Capítulo 8: Quem som é esse

Laura Martins:

Pago a passagem e me sento no banco mais alto. O ônibus começa a se mover, e apoio meu cotovelo na janela, repousando o queixo na palma da mão. Observo as luzes urbanas se desdobrarem à medida que o ônibus segue para a estação. Minha mente volta ao restaurante, lembrando os olhos do senhor Duarte, antes gélidos, agora cheios de terror e desespero. O que o teria deixado assim?

Para! Já tenho problemas demais para me preocupar com os dos outros.

Busco refúgio nos meus fones de ouvido e seleciono a música "Dias Melhores" do Jota Quest. Deixo-me levar pela melodia enquanto olho as ruas movimentadas.

"🎶 Vivemos esperando dias melhores.

Dias de paz, dias a mais,

dias que não deixaremos para trás.

Oh oh, vivemos esperando o dia que seremos melhores,

melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo... 🎶"

Cantarolo baixinho, meus olhos se enchem de lágrimas, mas pisco para afastá-las. Sou egoísta demais, pensando em tudo o que ele já fez por mim. Ninguém nunca fez o que ele fez, e ainda assim, ajo de forma insensível. No início, apelidei-o de ogro por ser mal-educado, mas ele foi tão gentil comigo, mesmo sem me conhecer. Lembrar disso me dá vontade de chorar...

Olha só como é a vida, eu queria reencontrar o ogro para poder devolver a ele o paletó, mas jamais pensei que a situação seria aquela. Jamais imaginei que ele seria a minha porta de escape da morte.

Olha só como é a vida. Eu queria reencontrar o ogro para devolver seu paletó, mas jamais imaginei que ele seria minha porta de escape da morte. Ontem, quando Ana falou sobre a mãe desesperada para salvar seu filho, fiquei tocada. Vendo-o hoje, vulnerável, em pânico, meu coração apertou. Senti vontade de abraçá-lo, mas me segurei. Não éramos próximos, então provoquei-o. Mesmo sem conhecê-lo bem, noto que é orgulhoso e guarda tudo para si. Eu também não conto meus problemas para qualquer um.

De repente, o ônibus freia bruscamente, sacudindo os passageiros e lançando-me para frente. Bato a cabeça na janela, meus fones caem e a música é substituída pelos gritos dos passageiros. O veículo balança descontroladamente. Vejo o motorista tentando manter o controle e meu coração acelera. O ônibus sacoleja perigosamente, e minha mão agarra a barra de apoio. Olho pela janela e vejo os carros se movendo caoticamente ao nosso redor. Entro em pânico, não quero morrer.

É sério que vou morrer aqui?

O som dos pneus cantando no asfalto enquanto o ônibus tenta parar faz meu corpo tremer e meus olhos encherem de lágrimas. Fecho os olhos com força. Após longos segundos de gritos e barulho de carros, meu corpo é lançado para frente, bato a lateral da cabeça no banco da frente, fico zonza e o ônibus para de se movimentar.

Com o coração disparado, o interior do ônibus parece diminuir. Preciso sair. Abro caminho entre os passageiros em pânico e desço do ônibus. Pego meu celular, mas estou sem sinal. Começo a caminhar pela calçada, a rua movimentada e confusa, gritos por todos os lados. Atravesso o cruzamento tumultuado em busca de sinal. De repente, vejo a luz forte de um farol vindo em minha direção. Corro para o meio-fio.

A adrenalina ainda pulsando, percebo que estou ilesa. O carro passa por mim e consegue frear antes de se chocar com o ônibus. Suspiro aliviada, agradecendo por não ter sido atropelada. Meu foco volta à busca por sinal.

Enquanto caminho, avisto um carro estacionado à beira da estrada. Hesito, consciente dos perigos da cidade à noite, mas a possibilidade de alguém precisar de ajuda supera meu receio. Avanço com cautela e bato no vidro da janela do motorista. Para minha surpresa, é ele. Ele me olha com os olhos arregalados, tão surpreso quanto eu.

— O que faz aqui? — Ele questiona, arqueando uma sobrancelha com uma expressão de curiosidade mal dissimulada. Eu suspiro, minha própria incredulidade borbulhando sem acreditar que nos encontramos mais uma vez.

— Por que será que sempre nos trombamos? — Respondo com um sorriso irônico, enquanto a surpresa ainda se reflete em seu rosto.

— Não nos trombamos, você que sempre me segue, garota — ele alega provocativo, reviro os olhos.

— E o que eu ganharia seguindo um ogro feio como você? Poupe-me — devolvo a provocação, mantendo meu tom de voz firme e desafiador, encarando-o diretamente, esperando por sua próxima jogada.

— Quer mesmo que eu diga tudo o que você ganhou segurando minha camisa por trás? — Ele rebate, seus lábios erguendo levemente em um pequeno sorriso de lado. A lembrança do nosso encontro anterior surge vívida em minha mente, trazendo um calor inesperado às minhas bochechas.

Estreito meus olhos em sua direção.

