~AYLA~O teatro estava silencioso, a não ser pelo som dos passos de Camila ecoando no palco. Cada movimento dela parecia uma prece, um grito contido em forma de dança, a materialização de cada gota de suor e esforço dos últimos dias. Ela flutuava, leve como uma pena, mas com a firmeza de alguém que sabe exatamente o que quer. Havia algo de visceral na forma como seu corpo contava uma história, como se, naquele momento, nada mais existisse além da arte que pulsava dentro dela.Eu estava sentada na terceira fileira, as mãos entrelaçadas no colo, sentindo meu coração bater forte contra as costelas. Estávamos ali, finalmente, no momento que definiria tudo.Um movimento ao meu lado me fez desviar os olhos do palco. Nicolas deslizou para o assento ao meu lado, movendo-se com a discrição de alguém que não queria interromper.— Desculpe o atraso. — Sua voz soou baixa, mas o suficiente para eu ouvir.Soltei um riso nervoso, mantendo os olhos em Camila.— Em plena quarta-feira à tarde, eu nem e
O carro avançava pela cidade iluminada enquanto o silêncio preenchia o espaço entre nós. Camila ainda estava absorvendo a decepção, os olhos presos na paisagem em movimento, mas sem realmente enxergar nada. A frustração pesava em seu semblante como se seu próprio corpo estivesse cansado de sustentá-la.Eu a observava pelo reflexo do retrovisor, tentando encontrar as palavras certas para dizer. Mas, no fundo, sabia que nada que eu dissesse naquele momento poderia realmente apagar a dor da rejeição. Então, eu faria o que sempre fiz: transformar a queda em impulso.— Na próxima vez que quiser um papel, você vai conseguir. — Minha voz saiu baixa, mas carregada de certeza.Camila desviou o olhar da janela e me encarou pelo retrovisor, cética.— Como você pode ter tanta certeza?Sorri de leve.— Porque eu vou te treinar ainda mais. Vamos trabalhar mais duro, aperfeiçoar cada detalhe, e quando a oportunidade aparecer, você vai estar pronta.Ela soltou um suspiro longo, como se estivesse tent
O silêncio entre mim e Nicolas nos acompanhou pelo caminho até a loja de artigos de balé. Desde que descemos do carro, ele respeitou meu espaço, não forçando conversa, mas lançando olhares ocasionais na minha direção, como se tentasse decifrar meus pensamentos.A verdade era que eu ainda estava processando tudo que estávamos vivendo nos últimos dias, entre seus altos e baixos. Mas, ao mesmo tempo, não podia ignorar que, mais do que nunca, precisava de dinheiro. A situação de Paulo na recepção do prédio ainda ecoava na minha mente. Eu sabia que, se não aceitasse o trabalho de ensinar Amélie e Mia, logo poderia estar tão desesperada quanto ele. Era isso ou voltar para uma vida mais sombria, ainda mais agora, que eu não tinha mais a boate e as garotas que trabalhavam lá comigo estavam recorrendo as ruas.Eu não queria depender de Nicolas. Mas, pela primeira vez em muito tempo, uma oportunidade genuína se apresentava diante de mim. Eu poderia trabalhar com algo que realmente gostava e, ao
O apartamento estava uma bagunça de caixas abertas, roupas espalhadas e móveis desalinhados. Sentei-me no sofá com uma taça de vinho na mão, girando o líquido escuro no vidro enquanto tentava ignorar o nervosismo que latejava dentro de mim. O silêncio entre mim e Teri era preenchido apenas pelo som suave de uma música antiga que tocava da sua caixa de som portátil.Ela estava sentada no chão, de pernas cruzadas, o celular nas mãos, rolando a tela de cima para baixo, perdida em pensamentos.— Ele me mandou mensagem.Levantei os olhos, observando-a hesitar antes de me estender o celular. Peguei o aparelho e encarei a tela. Era um número sem identificação, mas eu não precisava perguntar quem era."Voltei para a cidade. Quero te ver."— Aquele cliente especial? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta.— O próprio.Teri jogou o celular ao lado e pegou a taça de vinho, tomando um gole longo, como se tentasse engolir mais do que apenas a bebida.Eu a observei atentamente por alguns segundos
