensação ruim que ficou depois de ver a discussão de Paulo com o irmão na recepção do prédio. Talvez fosse o fato de que, por mais que minha razão dissesse para eu manter distância e focar apenas na missão que eu tinha, meu coração teimava em se envolver mais