O lago à nossa frente refletia o céu azul, pontilhado por algumas nuvens que se movimentavam lentamente. O som da água batendo suavemente nas margens se misturava ao canto dos pássaros e ao farfalhar das folhas balançadas pelo vento. O ar estava fresco, carregado do cheiro de terra úmida e vegetação selvagem.Dentro da água, eu sentia cada músculo do meu corpo relaxar. Era uma sensação libertadora, como se ali, naquele lugar isolado, os problemas do mundo real simplesmente não existissem.Nicolas estava a poucos metros de mim, encostado em uma pedra submersa. A água escorria pelo seu corpo, contornando cada músculo definido do seu peito e dos seus braços. Seus olhos estavam fixos em mim, acompanhando cada movimento que eu fazia, e mesmo sem dizer uma palavra, eu sentia a intensidade daquele olhar queimando minha pele.— Se continuar me olhando assim, vou começar a achar que tem algo de errado comigo. — Provoquei, espremendo um pouco da água dos cabelos.Nicolas riu baixinho, mas não d
— Eu sei exatamente o que você tem em mente. — Brinquei, puxando um baralho da mochila.Nicolas arqueou uma sobrancelha, a sombra de um sorriso brincando nos lábios.— Ah, sabe?— Sei. — Joguei o baralho sobre o colchão inflável. — Vamos jogar Truco ou Paciência?O silêncio foi seguido por uma risada baixa e rouca.— Você tá de brincadeira.— O que mais a gente faria no meio do nada, no meio da chuva?Ele se inclinou para frente, os olhos me percorrendo devagar, como se estivesse memorizando cada detalhe. O biquíni molhado ainda colava ao meu corpo depois da correria para a barraca, e a forma como ele me olhava fazia meu estômago se revirar em antecipação.— Bom… eu até aceitaria, mas só se for uma versão stripper.Mordi o lábio, fingindo ponderar.
~NICOLAS~O sol filtrava-se entre as folhas altas das árvores, criando padrões dourados no chão de terra batida. A brisa fresca da manhã ainda carregava o cheiro da chuva da noite anterior, e o mundo ao nosso redor parecia novo, mais vivo. Mas nada parecia mais vivo do que a mulher ao meu lado.Ayla se espreguiçou ao sair da barraca, vestindo minha camisa por cima do biquíni. Seus cabelos estavam bagunçados, e o rosto ainda trazia os vestígios do sono, mas nunca a vi tão bonita quanto agora, despenteada, com as marcas da noite passada ainda visíveis na pele.— Meu corpo inteiro dói… — murmurou.Minha risada foi baixa, puxando-a contra o meu peito para matar as saudades que eu já sentia dela.— Isso quer dizer que eu fiz um bom trabalho.Ela ergueu a cabeça apenas para me dar um tapa fraco no ombro antes de se esti
~AYLA~O apartamento estava um caos de roupas espalhadas sobre a cama e sapatos descartados pelo chão enquanto eu tentava decidir o que vestir para a exposição. Minhas mãos apertavam um vestido preto simples, mas elegante, contra o corpo enquanto me olhava no espelho, ponderando se aquilo era o suficiente para uma noite que, de alguma forma, parecia maior do que eu esperava.Atrás de mim, Teri deslizava um batom vermelho nos lábios, sentada na beira da cama, observando minha indecisão com um sorriso de canto.— Isso é só uma exposição ou você está se arrumando para um casamento? — ela provocou, cruzando as pernas e me analisando com aquele olhar afiado que sempre lia além do que eu dizia.— Cala a boca — murmurei, revirando os olhos, mas sentindo meu rosto esquentar.Ela riu, mas sua atenção voltou par
~AYLA~O casarão era simplesmente deslumbrante.As colunas imponentes e as enormes janelas de vidro refletiam as luzes da noite, dando ao lugar um ar clássico e sofisticado. Dentro, a arquitetura antiga misturava-se a uma iluminação estratégica, destacando cada obra exposta sem perder o charme rústico do ambiente. As paredes altas estavam repletas das fotografias de Nicolas, algumas monocromáticas, outras em tons vibrantes, mas todas carregadas de uma sensibilidade artística inegável.Havia um burburinho de vozes por toda parte. Pessoas elegantes caminhavam com taças de champanhe nas mãos, observando cada imagem com atenção e comentando sobre a genialidade do artista. Repórteres circulavam, prontos para captar cada detalhe da noite, e fotógrafos registravam o evento com flashes incessantes.Mas nada disso me chamou tanto a atenç&at
~AYLA~A escuridão ainda pairava sobre mim quando meus sentidos começaram a despertar, como se eu emergisse lentamente de um oceano profundo. Algo frio e metálico pressionava meus dedos, e uma leve dor pulsava em meu braço esquerdo. Meu corpo estava pesado, rígido, como se estivesse acorrentado a uma realidade que eu não reconhecia. O som de um monitor cardíaco preenchia o silêncio, cada bip uma âncora, forçando-me a enfrentar o que quer que estivesse além da névoa.Luz branca. Brilhante demais. Tentei abrir os olhos, mas a claridade me atingiu como uma lâmina, me obrigando a fechá-los novamente. As vozes ao meu redor eram abafadas, distantes, como se viessem debaixo d'água.Minhas mãos formigavam levemente, e o frio do lençol contra minha pele fazia tudo parecer ainda mais estranho, mais real. Passos apressados ecoavam ao redor, mesclando-se ao som baixo de vozes. Cada detalhe do ambiente parecia gritar para mim que algo terrível havia acontecido, mas minha mente ainda estava presa n
~AYLA~Os dias que se seguiram ao meu despertar no hospital foram envoltos em uma neblina pesada e dolorosa. A maior parte do tempo, eu estava sob efeito de sedativos, não pelas dores físicas – essas eu poderia suportar – mas pela dor insuportável que preenchia cada centímetro do meu ser. A dor da perda dos meus filhos era um buraco negro, devorando tudo o que eu era. A única maneira de silenciá-la, mesmo que por algumas horas, era através dos remédios. E assim, os dias passavam, mas a dor não diminuía. Cada vez que eu despertava do torpor dos medicamentos, o vazio em meu peito parecia ainda maior.Perguntava por Miguel o tempo todo. As enfermeiras desviavam os olhos, o desconforto evidente em suas expressões. Às vezes, trocavam olhares entre si antes de me responder, outras vezes apenas balançavam a cabeça, como se eu fosse frágil demais para ouvir qualquer verdade. Elas nunca diziam muito, mudando de assunto rapidamente, mas o silêncio delas dizia mais do que qualquer palavra.— Mig
~AYLA~As palavras de Miguel ecoavam na minha mente como um trovão interminável: "Eu quero o divórcio, Ayla." Era como se tudo ao meu redor estivesse desmoronando. Passei os últimos dias no hospital esperando por algum sinal de consolo, algo que me dissesse que ainda havia uma chance, que eu não estava completamente sozinha. Mas ele entrou, trouxe uma mala com minhas roupas e destruiu o que restava de qualquer esperança.Helena veio me buscar no hospital no fim da tarde, e nunca me senti tão grata por tê-la ao meu lado, tê-la como amiga.— Ayla? Está pronta? — Helena perguntou da porta, segurando a alça da bolsa com uma postura tensa.Balancei a cabeça em silêncio, pegando minhas coisas. Não havia o que dizer. Caminhei até ela com o corpo pesado, como se cada passo fosse um esforço monumental. Queria acreditar que sua presença seria um conforto, mas até isso parecia distante demais.— Não é fácil, eu sei — ela comentou enquanto me acompanhava pelo corredor do hospital. — Mas sair daqu