O ronco do motor era o único som dentro do carro enquanto a estrada se estendia à nossa frente. A cidade havia ficado para trás há algum tempo, e agora tudo que víamos eram campos, algumas casinhas isoladas e a longa faixa de asfalto cortando a paisagem.Eu estava no banco do passageiro, observando a paisagem passar pela janela, perdida em pensamentos. Ainda não sabia direito como tinha me colocado naquela situação. A Sofia deu a sugestão do acampamento e na hora pareceu algo com o qual eu pudesse lidar, mas eu realmente não conseguia me imaginar fazendo xixi no mato ou mesmo dormindo dentro de uma barraca. Ainda assim, ali estava eu, indo para um acampamento com Nicolas.Talvez parte disso fosse a necessidade de afastar aquela sensação ruim que ficou depois de ver a discussão de Paulo com o irmão na recepção do prédio. Talvez fosse o fato de que, por mais que minha razão dissesse para eu manter distância e focar apenas na missão que eu tinha, meu coração teimava em se envolver mais
O lago à nossa frente refletia o céu azul, pontilhado por algumas nuvens que se movimentavam lentamente. O som da água batendo suavemente nas margens se misturava ao canto dos pássaros e ao farfalhar das folhas balançadas pelo vento. O ar estava fresco, carregado do cheiro de terra úmida e vegetação selvagem.Dentro da água, eu sentia cada músculo do meu corpo relaxar. Era uma sensação libertadora, como se ali, naquele lugar isolado, os problemas do mundo real simplesmente não existissem.Nicolas estava a poucos metros de mim, encostado em uma pedra submersa. A água escorria pelo seu corpo, contornando cada músculo definido do seu peito e dos seus braços. Seus olhos estavam fixos em mim, acompanhando cada movimento que eu fazia, e mesmo sem dizer uma palavra, eu sentia a intensidade daquele olhar queimando minha pele.— Se continuar me olhando assim, vou começar a achar que tem algo de errado comigo. — Provoquei, espremendo um pouco da água dos cabelos.Nicolas riu baixinho, mas não d
— Eu sei exatamente o que você tem em mente. — Brinquei, puxando um baralho da mochila.Nicolas arqueou uma sobrancelha, a sombra de um sorriso brincando nos lábios.— Ah, sabe?— Sei. — Joguei o baralho sobre o colchão inflável. — Vamos jogar Truco ou Paciência?O silêncio foi seguido por uma risada baixa e rouca.— Você tá de brincadeira.— O que mais a gente faria no meio do nada, no meio da chuva?Ele se inclinou para frente, os olhos me percorrendo devagar, como se estivesse memorizando cada detalhe. O biquíni molhado ainda colava ao meu corpo depois da correria para a barraca, e a forma como ele me olhava fazia meu estômago se revirar em antecipação.— Bom… eu até aceitaria, mas só se for uma versão stripper.Mordi o lábio, fingindo ponderar.
~NICOLAS~O sol filtrava-se entre as folhas altas das árvores, criando padrões dourados no chão de terra batida. A brisa fresca da manhã ainda carregava o cheiro da chuva da noite anterior, e o mundo ao nosso redor parecia novo, mais vivo. Mas nada parecia mais vivo do que a mulher ao meu lado.Ayla se espreguiçou ao sair da barraca, vestindo minha camisa por cima do biquíni. Seus cabelos estavam bagunçados, e o rosto ainda trazia os vestígios do sono, mas nunca a vi tão bonita quanto agora, despenteada, com as marcas da noite passada ainda visíveis na pele.— Meu corpo inteiro dói… — murmurou.Minha risada foi baixa, puxando-a contra o meu peito para matar as saudades que eu já sentia dela.— Isso quer dizer que eu fiz um bom trabalho.Ela ergueu a cabeça apenas para me dar um tapa fraco no ombro antes de se esti