— Você sabe bem como ser desagradável com uma dama — murmuro, sentindo uma onda de constrangimento me invadir enquanto mordo o lábio, tentando disfarçar minha perturbação.

— Essa dragão fica uma graça quando está com vergonha — ele pronuncia, me encarando intensamente, um pequeno sorriso brincando no canto da boca.

— Quê? — Indago, minha voz saindo mais incrédula do que pretendia, incapaz de acreditar no que acabo de escutar.

— Que foi? — Ele responde.

— O que você acabou de dizer? — Insisto.

— Eu não disse nada — ele tenta disfarçar, mas o rubor sutil em suas bochechas e o modo como desvia o olhar me dão a resposta.

— Você acabou de dizer que eu fico uma graça quando estou com vergonha — relembro a ele, minha voz firme, mas minhas mãos trêmulas traem a calma que tento projetar.

Um silêncio paira no ar, carregado e denso, enquanto ele me olha, sem dizer uma palavra. Percebo então que ele disse isso sem se dar conta de que falou em voz alta.

— Então você acha essa dragão aqui uma graça? — Provoco, o rosto dele começa a ficar vermelho só então se dando conta do que falou, seguro o riso, parece que o jogo virou.

— Você ouviu errado! — Ele tenta negar, mas já é tarde demais, o constrangimento está estampado em seu rosto.

— Não, eu ouvi direitinho — rebato, não escondendo um sorriso presunçoso que se estica em meus lábios.

— Então agora você já aceita ser chamada de dragão? — Ele indaga, até parece que vou deixá-lo virar esse jogo.

— Aceito, desde que você admita que me acha uma gracinha — amplio o sorrio.

— Garota irritante — ele murmura e revira os olhos. — Você não me respondeu.

— O que eu não respondi?

— O que está fazendo aqui? Estava me rastreando? — ele pergunta, a voz carregada de desconfiança.

Ergo as sobrancelhas diante da audácia dele, sentindo uma onda de irritação me percorrer. Olho-o de cima a baixo com evidente desdém, franzindo meu lábio superior em um gesto de desprezo.

— Você é todo cheio de si, hein? — Comento, deixando que a ironia impregne minhas palavras. — Estou procurando sinal no meu celular. — Levanto o aparelho para enfatizar, balançando-o levemente no ar.

— Achou? — Questiona.

Olho para a tela e ainda nada de sinal, balanço a cabeça de forma negativa, o observo suspirar e tirar o próprio celular do porta-luvas.

— Para quem quer ligar? — Ele pergunta desbloqueando o celular

— Ninguém — respondo.

— Então para que quer sinal? — Ele questiona, com uma feição irritada encarando-me. Ele questiona, com uma feição irritada, encarando-me intensamente.

— Para chamar um Uber — respondo, e dou de ombros.

— Você saiu do restaurante até o meio da BR à noite para chamar um Uber? — Ele indaga, me olhando como se eu fosse alguma idiota.

— O ônibus onde eu estava sofreu um acidente — explico. — E eu quero voltar para casa.

— E por que não falou antes!? — Ele indaga impaciente.

— Apenas respondi o que me perguntou — respondo, com um tom de falsa inocência.

— Engraçadinha. Bora, entra aí que eu te dou uma carona. Você já tem uma casa, né? Ou é para eu te levar para o abrigo mais próximo? — Ele pergunta, o sarcasmo carregado em sua voz.

— Aff! Por que você sempre faz isso? Quando acho que você vai evoluir de um ogro para sapo amaldiçoado, você vai e se mostrar um verdadeiro ogro, seu idiota! — Xingo-o com raiva sentindo-me humilhada. — Não quero a sua ajuda, deixa que eu me viro.

Saio de perto do carro dele e volto a caminhar com o celular erguido em busca do bendito sinal 4G, contudo, sou puxada pelo meu antebraço e ao virar, bato no peito do ogro, ergo meu olhar e os nossos olhos se encontram. Tudo ao nosso redor parece ter desaparecido, sinto-me estranhamente conectada com essas safiras gélidas.

"Tum-tum. Tum-tum."

O que é isso?

"Tum-tum. Tum-tum."

Esse som... ele vem... de mim?

Sim!

É o som do meu coração. E cada batida ressoa como uma trilha sonora particular, enquanto não consigo desviar os olhos dos dele, a frieza em seu olhar é como se fosse um muro, mas a sensação que tenho é que se trata de um muro de lamento e que implora para ser derrubado. A intensidade desses olhos gélidos me perfura, mas ao mesmo tempo, faz o meu coração acelerar ainda mais, deixando o som das minhas batidas ainda mais altas em meus ouvidos.

— Você não pode simplesmente sair andando no meio da BR à noite — ele murmura, sua voz baixa e rouca, quebrando o silêncio entre nós.

— Eu... — começo, mas minha voz falha. Tento desviar o olhar, mas a conexão entre nós é forte demais. — Eu só queria voltar para casa.

— E você vai voltar — ele responde, sua voz mais suave agora. — Comigo.

Engulo em seco, involuntariamente, meu olhar desce para seus lábios.

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